domingo, 26 de outubro de 2014

Lugares e disputas

Andrew Wyeth

VI SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: LUGARES E DISPUTAS

Brasília – Universidade de Brasília – 2 a 5 de novembro de 2014
Local: Auditório do Instituto de Letras (ICC Sul, Subsolo, Sala 99)


O VI Simpósio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea dá continuidade aos trabalhos de pesquisa realizados pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea acerca das relações entre literatura e sociedade, os procedimentos de representação e autorrepresentação de grupos marginalizados e a emergência de novos parâmetros críticos. Ao reunir professores/as e estudantes de diferentes instituições nacionais e internacionais, o encontro se constitui em um ambiente privilegiado para a discussão de aspectos relevantes da literatura atual, especialmente no que diz respeito aos espaços ocupados ou disputados pela produção contemporânea. Este VI simpósio, portanto, colocará em debate os diferentes “lugares” e as variadas “disputas” da literatura brasileira – desde aqueles constituídos no interior das narrativas, até os que se estabelecem “do lado de fora”, ou seja, o lugar que o nosso romance ocupa no mercado editorial, nos processos educacionais, no campo literário brasileiro e, mesmo, internacional. Também serão abordados o lugar de fala do/a escritor/a e do/a narrador/a, a identificação do/a leitor/a com os espaços da narrativa e os variados recursos da escrita para evocar uma ideia de lugar, entre outras questões pertinentes ao tema.

Consultem o programa do Colóquio no link : Programa Coloquio GELBC


Coordenação geral: Regina Dalcastagnè

Coordenação do Fórum dos Estudantes: Bruna Paiva de Lucena, Gabriel Estides Delgado e Laeticia Jensen Eble

Comissão de organização: Anderson Luís Nunes da Mata, Gislene Maria Barral Lima Felipe da Silva, Igor Ximenes Graciano, Maria Isabel Edom Pires, Paulo C. Thomaz, Virgínia Maria Vasconcelos Leal

Comitê científico: Carmen Villarino Pardo (Universidade de Santiago de Compostela), Georg Wink (Universidade de Copenhague), José Leonardo Tonus (Universidade de Paris-Sorbonne), Leila Lehnen (Universidade do Novo México), Lúcia Osana Zolin (UEM), Lucía Tennina (Universidade de Buenos Aires), Luciene Almeida de Azevedo (UFBA), Ricardo Barberena (PUC-RS)

Comissão de apoio: Adélia Mathias, Dalva Martins, Elisabete Barros de Sousa Lima, Maria Aparecida Cruz de Oliveira, Pollianna Freire

Monitoria: Fernanda Serafim Alves, Isadora Maria Santos Dias, Marcos Eduardo Lopes Rocha, Maria Manuela Bessa Cury, Nara Andejara Gomes do Vale, Priscila Cristina Cavalcante Oliveira, Waldson Gomes de Souza

Organização: Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea

Apoio: Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Instituto de Letras, Finatec, CNPq, Capes

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Literatura brasileira na França

Apontamentos sobre a literatura brasileira
publicada na França

Por Eliézer Rodrigues  e Horácio Dib *

Fundada em 2009 por Paula Anacaona, a Edições Anacaona é uma editora independente francesa com catálogo composto predominantemente de uma literatura que gira em torno do excluído – literatura feita pelas minorias, raciais ou sócio-econômica, que sublinha e enfoca o folclore, as histórias, os olhares e as maneiras quase esquecidas de observar o mundo.

Num mundo em que a literatura brasileira é conhecida unicamente por suas obras clássicas ou vendida como um produto exótico, a Edições Anacaona se destaca com uma projeção feroz e sensível de um Brasil visto de dentro para fora, impiedosamente verdadeiro.

Foge ao olhar centralizado do eixo Rio-São Paulo e abriga-se nas margens sociais e, mais ainda, nas margens das margens do Brasil. Essa postura é fulcral para a disseminação da nova literatura brasileira, na França ainda desconhecida pelo olhar estrangeiro, mostrando a pluralidade de “Brasis”, de histórias e de ritmos. Leia a seguir entrevista com a fundadora da ‘maison’, a venezuelana Paula.

Leia a entrevista completa na página da Revista São Paulo Review :


Eliézer Rodrigues é graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade de São Paulo. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne, colabora para o Blog Études Lusophones e gere as páginas “Editora Pirata” e “Feridas Lexicais”


Horácio Dib é graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Études Lusophones

domingo, 19 de outubro de 2014

Hibridez, memória e representação literária

I SEMINÁRIO GÊNEROS HÍBRIDOS DA MODERNIDADE E
 I SIMPÓSIO MEMÓRIA E REPRESENTAÇÃO LITERÁRIA.

Criado em 1992, o Grupo de Pesquisa “Memória e Representação Literária”, reúne pesquisadores de várias instituições, tendo seu núcleo central no Departamento de Literatura da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP-Assis. Ao longo dos anos tem organizado diversos eventos científicos, entre os quais se destacam as Jornadas de Pesquisadores em Periódicos Literários e Culturais e o Simpósio Arquivos da Memória Cultural e Literária da América Latina, realizados em várias ocasiões seja no âmbito dos Congressos Internacionais da ABRALIC, seja na FCL-UNESP-Assis. Da mesma forma tem reunido sua produção acadêmico-científica em livros, artigos e anais do eventos realizados.

Criado em 2002, o Grupo de Pesquisa “Narrativas Estrangeiras Modernas”, com o projeto principal “Gêneros Híbridos da Modernidade”, reúne pesquisadores de várias instituições, tendo seu núcleo central no Departamento de Letras Modernas. A partir de 2003 realizou quatro Simpósios cujos resultados foram divulgados em diversas publicações, incluindo três livros publicados e um no prelo.

Através da proposta conjunta “Interfaces da Memória”, os dois Grupos de Pesquisa pretendem discutir temas que permeiam seus projetos de pesquisa, em torno à questão da memória, seja refletindo sobre o tema, seja estudando como a memória se manifesta nas várias literaturas. Desse modo, o evento discutirá aspectos teóricos da construção da memória e sua manifestação em várias formas discursivas e em varias culturas. Da mesma forma, discutirá a presença da memória em várias manifestações artísticas e culturais, especialmente a literatura.

Local do Evento: Salão de Atos - Unesp (Assis/SP)
  
PROGRAMAÇÃO GERAL

21 de outubro de 2014 (Terça-feira)            
Local: Salão de Atos

19h00 –  Credenciamento dos participantes e entrega de material
19h30 – Cerimônia de abertura
- Ivan Esperança Rocha –  Diretor da FCL-Assis
- Cátia Inês Negrão Berlini de Andrade – Chefe do Departamento de Letras Modernas e Líder do Grupo de Pesquisa Narrativas Estrangeiras Modernas
- Marcio Roberto Pereira – Chefe do Departamento de Literatura e Líder do Grupo Memória e Representação Literária
- Alvaro Santos Simões Junior – Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Letras

20h00-21h30 - Mesa de Abertura: Literatura, memória, imigração: a palavra dos escritores.
- Figuras de la migración: de la inmigración al exilio, del nomadismo al cautiverio - María Rosa Lojo – escritora - CONICET- Argentina – USAL-UBA
- Nihonjin e a condição híbrida do nipo-brasileiro - Oscar Fussato Nakasato – escritor – UTFPR

 Coordenação: Antônio R. Esteves
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22 de outubro de 2014 (Quarta-feira)
Local: Salão de Atos

9h00-11h00: Mesa-redonda I: Escritas da memória
- Autoficção - Eurídice Figueiredo – UFF- CNPq
- Cartas de escritores – Marcos Antonio de Moraes – IEB-USP-CNPq
- A construção do ideal modernista: o lugar das revistas - Tania Regina de Luca - FCL-UNESP-Assis – CNPq

Coordenação: Brigitte Monique Hervot

14h00-15h30 – Comunicações em Simpósios Sessão I
15h30-16h00 – Café
16h00-17h30 – Comunicações em Simpósios Sessão II

19h30-22h00 -Mesa-redonda II: A Memória Literária e a Questão do Cânone na América Latina
- La memoria del trauma en Nicolás Casullo - Marcela Gladys Crespo – Universidad del Salvador – Projeto REDES-ME- Argentina
- Memoria del tango: revelamiento y estudio de la obra de completa de Enrique Santos Dicépolo – Oscar Conde- Universidad Nacional de Lanús - Projeto REDES-ME- Argentina
- Gênero e fronteira em Mar Paraguayo, de Wilson Bueno - (em torno à questão do cânone) - Antonio Roberto Esteves – FCL-UNESP-Assis - Projeto REDES-ME- Argentina
- Gênero e identidade no romance Ponciá Vicêncio de Conceição Evaristo - Cleide Antonia Rapucci – FCL-UNESP-Assis - Projeto REDES-ME- Argentina

Coordenação: Cleide Antonia Rapucci
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23 de outubro de 2014 (Quinta –feira)
Local: Salão de Atos

9h00 – 11h00 - Mesa-redonda III – Memoria: Interfaces
- Memórias e diásporas contemporâneas – Elena Palmero González – UFRJ-CNPq
-Marcel Proust e seus correspondentes – Carla Cavalcanti e Silva – FCL- UNESP-Assis
- Crônica e memória em Machado de Assis - Silvia Maria Azevedo- FCL-UNESP-Assis – CNPq

Coordenação: Márcio Roberto Pereira

14h00-15h30 – Comunicações em Simpósios Sessão III
15h30-16h00 - Café
16h00-17h30 – Comunicações em Simpósios Sessão IV

19h30-21h00 - Mesa de Encerramento: Memórias, poéticas e afetividades
- A Memória, “musa inspiradora”, na poética de David Mourão-Ferreira:  Brunello Natale De Cusatis – Università degli Studi di Perugia – Itália
- Memória, genealogia e filiações afetivas na Literatura Brasileira Contemporânea: José Leonardo Tonus – Université de Paris - Sorbonne –  Paris IV

Coordenação: Norma Domingos

21h00 - Memória do Grupo de Pesquisa: Luiz Roberto Cairo Veloso
21h30 -  Encerramento.

Consulte o porgrama completo e os resumos dos trabalhos no link : http://www.inscricoes.fmb.unesp.br/docs/20141014143147.pdf


Apoio/Realização

Faculdade de Ciências e Letras de Assis (UNESP)
Departamento de Letras Modernas
Departamento de Literatura
Programa de Pós-graduação em Letras
Grupo de Pesquisa: Narrativas Estrangeiras Modernas: Gêneros Híbridos da Modernidade
Grupo de Pesquisa: Memória e Representação Literária

Apoio

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)
Proyecto REDES VII - Ministerio de Educación - Argentina
Universidad del Salvador, Buenos Aires, Argentina
Universidad Nacional de Lanús, Lanus, Argentina
Seção Técnica de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (STAEPE)
Instituto de Estudos Vernáculos "Antonio Soares Amora" (IEVASA)  



sábado, 11 de outubro de 2014

Crônicas do Inferno Permanente


Heróis

Arlindo Gonçalves (*)

“As fábricas, com promessas de progresso, vieram e acabaram com os campinhos...”. Eu interrompo a leitura quando anunciam a próxima estação. Ainda não é a minha, mas falta pouco, nem vai dar tempo de terminar a leitura. Uma editora me pedira um conto sobre futebol. Eu possuía algumas coisas bem antigas sobre o tema e pretendia reler pra ver se poderia interessar, se seria viável de publicar. Escolhi uma narrativa chamada “O enfrentamento”, certa história bastante velha que fiz pra abordar a várzea. Então, eu levava, ali no metrô, uma via impressa que queria revisar, acertar aparas e, com isso, ver se atenderia ao pedido de publicação.
Depois da estação onde estava, eu chegaria ao meu destino, teria de descer e fazer uma baldeação pro trem que me serviria pra ir ao extremo leste da cidade, ao meu bairro de infância. Guardei o papel e me preparei pra descer.
Antes disso, pela manhã, acordei, tomei café, preparei uns documentos numa pastinha. Em meio à papelada, pus a tal via impressa do meu conto de futebol. Tudo arrumado, tomei caminho. Eu não trabalharia; tirara o dia pra resolver uns negócios de família: a venda da antiga casa onde moramos por muito tempo.
Depois da morte do meu pai, o imóvel ficou alugado em benefício da minha mãe. Aí, surgiu uma proposta interessante de compra. Acabamos topando e eu me prontifiquei a formalizar toda a burocracia, juntar vários documentos, tirar cópias autenticadas deles, rever formulários, certidões, etc. De posse de tudo, agendei um encontro com a advogada que nos assessoraria e com os representantes da imobiliária pela qual a casa estava alugada. Tudo teria de ser formalizado em cartório.
Apesar de saber que estávamos fazendo um bom negócio, fui acometido de certa melancolia. Aquele era o único imóvel que tínhamos e, nos dizeres da minha mãe, verdade absoluta: “O único bem material que seu pai deixou”. Mas a decisão já havia sido tomada, bastando o desfecho burocrático que eu estava indo resolver.
Como eu sabia que a distância a percorrer seria longa (de ônibus, metrô e trem), pensei em gastar o tempo com a revisão do conto. Levei, também, um gibi pra ler quando o trabalho no texto acabasse e eu ainda tivesse caminho a cumprir.

***
“O barulho de suas máquinas prometia os tantos empregos de que as famílias daquele bairro suburbano necessitavam...”. Já estou no trem, sentado, com mobilidade e conforto pra revisar meu conto. Leio rapidamente os dois primeiros parágrafos enchendo o papel de correções, anotações, acréscimos, supressões. Quando alcanço o meio da narrativa, decido parar de fazer as indicações dos acertos. Faço apenas uma marca maior e indicativa de onde eu parara de revisar.
Antes de guardar o papel, dou uma relida num dos trechos iniciais: “As fábricas, com promessas de progresso, vieram e acabaram com os campinhos...”. Recordei, então, que eu escrevera aquilo a partir de umas observações que fizera de um velho campo de futebol que vi sumir do bairro onde moro.

Eu sempre passava em frente a ele, via a molecada jogando bola, se divertindo bastante. Nostalgia pura: passava todo dia por ali e ficava me recordando dos meus tempos de moleque, quando eu jogava futebol com os amigos. Eu era péssimo, um verdadeiro perna de pau...
E os anos passaram e as coisas começaram a mudar (pra pior) no bairro. Compraram o terreno, extinguiram o campinho e construíram uma fábrica no lugar. Claro, os moleques boleiros sumiram. Então, quando escrevi “O enfrentamento” e outras pequenas histórias sobre futebol, fiz aquele parágrafo em resposta ao desaparecimento do campo.

***
“A bola? Costuras gastas, oval. O campo? Sulcos malfeitos no terreno para delimitar laterais, traves, escanteios, pequenas e grandes áreas. Futebol era a diversão daquela molecada. Só que ele odiava o esporte...”.
Eu jogava bola. Quem me conhece, hoje, não consegue acreditar nisso. Mas é verdade, eu adorava jogar. Só que gostar não basta. Sempre fui um péssimo boleiro. Ao contrário do meu protagonista de “O enfrentamento”, que detesta o esporte, eu gostava muito de bater bola quando era moleque.
Mas como afirmei, eu era um perna de pau, uma desgraça em campo. Por isso, não fui longe nessa área. Na época, ninguém ligava pra isso; o lance era se divertir. Meus parceiros de futebol eram igualmente medonhos em campo, todo mundo ali judiava a pelota.
“Só que ele odiava o esporte. Logo, o pai notou e passou a infernizá-lo: ‘Esse menino tem de jogar’. Foi quando Roberto percebeu que o melhor a fazer seria fingir. Começou a se entrosar e, mesmo ignorando as regras, não tendo qualquer malícia, sendo mais um estorvo do que uma vantagem pros times, ele ia em frente...”.
Eu, quem sabe, não fosse um estorvo pros meus parceiros de bola, tal como era o Roberto, personagem do meu conto. Fora do campo, no entanto, fui possivelmente um estorvo, chamado de estorvo, talvez, de tanta repetição, virado mesmo um estorvo. Ouvi muito essa palavra por parte do meu pai... Isso ocorria no açougue dele e onde eu tentei trabalhar pra ajudar nos negócios. Não daria certo...

***
O trem avançava. Guardei o conto e comecei a ler a história em quadrinhos. Era uma da Marvel; de super-heróis, portanto. Adoro HQs. Elas são uma longa história de amor, talvez, começada por eu ter sido um estorvo...
***
Eu falei que ajudava meu pai no açougue. Disse ajudar meramente como termo figurativo e facilitador pro entendimento. A única atribuição que eu tinha era ficar nos fundos do estabelecimento e por lá, já que nada produtivo teria a fazer, me divertir com o reflexo deformado do meu corpo nas superfícies espelhadas dos frigoríficos. Explico por quê.
Meu velho não deixava eu mexer nas carnes – por segurança (das carnes). Ele até tentou me nomear caixa do estabelecimento, mas não deu certo – eu não conseguia fazer contas de cabeça (não tínhamos calculadoras). Foi quando descobri histórias em quadrinhos nos jornais velhos que usávamos pra embrulhar as carnes. Mas meu pai me proibiu de ler, alegando que as tirinhas retardariam meu desenvolvimento intelectual, aparentemente, muito baixo, o que preocupava a família. Sem ter nem isso pra fazer, virei o citado estorvo...
***
Naquela época, as HQs eram tidas como vilãs da juventude, corrompedoras da boa formação de caráter, deformadoras dos bons costumes, fábricas de delinquência. Uma vez classificadas como subversivas, natural foi meu pai, ao me pegar em delito de leitura daquele gênero prejudicial, me proibir de lê-las. O resultado é que só me restou brincar de deformado nas portas reflexivas dos frigoríficos...
***
O tempo passava sem grandes variações. Nada mudava. Nada de novo acontecia. Eu já era um verdadeiro ator expressionista nos palcos que eram as portas dos frigoríficos.
Por esse período, acho que meu pai começou a ficar preocupado com a minha ociosidade. Penso que ele achava que eu estava emburrecendo por falta de atividade. As minhas péssimas notas na escola, ano por cima de ano, seriam evidências contundentes da teoria do meu velho. Realmente, eu estava ficando limitado. Foi, portanto, nesse momento de reflexão, que ele teve a melhor ideia até então.
***
A questão foi a seguinte. O açougue sempre necessitava de pequenas coisas pra funcionar: jornais velhos pra embrulhar as carnes, cambiar notas graúdas por menores a fim de dar os trocos aos clientes, plásticos pra envolver as carnes antes de pô-las nos jornais. Além disso, meu pai precisava ir constantemente à farmácia pra comprar remédios e cuidar de uma perna machucada por um acidente de carro.
Como necessitava administrar tudo isso, ele pensou que eu pudesse ajudá-lo com tais afazeres prosaicos, mas que exigiam tempo e disponibilidade de locomoção. Então, fui nomeado comprador oficial do açougue. Funcionava assim, por exemplo: um dia, ia à farmácia, adquiria os remédios e, na volta, entregava-os ao meu pai; em retribuição, eu ganhava parte do troco do dinheiro usado na operação. Noutro exemplo, quando o açougue precisava de papel pra embrulhar as carnes, lá ia eu pra banca de jornais fazer negócio. Foi num dia desses que eu fiz a grande descoberta...
Era bem cedinho quando entrei na banca. Dirigi-me ao dono e pedi jornais velhos. Ele solicitou que eu esperasse enquanto ia buscar o pacote com a velharia. Fiquei mirando as revistas dependuradas. Foi quando eu as vi pela primeira vez...
Lá estavam elas: inúmeras revistinhas de super-heróis; as HQs da famosa Marvel Comics, que passaram, naquela época, a ser publicadas pela Editora Abril. Os primeiros gibis a sair foram “Capitão América” e um almanaque de nome meio tacanho, mas legal: “Heróis da TV”.
Com as moedas que tinha juntado, dava pra comprar apenas um dos dois lançamentos. Decidi pela Heróis da TV. Comprei. Aquisição arriscada...

***
Na volta ao açougue, levava a revistinha escondida em meio aos jornais velhos. Nada poderia dar errado. Se meu pai descobrisse que o dinheiro que eu ganhava dele estava sendo usado pra comprar HQs – aquela tão difamada leitura juvenil –, seria a minha morte precoce.
Ao chegar ao açougue, tratei de enrolar a revista numa blusa que deixara perto dos frigoríficos. O ardil deu resultado. À noite, em casa, quando meu pai dormiu, li de uma sentada só a Heróis da TV.
***
Passei a colecionar o almanaque. Mensalmente, eu juntava as moedinhas obtidas nos pequenos serviços que fazia e ia torcendo pra que a nova edição chegasse.
O dinheiro que conseguia não dava pra comprar a do Capitão América, também. Isso não era lá um problema pra mim; eu me contentava com o que tinha. Problema mesmo eu tive foi em casa pra esconder do meu pai as revistas. Os meses iam passando e a coleção aumentava rápido...
Geralmente, algumas histórias duravam meses e meses pra acabar. Ou seja, a parte um começava na edição de março, por exemplo, a dois vinha na de abril e assim por diante.
O negócio de HQs, pra Editora Abril, começou a prosperar. Logo, dado o sucesso dos dois títulos iniciais, surgiu uma terceira revista: “Superaventuras Marvel”.


Eu até tentei juntar trocos pra experimentar o número de estreia desse novo almanaque, mas o que eu conseguia arrecadar mal dava pra uma, quem diria pra duas revistas por mês. Passado um tempo, minha coleção secreta era gigante, mas continuava a ser a de um único título mensal.
Tão logo prosperaram ainda mais as HQs da Marvel, pelas mãos da Abril, novos títulos mensais surgiram: “Homem-Aranha” e “Incrível Hulk”.
Por essa época, meu pai, já bastante doente, teve de se aposentar por invalidez e fechar o açougue. Perdi meu ganha pão (ganha revistas)...

***
Após a derrocada dos negócios da família, os poucos trocos que me sobraram serviram pra mais uma ou duas revistinhas. Foi quando eu soube que havia um senhor que vendia, comprava e trocava revistas usadas. O homem trabalhava embaixo de um viaduto perto de casa.
Assim, por precisar de dinheiro, arrumei uma sacolona, pus todas as Heróis da TV dentro e fui a pé ao encontro do tal comerciante de gibis. Com muito pesar, vendi toda a minha coleção por um preço humilhante...
Mas duas coisas boas a dizer. Eu me tornara leitor fanático desde então. A outra coisa era que eu prometera a mim mesmo que, assim que começasse a trabalhar, voltaria a ler HQs. E essa promessa eu cumpri. Até hoje eu sou assíduo leitor...

***
O trem prosseguia. Enquanto eu lia, de tão entretido, nem reparei quando um menino se aproximou de mim, sentou-se ao meu lado e, todo curioso, ficou olhando o meu gibi. Então, falou:
“Tio, que gibi é esse?”
Antes de eu responder, ouvi, vindo do outro banco:
“Deixa o moço ler sossegado, filho, não incomoda!”

Ele nem ligou pra advertência da mãe. Apenas olhava pra HQ com enorme interesse; parecia maravilhado. Eu permiti a ele ver à vontade a revista, fui mostrando cada herói ao garoto:
“Esse é o Homem-Aranha.”
“E esse outro aqui?”, perguntou.
“O vilão da história. Ele se chama Duende-Verde.”
“Eles vão brigar?”
“Sim, o Homem-Aranha vai lutar contra o Duende. Vamos continuar vendo o que vai acontecer.”
Continuamos folheando a HQ. A mãe do menino não se incomodou mais e prosseguimos a viagem de trem e pelas aventuras em quadrinhos.
Desde os tempos mitológicos somos inspirados pelo altruísmo, pelo drama. Então, os heróis nos fascinam, representam o melhor que o esforço humano pode empreender.
Aquela situação do trem era a prova disso e me fez lembrar outra história de infância, mais uma relacionada às HQs. Dessa vez, engraçada, ainda que trágica...
***
Certa vez, antes mesmo das revistas da Abril, lançaram um álbum com as personagens da Marvel. A gente não comprava as figurinhas na banca de jornais, não. Elas vinham era no papel de chicletes. Comprávamos as gomas de mascar e cada uma delas vinha embrulhada com um desenho de um personagem, seja herói, heroína, vilão ou vilã. Bastava, então, colar no álbum, que trazia um texto explicativo logo abaixo de cada figura. Ali eram resumidos os principais fatos sobre cada personagem.
Quando eu soube da coleção, tratei de comprar um exemplar do álbum e um punhado de chicletes. Em casa, abri tudo, nem masquei as gomas (nunca gostei muito delas) e fui conferindo cada uma das figurinhas. O momento foi mágico. Fiquei admirando todos aqueles seres coloridos, fortes, heroicos, alguns tristes, mas todos realmente interessantes pra um moleque sonhador como eu.
Depois de verificar cada cromo, peguei cola branca e passei um tempão fixando as figurinhas no álbum e lendo as legendas. Quando reparei, já era bem tarde e sentia sono. Fui pra cama.
***
No dia seguinte, logo depois do café, peguei meu álbum pra curtir um pouco mais. Então, reparei que algo estava estranho, errado. Percebi que todas as figurinhas estavam enrugadas, deformadas, algumas até furaram e a tinta delas escorrera manchando tudo. O cenário era pavoroso...
Folheei diversas vezes as páginas onde eu colara os cromos. Tive certeza de que cometera uma enorme asneira quando decidi ler a última página, a que trazia a ficha técnica, os dados da editora e as instruções da coleção. Senti-me um enorme estúpido por não ter lido as dicas antes de colar o material.
A questão: as figurinhas não eram feitas pra serem coladas no álbum. As instruções diziam: “Cromo decalque: vire sobre a superfície e raspe até fixar na página”. Que estúpido eu havia sido... Um paspalho fanfarrão e, sobretudo, burro... Não era preciso usar cola. Estava escrito ali e bastava ter lido, não ter sido tão afobado. Mas era inútil lamentar. O álbum estava arruinado, atacado pelo ácido da cola que eu mesmo pusera ali.

E o pior era que eu não tinha mais dinheiro pra comprar outro... Nenhum vilão em toda a história da Marvel havia conseguido destruir os heróis como eu acabara de fazer... Então, restou a resignação, o sabor da derrota enquanto...
Tudo escurece.

Dog

Nota: Esta crônica é uma das que consta no meu livro inédito Sem chuteiras,e sem unhas, eu joguei no pior time do mundo.



Trilha sonora dessa crônica:
“Heroes” – David Bowie

 “No more heroes” – The Stranglers


Arlindo Gonçalves, fotógrafo e escritor. Publicou Dores de perdas (2004), Desonrados (2005), Desacelerada mecânica cotidiana (2008), Corações suspensos no vazio (2010). Parceiro de Luciana, também fotógrafa e escritora. Com ela, mantém o projeto “Diálogos com a Cidade”, tendo realizado algumas exposições e publicado o livro de fotos e de poesias Carinhas(os) Urbanas(os) (2009) e In vino férias (crônicas e fotografia, 2013).

Resenha de Carolina Vigna :

Artigo de Leonardo Tonus sobre Arlindo Gonçalves e Luiz Ruffato

Calos nas mãos de diarista : conto publicado em francês pelas Editions Anacaona

Le massacre de la Sé sous la plume d’Arlindo Gonçalves, par Paula Anacaona



sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Rabo de baleia

Rencontre avec la poétesse brésilienne
Alice Sant’Anna

Le mardi 7 Octobre 2014
16h00 – Salle 23

Université Paris-Sorbonne
Institut d’Etudes ibériques et latino-américaines
31, rue Gay-Lussac
75005 Paris


Organisation 
Eliézer Rodrigues (USP)
Camila Santos (Unesp)
 Leonardo Tonus (Université Paris-Sorbonne)


Alice Sant'Anna lançou os livros de poesia Dobradura (7 Letras, 2008) e Rabo de baleia (Cosacnaify, 2013). Em 2012, em parceria com Armando Freitas Filho, publicou Pingue-Pongue, impresso em serigrafia. Trabalha na revista Serrote, do Instituto Moreira Salles e escreve às sextas-feira na página "Transcultura", do Segundo Caderno (O Globo). Seus poemas estão em várias antologias, como a espanhola Otra Línea de Fuego – Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda.


Rabo de Baleia

um enorme rabo de baleia
cruzaria a sala nesse momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
é abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com ela

( Alice Sant’Anna, Rabo de baleia)

Rabo de baleia é o segundo livro da poeta carioca Alice Sant'Anna. São trinta e cinco poemas: intervenções no cenário cotidiano irrompendo sem aviso, como um rabo de baleia na superfície da água, para transformar a percepção do que parecia acabado e impermeável. Nas palavras da crítica Heloisa Buarque de Hollanda, Alice é sem dúvida uma protagonista da nova poesia no Brasil, e Rabo de baleia um livro "já definitivo". ( fonte blog Cosac-Naif)




Quando começa um poema ?



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Ensino da uma cultura classica

JOURNÉES FRANCO-BRÉSILIENNES
PROGRAMA DE LICENCIATURA INTERNACIONAL
2014-2015

QUAND
Le samedi 4 Octobre 2014
10h30–11h30

AMPHITHÉÂTRE GUIZOT
Université Paris-Sorbonne
17, rue de la Sorbonne
75005 – Paris

REFLEXÕES ACERCA DO ENSINO DE UMA CULTURA CLÁSSICA

Conférence avec Monsieur le Professeur

Carlos Eduardo Mendes de Moraes
(Universidade Estadual Paulista)

Carlos Eduardo Mendes de Moraes possui curso de Graduação em Letras (Português/Francês, IBILCE-UNESP, 1984); Mestrado em Letras (Literatura Brasileira - Poesia latina no Brasil colonial, IBILCE-UNESP, 1992); Doutorado em Letras (Clássicas e Vernáculas / Literatura Brasileira - Academias do Brasil Colonial, FFLCH-USP, 1999) e Pós-Doutorado versando sobre a formação, ocupação e bio-bibliografia de autores das Academias Brasílicas dos séculos XVII e XVIII (Universidade de Coimbra, Portugal, FAPESP, 2002 ).

É Professor Assistente Doutor  na Faculdade de Ciências e Letras da UNESP – Câmpus Assis, nas disciplinas Cultura Clássica e Literatura Latina (Graduação), além de Fundamentos da Literatura Brasileira (Pós-Graduação), com diversos trabalhos orientados ou em orientação, em nível de mestrado e doutorado.

É autor de diversos trabalhos voltados para o tema, na forma de capítulos de livros, artigos e um livro, recentemente lançado, Erotismo e religiosidade: poemas de Antônio da Fonseca Soares sobre mulheres. Sobre este autor, elabora no momento seu próximo projeto de pesquisa, que terá como foco realizar uma edição crítica dos poemas dispersos do poeta, arquivados em diversos arquivos, bibliotecas e universidades de Portugal.

Lidera o grupo de pesquisa « A escrita no Brasil colonial e suas relações », no bojo do qual pesquisa e orienta trabalhos ligados aos dois temas: cultura clássica e Brasil colonial.

Nesta apresentação, fará algumas reflexões sobre a importância do conhecimento dos clássicos, tanto da antiguidade, como de seus sucessores, na formação do estudante de Letras. Estas reflexões resultam antes da experiência docente de aproximadamente 28 anos do que de programas de disciplinas ou de temas oficiais propostos pela legislação brasileira.


Organisation

Coordination pédagogique du Programme d’échanges – PLI

Université Paris-Sorbonne
Universidade Federal do Amazonas
Universidade Federal do Pará
Universidade Federal do Ceará
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Universidade Federal do Mato-Grosso
Universidade de São Paulo
Universidade Estadual Paulista
Universidade Federal do Rio Grande
Universidade de Brasilia
Universidade Federal do Rio Grande do Sul