domingo, 1 de março de 2015

Um dedo de prosa com Alexandre Staut


Um dedo de prosa com Alexandre Staut

Assistam à entrevista de Alexandre Staut em que ele comenta seu percurso literário, bem como o seu último romance ainda inédito, Autoretrato na Biblioteca, que integra a Edição Especial Bilingue da Revista Pessoa a ser lançada durante o Salon du Livre de Paris 2015 e o Printemps Littéraire Brésilien, organizado na Université Paris-Sorbonne. Num último vídeo o escritor comenta seus livros prediletos, dentre os quais O livro dos nomes de Maria Esther Maciel e As Miniaturas de Andréa del Fuego.

Cliquem nos links abaixo para assistir à entrevista


Alexandre Staut nasceu em Pinhal/SP (1973). É jornalista e escritor, autor dos romances Jazz band na sala da gente (2010) e Um lugar para se perder (2012), além do infantil A vizinha e a andorinha (prelo). É editor do site de literatura www.saopauloreview.com.br



Entrevista sobre o livro Jazz band na sala da gente :


Curta-metragem O Anjo da Guarda de Caio Fernando Abreu, do qual Alexandre Staut é roteirista e entrevistador :

Vídeo-leitura do livro Jazz band na sala da gente :


Um pouco de leitura

Marquesa

Peça de Alexandre Staut para a atriz Phedra de Córdoba


Texto introdutório sobre Madame de Pompadour

Em 1745, Madame de Pompadour ou d’Étoile começa a suscitar interesse na capital da França. Não descende de alta linhagem, conseguindo posição de destaque por se relacionar com celebridades parisienses.

 Não tarde para Madame de Pompadour encantar Luís XV, que passa a considerá-la a mais encantadora figura feminina do reino. Eles se ligam. Ela não é apenas um capricho real. Torna-se figura política importante na corte desse rei. Seu tato a transforma numa das primeiras figuras globalizadas do mundo, uma espécie de ministra de política externa, da época.

 A partir de 1750, desempenha papel importante em assuntos de estado, o Tratado de Versalhes, por exemplo. Até a sua morte, em 1764, Madame de Pompadour teve o prazer de ver o seu salão cheio de súditos a solicitar a sua intervenção junto ao rei.


Diz a história que se tornou protetora das artes, na França. Sempre pronta a apoiar artistas e suas ideias, foi mecenas de diversos deles, Voltaire, para citar um, entre atores e grupos de teatro.

Mas há quem diga que ela queria apenas a lisonja e o poder. Nada mais. 

Em sua história, há ao menos uma unanimidade. Seus biógrafos dizem que, mesmo em seus momentos finais de delírio, foi uma espécie de guia dos tempos de então.

Como agradecimento aos serviços prestados, o rei ordena a construção de um novo Trianon, o Petit Trianon, para a amante. A obra confiada a Jacques Ange Gabriel fica pronta apenas depois da sua morte, sendo oferecida à austríaca Maria Antonieta, que chegaria à corte em 1770, para se casar com o delfim Luis XVI, quatro anos mais tarde.

Esta peça traz Madame de Pompadour em seus momentos finais. Acamada, num de seus delírios alucinatórios, relembra trechos das suas memórias, que conta a três serviçais, ao mesmo tempo em que discute com vozes de uma criança – supostamente Maria Antonieta, que desembarcaria no reino francês, pouco tempo depois.



Cenário:

Quarto de palácio real

Marquesa de Pompadour está numa cama

Ao seu redor, três serviçais


Personagens:

Marquesa de Pompadour

Três serviçais homens

Maria Antonieta (aos dez anos, mais ou menos) – voz de criança em off gravada



Cena 1

Marquesa chora de forma intensa, talvez ao se dar conta do seu fim. (sugestão)



Cena 2

MARQUESA:
Olham para mim como se fosse uma puta.

Olham bem no fundo dos meus olhos, apontam dedos em minha direção e dizem: uma puta, uma puta latina de latido estridente!

Mas, como poderia explicar... não sou puta, nunca fui puta.

Venho de um lugar em que sou amiga do rei.

Desde muito cedo, fui escolhida pelo rei.

(...)

Se não estiver louca, nasci em Paris, França, em 1721, no número 888, na casa do lado esquerdo da Igreja de Saint-Eustache.

Passei a infância sentada na frente de um piano, estralando os dedos, enquanto minha mãe penteava os meus cachos.

Eu tocava o piano de pernas cruzadas,

Deslizava os dedos pelas teclas,

E a minha mãe trazia roupinhas cintilantes.

Eu as vestia nas apresentações aos vizinhos.

Menina... me lembro do aplauso dos vizinhos.

Mas não me lembro (...) não sei se o rei estava na plateia, naqueles tempos.

Era capricho da minha mãe. Puro capricho dizer aos conhecidos que eu nascera para estar no topo do mundo.

Por isso fui a escolhida pelo rei.

A escolhida... para, um dia, carregar no meu ventre o jovem delfim,

O delfim rosadinho.

O delfim chorão.

O delfim que um dia representará essa pátria.

A escolhida para...


SERVIÇAL 1:
Um gole de água vai lhe fazer bem, senhora. Um gole de água apressa a morte de um  moribundo. Beba desta água, senhora Marquesa, feche os olhos e se acomode entre...


MARQUESA:
Vocês estão querendo me envenenar!

Nunca me engoliram... sou a escolhida...

A escolhida para carregar em meu ventre o jovem delfim,

O delfim rosadinho,

O delfim chorão.

O delfim que um dia representará a pátria.

Me tragam champanhe, me tragam gelo, duas taças de prata, caviar, três ou quatro brioches.


SERVIÇAL 2:
O último pedido desta mulher. Depois dela, piores estão por vir.

Tenho visto corujas se aproximarem do palácio. Elas estão fazendo ninhos em todo o jardim.


SERVIÇAL 1:
Marquesa, a senhora precisa dormir, desencontrou-se com os seus pensamentos.


MARQUESA:
Champanhe... para que eu consiga por ordem nas lembranças, duas taças e a presença do rei, eu suplico.



SERVIÇAL 1:
O rei está na ópera, marquesa. O rei está no baile, senhora. Esteve nas ruas de Paris e, dizem, conversou com cinco mulheres, ofereceu açúcar, baunilha e diamantes. Beliscou a intimidade de todas elas.



SERVIÇAL 3:
O intestino da prejudicada piorou na noite de ontem, o doutor disse em meias-palavras que as tripas deram nó, o pensamento também. Não passa desta noite. Façam o favor de atender aos suplícios da moribunda.



MARQUESA:
Chamem o rei para o brinde.

Luís, Luís, querido Luís, onde está você?

Eu já disse alguma vez para o senhor que eu sou a escolhida do rei?

Confidente!

Cargo que me coube como um anel de brilhante no dedo.

Eu sei ser ouvidos,

Sou ouvidos por todos os poros da minha pele

Sou uma mulher que sabe ouvir.

Sem que me transformasse num muro de lamentações.

Muitos perguntariam: como chegou a tal fidalguia, senhora marquesa?

Eu responderia assim: com a minha delicadeza e o meu sexo, eu governo Versalhes, concedo audiências a embaixadores, tomo decisões de pulso firme, sobre todas as questões ligadas à concessão de favores, conchaves, de forma tão absoluta quanto um monarca.

Se não acredita, vá ver no Google, está tudo lá.

Documentado em papel timbrado.

(...)

O meu nome em caligrafia, em letras garrafais, em neon: Jeanne-Antoinette Czernichovscki Poisson, Marquesa de Pompadour, caso os senhores prefiram assim.

Ao lado do texto sobre a minha pessoa, a foto de rosto, o retrato, a serenidade nas feições.  

Influenciei...

Influencio politicamente esta residência de cabo a rabo, as decisões reais, Empreendedora nata!

Incentivo fiscal, carimbo!

Incentivo cultural, carimbo! 

Incentivo de qualquer coisa bela e grande, tudo tem o meu pulso, o meu sangue, a minha voz.


Um comentário:

  1. Alê: Quantas delicias e sabores para ler, degustar e viver!!! Estou agora, sem tempo, mas grudado aqui algum bom tempo. Quero voltar sempre. Beleza!! agora temos (Você) um pinhalense em Paris, com seus livros a tiracolo. BRAVO MENINO. Depois me diga quando é a feira do livro em Paris. Não canso de dizer "sudades".

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