quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Porque és o avesso do avesso



Impressões de leitura de Adriana Lunardi

Gabriela Lopes de Azevedo (*)



Ginny é o começo de Vésperas. É a abertura para nove fins. É o primeiro dos fins. Um conto que trata dos segundos que antecedem a morte da mulher cujo nome lhe dá o título. Não se pode negar a ousadia de narrar o suicídio de Virginia Woolf, ainda mais dando voz à própria Virginia. Porém, a ousadia faz valer a coerência, pois não seria Virginia Woolf se a voz pertencesse a um outro. Virginia construiu uma voz na literatura mundial e deu voz a outras mulheres. Adriana Lunardi apropriou-se disso e trouxe a escritora inglesa com toda a angústia tão própria a ela, e seu suicídio, tão trágico quanto sua própria existência, suscitando em Virginia o que as demais Vésperas trazem: nove mulheres, Virginia Woolf, Dorothy Parker, Ana Cristina César, Colette, Clarice Lispector, Katherine Mansfield, Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald e Júlia da Costa, diferentes causas de morte, diferentes formas de narrá-las, angústias pela morte, angústias maiores ainda pela vida. 



Seria então um livro de contos sobre mulheres? Sobre a morte? Ou sobre a própria literatura? O que foi proposto no livro de 2002 repete-se no romance lançado em 2011. A Vendedora de fósforos começa com "escreverei as lembrança de minha irmã, para falar de mim com mais verdade". Um romance sobre duas irmãs, não se sabe ao certo se uma história de amor ou  de uma disputa. Ou dos dois. Brigas entre dois irmãos compõem a tradição literárias desde a Bíblia. Temos, no cânone brasileiro, disputas entre irmãos em nada menos que Machado de Assis e Milton Hatoun para fazer referência. Mas não havia até então, histórias de amor ou disputas entre duas irmãs. Assim, o livro é narrado em primeira pessoa por uma das irmãs. Nunca se sabe bem qual delas, se é a mais nova ou a mais velha. Num capítulo são adultas distantes. Em outro são adultas em corpos de crianças vivendo juntas com a família. Uma narradora móvel, em um tempo móvel, assim como a família era móvel. Uma família nômade, em que os filhos cresciam em todos os lugares e em lugar nenhum, devido as desonestidades do trabalho do pai. A reclusão da mãe não aliviava as dificuldades e as frustrações.  O irmão recusa sua identidade, só fala na terceira pessoa, até que se afasta da família. A única unidade familiar consiste no talento de dar apelidos para as pessoas. As irmãs crescem nomeando os outros, mas não conseguem nomear a si mesmas. Em Vésperas, Virginia Woolf narra o momento de sua morte, mas a morte de Dorothy Parker é contada por seu cachorro e a morte de Sylvia Plath é lida num jornal. A morte está sempre lá, mesmo que o narrador mude. Já no romance, não se sabe mais quem é a irmã que narra e quem é a irmã narrada. Finalmente, a história de uma é também a história da outra. Deixar a irmã falar é para cada uma delas, falar de si mesmas. 

Além da morte e do ser mulher, o que une os nove contos de Vésperas é o foco em escritoras, em outro olhar, na própria literatura. É a literatura como material para ela própria, é a literatura como redenção da morte dessas mulheres que sintetiza os contos. Assim como no romance, o que une as duas irmãs é o amor e o interesse pela literatura. Mas também as aspirações nas carreiras literárias é um dos motivos que instala entre elas uma disputa velada. O título A vendedora de fósforos já faz referência ao triste conto de Andersen, em que no desespero de se aquecer uma menina acende os fósforos que vendia. A chama e o calor, o alívio passageiro do frio a faz devanear com os sonhos de uma vida melhor. Os fósforos são pequenos instantes de felicidade antes que a menina seja morta pelo frio. A morte é a fuga de todo o sofrimento e é bem recebida, é com a morte que o instante de felicidade despertado na chama dos fósforos se torna perene. Os fósforos das irmãs do romance é a literatura. Robinson Crusoé, Machado de Assis, Érico Veríssimo, Júlio Verne, Zelda Fitzgerald, Proust, os nomes se acumulam conforme as páginas do romance avançam. As referências vão formando um mosaico na narrativa  e a própria vida das personagens se torna um pretexto para falar da literatura. É pela literatura que as escritoras de Vésperas sobreviveram até que a vida para todas elas, de diferentes formas, se tornou insustentável.



   
Gabriela Lopes de Azevedo é graduanda em Letras (Português-Francês) pela Universidade de São Paulo. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciaturas Internacionais) com a Université Paris-Sorbonne.


Assista à entrevista que Adriana Lunardi concedeu ao Blog Estudes Lusophones. Clique aqui.



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