terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Dédalo

Estudo das asas de um pássaro, Leonardo da Vinci

DÉDALO

Palavrarquitetada: Ícaro

  
Por Cesar Garcia Lima(*)

É com paciência que escavo o tempo, subtraio noites em prol de minha descendência.  Temo que a impermanência perpetue em esboço os meus projetos. Tento passar a dúvida adiante para que Ícaro resgate a transgressão do conhecimento e capture o primitivo e o deus em cada coisa.
Ícaro se distrai. Mistura a voz ao balbucio dos pássaros e aos seus monótonos mergulhos. Tem pedras no olhar e perscruta o caminho como quem recolhe seixos para erguer um castelo, sem se deter, com um mudo objetivo ignorado. Para comovê-lo, somente a embriaguez das mulheres abandonadas, que escondem tesouros nas bocas em que ele bebe. Não adianta avisá-lo da inevitabilidade das profecias que farão com que acorde enfastiado com a fugacidade de seu próprio desejo. Ícaro inveja as asas e o futuro é inadiável.
Decidi confeccioná-las longas, untadas na cera dos meus próprios ouvidos. A tarefa exige mais do que paciência, é conformismo o que move minhas mãos a cada minuto. Acabada a tarefa, Ícaro aparenta estar bastante orgulhoso de trajar o monumento de perseverança e secreção. Ele não acompanhou o percurso e me entende apenas um e agora. Estou velho, agora sei, mas ainda não é minha vez. Novamente serei a testemunha do que se vai e do que permanece.
Não posso adiantar-lhe a queda, o silêncio e o renascimento. A não ser que ele adquira a perspicácia de ver somente o já e capture o segredo do presente. Ícaro queria ser mimado por Deus, mas esqueceu-se dele. Não tenho permissão de explicar o silêncio divino, nem de evitar o voo de Ícaro, preciso dar-lhe asas, em sinal de fé e perplexidade, como Abraão prestes a sacrificar Isaac.
Estou acabando. O meu fardo é ter aprendido e não poder ensinar. Impossível saber o tempo que me resta. Logo vai começar a clarear e ele, parecendo mais jovem do que é, vai querer portar as asas que cosi a tanto custo. A Lua me ilumina, mas não me absolve. O dia será ensolarado.

A queda de Ícaro - Peter Paul Rubens, 1636-8

(*) Cesar Garcia Lima (Rio Branco/ Acre, 1964). Poeta, jornalista, doutor em Literatura Comparada. Publicou Águas desnecessárias (Nankin Editorial, 1997) e Este livro não é um objeto (Edição do autor, 2006), entre outras participações em antologias. Como documentarista, dirigiu Soldados da borracha (2010), sobre os seringueiros enviados para a Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial. Vive no Rio de Janeiro desde 1995, onde atua como pesquisador de literatura brasileira e teoria da literatura.

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