sábado, 29 de novembro de 2014

A herança japonesa em Catarina Gushiken

Fotografia  : Jefferon Coppola 
A herança japonesa em Catarina Gushiken

Por Beatriz Lordello (*)

O Brasil é palco da maior imigração japonesa no mundo. Contando com 1,5 milhão de nikkeis, a cultura nipônica deixou marcas profundas na sociedade brasileira, bem como em sua produção artística. Um dos exemplos mais interessantes da atualidade é o trabalho da artista nipo-brasileira Catarina Gushiken que não dissimula sua relação com sua ascendência. Desde os primeiros traços, observa-se na sua obra a influência das estampas japonesas, do Ukiyo-e e do Shunga-e, como atesta a sensualidade de suas personagens femininas, próximas das gravuras eróticas de Utamaro. Em West encouters East, documentário que mostra o encontro da cultura asiática com o Brasil, a artista afirma: “ Sou uma mestiça apaixonada pela cultura oriental, uma pessoa com referências contemporâneas (...), e do Japão e do Brasil...”Os trabalhos de Catarina Gushiken inserem-se num novo tradicionalismo que, no seu caso, se manifesta pelo olhar voltado para o país de origem na vã tentativa de buscar uma impossível identidade. Catarina começou seu percurso atuando no campo da Moda. Ex-diretora criativa da marca “Cavalera”, dedica-se hoje exclusivamente a seu próprio estúdio, às aulas que ministra e a projetos artísticos que, como em seus últimos trabalhos, trazem à tona novos elementos da arte japonesa.

Sede, Catarina Gushiken, acervo da artista

Onde nasceu seu interesse pela arte ? Houve alguma influência da sua própria família?

Minha mãe engravidou cedo, e teve que voltar logo ao trabalho, por isso, fui criada pelos meus avós japoneses. Como primeira neta, tinha muita liberdade na casa deles ; desenhava por todas as paredes e gostava de mexer em tudo. Usava as roupas e quimonos de dança da minha avó, passava horas olhando as fotografias antigas do meu avô. Essas fotografias, retratavam o Japão e as colônias de imigrantes japoneses aqui no Brasil. Assim, em meio a esses objetos, adornos, músicas, dança, e com o perfume da comida japonesa da minha avó, surgiu meu amor pela arte. Minha avó foi criada na colônia do Manabu Mabe, e meu avô era fotógrafo, por isso me davam muito incentivo, e sem dúvida, foram minhas maiores referências.
Ryu, Catarina Gushiken, acervo da artista
Você foi recentemente escolhida para ser publicada junto com outros importantes ilustradores de Moda no livro da Editora Taschen – ILLUSTRATION NOW, Fashion. Como foi isso? Você ainda vê no seu trabalho uma ligação muito forte com a Moda?

Em 2011 tive trabalhos publicados no Illustration Now, e no ano seguinte, o editor Julius Wiedemann decidiu fazer uma edição Fashion do livro, e me convidou para participar novamente. Desenho figuras femininas desde a infância, e por influência das roupas da minha avó, as estampas e os adornos se tornaram recorrentes em minhas composições. Além disso, trabalhei sete anos com moda. Também sou fascinada pelas Bijingas, que são as figuras de beleza do Ukiyo-e. Acredito que tudo isso de certa forma, se relaciona com a moda. Mas me sinto mais ligada a construção das imagens de beleza, através de tudo que envolve o feminino do que a moda em si. Não tenho um olhar modal; mesmo quando trabalhava com moda, nunca me interessei pelas tendências. Gosto de pensar nas formas, cores, texturas, ritmos e movimentos ligados ao universo feminino; mas acredito que isso precisa de um tempo de maturação, que às vezes pode ser lento. Por isso acabei me desligando da moda, porque a indústria não te dá esse tempo.

O interesse pela arte japonesa sempre foi latente?

Sim. Acho que está no sangue e na energia ancestral!

Fluidez Incompressível, Catarina Gushiken, acervo da artista
Há em seu trabalho alguma influência dos surrealistas ?  

Sim, durante estes anos fui influenciada por diversos artistas, e em determinado momento, muito fortemente pelas figuras do Dalí. Também pelo Egon Schiele, Mucha, Toulouse Lautrec, Klimt, as gravuras do Ukiyo-e, com Utamaro, Hiroshige, Hokusai... Atualmente tenho pesquisado muito os pintores chineses que influenciaram os japoneses. Alguns deles são Guo-Xi e Shi Tao, e também tenho visto muita coisa da Escola Rimpa que influenciou o Klimt. Voltei a revirar os arquivos de fotografias do meu avô, e tenho feito alguns auto-retratos como referência para pintura das minhas novas Bijingas. Esta é uma nova série que está nascendo.

Jardim da Gueixas, Catarina Gushiken, acervo da artista

Você atuou no IED e hoje, dá aulas na “Sala Ilustrada”. Como encara o seu trabalho de professora?

Como professora, busco ouvir o aluno e o ajudar com suas ideias. Passo a técnica, mas gosto de trabalhar a poética pessoal de cada um. Assim, as aulas são um momento de troca. Tem uma frase do maestro e também professor Koellreuter queme inspira muito. “Aprendo com o aluno o que ensinar.”
HE,Catarina Gushiken, acervo da artista
 O que você pensa da produção artística brasileira contemporânea?

Tenho muito orgulho de ser uma artista brasileira e mestiça. Existem muitos talentos na Arte contemporânea brasileira. O Brasil é um país enorme, e existe uma grande diversidade cultural ; cada região tem costumes típicos, e isso é muito rico! Essa energia multicultural, nos traz muita inspiração e movimenta nossa criatividade, assim como algumas dificuldades que enfrentamos, nos ajudam com a flexibilidade e o improviso.

Akai ito - Catarina Gushiken, acervo da artista
Existem artistas brasileiros que participam do seu “painel de inspiração”?

Me inspira muito o trabalho das artistas Edith Derdyk e Sandra Cinto. Admiro muito a obra e a trajetória da japonesa naturalizada brasileira Tomie Ohtake. Também tenho como referência outros três grandes artistas brasileiros que são meus professores: Evandro Jardim, Gilberto Salvador e Rubens Matuck.

Quais foram as principais  exposições de que participou?

Participei da Exposição Construtores do Brasil – Museu da Câmara em 2012; Exposição individual no MUBA – Museu Belas Artes – 2012; Exposição Entre Mundos – IQ Art Gallery – 2011; Exposição Kasato Maru – SESC – 2008. Em 2012 fui convidada para participar do documentário West Encounters East, que mostrou a integração contínua de tradições asiáticas na cultura latino-americana, ao lado de grandes nomes como Tomie Ohtake, Yutaka Toyota e Takashi Fukushima. O documentário estreou na Flórida e depois percorreu diversos países. Estou preparando uma nova série, e pretendo realizar uma exposição em 2015, ano de comemoração de 120 anos um tratado de amizade entre Brasil e Japão. Estou me dedicando muito nesta nova série, e sonho um dia realizar uma expo fora do Brasil.

fotografia de Dani Sa 

(*) Beatriz Lordello tem formação técnica em Estilismo e Coordenação de Moda pelo SENAC. Atualmente é graduanda em Letras (Português- Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de Intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional ) com a Université-Paris Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Culturesmondes : Brésil


Le Brésil en toutes lettres

L’émission CulturesMonde s'affiche aux couleurs du Brésil, invité d'honneur du salon du Livre de Paris, en mars prochain. Avec José Leonardo TONUS, conseiller littéraire pour le salon du Livre 2015, Maitre de Conférences à l'Université́ Paris-Sorbonne et spécialiste de la littérature brésilienne contemporaine, Anne-Marie METAILIE, éditrice, fondatrice de la maison d’éditions Métailié, et par téléphone, Gustavo SORA, (chercheur au « CONICET » (Consejo Nacional de Investigaciones Cientificas y Tecnicas) à l’Institut d’Anthropologie de l’Université de Cordoba, Bernardo CARVALHO, écrivain et journaliste brésilien. Il a été l'éditeur du supplément culturel "Folhetim", et correspondant de la Folha de São Paulo à Paris et New York, son dernier ouvrage Ta Mère, est paru en France aux Editions Métailié, et Patricia DICHKENIAN, étudiante brésilienne en littérature et philosophie, à l’Université de Sao Paulo.

Cliquez sur le lien ci-dessous pour écouter l’émission :




sábado, 22 de novembro de 2014

Le Brésil en toutes lettres

Les chemins du roman : Le monde dans un miroir.
Le Brésil en toutes lettres

CULTURESMONDE par Florian Delorme

Lundi 24 novembre
11h00-11h50
France Culture

Avec José Leonardo TONUS, conseiller littéraire pour le salon du Livre 2015, Maitre de Conférences à l'Université́ Paris-Sorbonne et spécialiste de la littérature brésilienne contemporaine, Anne-Marie METAILIE, éditrice, fondatrice de la maison d’éditions Métailié, et par téléphone, Gustavo SORA, (chercheur au « CONICET » (Consejo Nacional de Investigaciones Cientificas y Tecnicas) à l’Institut d’Anthropologie de l’Université de Cordoba, Bernardo CARVALHO, écrivain et journaliste brésilien. Il a été l'éditeur du supplément culturel "Folhetim", et correspondant de la Folha de São Paulo à Paris et New York, son dernier ouvrage Ta Mère, est paru en France aux Editions Métailié, et Patricia DICHKENIAN, étudiante brésilienne en littérature et philosophie, à l’Université de Sao Paulo.

domingo, 16 de novembro de 2014

Um dedo de prosa com Alexandre Vidal Porto


 Por Ryan Stevenson 
Um dedo de prosa com Alexandre Vidal Porto

Neste mês o Blog Etudes Lusophones publica uma entrevista realizada com o escritor Alexandre Vidal Porto em Paris. Assistam aos vídeos em que o autor fala de seu percurso literário, evoca os procedimentos de composição do seu último romance Sergio y vai a América e comenta sua paixão pela obra de Luiz Ruffato. 
Cliquem nos links abaixo

  
Alexandre Vidal Porto nasceu em São Paulo e passou parte da infância e da juventude no Ceará. É diplomata de carreira, mestre em direito por Harvard e ativista de direitos humanos. Viveu em Nova York, Santiago do Chile, Washington, Cidade do México e Tóquio. Mantém uma coluna no jornal Folha de São Paulo e é autor de dois romances: Matias na cidade (Record, 2005) e Sergio Y. vai à América (Companhia das Letras, 2014), ganhador do Prêmio Paraná de Literatura
  
Um pouco de leitura

Sergio Y. vai à América 
Encontramo-nos no salão de chá da Fundação Oscar Americano. De propósito, estacionei o carro longe e fui caminhando pelos jardins. Eram quatro horas da tarde. O dia era de sol, mas não fazia muito calor.
Quando cheguei, Tereza já me esperava. Cumprimentamo-nos com um beijo no rosto. Arrisco-me a afirmar que, ali, desde o início, entre nós, havia um sentimento mútuo de alívio por estarmos finalmente nos reunindo para conversar. Tereza pediu chá preto, e eu a acompanhei no pedido.
Naquela mesa, naquela tarde, as únicas testemunhas do que Tereza falou seriam dois bules, duas xícaras, duas colheres, duas fatias de limão, e eu.
"Uma primeira coisa que eu preciso lhe falar é que eu só estou aqui hoje porque o Sergio era feliz. Se não fosse por isso, acho que não teria resistido. Saber que ele era feliz na época em que morreu me consolou demais. Nem sei o que teria feito se não fosse assim. 
Eu sei que o senhor, como médico, já terá visto muitos casos complicados, mas meus filhos, convenhamos, tiveram vidas especialmente difíceis. Em momentos de desespero, cheguei até a desejar que eles morressem, não importava de que maneira.
Um filho sem a tampa do crânio e o outro com o sexo invertido. Foi isso o que eu produzi. Foi essa a minha contribuição para o mundo.  Uma pessoa superficial talvez não entenda, mas aprendi a ter orgulho dos meus filhos. Geraria os mesmos fetos novamente.
Roberto foi um anjo. Esteve no mundo por nove dias e não deixou nada, absolutamente nada, de negativo. Uma alma pura, sem uma mácula sequer. Eu quis estar com ele desde o primeiro momento. Sabia que ele morreria 'em dias'. Foi o que me disse o médico.
É difícil não amar um filho loucamente quando se sabe que ele vai morrer 'em dias'. Minha atenção era para o meu filho doente. Mas esses meus dias de agonia acabaram logo. Roberto foi embora sem olhar para trás. Deixou mais sensações que lembranças. Fiz o melhor que pude. Recebi um anencéfalo, mas devolvi um anjo.
A morte de Sergio foi pior porque foi inesperada. Demorei para concebê-la. Não aceitava que, depois de tanta dificuldade para ser feliz, ele, na hora em que sua vida estava deslanchando, morresse de uma maneira tão estúpida, tão sem sentido.
Depois que ele morreu, deixei de chamá-lo de Sandra. Salomão fez a mesma coisa. Para a gente, Sandra era Sergio. O nome de quem eu pari era Sergio. Enquanto ele estava vivo, porém, nos referíamos a ele como Sandra, porque ele nos pediu e a Doutora Coutts recomendou.
Quando soube de sua transexualidade, meu primeiro pensamento foi de fracasso. Eu gerava coisas imperfeitas, incompletas. Meu ventre não era profícuo. Era mal acabado, subumano, pensei.
Queria não ter problemas. Queria estar sonhando. Mas a gente não faz só o que quer, correto? O que eu poderia fazer? Tem muita coisa que a gente faz por amor. Eu carreguei o Sergio -ou a Sandra, sei lá- dentro do meu corpo. Não desisti do meu filho porque não conseguia parar de amá-lo.
Valeu a pena. Depois de que foi morar em Nova York, tudo mudou para melhor. Existia a dificuldade da mudança de sexo, mas a pessoa que Sandra se tornou era admirável. Eu sei que era meu filho, e eu sou suspeita para dizer isso. Mas o que ela conseguiu ser como pessoa e estava conseguindo profissionalmente era muito especial. Acho que, de alguma maneira, era o resultado do amor do pai e meu por ele.
Eu não me esqueço de um dia de primavera em que cruzamos o Central Park para chegar ao West Side. Caminhávamos os dois, respirando o ar diferente da nova estação. Isso foi um pouco depois de sua operação. Do nada, disse-me: 'Mamãe, eu nunca achei que chegaria a ser tão feliz quanto agora.'
Dr. Armando, ajuda muito pensar que fizemos um bom trabalho com o Sergio. Não soframos por ele. Ele não gostaria disso. Ele conseguiu ser Sandra. Era o que ele queria. Era feliz. Conseguiu não ter problemas de consciência. Era ótimo vê-lo tão empolgado com o restaurante, vê-la tão bonita. Parecia uma modelo. Tinha valido a pena.
Algumas vidas são curtas. Outras, começam mal e melhoram. A vida de Sergio foi a combinação desses dois tipos. Nós apoiávamos o Sergio no que podíamos. Não havia limites. Havia distância física. Mas isso era bom para o tratamento, dizia a Doutora Coutts.
O senhor não chegou a vê-lo, mas, acredite em mim. Se a visse, sentiria orgulho.


Por Ryan Stevenson 



Acidente de trânsito sem vítimas
Por Alexandre Vidal Porto

"Incomoda se eu sentar no banco da frente? Estou indo ali para a João Cachoeira, quase esquina com a Nove de Julho, sabe onde é?
O senhor me desculpe, mas eu estou precisando desabafar. Se não quiser, nem preste atenção nas loucuras que eu vou falar. O senhor está vendo que eu sou um cara normal. Lá em casa, sempre fiz tudo direitinho. Até participar de Encontro de Casais com Cristo eu participei.
Sempre gostei mais de sexo do que ela. Desde o começo do casamento, já dava para notar. Muitos casais são assim, o senhor sabe. Eu já estava até conformado com a ideia de passar a vida me trancando em banheiros, olhando fotos de gente que eu nunca encontraria, lendo histórias que nunca aconteceriam comigo.
Mas, um dia, minhas fantasias venceram a minha força de vontade. O senhor sabe como é a cabeça da gente, não dá para controlar. Eu tentei resistir, mas a resistência tinha prazo de validade. Era só uma questão de tempo. A partir de certo ponto, não consegui mais me segurar.
Logo no primeiro encontro fora do casamento, entendi que a minha vida sexual era uma porcaria. Parecia que eu tinha passado a vida toda vendo o mundo numa telinha pequena de TV, daquelas de portaria de prédio, com um bombril na ponta da antena para melhorar a recepção ruim. Sabe como é? E de repente, lá estava eu: vendo o mundo em uma TV gigante de 200 polegadas. Me senti diante de uma tela de cinema. Aí não teve mais jeito. Descobri o sexo tarde. Isso é um problema, porque o corpo ficou pedindo para recuperar o tempo perdido. Esse diabo da internet me mostrou coisa que eu nunca nem tinha imaginado.
Comecei vendo foto pornô, mas hoje gosto das salas de bate-papo. É quase um vício. Entro nas salas nas noites de sexta, quando minha mulher vai dormir. Ela fica tranquila, porque eu estou esperando nossa filha caçula voltar das baladas dela, e dorme pesado. É aí que eu tenho mais segurança para ficar batendo papo e olhando sacanagem. ("Moacir é uma coruja, não dorme nada, fica até tarde mexendo na internet. Quando ele vem para a cama, eu já estou dormindo faz muito tempo.")
O apelido que eu uso nas salas é MaduroMoema. No começo do ano, conversei com um cara muito legal. O apelido dele era AstroBH. O senhor sabe, um cara assim, estável, de bom nível, formado. Trabalhava com comércio exterior. Mora em Belo Horizonte, mas vinha a São Paulo umas duas vezes por mês, a negócios. Desculpe a franqueza, mas não vou ficar com frescura com o senhor. Para mim, nestas coisas de homem com homem, beleza não conta muito, não. Eu acho mais importante ter uma aparência normal e um aspecto limpo. Concorda? Não curto caras que dão pinta. Cara com brinco? Nem pensar. Tatuagem, só se for muito discreta. Se for de fora e estiver em hotel, melhor, que é mais sigiloso.
Com esse cara, o papo rolou bem desde o começo. Primeiro, pelo Messenger, a gente teclou e trocou fotografias de rosto e de corpo. Nessa mesma noite, mais tarde, a gente conversou e fez umas sacanagenzinhas na câmera. Na última semana de março, ele veio a São Paulo, e a gente se encontrou.
Sabe aquela insegurança que dá quando a gente entra com a amante num motel? O medo de que alguém esteja passando e reconheça o carro? O senhor sabe como é, né? É parecido. Talvez seja até um pouquinho mais forte. Mas, com o tempo, a gente racionaliza. O medo passa quase completamente.
Lembro que, no dia em que encontrei esse cara, saí mais cedo do trabalho. Para não me atrasar, nem procurei vaga na rua. Fui direto ao estacionamento pago. Cruzei a recepção rápido, olhando para o chão, para não ter risco de ninguém me identificar. No elevador, senti meu coração bater mais forte. Enquanto caminhava no corredor, achava que eu era especial. Nem me ocorria que vários encontros semelhantes ao meu aconteceriam naquele dia em outros hotéis de São Paulo.
Ao vivo, ele era a mesma coisa do que na foto. Me ofereceu uma cerveja do frigobar. A excitação que a gente sentiu no vídeo se confirmou, e, na segunda cerveja, acabamos nos beijando. Aí eu não vou entrar nos detalhes com o senhor porque não vem ao caso. Basta dizer que a gente transou a tarde inteira. Até hoje me lembro.
O medo voltou no elevador. Só me senti seguro mesmo quando entrei no carro e saí do estacionamento para a rua. Disse para minha mulher que havia ido olhar um terreno em São Miguel Paulista. Tinha ficado preso na marginal por causa de um acidente de trânsito. Reclamei de dor de cabeça e fui direto para o chuveiro. Fiquei pensando no que eu tinha feito e digo para o senhor que, em geral, é melhor nem pensar muito sobre isso, porque é muito louco imaginar que você esteve pelado, tendo intimidade com alguém que nem conhece direito. E você abraça, beija, lambe, chupa. Uma maluquice.
Esse cara, por exemplo, eu nunca mais vou ver. Uma pena que perdemos o contato. Era um cara muito gente fina. Sempre penso nele. Acho que, depois de nosso encontro, ele mudou de emprego e parou de viajar a São Paulo. Uma vez, me ligou para marcar algo, mas eu não podia falar. Depois disso, nunca mais ligou.
Lá em casa, ninguém desconfia de que eu faço isso. Imagina. Destruiria o meu casamento. Sou cuidadoso, mas também não vou ficar paranoico. Afinal, as estatísticas estão a meu favor. Ninguém precisa ficar sabendo. É melhor para todo mundo, o senhor não acha? Até fui a uma psicóloga por causa desse problema, e ela me disse que eu criava uma vida dupla para me reinventar. Aí, eu falei: Doutora, não é nada disso, não. A senhora não compreendeu nada. Eu não quero me reinventar. Ao contrário: o que eu quero é me desinventar. O senhor me entende, né?
Se der para encostar ali, do lado direito, logo depois da farmácia... Olha, tá certo. Muito obrigado. Um bom dia para o senhor também."

Publicado na Folha de São Paulo ( Ilustríssima) em 29 de maio de 2011


 Por Ryan Stevenson 

Bibliografia sobre Sergio Y. vai à América


"A maior surpresa do ano (...)Vale muito a leitura."
Raphael Montes, Blog da Companhia das Letras

"Não sei se muitas pessoas estão falando sobre esse livro. Se não estão, deveriam»
Carol Bensimon, Blog da Companhia das Letras,

"O livro é narrado com elegância e ritmo ágil, como um thriller em que se desenrola a história de Sergio"
Elias Fajardo, CadernoProsa, O Globo

"O livro descreve a jornada transformadora de um jovem paulistano que vai morar em Nova York para mudar radicalmente de vida."
Fabio Victor, Ilustrada, Folha de São Paulo

 "O livro de Alexandre Vidal Porto é um achado."
Paulo Camargo, Caderno G, Gazeta do Povo

"Flagrei-me demorando a ler as últimas páginas, amarrando a leitura e tentando ao máximo fazer com o que o livro nunca acabasse."
Laura Abdon, Catavento de ideias

"Eu não conseguia largar a leitura"
Arthur Tertuliano,Posfacio





quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Rumo à França!

Revista Pessoa na França


A revista Pessoa, em parceria com o Blog Etudes Lusophones, está preparando uma edição especial digital (em duas versões: português e francês) para o Salão do Livro de Paris 2015, que homenageará o Brasil. A curadoria é de Leonardo Tonus.  Apenas a versão em francês será impressa e distribuída durante o evento.

A ideia é oferecer um panorama da literatura brasileira com a publicação de trechos de obras inéditas de 27 autores (prosa, poesia e infantojuvenil e teatro). Um dos critérios para a seleção de autores, além de seu reconhecimento no Brasil, é a sua pouca visibilidade no cenário francófono. A publicação também tentará abarcar a nossa diversidade regional. 

Entre os autores confirmados estão: Evandro Affonso Ferreira, Elvira Vigna, Jacques Fux, Andrea Del Fuego, Alexandre Vidal Porto, Luisa Gleiser, Amilcar Bettega (prosa);  Moacir Amâncio, Alice Sant'Anna, Nuno Ramos, Heitor Ferraz Mello (poesia); Maria Valéria Rezende, Lucia Hiratsuka, Cíntia Moscovitch ( infantojuvenil) e Leo Lama (teatro).

Consultem o site a Revista Pessoa no link : www.revistapessoa.com


Leonardo Tonus é professor na Universidade Paris-Sorbonne Université Paris-Sorbonne e foi nomeado pelo Centre National do Livro francês Conselheiro literário para o Salão do Livro de Paris 2015. Especialista em literatura brasileira contemporânea, é ele quem organiza o Printemps Littéraire brésilien na Universidade da Sorbonne, que já levou vários autores nacionais a Paris.  Ele acaba de ser condecorado  com a Comenda de Chevalier na Ordem das Palmas Acadêmicas, sob proposta do Ministro francês da educação, do ensino superior e da pesquisa.

Mirna Queiroz é diretora da revista Pessoa (www.revistapessoa.com). Mestranda pela USP em literatura digital, atua há 4 anos no Mercado editorial. Como coordenadora editorial foi responsável pelos primeiros 15 títulos entre clássicos e ficção contemporânea da editora de origem portuguesa Babel. Concebeu e organizou a Coleção infantojuvenil Sonho Verde (Editora DSOP), que reúne João Carrascoza, Ricardo Lísias, Rodrigo Lacerda, Paulo Lins, Andrea Del Fuego, José Luis Passos, entre outros. Publicou a coleção Latitudes, organizada pela escritora Maria Valéria Resende, com autores de todas as regiões do Brasil. Lançou o selo Mombak de livros digitais, com duas antologias: uma de poesia e outra de contos, organizada por Luiz Ruffato, com grandes nomes da literatura brasileira. Como jornalista, trabalhou nos principais canais de televisão no Brasil. Foi correspondente da BBC de Londres em Lisboa, Bruxelas e Cingapura, onde também organizou o primeiro festival de cinema brasileiro no sudeste asiático, com apoio da Petrobras. Trabalhou ainda para o PNUD (ONU) em São Tomé e Príncipe, na África, como Encarregada de Programa responsável pela execução e coordenação técnica, financeira e administrativa de projetos de Boa Governança e Redução de Pobreza.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

De la révolution à l'effondrement


© Gilles Peress/Magnum Photos
De la révolution à l'effondrement

La Maison du Portugal, l'Institut ITS et les Editions Bruno Leprince organisent le lancement de l'ouvrage collectif Portugal 1974-2014 de la révolution à l'effondrement du modèle néo-libéral en présence de deux des auteurs, Abraham Behar et Cristina Semblano. La présentation se poursuivra par un débat.

Le Samedi 08 novembre
à 17h30

Maison du Brésil
Cité Universitaire
7 L, bd Jourdan
75014 Paris

Ce Cahier de l'ITS, avec des contributions d'Abraham Behar, Alain Joxe, Luis Moita, Bernard Ravenel et Cristina Semblano revient sur la période 1974-1975 en esquissant une grille de lecture des grandes mutations sociales et politiques qui ont caractérisé le Portugal à cette époque.
Il décrit aussi quelques aspects parmi les plus significatifs de la situation actuelle de ce pays, aujourd'hui confronté aux conséquences dévastatrices des politiques néo-libérales d'austérité appliquées dans toute l'Europe, et au premier chef dans l'Europe du Sud.

Des photographies de Guy Le Querrec/Magnum Photos réalisées au Portugal en 1974 et 1975 accompagnent les textes analysant cette période de la révolution.


Quarante ans après la révolution, le peuple portugais est en souffrance, c’est un peuple de plus en plus pauvre dans un pays pauvre et inégal. Depuis 2011, date d’arrivée de la Troïka, les plus grosses fortunes du Portugal ont augmenté de 13% et le nombre de millionnaires s’est accru de 350. Le même État qui diminue les salaires de ses fonctionnaires et les pensions de retraite de la population, qui exclut ou restreint l’accès d’une partie croissante de celle-ci au système de santé et affaiblit l’école publique, est aussi celui qui baisse les impôts sur les sociétés et octroie des exonérations fiscales aux investisseurs étrangers et aux seniors du centre, en échange de retraite dorées au Portugal. Dans le Cahier de l’ITS à paraître en juin 2014, Cristina Semblano, économiste décrit quelques aspects parmi les plus significatifs de la situation actuelle de ce pays. Elle pose la question de l’européisation de l’économie portugaise et pose le débat sur l’Europe et sa restructuration.

Regardez l’entretien avec Cristina Semblano (Economiste et enseignante à l’Université Paris-Sorbonne ) en cliquant sur le lien :

http://etudeslusophonesparis4.blogspot.com.br/2012/07/entrevista-com-economista-e-poeta.html