quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O poeta não tem temas, tem problemas


Entrevista com Alice Sant’Anna

Como nasceu a Antologia Rabo de Baleia. Houve um projeto pré estabelecido em torno de uma problemática central ou trata-se somente de poemas esparsos que ganharam sentido no momento da edição?

Levei cinco anos entre o primeiro livro e o segundo. Não tinha bem um projeto definido, mas não queria fazer mais uma reunião de poemas esparsos. Essa é uma característica bem forte de primeiro livro, de modo geral, de reunir tudo o que a pessoa escreveu até aquele momento e dar uma peneirada. O meu segundo livro não tinha uma linha muito definida (o primeiro, muito menos), mas aos poucos notei que quase todos os poemas falavam sobre viagens. Viagens geográficas, viagens imaginadas. Nunca fui pra China, mas tem um poema sobre um postal enviado de lá, e o poema dá essa liberdade de tudo ser verdade e não ser ao mesmo tempo. Quando me perguntaram se eu já tinha ido à China, pensei que o mais importante era se aquilo, o poema, era verdade ou não. E eu sempre vou responder que, sim, tudo que está ali é verdade. Tudo mesmo. A baleia que passa no meio da sala é pura verdade.

Muitos críticos apontam para uma unidade temática na antologia em torno da questão do deslocamento? Os poemas tematizam deslocamentos ou descentramentos?

Sim, acho que sim. Pelo menos foi a minha vontade. Não sei bem se me livro desse assunto nos poemas que vêm depois, acho que é um tema que não esgota. O Armando Freitas Filho tem uma frase que é perfeita: “o poeta não tem temas, tem problemas”. Então essa obsessão por viagens, longas ou curtas, reais ou inventadas, é o meu maior tema, digo, problema.

Há um trabalho peculiar na elaboração dos poemas, no que tange ao verso livre? Poderia falar do processo de escrita do verso livre? E também da maneira como desloca o ritmo pela elipes e pausas?

Na verdade, acho que não sei escrever de outro jeito. Mas concordo que é uma poesia sem muita cara de poesia – não tem bem ritmo, aliteração, nada. E quando lida em voz alta parece prosa.  Acho que quando escrevo penso no verso como uma maneira de isolar a frase, de criar essas elipses de que você falou, algum tipo de ambiguidade que a prosa não permitiria, por ser mais ordenada, mais clara, respeitar uma ordem. A poesia abre espaço para um tipo de pontuação que não tem nada a ver com a respiração ou com a gramática. Ao cortar uma frase ao meio, o ponto onde o corte é feito pode abrir espaço para mais de uma leitura. Então acho que a graça, pra mim, de escrever um poema é pensar em onde cortar a frase. Nem todas as frases possibilitam leituras diferentes, mas às vezes no meio do poema há essa pequena confusão, mesmo que discreta, de um verso que continua no seguinte ou que acaba ali, e pelo fato de o poeta não indicar a leitura “certa”, cada leitor pode entender de um jeito.

Ao longo da antologia nota-se personagens evocados unicamente pela letra inicial de seus nomes. No entanto, no poema intitulado « Quando Armando e Ana se conheceram » vê-se descaradamente desde o título os nomes por completo. Essas pessoas em questão existem? Foi por isso que você não suprimiu os nomes?



Fiz a brincadeira das iniciais pensando nessa coisa de diário, de diário de viagem. Por um lado, é como se fosse evidente que aquela letra só poderia identificar uma pessoa específica, já que no diário você não precisa explicar tudo, porque o diário já “sabe” de quem você está falando. Por outro lado, o leitor não tem essa informação prévia. Aí pensei que pouco importava se ia ficar claro que g. era Gabriela, minha prima, porque o nome não era a coisa mais importante do poema, e sim o que g. estava vendo ou pensando naquele dado momento. A história do Armando (Freitas Filho) e da Ana (Cristina Cesar) aconteceu de verdade, o Armando me contou por telefone. Achei fascinante a coisa de ela perguntar a ele se ele queria ficar com o anel dela, aparentemente um anel simples, de prata, unissex, e como ele não se deu conta da importância, ou da urgência, daquela pergunta. O que fazer com o anel depois que a pessoa não está mais ali? Usar até gastar ou, de tão precioso, guardá-lo muito bem guardado? Olhar para ele todos os dias ou esquecê-lo no cofre? Engraçado que a Marília Garcia escreveu uma resenha linda sobre o livro e ela notou uma coisa que eu não tinha percebido: além desse poema que me foi contado pelo Armando pelo telefone, só há mais dois nomes próprios no livro todo: Clara, o nome da chinesa que mandou o postal, e Mistério, o nome do cavalo. Dois nomes que se contradizem totalmente...

Você estreiou ainda muito jovem. Você acha que desde o seu início com Dobradura até Rabo de Baleia o seu estilo ou pensamento mudaram? Mudaria alguma coisa?

Sim, o tempo todo. Mesmo essa brincadeira das iniciais, já não estou mais fazendo. E coisas do primeiro livro, então, nem se fala. Agora tenho escrito poemas mais longos, de no mínimo uma página. O próximo livro, inclusive, é praticamente um épico! É um poemão de mais de 40 páginas, dividido em duas partes. A ideia é seja lido de uma vez só, nem tem ponto final. O estilo muda à beça, sim. Agora minha pontuação é a mínima possível, evito vírgulas e pontos, a não ser que não tenha muito jeito. Mas não vejo isso como nenhum tipo de evolução, maturidade, acho que é só o que dá vontade de experimentar naquele momento.

Hoje fala-se muito sobre o estatuto do escritor como profissional. É possível viver de poesia? Como graduada em jornalismo, pretende dedicar-se a carreira? Se sim, é possível conciliar as duas coisas?


Viver de poesia não tem como, mas é possível viver de coisas ligadas à poesia. Trabalhar no mercado editorial, fazer tradução, revisão, escrever resenhas... Mesmo uma coisa que aparentemente não tem nada a ver com poesia, medicina, pode ser muito inspirador. Acho que o importante, talvez a minha maior ideia fixa, é ter assunto. Sem assunto, não se escreve uma linha nem se faz coisa nenhuma. Sobre a questão do dinheiro, se eu precisasse bater ponto e escrever poesia todos os dias, com hora fixa pra começar e acabar, ia detestar. Mas é claro que é triste que a poesia não tenha a atenção que merece. Tem uma história de um amigo, poeta, Domingos Guimaraens, que fala muito bem disso. Não lembro se foi o avô ou o tio dele (a família é toda de poetas) que costumava escrever artigos para um jornal, e sempre recebia, no fim da tarefa, um cheque. Aí um dia o editor publicou um poema dele, e o habitual cheque não veio. Quando ele perguntou ao editor o motivo, a reposta foi: ué, pagamos pelos seus textos, claro, mas a poesia... “a poesia acontece!”. É uma história engraçada, mas é dose.

Entrevista realizada pelos estudantes Eliézer Rodrigues e Camila Santos.

Alice Sant’Anna faz parte da edição especial bilingue da Revista Pessoa que será lançada durante o Salão do Livro de Paris de 2015, organizada pelo Prof. Leonardo Tonus

Link : Revista Pessoa : http://www.revistapessoa.com/

Alice Sant'Anna na Sorbonne com Eliezer Rodrigues e Camila Santos

Camila Santos é graduanda em Letras (Português-Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne, colabora para o Blog Études Lusophones.

Eliézer Rodrigues é graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade de São Paulo. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne, colabora para o Blog Études Lusophones e gere as páginas “Editora Pirata” e “Feridas Lexicais”


Le Porteur de l'Esprit de la Baleine Echouée, Julie Faure-Brac, 2009
Rabo de Baleia

um enorme rabo de baleia
cruzaria a sala nesse momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
é abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com ela

( Alice Sant’Anna, Rabo de baleia)

@Tomas Rangel

Rabo de baleia é o segundo livro da poeta carioca Alice Sant'Anna. São trinta e cinco poemas: intervenções no cenário cotidiano irrompendo sem aviso, como um rabo de baleia na superfície da água, para transformar a percepção do que parecia acabado e impermeável. Nas palavras da crítica Heloisa Buarque de Hollanda, Alice é sem dúvida uma protagonista da nova poesia no Brasil, e Rabo de baleia um livro "já definitivo". ( fonte blog Cosac-Naif).

Alice Sant'Anna lançou os livros de poesia Dobradura (7 Letras, 2008) e Rabo de baleia (Cosacnaify, 2013). Em 2012, em parceria com Armando Freitas Filho, publicou Pingue-Pongue, impresso em serigrafia. Trabalha na revista Serrote, do Instituto Moreira Salles e escreve às sextas-feira na página "Transcultura", do Segundo Caderno (O Globo). Seus poemas estão em várias antologias, como a espanhola Otra Línea de Fuego – Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda.



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