sábado, 22 de fevereiro de 2014

Literatura à margem?

Daniel Senise, Grande Campo, 2014
Literatura à margem?
Por Alexandre Staut*

A partir de discussões atuais em torno da produção artística nacional feita no circuito Rio-São Paulo, e fora desse espaço, o blog Études Lusophone realiza pesquisa entre autores, editores, tradutores, professores de literatura e agentes, de diversos pontos do Brasil, para saber como a questão é tratada.
Tempos atrás, para obter algum destaque no mundo das letras, escritores se transferiam para capitais nacionais, principalmente para o Rio de Janeiro. Hoje, com a tecnologia, há certa facilidade em se fazer circular o livro no Brasil, muitas vezes sem a necessidade da chancela de grandes veículos.
Entre os entrevistados há vozes dissonantes. Para alguns, fora do circuito comercial, a literatura praticamente inexiste. Outros acreditam numa cena pujante Brasil afora. Para esses, pedimos exemplos de autores que têm se destacado. Leia a seguir os depoimentos sobre o tema, que parece inesgotável.   

Jacques Fux, escritor
(Cambridge, Estados Unidos)

“Beatriz Sarlo, em um de seus muitos estudos sobre Borges, chamou-o de ‘escritor en las orillas’. Conhecedor profundo da grande Literatura e inventor de mundos, cenários e lógicas fantásticas, nosso hermano caminhou às margens da cultura dominante e foi um dos maiores responsáveis pela ampliação dos novos cânones literários. Assim, eu, sendo um escritor fora do eixo comercial, sinto-me en las orillas de las orillas. Além de habitarmos nas margens, nas costas e nos limites, como escritores brasileiros, ainda estamos en las orillas da nossa própria nação. Mas o cânone há de se expandir ainda mais a partir da qualidade dos nossos textos e do reconhecimento, através de relevantes prêmios literários e do inestimável carinho de nossos leitores.”

Paulo Werneck, editor, tradutor e atual curador da Flip
(São Paulo)

“Acho normal e até positivo que o escritor, assim como qualquer outro artista, vá para os centros de produção e de circulação de ideias, em geral cidades maiores, onde há universidades, massas de leitores, publicações, encontros literários. Em todo país é assim, mesmo nos desenvolvidos. Polos editoriais como Rio, São Paulo, Paris, Barcelona, Buenos Aires, são ricos justamente por agregar escritores e editores de todas as origens sociais e geográficas, formando um caldo de cultura, abrindo portas para a mobilidade social e cultural. 
Há certa fantasia na existência de escritores isolados do sistema literário, autores geniais e plenamente autossuficientes em suas províncias. As redes sociais podem até ajudar na divulgação e no acesso a pessoas, textos etc., mas quem quer ser escritor de verdade tende a querer encontrar seus pares, debater, publicar, ser lido, se fazer conhecer. No campo da literatura isso ainda depende de editoras, cidades com vida cultural densa, jornais, boas escolas etc. Não conheço um bom escritor de ficção que se tenha se estabelecido valendo-se apenas das redes sociais. Pioneiros da ficção na internet no Brasil, como Daniel Galera, hoje atuam no sistema editorial tradicional, têm colunas em jornais tradicionais. Blogs e redes sociais são acessórios importantes, mas periféricos quando se trata de ficção.
É verdade que algumas deficiências do país, como o sistema educacional público, impedem que um escritor permaneça em sua cidade ganhando a vida como professor de literatura num colégio, por exemplo. Mas, mesmo que consiga uma situação assim, ele sempre se ligará às principais editoras, ao sistema literário ‘centralizado’. 
Não conheço muito bem os festivais (de literatura) pelo Brasil, mas tendo a ver essa grande onda de eventos literários como algo positivo. Por alguns dias, o livro e os escritores são o principal assunto numa cidade. Num país de baixos índices educacionais isso é uma baita notícia e com certeza altera o destino de uma cidade no médio e no longo prazo. 
Se os festivais retiram o autor regional de certo confinamento, não sei. Tenho dúvidas se a ‘missão’ de um festival deve ser incluir os autores regionais. A meu ver, a missão deve ser pôr o público em contato com autores interessantes, sejam eles regionais ou não. Acho que essa categoria ‘regional’ deve ser esquecida, permitindo-se que os autores locais se misturem sem rótulos aos demais.
Sendo franco, não gosto muito dessa história de ‘eixo Rio-SP’ ou ‘fora do eixo Rio SP’. São categorias velhas para entender a dinâmica da cultura de hoje. Isso era inequívoco há 40 anos, mas hoje, ou desde o Tropicalismo dos anos 60 e 70, tudo ficou mais complexo. 
Xico Sá, nascido no Crato, em pleno sertão, é de fora do eixo Rio-SP? Não: é um escritor paulistano, urbano, cosmopolita, sem deixar de ser ‘regional’, pernambucano. Vanessa Barbara, por exemplo, faz um bairro de uma cidade de 17 milhões de habitantes - o seu Mandaqui natal - parecer uma cidade provinciana. Para mim, ela é "fora do eixo", embora seja a mais paulistana das escritoras. A literatura gaúcha, hoje a principal força ‘regional’ no país, é ‘fora do eixo’?  Ana Martins Marques, excelente poeta de Belo Horizonte, é ‘fora do eixo’?
As noções de ‘eixo’ e ‘fora do eixo’ aludem a certa denúncia de um imperialismo paulista-fluminense e a uma resistência cultural que nem sempre se verificam hoje, quando você vai ler os escritores. Não se sustentam nem na literatura nem na sociologia.”

Edgar de Souza, sem titulo

Rogério Pereira, escritor, criador do jornal Rascunha e diretor da rede de bibliotecas públicas do Paraná
(Curitiba)

“Rio de Janeiro e São Paulo ainda ditam os rumos do Brasil. Não há como escapar destas cidades — similares a dois polvos famintos que a tudo querem abarcar. Na literatura, a certeza é que esta figura fantasmagórica ainda prevalece. Lá estão todas as grandes editoras brasileiras (com exceção da L&PM) e a maioria esmagadora dos autores reconhecidos pela mídia, crítica e leitores. Já os autores (reconhecidos) que não moram na balbúrdia das duas metrópoles, publicam por editoras cariocas ou paulistas. É quase inevitável. Para reforçar, a mídia que chancela as “grandes” obras lá estão também. Ou seja, tudo acontece lá: de bruços para o Pão de Açúcar ou de cócoras na Avenida Paulista. Bom ou ruim? Nem bom, nem ruim. Apenas inevitável. Não há nada de novo nisso tudo. Sempre foi assim. E continuará sendo. Por outro lado, há um grande movimento (às vezes, quase invisível) de boa literatura acontecendo fora deste chamado eixo Rio-São Paulo. Curitiba, por exemplo, abriga uma geração muito interessante de novos escritores. Todos, obviamente, loucos para serem publicados por uma grande editora. Do Rio ou São Paulo. Movimentos similares acontecem em Recife, Fortaleza, Salvador. Brasil afora. A literatura brasileira acontece em todos os cantos. No entanto, ela converge sempre para o Rio e São Paulo. E parece que tudo acontece lá. O Brasil literário não é só Rio e São Paulo. E ao mesmo tempo é. Só mais uma contradição deste país dado a contradições muito mais importantes.”

Marta Barbosa Stephens, escritora, jornalista, crítica literária
(São Paulo)

“Como pernambucana de Recife, não me sinto confortável com a denominação que a literatura produzida fora do eixo Rio-SP ganha ainda hoje de ‘regionalista’. Acho delimitador e preconceituoso, ainda mais ao pensar que literatura é em sua essência universal. Cito como exemplos dois grandes escritores desta geração, cujas obras universais têm como nascedouro um recanto apartado do país e que, ainda assim, se inscrevem entre os nomes mais importantes da prosa e da poesia brasileira.
O primeiro deles é Antonio Carlos Viana, que nasceu em Aracaju, Sergipe, é mestre em teoria literária pela PUC-RS e doutor em literatura comparada pela Universidade de Nice, França. Publicou quatro coletâneas de contos – Brincar de manja (Cátedra, 1974), Em pleno castigo (Hucitec, 1981), O meio do mundo (Libra & Libra, 1993) e Cine privê (Companhia das Letras, 2009). Em todos eles, o leitor é, a todo instante, confrontado com um mundo seco de romantismo. Não há relação familiar, nem de amizade, nem de trabalho que escape ao olhar perturbado, embora absolutamente objetivo do autor. Não se trata de uma realidade paralela. Antonio é mestre em apresentar o mesmo real lá de fora (árido como o sertão nordestino), mas pelo ponto de vista de personagens transgressores, alguns malditos ou simplesmente pessimistas.
O outro nome que preciso citar é o do padre/poeta pernambucano Daniel Lima (1916 – 2012). O autor de Poemas (Companhia Editora de Pernambuco, 2011) começou a escrever versos aos 18 anos, mas se não fosse a ousadia de uma amiga (a professora da UFPE e escritora Luzilá Gonçalves Ferreira), jamais teríamos acesso a seu trabalho. Isso porque ela literalmente roubou quatro cadernos de anotações de Daniel, organizou e ofereceu à Companhia Editora de Pernambuco. Uma sorte para todos, porque assim se descortinou uma poesia segura, perturbadora e complexa, inscrevendo o nome de Daniel Lima entre os grandes poetas desta geração. O Sudeste ainda não o descobriu como deveria – uma pena! Mas deveria. O livro ganhou o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional como o melhor de 2011 na categoria poesia.”

Lygia Clark, Mascaras sensorias
Joca Reiners Terron, escritor
(São Paulo)

“É necessário diferenciar o regionalismo literário histórico (aquele dos anos 30) do que se produz agora, com a criação cada vez menos marcada pelas culturas dos estados brasileiros. Os centros urbanos têm problemas mais ou menos iguais, e a vida neles termina sendo refletida pela ficção de modo parecido. Quanto à questão da circulação, um aspecto central permanece inalterado: as grandes editoras continuam a estar no sudeste e no sul do país. Isso não quer dizer que a produção do norte, nordeste e do centro oeste não chegue com força, pois chega e com muita frequência, inclusive por pequenas editoras como a Pitomba, de São Luís do Maranhão. Gostei bastante dos últimos livros de Bruno Azêvedo e cavaloDADA (codinome do poeta Reuben da Cunha Rocha.”

Allex Leilla, escritora
(Salvador)

Tenho seis livros publicados — Urbanos (conto, vencedor do Prêmio Braskem de 1997), Obscuros (conto), Henrique (romance), O sol que a chuva apagou (novela), Primavera nos ossos (romance, premiado pelo Programa Petrobras Cultural) e Chuva secreta (conto). Em 2010, ganhei o Concurso Luiz Vilela, com o conto “Felicidade não se conta”, e já participei de várias antologias — 25 mulheres que estão fazendo a literatura brasileira (Record, 2004), e 50 versões de amor e prazer (Geração Editorial, 2012). No entanto, meus livros encontram dificuldade de circulação tanto na Bahia, quanto no eixo Rio-SP. Não é segredo que as condições de publicação e circulação do livro em nosso país são ruins, sobretudo, se estivermos falando de Norte e Nordeste. Não somente há falta de acesso às editoras, distribuidoras e agências literárias, como existe uma invisibilidade do autor que não reside no Rio-SP. Raramente existimos diante de uma pauta literária ou de uma lista nacional de autores (os 70 oficiais de Frankfurt é só um exemplo disso). A mesma coisa ocorre com concursos que premiam livros publicados: um prêmio como Telecom ou Jabuti dificilmente chegará às mãos de um autor daqui, pois como ocorre com todo leitor, o júri é influenciado por aquilo que ele conhece. É um clichê, mas é um processo cíclico real: não circulamos porque não somos publicados pelas editoras que dominam o mercado, e assim não somos conhecidos, por isso, não somos lembrados, em suma: inexistimos. No caso da Bahia, os escritores que são conhecidos nacionalmente ou saíram daqui há muito tempo ou são cânone (ou ambos!).

Astier Basílio, poeta e jornalista
(João Pessoa)
“Tenho sérias restrições ao falar em eixo Rio-São Paulo. Todas as vezes em que o mencionamos é como se ratificamos uma série de lugares-comuns e simplificações que, em resumo, nos induzem a crer 1) que estar em São Paulo e Rio de Janeiro é pertencer às decisões de poder ou fazer parte do ‘establishment’ – até que ponto afirmações assim escamoteiam um universo de atividades que correm à margem das grandes editoras e dos meio de divulgação, mesmo em São Paulo e Rio de Janeiro? 2) que estar fora, geograficamente, é condição para falar em como alguém apartado e alheio, todavia, há alguns autores sendo publicados por grandes editoras do eixo, mas residindo fora dele e citaria, por exemplo, Ronaldo Correia de Brito, Maria Valéria Rezende e alguns outros. Neste sentido, o discurso de “eixo” desconsidera, por exemplo, a produção literária do Rio Grande do Sul, que conta com uma editora de amplitude nacional, como é o caso da L&PM, e de autores expressivos como Martha Medeiros, e na existência de um mercado do Sul. O que aponto é uma nota dissonante nesse discurso em que se elege eixo e, consequentemente, margem. Mas há sim muito sendo produzido fora da chancela de dimensão oficiosa, sem circular pelos grandes veículos, sem estar na prateleira das grandes livrarias, mas isso não é garantia de qualidade, por si só. De alguma maneira, acredito que toda obra, seja onde for produzida e de que maneira, tem de responder à pergunta: para quem eu fui feita? Literatura para quê? Com quem se está querendo falar ou até não falar?

Helena Terra, escritora e ilustradora
(Porto Alegre)

“Porto Alegre vive uma fase de expressiva produção literária. Há diversos cursos de escrita ministrados por professores e escritores ao alcance de quem pretende publicar, o que torna o trabalho menos solitário e mais qualificado, e há também um mercado próprio editando e consumindo nossos títulos. Entretanto, o que parece um primeiro passo na construção de uma carreira em seguida se configura como um obstáculo, pois o número de editoras locais não absorve a demanda de publicações e tampouco da conta de divulgar e distribuir os livros selecionados de forma homogênea fora do Estado. Na verdade, não se percebe maior interesse nesse sentido. Em regra, cabe aos autores divulgarem os seus livros e conquistarem os seus leitores, seja recorrendo à internet e redes sociais, seja participando de eventos e concursos no resto do país.”

Mirrors, 2014 - installation, Andreas Fogarasi (press)
Roberto Menezes da Silva, escritor
(João Pessoa)

"A literatura feita na Paraíba, todos sabem, tem história de grandes escritores reconhecidos nacionalmente. No entanto, muitos outros bons escritores nunca chegaram aos grandes centros. Não vejo isso como um defeito. O Brasil é um continente, e um escritor nem sempre se torna notado nele todo. De uns quinze anos pra cá, a literatura feita na Paraíba tem tido uma revigorada. Os motivos são vários, porém enfatizo o nascimento do Clube do Conto da Paraíba. Com suas reuniões semanais, o Clube agrega e estimula muitos bons escritores. Outro grupo, o Caixa Baixa, apesar de ter tido vida curta, revelou alguns novos escritores. Entre eles, há os fundadores das revistas Blecaute e Sexus. Essas duas revistas online têm participação de escritores do Brasil inteiro. Ainda assim, enfatizo que é difícil a conexão com outros polos do Brasil, em especial para os novos escritores. Os escritores paraibanos publicados em editoras do grande eixo, que têm distribuição nacional e alguma exposição na grande mídia, são escritores mais veteranos e mesmo assim, são poucos. Veja, por exemplo, fomos o único estado do Brasil a não ter representante oficial na feira de Frankfurt. "

Ivan Marques, professor e pesquisador de literatura brasileira, foi editor-chefe do programa de tevê Entrelinhas
(São Paulo)

“Há mesmo uma cena pujante pipocando em várias regiões do país, como Pernambuco, Minas, Rio Grande do Sul etc. Ao mesmo tempo, boa parte dessa produção parece continuar muito vinculada ao eixo Rio-SP, seja por conta das editoras, seja por conta dos prêmios, dos jornais e suplementos literários, das feiras e festivais e de tantas outras razões. É claro que tudo isso vem sendo também descentralizado, mas a relação de "dependência" (ou "sedução") em relação aos grandes centros, com certeza, ainda existe.”

Ricardo Biazotto, escritor
(Pinhal, SP)

“Os eventos ainda estão concentrados no eixo Rio-São Paulo, então os escritores precisam encontrar outras formas de divulgar seus livros. Com isso a internet se tornou grande aliada com a “literatura digital”. Escritores conseguem atingir um relativo sucesso virtualmente, às vezes com leitores do eixo, mas passam despercebidos em suas regiões. Isso pode ser explicado pela falta do regionalismo. Diferente do passado, os escritores insistem em ambientar as obras nos grandes centros.”

Luís Henrique Pellanda, escritor
(Curitiba)
“Jamais senti que essa noção de eixo me atrapalhasse. Mas também nunca me atraiu. Para mim, não faria sentido algum escrever com o propósito principal de ser lido ou aceito por leitores e editores de São Paulo ou do Rio. Escreve-se para todos e ninguém, não? Pois desde menino entendi que Curitiba era uma cidade com tremendo potencial literário. Há décadas já produzíamos e discutíamos literatura com gosto e até certa fúria apaixonada, ao mesmo tempo em que sempre fomos críticos demais em relação à nossa própria produção. Isso, essa timidez feroz e estranha, quem sabe se um orgulhoso oposto do deslumbramento, fez com que cada autor preferisse buscar caminhos bastante pessoais, independentes, novos. Outra coisa, fato incontornável: se já tínhamos Dalton, Leminski, Jamil, Karam, Wilson Bueno, Valêncio e Tezza, entre outros tantos, produzindo a partir de nossa aldeia e a universalizando com tamanha qualidade artística, e quase sempre inovadora, também já nos tinham sido dadas provas suficientes de que não precisávamos imitar sotaque algum para escrever. Nenhuma dúvida quanto a isso. Agora, se algum autor se sentir realmente frustrado por não ser recebido num esquema oficial de sucesso literário, paciência. Não será culpa da província, e sim do provinciano que ele é. Todo ressentimento é assassino e será, sempre, o maior inimigo das invenções.”

Dione Veiga Vieira. Fragmentos Primordiais, 2004
Carlos Henrique Schroeder, escritor, curador do Festival Nacional do Conto e da coleção de contos Formas Breves, da E-galáxia e editor da revista Pessoa
(Jaraguá do Sul, SC)

“A internet quebrou um pouco o conceito de eixo, pois agora você está com seu dispositivo móvel ou notebook comprando livros ou escrevendo em qualquer lugar, e a informação está num clique. É possível contatar pelo facebook seu editor, jornalista ou curador de um evento, o eixo passa a ser a sua rede de contatos. É claro que o Rio e São Paulo ainda detém grande parte das editoras e produtoras culturais, mas o sul, por exemplo, se vira muito bem: o Paraná é o paraíso das revistas e jornais literários, são inúmeras e de ótima qualidade: Mapa, Coyote, Arte & Letra Histórias, Bólide, Cândido, Jandique, Rascunho, Relevo, Helena e muitas outras… Florianópolis sedia o único festival dedicado ao conto na América Latina e Porto Alegre tem uma das maiores feiras do livro de rua do mundo. A produção literária também é expressiva no sul, escritores premiados e reconhecidos como João Gilberto Noll, Salim Miguel, Daniel Galera, Miguel Sanches Neto, Daniel Pellizari, Cristovão Tezza e muitos outros vivem fora dos grandes centros editoriais, em cidades como Ponta Grossa, Florianópolis, Porto Alegre ou Curitiba. E as pequenas editoras fazem um esplêndido trabalho, principalmente com autores da nova geração. A escrita está em toda parte.”

Dôra Limeira, escritora
(João Pessoa)

Saindo do Rio de Janeiro e São Paulo, aqui considerados estados do eixo, relativamente pouco se sabe sobre o que está se produzindo. Eu, por exemplo, só tomei conhecimento da poesia de Manoel de Barros através de um cine documentário, pouco divulgado, que foi exibido no Cine-Port, festival de filmes em língua portuguesa. As grandes editoras pouco se interessam em publicar autores não premiados, autores ignorados pela mídia. Nessa situação, eu vejo escritores do Nordeste, Norte, Centro-Oeste. Ainda assim, a literatura fora de eixo sobrevive. Pessoas escrevem, mesmo sabendo que não vendem. Escrevem porque escrevem. É nesse contexto que me coloco. Tenho cinco livros publicados, pouco conhecidos, sem acesso a grandes editoras e distribuidoras.
 
Eduardo Kobra, São Paulo. Fotos Alan Teixeira

Tércia Montenegro, escritora
(Fortaleza)
“Acredito que a tecnologia tem facilitado bastante, nesse processo de superar as barreiras espaciais. Hoje não é mais indispensável que um autor more em grandes capitais para ter acesso aos melhores meios editoriais. Entretanto, percebo que ainda persiste certo espírito provinciano, quando se trata de classificar escritores que não pertencem ao eixo do sudeste - sempre são anunciados como ‘o autor pernambucano fulano de tal’, ou ‘o escritor cearense beltrano’, por exemplo. Não se nota essa obsessiva necessidade de ancorar a região de nascimento dentro de uma matéria jornalística sobre um autor paulista ou carioca... De maneira que ainda tenho a sensação de uma espécie de cobrança regionalista. É como se o autor nordestino, ou sulista etc, estivesse já predisposto a fazer um tipo de literatura específica, com marcas paisagísticas ou temáticas próprias. Parece que ainda existe uma expectativa nesse sentido, e digo por parte da mídia mesmo, porque as editoras - e, acredito, também os leitores em sua maioria - já demonstram não ter mais essa mania de rotular ou preconceber um artista devido a sua origem geográfica.
Descentralizar os eventos literários serve para valorizar os pequenos eixos de produção e recepção artística. Aos poucos, acredito que não teremos mais a ideia que ‘tudo só acontece’ numa determinada parte do país, favorecida culturalmente, economicamente. E essas iniciativas têm mão dupla: tanto servem para trazer o novo às pequenas regiões, como leva desses exemplos, nomes e ideias, para um público mais amplo, Brasil afora.
Em termos gerais, há ótima literatura nova sendo praticada fora do eixo Rio-São Paulo, tanto quanto dentro dele. A pouca divulgação destes nomes acontece por motivos comerciais, logísticos ou relativos ao poder de distribuição editorial - em outras palavras, a penumbra que envolve tantos escritores bons tem uma justificativa econômica, e não artística. Em matéria de estilo, o que percebo é justamente o que mencionei em resposta à primeira pergunta: não me parece que a literatura das pequenas regiões seja, hoje, profundamente caracterizada por traços regionais. Ao contrário, noto que muitos autores estão voltados - com suas diferenças de expressão pessoal, claro - para questões mais amplas, universais e quase sempre firmadas em torno do homem contemporâneo, cosmopolita e solitário.”

Raimundo Neto, escritor
(Teresina)

O primeiro livro que li na vida não foi de um escritor piauiense; o primeiro autor que carreguei nos olhos não era nordestino. Os livros seguintes também não. Minha mãe foi quem me puxou as orelhas e ensartou ouvido abaixo as palavras do sertão na minha alma. Para tu entenderes quem és, ela disse. Alimentei um compromisso de entender quem eu era a partir do que meus conterrâneos produziam; e quando a Literatura deixou de ser um prazer relativo e se tornou uma responsabilidade, percebi que eu conhecia pouco dos escritores piauienses/nordestinos. As iniciativas literárias fora do Eixo Rio-SP já não são tão mirradas quanto antes, mas precisam ter mais força. Elas têm crescido, mas não com suficiência que dilua a ideia de que tudo que existe fora desse eixo é ‘apenas regionalismo’. O norte, o nordeste, centro-oeste também são mundo. Também são Brasil. No Piauí, as iniciativas que incentivam a Literatura são incipientes, comparativamente. Jovens novos escritores curiosos se aventuram em ensaios discretos para divulgar seus escritos buscando concursos, prêmios, editoras: caminhos que os levem ao reconhecimento, ao achado de um público leitor. Existem alguns concursos literários e bolsas de produção literária que a Prefeitura Municipal e o Governo do Estado promovem. Discretos e quietos. Sem alardes. Tão sossegados que muitos nunca nem ouviram falar, e quando são premiados por seu lirismo vitorioso precisam arranjar contentamento apenas com a colocação e o prêmio (igualmente mirrado e discreto).
Um evento que conseguiu voz própria há algum tempo e cujos gritos têm acordado os leitores e principalmente os não-leitores e novos leitores é o Salão do Livro Piauiense (Salipi), que abriu as portas tanto para autores nacionais conheceram a produção literária local e para autores piauienses divulgarem suas obras.
Acredito que as possibilidades até existem, as tais janelas abertas já que portas estão fechadas, mas uma muralha colossal (não sei se divulgações vazias para ‘cumprir tabela’, panelas literárias que cozinham preferências, ou alguma espécie de ignorância que produz uma visão limitada e capenga) separa os resultados e impede o reconhecimento de muitos desses autores. Talvez ainda porque muitos dos que produzem arte no Piauí não foram educados para acreditar na própria arte.”

Ronaldo Correa de Brito, escritor e dramaturgo
(Recife)

“Nunca pensei em morar noutra cidade que não fosse o Recife. Quando publiquei pela Cosac Naify, em 2003, ainda não havia o furor dos sites e blogs de literatura.  Davi Arrigucci, Augusto Massi e Rodrigo Lacerda apostaram nos meus contos, num gênero difícil e num autor desconhecido. A fórmula para mim foi uma boa editora e excelentes editores. Depois de três livros com a Cosac, saí para a Alfaguara e fiquei trabalhando com Marcelo Ferroni. Sempre escrevi para o teatro e meus contos são adaptados para o cinema e a televisão. Isso ajudou a divulgar minha obra. E os eventos literários, as viagens, as traduções que se multiplicaram.”


*Alexandre Staut nasceu em Pinhal (SP), em 1973. É autor dos romances Jazz Band na Sala da Gente (2010) e Um Lugar Para se Perder (2012). Tem contos publicados na França e em Moçambique.
Thomas Hirschhorn, Spinoza Car 2009


domingo, 16 de fevereiro de 2014

Praia do Futuro

Praia do Futuro. Direção: Karim Aïnouz. Na foto: Jesuíta Barbosa. Berlinale 2014, Mostra Competitiva. © Alexandre Erme
Praia do Futuro

Novo filme de Karim Aïnouz tem Fortaleza e Berlim como cenário e gira em torno do universo masculino a partir de três personagens – Donato, Konrad e Ayrton.


Praia do Futuro, quinto longa do diretor brasileiro Karim Aïnouz (Abismo Prateado, O Céu de Suely, Viajo porque preciso, volto porque te amo, Madame Satã), chegou às telas da Berlinale trazendo uma história de recomeços. O filme, além de prólogo e epílogo, é dividido em três partes, que remetem a três momentos de vida dos personagens. O início se dá na Praia do Futuro, em Fortaleza, onde Donato trabalha como salva-vidas, e termina na Alemanha, na estrada rumo a Berlim.
O filme começa com dois alemães que estão se afogando na praia, mas apenas um deles, Konrad (Clemens Schick), consegue ser salvo. Enquanto os bombeiros buscam pelo corpo do alemão desaparecido, Donato (Wagner Moura) e Konrad se envolvem afetivamente. Depois de passarem férias em Berlim, Donato decide ficar e se reinventar na cidade. Dez anos mais tarde, Ayrton (Jesuita Barbosa), viaja para Berlim em busca do irmão.

Toda a história é permeada pela dualidade entre coragem e medo, mas movida especialmente pelo amor: é o amor romântico entre Donato e Konrad que leva Donato a Berlim e é o amor fraternal que leva Ayrton à mesma cidade. O amor é o que move as personagens e as leva a outros lugares – sejam estes literais ou metafóricos. Em vários momentos, esse amor é encenado de maneira intimista, doce e sobretudo intensa.

Brasil x Alemanha

A fotografia do filme marca bem a diferença entre o Brasil e a Alemanha: cores fortes e uma luz amarela tropical na Praia do Futuro, em contraponto a tons mais brancos e imagens lavadas no inverno berlinense. O mesmo acontece com a narrativa: ao mesmo tempo em que expõe Donato ao frio pálido e o deixa sem mar, Berlim é a cidade que oferece a ele uma outra possibilidade de ver e viver sua identidade. Após a reconstrução da vida em Berlim e o reencontro com Ayrton, Donato já não vai mais precisar estar embaixo d’água, salvado vidas alheias, para salvar a sua própria vida e se sentir livre.

Em tempos de ondas homofóbicas declaradas (vide as recentes polêmicas na Rússia), uma premiação para o filme poderia simbolizar o papel político tradicionalmente exercido pelo Festival de Berlim, já que Praia do Futuro prima por trazer às telas o amor e a sexualidade entre dois homens de maneira natural e não estereotipada.

Camila Gonzatto é diretora e roteirista de cinema e TV. Tem mestrado em Escrita Criativa pela PUCRS (Porto Alegre) e cursa doutorado na mesma área em programa de intercâmbio com a Universidade Livre de Berlim.  Camila Gonzatto escreve para Goethe.de/Brasilien sobre o Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Consultem o site do Goethe Institut no link : http://www.goethe.de/ins/br/lp/kul/dub/flm/bln/ptindex.htm

Copyright: Goethe-Institut Brasil

Fevereiro de 2014

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Chega de Saudade

Chega de Saudade

Com seu acervo coletivo de saudades, o MIS - Museu Itinerante da Saudade, tem o prazer em abrir, pela primeira vez, as suas portas!

O acervo de saudades, construído junto à população brasileira na França, será  penetrado por  poemas, personagens e notas musicais recolhidos da obra de Vinícius de Moraes. Venham descobrir este patrimônio cultural, emocional, poético, histórico e musical, que permeará as fronteiras da identidade, da cultura e das disciplinas artísticas.

Esta celebração em forma de instalação coletiva em prosa, verso e cantoria, foi criada pela Cie PIED'OEUVRE - que conta com a parceria do músico André Villa. O projeto foi realizado através do apoio da Embaixada do Brasil na França, do Consulado Geral do Brasil em Paris, da Maison du Brésil e da Universidade Paris-Sorbonne.

Para a primeira Exposição do acervo das saudades, nada melhor que o aconchego da Casa do Brasil.


CHEGA DE SAUDADE!

Inauguração da Exposição/Instalação e Celebração Poetico-musical
Sexta-feira 14 de fevereiro às 20hs

Maison du Brésil
Cité Universitaire - 7 boulevard Jourdan 75014

(abertura das portas às 19:30hs).

A ENTRADA É LIVRE


Um brinde estará a sua espera





sábado, 8 de fevereiro de 2014

Memória justa

A busca de uma memória justa em Diário da queda

Carine Figueira (*)

A memória relaciona-se a uma determinada política pelo culto à lembrança na Europa ocidental. Quando vinculado à Segunda Guerra Mundial e à Shoah, o trabalho de lembrar é tido como uma obrigação e encontra sua legitimação dentro de um quadro de justiça, uma vez que corresponde a um sentimento de dívida com as vítimas. Neste mesmo contexto em que a memória adquire forte teor político, uma crítica se elabora contra o que Pierre Nora chama l’obsession commémorative[1], um exercício que alimentaria sentimentos nacionalistas, manifestado a partir de uma memória imposta, aprendida par coeur e celebrada publicamente.  
Paul Ricoeur[2], filósofo que dedica boa parte de sua obra a pesquisar a relação do homem com o tempo, assume que a ideia de uma política pela memória justa é uma de suas preocupações cívicas. Ele chama a atenção para o fato de que a memória enquanto território político tem como finalidade tanto atender a projetos futuros, quanto manter poderes presentes, podendo ser manipulada ao proveito de um indivíduo ou de um grupo. Ora, justamente enquanto território, a memória já estaria inscrita dentro de uma perspectiva ontológica que favorece o enraizamento de patrimônios culturais e de identidades estabelecidas.
Também Tzevan Todorov vem falar, em seu ensaio Les Abus de la Mémoire[3], sobre o que seria um excesso de discurso memorialístico na esfera pública. O autor considera que as sociedades ocidentais democráticas tendem a explorar à exaustão a memória coletiva, encontrando assim uma maneira de opor-se aos regimes totalitários. Se estes regimes tinham como objetivo controlar a informação para levar a sociedade ao esquecimento de fatos e poder então reconstruir a tradição à sua maneira, os governos democráticos adotaram uma política inversa, que tende a cultuar a memória. Todorov afirma que a lembrança excessiva poderia levar à banalização dos acontecimentos e, desta forma, a memória estaria condenada ao apagamento, não mais pela falta, mas pelo excesso de informação.
Ao abordar como temas centrais a Shoah e o judaísmo, Diário da queda propõe reflexões sobre como falar de uma minoria ou de como resgatar uma memória individual e coletiva sem cair no comemorativo, nem tampouco negligenciá-la. É interessante observar como o romance traz o debate sobre uma memória justa para o contexto brasileiro no momento em que a sociedade cria novas perspectivas sobre o problema. Ora, são contemporâneos ao texto de Laub o debate sobre a reparação de uma dívida histórica através das cotas raciais, assim como a recente criação de um acervo de documentos sobre a repressão no período da Ditadura militar, mantidos secretos até então. E podemos falar em uma perspectiva nova porque a reparação de períodos traumáticos do país sempre se deu mais pelo esquecimento que pelo dever de lembrar, e também porque a memória assumiu uma função comemorativa na sociedade brasileira durante muito tempo.  
Desde a formação do estado enquanto nação, surge a procura por uma memória coletiva que possibilite a criação de uma identidade nacional, ideia que irá atravessar praticamente todos os movimentos literários brasileiros. São estas as circunstâncias que oferecem condições favoráveis ao emprego de uma memória comemorativa, que através da criação de mitos e de heróis nacionais que a fundamentam, encontra no herói Tiradentes ou na figura idealizada do índio alguns de seus representantes mais notáveis.
Por outro lado, o esquecimento assopra algumas feridas históricas do país. Neste caso, podemos pensar no apagamento da memória das vítimas do sistema escravocrata, que a partir da abolição da escravatura, teve todos os arquivos oficiais referentes queimados.  Ou ainda, o esquecimento deliberado da memória traumática de períodos políticos como a Era de Getúlio Vargas e, mais recentemente, a Ditadura militar. Em um plano político, a propagação da ideologia de democracia racial e seu consequente sincretismo tende a desconsiderar memórias minoritárias, como a dos negros, a dos índios e a dos judeus no Brasil.
Como já mencionado, no âmbito da literatura, teremos publicações que evidenciam o projeto de criação de uma cultura e identidade nacional.  Mas a partir dos anos 1980 surgem na literatura brasileira obras que virão na contramão destas ideias, tendo como intuito recuperar memórias individuais, ou pertencentes a uma minoria ou grupo específico. O texto de Laub aproxima-se desta última vertente ao resgatar, de alguma forma, um patrimônio cultural judaico, partindo de uma memória individual e familiar.
Tal preocupação contida no romance se manifesta através de inúmeros elementos, tais como o discurso performático do pai do narrador ao falar sobre Auschwitz, ou a relação, ora de empatia, ora de hostilidade, mantida com o personagem João, o colega classe goi[4]. Ou ainda, a negação de um discurso memorialístico praticada pela voz narrativa.  O tema Shoah surge logo nos primeiros parágrafos do texto, quando o narrador evoca a história do avô sobrevivente de Auschwitz. Entretanto, o narrador ressalta, também desde o princípio, que não intenciona tratar do assunto, justificando sua abordagem apenas como um interesse pelas memórias familiares. Negar a intenção de falar sobre Auschwitz, já falando sobre Auschwitz, vem desconstruir esta memória para então reconstruí-la, servindo a alimentar as reflexões sobre o exercício da memória justa que o romance traz.
O empreendimento do narrador é a procura por uma memória individual para o avô, através da qual ele possa entender o que foi a experiência de Auschwitz, e desta forma, entender melhor os mecanismos de agressão e exclusão e as relações de poder. O empreendimento de Michel Laub é trazer para o conjunto de sua obra um texto com o teor histórico de Diário da queda, que o permite falar sobre a responsabilidade de lembrar, além de contribuir com o resgate da memória da comunidade judaica no Brasil, sem deixar de mencionar os perigos da comemoração.

Carine Figueira é estudante de Master 2 na Université Paris-Sorbonne e pesquisa a obra de Michel Laub. Em 2013 defendeu sua dissertação de mestrado 1 intitulada Diário da queda : sobre identidade e memória sob a direção do professor Leonardo Tonus.




[1] Pierre Nora, Les lieux de mémoire, t. III : Les France. De l’archive à l’emblème, Paris, 1993.
[2] Paul Ricoeur, La mémoire, l’histoire, l’oubli, Paris, 2000.
[3] Tzevan Todorov, Les Abus de la Mémoire, Paris, 2004.
[4] Goi é um termo hebraico utilizado pela comunidade judaica para designar os não-judeus