sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Casa e mundo

Adrianna eu, Entre, instalação, 2008

CASA E MUNDO
Por Edyr Agusto (*)


Meu mundo e o mundo deles. Waltinho soube desde cedo da diferença. Era natural de Salinas, filho de pescadores. A vida igual à de todos. Trabalhou desde cedo. Aprendeu a pescar. Casou com “das Dores”. Não tinham filhos. Deus não queria, sei lá. Quando aquele lado da praia do Atalaia começou a receber gente de Belém, se interessou. Flores, o amigo que puxava da perna por causa de uma brincadeira de mau gosto, que causara um acidente, contou que ganhava algum tomando conta da casa. E o que era tomar conta? Eram do outro mundo. Da cidade grande. Vinham em alguns finais de semana. Em julho, verão, passavam o mês. Traziam carros, serviçais. Os homens vinham na sexta. O resto ficava. Crianças, moças, rapazes e as madames. As crianças não contavam. Moças e rapazes, tão diferentes. Mas em Salinas você já cresce sabendo, convivendo, conhecendo, admirando. Aqueles carros maravilhosos. O som. As músicas. Tontos, bebendo, se drogando, vomitando nas esquinas. O pior é que às vezes iam atrás das garotas locais. E conseguiam. Também, com aqueles carros.. Quanto às meninas, bem, puro cinema. Aquilo não era filme, televisão, fotografia. Era real. Seios, bundas, músculos, cabelos. E tão distantes. Tão garotas e já autoritárias em seus pedidos. Ficavam ali, quase nuas, sem se importar com a gente. Nós não contávamos. Não éramos gente. Ali, adolescentes também e de repente a ordem gélida para um copo de água, rápido. As madames e seu mundo de ordens, determinações, idas à Salinópolis para comprar mantimentos e conversar com as amigas. As longas tardes de bate papo. As reuniões que atraiam carros enormes, fotógrafos, com as madames chegando todas bem vestidas. Saíam trôpegas de tantos drinks, amparadas pelos motoristas.
E havia grandes reuniões. Seu Waldemar e Dona Dorita eram muito conhecidos. Saíam nos jornais. “das Dores” mostrava as fotos. Lia mal e qual a importância? Nas grandes reuniões vinham também os homens. Os carros. Passavam o final de semana inteiro conversando até de manhã, dormindo até a tarde, bebendo, farreando, dançando. Nessas ocasiões, ficava de plantão. Para comprar gelo. Problemas elétricos. Comprar pão. Faltou gás na cozinha? A piscina deu problema? À disposição. Jornalistas e fotógrafos também estavam sempre anotando, estourando flashes. Aqueles convidados deviam ser muito importantes. Quando iam embora ficava a sujeira e o silêncio, este, de volta.
E havia Ângela e Babi. Eram especiais. Quando se viram, eram quase adolescentes. Pouco mais novos que ele. Ângela era uma princesa. Branquinha, loura, corpo bem desenhado. Gostava do sol. Nem precisava. Mulher branquinha, por ali, era uma deusa. Pra quê pegar sol? Era enturmada. Havia um grupo de rapazes por perto, sempre. Poucas meninas. Acho que tinham inveja. Passavam a tarde na piscina. À noite, saia em seu próprio carro. Nem tinha idade pra isso. Uma vez atolou. Seis da manhã. Maré alta. Foi buscar. Estava bêbada. Não tinha nada com isso. Era seu emprego. Àquela hora, não dava para passar até a casa. Flores fora chamá-lo. Cavaram, colocaram tábuas, empurraram o carro. Ela não tinha condições de dirigir. Um garoto estava junto, dormindo. Deixa pra lá. Carregou no colo até a casa. Ela protestou até dormir. Nos seus braços. Aquele cheiro dos cabelos. Aqueles seios aparecendo, bicos rosados. Respirou fundo e disse para si mesmo que era seu trabalho. Mas nunca mais esqueceria. Deixou-a na cama e voltou para tratar do carro.
Babi quase não vinha. Cabelos longos, bonito. Não ia para o sol, na piscina. Estava sempre vestido, camisa de manga comprida. Mesmo com aquele barulho dos amigos de Ângela, podia ouvir a música vindo do seu quarto. Ele gostava de rock. Não dirigia, não tinha carro. Deixava-se levar no banco de trás. Havia um silêncio cercando Babi. As refeições no quarto. Uma vez, Sábado de noite, barulheira. Parecia quebrar tudo. Dona Dorita chorando. No dia seguinte, Domingo bonito, foram embora. Seu Waldemar com a cara fechada. Babi no banco de trás, pálido, calado. Ângela querendo ficar. Não deixaram. Não era julho. Um feriado, talvez. Não era reunião. Eles tinham seus problemas. Foi lá no quarto de Babi. Como pode alguém com pais tão legais e uma irmã tão linda quebrar tudo? Debaixo da cama, esqueceram de levar, uma seringa. Estava doente? Ouvira falar de drogas, claro, tem a televisão. Sei lá. Jogou fora.
Há quase seis meses não vinham. Não faziam reunião. Agora estavam chegando. E quanto a Ângela e Babi? Agora não era mais apenas seu trabalho. Agora estava tudo misturado.

Crédits photo : Patrick Imbert
Edyr Augusto é jornalista, radialista, redator publicitário, autor de teatro e de jingles. É autor de cinco livros de poesia: Navios dos cabeludos (1985), O rei do Congo (1988), Surfando na multidão (1992), Indêncio nos cabelis (1995) e Ávida vida (2011). Estreou em prosa na Boitempo Editorial, em 1988, com Os Éguas. Desde então, publicou os romances Moscow (2001),  Casa de caba (2004) e o mais recente Selva Concreta – obra que em 2007 ganhou edição em inglês pela britânica Aflame Books, com o título Hornets’ Nest –, além do livro de contos Um sol para cada um (2008). O autor estara presente no Salão do Livro de Paris de 2015.
Fonte : Boitempo Editorial


Edyr Augusto est né en 1954 à Belém. Journaliste et écrivain, il a débuté sa carrière en tant que dramaturge à la fin des années 1970. Il écrit toujours pour le théâtre et endosse parfois le rôle de metteur en scène. Edyr a également écrit des recueils de poésie et de chroniques. Belém, son premier roman, peinture noire de la métropole amazonienne, est paru au Brésil en 1998 et en France en 2013. Ont suivi Moscow (Asphalte, 2014) et Nid de vipères (Asphalte, 2015). Très attaché à sa région, l’État du Pará, au nord du Brésil, Edyr Augusto y ancre tous ses récits. L’auteur sera présent au Salon du Livre de Paris de 2015.

À lire
Nid de vipères, Asphalte, à paraître en 2015, traduit par Diniz Galhos.
Moscow, Asphalte, 2014, traduit par Diniz Galhos.
Belém, Asphalte, 2013, traduit par Diniz Galhos.
Source : Centre National du Livre

Asphalte Editions : http://asphalte-editions.com/

Um comentário: