domingo, 8 de março de 2015

Qualquer Salomé

Illustration d'Aubrey Beardsley pour Salomé d’Oscar Wilde 
Qualquer Salomé
Por Ranny Bernardes

Ela é o oposto mal. Ela é fecundidade que destrói. Ela é responsável pelas misérias. Ela é condenação dos deuses. Ela é carência. Ela é frágil. Mas, ela é perversa. Ela é dança voluptuosa que decepa cabeças. Ela é lânguida. Ela é inocência. Ela é docilidade. Ela é o desviar a face. Mas, ela é o olhar que petrifica. Ela é castigo. Ela é desmesura. Ela é fêmea. Ela é matéria. Ela é natureza. Mas, ela é artifício. Ela é guache. Ela é abstração. Ela é óleo sobre tela. Ela é estática. Ela é aquarela. Mas, ela é opaca. Ela é papel. Ela é receptáculo. Ela é passividade. Ela é rascunho. Ela é esboço. Mas, ela é geratriz. Ela é útero. Ela é vaso. Ela é flor. Ela é espinho. Ela é corpo. Mas, ela mata. Ela é ira. Ela é luxúria. Ela é frieza. Ela é sangue. Ela é ínfera. Mas, ela é sagrada. Ela é inviolável. Ela é santa. Ela é condescendência púdica. Ela é servil. Ela é angelical. Mas, ela é depravada. Ela é prostituta. Ela é violentada. Ela é pecadora. Ela é culpada. Ela é dor. Mas, ela é prazer. Ela é deleite. Ela é musa. Ela é escultura. Ela é mármore. Ela é beleza. Mas, ela é feiúra. Ela é escarro. Ela é carne. Ela é nojo. Ela é náusea. Ela é melancolia. Mas, ela é anjo. Ela é devoção. Ela é castidade. Ela é retidão. Ela é candura. Ela é transcendência. Ela é pureza. Mas, ela é chaga. Ela é histeria. Ela é diabólica. Ela é grito. Ela é fantasia. Ela é neurose.  Mas, ela é sensata. Ela é cortês. Ela é previsível.  Ela é disciplinada. Ela é serena. Ela é mansa. Mas, ela é onça. Ela é dominadora. Ela é manipulação. Ela é maquiagem. Ela é cromada. Ela é falsa. Mas, ela é jóia. Ela é ouro. Ela é pérola. Ela é rubi. Ela é esmeralda. Ela é marfim. Mas, ela é pele. Ela é couro. Ela é tule. Ela é veludo. Ela é seda. Ela é trapo. Mas, ela é espírito. Ela é alma. Ela é vício. Ela é ironia. Ela é distração. Mas, ela é enfado. Ela é passional. Ela é reles. Ela é prosaica. Ela é banal. Ela é tédio. Mas, ela é vontade. Ela é lucro. Ela é exploração. Ela é lar. Ela é heteronomia. Mas, ela é perigosa. Ela é minúcia. Ela é detalhe. Ela é paranoia. Ela é intriga. Ela é trama. Mas, ela é prosa. Ela é ficção. Ela é vazia. Ela é éter. Ela é superficial. Mas, ela é profundidade. Ela é palavra. Ela é atual. Ela é anacronia. Ela é enredo. Ela é poesia. Mas, ela é marginal. Ela é miséria. Ela é arte. Ela é moda. Ela é oblíqua. Ela é absurda. Mas, ela é normal. Ela é estranha. Ela é insodável. Ela é dúvida. Ela é crítica. Ela é tudo. Mas, ela é nada.  Ela é definição indefinível. Ela é inefável. Ela é silêncio. Ela é existência. Ela é oxímoro. Qualquer Salomé.

Ranny Bernardes é graduanda em Letras (Português-Francês) pela Universidade de São Paulo. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones.





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