sexta-feira, 24 de abril de 2015

Homenagem à Adriana Lisboa


Homenagem à Adriana Lisboa
O Blog Etudes Lusophones publica os textos redigidos pelos estudantes da Université Paris-Sorbonne à escritora Adriana Lisboa, uma das homenageadas na 2° Edição do Printemps Littéraire Brésilien de 2015.

Um pé depois do outro
Por Carla Ezarqui (*)

“Celina tinha dúvidas de que ainda soubesse andar de bicicleta. Aquele mito de se tratar de algo que nunca se esquece não passava disso: um mito. Quase tudo era passível de ser esquecido. Muitas outras coisas insistiam em não ser esquecidas. E assim a memória seguia como subalterna do coração.”

Também tenho dúvidas de que eu ainda saiba andar de bicicleta. E o mito de que nunca esquecemos de como andar de bicicleta sempre foi um mito pra mim. Eu diria mesmo que andar de bicicleta foi um mito na minha vida, assim como patinar o foi plenamente. Dois invernos se foram e eu fiquei do lado de fora da pista de gelo, assim como eu fiquei do lado de fora do mar e as férias passaram, as estações passaram, eu passei. Sempre penso que se houvesse alguém comigo, eu tentaria de novo andar de bicicleta, mas é mentira, o que podemos fazer sozinhos, às vezes é ainda mais assustador. E de um verão a dúvida se estendeu para o próximo e ainda para um próximo e último, pelo menos o último dos primeiros ou talvez o primeiro dos últimos, nunca se sabe.
Esqueci. Esqueci de como andar de bicicleta, assim como esqueci toda a ingenuidade de criança de subir nela e cair; simplesmente cair, levantar e tentar de novo ou então chorar, chorar muito pra voltar a atenção das pessoas pra minha dor, porque quando se é criança também se sente um mal estar diante de situações de “ridículo”. Aliás, quando se é criança, o que mais fazemos é permitir que a dor doa, às vezes até mais do que ela realmente dói. É assim que garantimos as pessoas ao nosso lado. O tempo passa e entendemos que permitir que a dor doa é suicidar-se e continuar vivendo minutos depois, como se nada tivesse acontecido e sozinhos. A dor decorre de uma perda total do contato com o chão e do consequente reestabelecimento desse contato, até que aprendemos a nos equilibrar e não haverá mais dúvidas de que a dor é o que dá equilíbrio à vida. É a partir dela que mediremos a intensidade das nossas sensações, sejam elas boas ou ruins. Assim como a bicicleta, a dor marca um ritual de passagem e independentes nos tornamos mais autênticos. A dor nos liberta e saber conviver com ela é saber o momento certo de tirar as mãos do guidão e o momento certo de retomar a direção. Ela está e continuará ali, do mesmo lado em que o cerébro armazenou a capacidade de andar de bicicleta, porque podemos até acreditar que esquecemos, mas toda vez que passarmos perto da nossa bicicleta, ela vai doer. A dor é sempre pela dor em si. É pra ter outra vez a saudade em cima do corpo e o passado embaixo dos pés.
Na bicicleta, sinto o vento bater no rosto e entendo que essa viagem é para onde a dor dicidiu me levar. Para pedalar, basta impulsionar um pé depois do outro. Um pé depois do outro. Não é complicado. Não é dificil.

Entre e là-bas
Por Alexandra Silva Montes (*)
Adriana Lisboa,
Foi com grande entusiasmo que recebi a notícia pelo professor Leonardo Tonus de que trabalharíamos Azul Corvo durante nosso curso. Embora formada em Letras, não havia ainda sido apresentada às suas Obras no Brasil – prefiro acreditar que isso tenha sido mais uma das disposições do tempo, me guardando para o momento ideal.
Mestranda na área da Análise do Discurso Literário, em Paris, minhas leituras majoritariamente não significam um momento desprendido, onde posso me deixar levar suavemente pela trama e sentir empatia pelos personagens. Os romances, sobretudo os de autores brasileiros, não faziam mais parte da minha rotina e quando seu livro surgiu em minhas mãos foi como a materialização da sensação que Clarice Lispector chamou brilhantemente de felicidade clandestina.
Ao ler o primeiro capítulo de Azul-Corvo já me senti em casa e não mais entre e là-bas, esse entre-dois, que é uma constante à condição de ser uma estrangeira. Ter referências é algo que até então não tinha me dado conta do quão acalentador pode ser quando estamos ainda tateando as do Outro, e as que você me ofereceu foram as mais belas, Adriana. De supetão, eu estava na década de 80, férias escolares no escaldante Rio de Janeiro, as conversas dos adultos que vinham de outros cômodos sobre política enquanto me preparava animada para ir à praia, a coleção de conchas e o gosto salgado na pele. Nostalgia.
Contudo, ler Azul-Corvo, paradoxalmente, também me extirpou em muitos momentos dessa zona confortável e familiar, pois não pude deixar de olhar para as minhas próprias bagagens, literais e metafóricas. O que coloquei dentro delas, o que tirei e o que não posso tirar não foram reflexões passivas e livres de questionamentos. Suas linhas me tocaram profundamente e gostaria de te agradecer por isso. Minhas bagagens ficaram mais leves e meus sapatos mais confortáveis para continuar minhas buscas.  
Gratidão.

Alexandra Silva Montes
Paris, 18 de março de 2015.


Hai-caí
Por Horácio Dib (*)


Quando eu Hai-caí
Nessa lírica doce
Me vi e foi-se.

A poesia fluía
Simples, complexo, afoito:
Um pé, o outro.

Carla Ezarqui, Adriana Lisboa, Luiz Ruffato e Leonardo Tonus no Printemps Littéraire Brésilien


Carla Ezarqui é graduanda em Letras (português-francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do programa de intercâmbio PLI ( Programa de Licenciatura Inertnacional) com a Université paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones.

Alexandra Silva Montes é graduada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, onde foi bolsista pelo CNPq com a pesquisa “A poesia de Mahmoud Darwich em tempos de selvageria”, sob a direção de Maria Zilda Cury. Atualmente é mestranda em Análise do Discurso Literário, na Université Paris-Sorbonne, sob a direção de Dominique Maingueneau com a pesquisa “Escritos de Benjamin Péret sobre as religiões afro-brasileiras”.


Horácio Dib graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones, responsável pelo projeto Palavrarquitetada.

Um comentário:

  1. Adriana é minha diva do mestrado <3
    Mas além do Rakushisha, estou com Hanói tbm <3

    www.miriankardoso.com.br

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