sábado, 11 de abril de 2015

Aquecendo o mercado editorial

Participação do Brasil no Salão de Paris deve aquecer parcerias

O Brasil será homenageado, pela segunda vez, no Salão do Livro de Paris, que ocorrerá entre 20 e 23 de março na capital francesa. Um grupo de 43 autores e autoras representará o País no evento, que terá a presença do ministro Juca Ferreira e contará com espaço de 500 metros quadrados para venda, exposição de livros e palestras.

Guiomar Grammont, curadora da programação brasileira do Salão de Paris, explica a importância da participação no evento. "A promoção do livro e da literatura brasileira no exterior é essencial para o desenvolvimento de um maior intercâmbio científico e cultural, o que amplia as divisas do País, fortalece nossa moeda, e promove melhoria da qualidade de vida em todos os níveis", defende.

Leonardo Tonus, professor da Universidade de Sorbonne e um dos curadores que selecionaram os autores brasileiros, também destaca os benefícios da ação. Para ele, a participação do Brasil no Salão de Paris vai aquecer o mercado editorial entre os dois países e permite a consolidação de nossa cultura na França, principalmente o ensino de português nas escolas.

Em entrevista concedida ao Ministério da Cultura, Tonus fala sobre o cenário da literatura brasileira na França e também avalia a importância das bolsas de tradução concedidas pelo governo brasileiro."Estes programas foram e ainda continuam sendo essenciais na promoção e na divulgação da literatura nacional no exterior" diz.

Angela Lago ( Stand du CNL)

MinC- Como a literatura brasileira é vista hoje na França?

Leonardo- As relações culturais entre a França e o Brasil não datam de hoje. Neste sentido, vale a pena lembrar o trabalho empreendido por Ferdinand Denis no século XIX, um dos primeiros brasilianistas e promotores da literatura brasileira na França, como também o empenho do poeta Valéry Larbaud em querer aproximar os modernistas brasileiros dos intelectuais franceses. Não esqueçamos, também,  os nomes  de  [Georges] Bernanos, [Roger] Caillois, Roger Bastide, Claude Lévi-Strauss, Le Corbusier, Pierre Monbeig, Fernand Braudel e tantos outros intelectuais, escritores e pensadores franceses que inauguraram uma era de conhecimentos e contatos recíprocos entre os nossos dois países.

De fato, ao longo do século XX observa-se uma penetração cada vez maior da  cultura e da literatura brasileiras no universo francês. No entanto, poucos autores de nossas letras nacionais conquistaram um lugar de destaque em sua esfera pública. A tradução da literatura brasileira na França, bem como sua circulação, é quase inexistente até o segundo quartel do século XX, limitando-se aos círculos restritos de intelectuais e apaixanados por nossa cultura.

A grande reviravolta dá-se nas décadas de 1960 e 1970 com o boom da literatura latinoamericana na Europa que traz à tona figuras importantes como Alejo Carpentier, Gabriel Garcia Marquez, e Jorge Amado, um dos autores brasileiros ainda hoje mais apreciados pelo público francês.

Ora, da década de 1980 para cá muita coisa mudou, sobretudo se levarmos em conta a multiplicação dos canais de difusão cultural no Brasil, bem como a diversificação de seus atores, como atestam a emergência  de vozes até então silenciadas no campo literário brasileiro (negros, índios, mulheres, homossexuais, etc) e seu reconhecimento para fora do espaço nacional.  Apesar de ainda permanecer um espaço em disputa, como sugere a professora e pesquisadora Regina Dalcastagnè (UnB), nestes últimos anos, a literatura brasileira pluralizou-se, quer seja a nível nacional como internacional.

Hoje o leitor francês que se interessa por nossa cultura e literatura pode contar com uma grande variedade de autores, estilos e gêneros até há pouco tempo inexistentes. De Paulo Lins a João Carrascoza, passando por Edyr Augusto, Adriana Lisboa, Conceição Evaristo, Roger Mello, Fábio Moon, Carlos Drummond de Andrade, Rodrigo Ciríaco ou Bernardo Carvalho, entre outros, eis alguns nomes que se encontram hoje facilmente nas estantes das principais bibliotecas públicas ou nas gôndolas de livrarias francesas. Evidentemente muito esforço ainda há de ser feito, nomeadamente no que diz respeito à divulgação de nossos pensadores, artistas plásticos, cineastas, poetas, dramaturgos e até, por que não dizer, dos atores de um ser modo de ser brasileiro.

Paloma Vidal, Leonardo Tonus, Michel Laub e Luiz Ruffato ( stand du CNL)

MinC- Que benefícios a participação do Brasil no Salão do Livro de Paris pode trazer?

Leonardo- Para além do fortalecimento das relações bilaterais e do aquecimento do mercado editoral entre os dois países, a participação do Brasil permitirá a consolidação de nossa cultura na França, nomeadamente do ensino do seu idioma.

Resido em Paris há mais de 25 anos e sou professor de literatura brasileira na Universidade da Sorbonne desde 2001. Ao longo dessas últimas décadas, assisti não somente à euforia em torno da promoção da língua portuguesa no ensino público francês, bem como ao seu declínio, ao desaparecimento dos concursos para professores de português no secundário, ao fechamento dos departamentos de estudos lusófonos nas universidades francesas, situações que acabaram por fragilizar a presença do livro brasileiro no mercado editorial francês.

A aposta na internacionalização de nossa cultura realizada pelo governo brasileiro nas últimas décadas parece, no entanto, inverter  este quadro sombrio. E os beneficios  já são perceptíveis. Desde 2012, data quando o Brasil retorna ao Salão do Livro de Paris, constata-se um aumento significativo de traduções ou reedições dos clássicos de nossa literatura e de jovens  autores nacionais.  Atesto também uma mudança significativa em meu cotidiano de docente na Universidade da Sorbonne com um acréscimo exponencial do número de estudantes interessados pelo aprendizado do português do Brasil e de sua cultura.

Não posso deixar de mencionar aqui o meu prazer a ministrar cursos sobre a nossa literatura com turmas de quase 70 estudantes! Como disse, os beneficios são imensos e perceptíveis. No entanto, há de se ter muito cuidado. A penetração da literatura brasileira nas diversas esferas públicas da sociedade francesa ainda é fragil e requer um apoio contínuo  por parte das instituições brasileiras. Saúdo aqui o belíssimo trabalho empreendido pela Embaixado do Brasil na França na promoção de nossas letras.  Penso, no entanto, que este poderia multiplicar-se através de um esforço contínuo realizado pelos diversos atores locais e nacionais.

Rodrigo Ciriaco ( stand du Brésil - source anacaona.fr)


MinC- Quais são os atuais e principais desafios que autores brasileiros enfrentam em relação a expandir produção para fora do País?

Leonardo- Os atuais e principais desafios que autores brasileiros enfrentam em relação à expansão da produção literária para fora do País limitam-se, em minha opinião, à continuidade de uma produção de alto nível, como ela o é hoje. Se os autores brasileiros contemporâneos reivindicam, com pertinência, o reconhecimento de um estatuto profissional, este não requer necessariamente uma implicação no processo de promoção  dependente, como sabemos, das forças do campo literário, como já afirmava o sociólogo francês Pierre Bourdieu.

Os verdadeiros e atuais desafios do processo de internacionalização da literatura brasileira situam-se antes na reestruturação da cadeia do livro brasileiro no exterior. Para além de uma melhor aproximação dos atores locais, torna-se imprescindível, por exemplo, a formação de leitores e tradutores  do português para outros idiomas, bem como a disponibilização e uma maior centralização de informações  acerca da produção literária nacional recente, quer seja por portais na internet,  catálagos ou encontros realizados no exterior sobre questões relativas e específicas ao campo literário nacional.

MinC- O Ministério da Cultura investe na promoção da tradução da literatura brasileira. Exemplo disso é o Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasieliros no Exterior. De 1991, ano em que o Programa foi criado, até 2014, foram concedidas 771 bolsas de apoios à tradução e à publicação de autores brasileiros. 70% destas, concedidas desde 2011. Qual é a importância do apoio do governo?

Leonardo- Estes programas foram e ainda continuam sendo essenciais na promoção e na divulgação da literatura nacional no exterior. Mas as demandas cresceram, e a questão que se coloca hoje é de como suprir estas novas expectativas e se adequar ao potencial e às exigências do mercado editorial internacional. Os programas de residência de tradutores no Brasil e os editais permitindo à presença de autores brasileiros  fora do país constituem já uma resposta a esta questão.

Talvez, no entanto, seja o momento de se repensar novas estratégias, através, por exemplo, de editais (privado-público) que abarquem projetos internacionais ou de acordos bilaterais entre instituições nacionais e internacionais vinculadas ao universo do livro que possam deste modo consolidar a aventura singular da literatura brasileira na França e no Salão do Livro de Paris de 2015. 

Josyane Savigneau, Nélido Piñon e Leonardo Tonus ( stand du CNL)


Fonte: Ministério da Cultura

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