quinta-feira, 5 de março de 2015

Autoregurgitografiaficcional

Christian Boltanski, Mon père me sourit, 1974


Autoregurgitografiaficcional

Horácio Dib - Minha História (versão resumida e organizada pelo autor)

            Me fizeram contar acredita em mim eu não queria contar mas me fizeram. Me fizeram há muito tempo atrás mas eu não queria contar como me fizeram. Não teve toque de órgãos de sexo de saliva com líquido de céu com inferno de interno com externo não teve toque de pecado e nariz arfante como búfalo montado em sua fêmea forçando minha entrada no mundo não forçaram. Não vim da transa do homem sujo com homem sujo da maçã lacerada pelos lábios pecaminosos e carnudos do ying e yang não brotei dos alfaces nem escapuli dos bicos das cegonhas idosas e senis. Surgi. Surgi parágrafo letra maiúscula. Me fizeram travessão dois pontos. Mas não quero contar não sou eu quem conta. O tempo a vida deus me fazem contar e não virgulo nesse sentido. Jorro-me. Jarro-me. Encho jarros das minhas desilusões e entorno-me em minha boca para jorrar-me fora de novo nesse olho que me deglute. Quem é eu quem sou você. Olho.
 Eu queria morrer em silêncio mas ele e o senhor seu olho me fazem movimento. Nada posso fazer sou massa sou manobra sou pão sou circo sou ditadura sou extrema-direita-esquerdista-nazi-central. Nasci do caos e caos prolifero. Re-tomo. Re-torno. Re-velo. Perceba a incongruência de revelar. Velar por uma segunda vez ou mais. Questione com essa palavra a sua fé nas minhas. Re-velar-se é velar para que sua imagem não seja descoberta é esconder-se atrás do manto ambíguo das palavras. É cobrir-se de novas máscaras. Como posso ser um algo só se me reformo todo dia. Passo em meu rosto a cera quente de gigantes velas para moldar e petrificar minhas verdades convenientes é isso que faço. Re-velo-me.
Formei-me ser em mil novecentos e --. Os anos de -- foram maravilhosos e números não eram capazes de rotulá-los sei que ficavam num beco escuro próximo de uma encruzilhada onde se encontravam mil oitocentos e oitenta e oito e dois mil e quatorze e pretos e brancos mesclavam-se confusos preto livre preto solto escravos do siô de terra seu doutor sargento cantinflas ou só de jó na música infantil como um jogo de damas confuso de multicolorais peças e quadrados nos tabuleiros numa festa lisérgica de preconceitos. Os homens não sabiam mas era isso que ainda trazia discórdia as ruas do tempo desembocavam-se uma nas outras e vinham cheias de rotatórias. Ontem mesmo era primeiro de abril de sessenta e quatro e cortaram meus dedos e eletrocutaram meu corpo.
A verdadeira vida não tem virgulas somos marcados pelas feridas dos pontos finais foi isso que papai disse quando nasci. Eu respondi afasta de mim esse cálice e embriaguei-me na realidade. Não nasci de um homem e de uma mulher nasci do caos.
         Sou desconstrução. Se não entendes não me culpe pois nunca quis contar-me pra ninguém é ele que me faz fazê-lo. Nasci de sete meses já velho mesmo sem espelho pra ver as rugas que desabotoavam meus olhos leitosos. E meus dedinhos eram varas de cana sequinhos sequinhos e munidos da curiosidade dadiva das baratas e outras peçonhas. Sou peçonha. Descobri o sexo muito cedo com um amigo era enorme e eu tão pequeno não lembro. Tinha boca e língua no meio mas não apetece. Acho que meu primeiro ato em vida após a fala e a embriaguez foi o sexo com o amigo que já conhecia de alguma reticência. E passado o sexo tive que deixar minha infância sombra atrás. Já estava absoluto demais para ser criança, nasci já coberto em teias. O sexo marcou minha entrada para a idade jovem e logo em seguida a idade jovem abriu as portas para a velhice que agasalha e dorme no alto de minhas costas curvadas. Hoje é irônico como eu sou uma virgula.
Minhas avós me ensinaram o que é música ouvia tudo o que era de bom para senis e decrépitos e hoje tenho uma vasta memória de canções fúnebres. Em seus velórios eu sabia exatamente onde tocá-las. As peles velhas dobradas e passadas pelo o tempo tão convidativas agora que repousantes. Dei a elas uma última alegria. Morreram juntas minhas avós por parte de mãe. Lésbicas. Porque em mil novecentos e -- podia já o governo aceitava as uniões demonizadas fiquei feliz. Por outro lado elas não eram cães ou sapos como pessoas que conheço.
Nasci em Niterói mas nunca roubei nunca matei nunca furtei nunca furei nunca falei bróder nem nunca falei bixcoito. É mentira tudo isso é mentira. Falo bróder e bixcoito até hoje já furei a barriguinha de um amigo na alfabetização já matei a mim mesmo de diversas formas já roubei tempos atrás cartas de jogos da casa de um amigo rico meu que era meu vizinho nunca gostei dele mesmo mas por outro lado gostava muito do joguinho cartas. Eu minto. Mentira.
Aos vinte anos fui para paris fui para frança fui para os braços do admirável mundo novo e não sei. Aprendi tanto que nunca mais soube. E o brasil ficou de braços abertos como um enorme cristo. Ele ainda está lá de braços abertos não sei se crucificado ou à espera eterna de um abraço de compaixão. Fui pra frança porque o homem precisa ultrapassar o balbucio precisa largar as fraldas e parar de babar. Fui pra frança porque alguém precisava ensinar o alfabeto pros outros homens. Mas eu nunca mais soube. Mantive vários amigos. E engoli todos no último dia para mantê-los dentro de mim. Conversamos até hoje nenhum tem ressentimento. Tive lá meus amores também. Mas não vou falar aqui das crueldades da minha vida. Sou permeado de fantasmas de amores impossíveis apesar da minha ligação jovem com o sexo nunca tive alguém pra mim. Ter alguém pra mim que frase horrível. Reformulo-me: nunca tive alguém para me doar para ser dela nunca tive alguém para dar-me. E quando eu me dava sempre fui retornado na loja segundos depois pra não perder a chance de trocar a peça por outra. Mas consegui manejar e transformei minhas lágrimas em caracteres.
         Voltei pro brasil cinquenta anos depois e ainda babávamos todos. Ensinei a limpar a bunda ganhei nobel por isso e cadeira na academia brasileira de letras. Mas chorava todas as noites porque não sabia mais. Tentei por vezes cortar meus pulsos e das minhas veias secas pulavam rios de exclamações. Tentei outras vezes lacerar meu pescoço num enforcamento milimetricamente calculado mas os fios de nylon não eram capazes para o cantar que se cristalizara em minha garganta. As balas que entravam na minha cabeça encontravam um lugar aconchegante e instalavam lá suas províncias. Os venenos que escorregavam no meu corpo apenas me faziam emagrecer. A morte não queria dançar comigo. A resposta deveria estar no longínquo.
         Passou o presidente passou e depois dele veio a presidenta ela me disse vai lá te dou outra chance ri rimos fumamos charuto entornamos garrafas inteiras goela abaixo nus eu não sei francês vulê vu cuxê aveq mua sêssuá vandalizamos nos seios da pátria mãe. Então entendi eu precisava aprender francês. Aprendi a base e parti em vários pedaços. Tchau mãe tchau pai tchau vó tchau irmã tchau minha cidade que era uma planície desolada de sete habitantes contando meus cães ah tchau cachorros. O avião me tomou em goladas fundas e parisei e tive muitos amigos muitas tristezas e diabos eu já não falei disso antes. Existiu esse meio tempo esses cinquenta anos. Não sei mas acredite em mim porque não você não tem escolha recuso.
         Conheci poderosos e beijei-os. Depois normalmente cortava meus lábios e esterilizava com álcool. Se até judas beijara o traidor quem eu seria pra não doar meus lábios contra as feras e assim domei as feras ainda jovem ainda nos meus duzentos anos. Abaixo hoje a cabeça com vergonha minhas escolhas são afiadas pelo carrasco vida e levantadas alguns metros sobre minha cabeça. Guilhotino-me. A autobiografia é uma pá de terra infinita sobre nossos corpos ainda vivos. Não quero contar. Fazem-me. O publico que bate palma e vaia. Fazem-me.
         Por que contar-se. De vida a vida está cheia de realidade já temos muita realidade minha boca seca por ficção. Sou egocêntrico de mais quero que me entendam sou infeliz demais quero que me ouçam sou carente quero um amor e uma lambida nas orelhas lá dentro não quero nada disso sou confuso sou humano reticente. Autobiografie-me então se é capaz, autobiografie-se antes e não me faça debulhar minha pessoa mais uma vez.
         Outrora e alhures contei que fui nascido quando parágrafo letra maiúscula. Hoje, três páginas depois, questiono-me. Fui morrido quando parágrafo letra maiúscula. Fui encharcado de mentiras homem. E ainda quer ler-me. Balanço-me entre a ficção o real a loucura a razão e o que é o que e é preciso mesmo separar esses polos. Já disse um sábio escritor mago que parecia uma tartaruga eternamente velha nossos movimentos são autobiográficos nosso modo de falar nosso modo de agir a maneira como andamos como coçamos o rabo como tratamos a nós mesmos e aos outros. Não precisa expor em letras. O brilho dos nossos olhos autobiografam-nos. Somos o quadro perfeito a narração mais poética somos parágrafo letra maiúscula somos a história viva móvel errônea e dúbia de nós mesmos. E mentimos. Acredite em mim não acredite nada. Escancara as minhas mentiras molde-me como queiras. Re-vela-me ou te devoro.
         Hoje extasiado ainda estou em meu exílio. Não do brasil não da frança exílio de mim. Anestesio-me de minha presença faço assim melhor. Geograficamente ainda franceso-me pariso-me mas vivo no sempre lugar nenhum do meu corpo. Que conclusão tomo? Uma autobiograficçãoregurgitofagia de um ser vivo deve ter conclusão deve ousar ter ponto final deve finalizar-se? Não seria mais simbólico como movimento natural da vida só continuar ad aeternum ou numa pausa seca como o enfarte que carrega nossos significantes e significados? O homem não tem fim a narrativa não finissa. Nossas frases ainda estão e estarão sendo narradas em nosso todo. Somos um texto literário somos puros somos pathos egos logos somos poesia temos corpo temos uma regra e um sentido ainda que seja a falta do mesmo. Não temos ponto final isso é verdade única. Porém as escolhas vem de nós autores-narradores-personagens se vamos ser linguagem difícil se vamos ser inacessíveis se vamos incompreensíveis se vamos erros de português só não podemos ter palavrão porque a literatura deve ter o mínimo de decência e a puta que pariu,

         
Horácio Dib é graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones. Horacio é um dos coordenadores do projeto Palavrarquitetada.

Consultem os outros textos de Horacio Dib nos links abaixo : 

Um comentário:

  1. Horácio, meu caro: esplêndidoextraordinário texto! Aplaudo-te de pé em pé!

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