sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Construção

La chute, n° 17, Denis Darzacq


Construção

Por Horácio Dib

Eu caia lentamente, do meu ponto de vista. É sempre bom ser primeira pessoa, temos a melhor ilusão de perspectiva. Na queda, ali, eu fui pela primeira vez a primeira pessoa da minha vida. Pela primeira vez me chamei de “Eu” e não de “Ela”. Se o solo fosse um espelho eu poderia apontar e sem dúvidas me distinguir da multidão. Talvez pelo fato de eu estar caindo na horizontal, mas mais ainda pelo fato de eu ter me descoberto naqueles pequenos instantes. Se eu soubesse que isso aconteceria só ali, teria me jogado mais vezes. Mas não foi por isso que despenquei do meu galho, nem foi vento mais forte ou borboleta violenta. Eu caí porque quis. Porque já não tinha o que mais segurar. Talvez simplesmente caí porque continuei a andar. Da porta da minha casa até a escada. Da escada até o topo do prédio. Da ponta do prédio até o árido chão. As coisas se unem fáceis quando pensamos simples e só ali, naquela réstia de vida, tudo se fazia simples. Afinal, me joguei porque queria servir pra alguma coisa. Queria que me notassem, queria me explodir na contramão atrapalhando o tráfego, queria que vissem minha vida despetalando pelo vento, ser algo. Pra mim, ali, eu era. Era alguma coisa, era rotulável, era perceptível. Era a chamada “suicida”.

         Mas não era a mim quem eu queria chamar a atenção. Era aos outros. Os outros, essa extensão parasita e cancerígena da nossa pele, que pouco entende nosso linguajar que tampouco enxerga nosso rosto, que mal nos distingue dos outros deles. Eu, fadada a viver como uma outra não conseguiria viver. E pra brilhar na vida, percebi, precisava me destacar. Infelizmente seriam segundos minúsculos, minha hora da estrela, que eu agarraria com toda a sede do mundo, segundos menores ainda se vistos de terceira pessoa. Mas não, ali, voando sem asas, eu estava primeira e única. Porém, diferente do meu imediato autoconhecimento, ninguém olhava pra mim. Quando saí de casa ninguém olhava pra mim, mas isso era natural. Ali, no topo, com o pé metade dentro e metade fora da vida, também nenhum dos espectadores me via. Isso poderia ser explicado por eu ser quase parte de uma piada infantil: um pontinho preto em cima de um prédio cinza. Era tão monocromática quando a cidade, minha vida, minha pele, meu prédio. Cinza no cinza, nada se veria mesmo, então continuei. Foi só por não ser vista ali que eu dei o único passo e meu corpo se perdeu no emaranhado de cordas. Minha bailarina se desequilibrou e rolou pelo palco, ainda estupenda, os pezinhos num pas de bourrée eterno, debatendo-se no ar, o tutu transformando-se em flor no meio de um vendaval... Mas mesmo assim, entre berros e em movimento constante para baixo, eu não me destacava. Nenhuma daquelas pessoas me percebeu.

Le saut dans le vide, Yves Klein

         Entenda, eu fiz as contas. Eu moro no centro do centro da cidade que é o centro do mundo.  Centenas de pessoas e carros passam ou engarrafam embaixo da minha janela por minuto. Sem dúvida ali, naquele quadro de segundos pincelado, eu seria vista por dezenas e acertaria em cheio algumas unidades. Alguém precisava perceber, não fazia sentido Alguém devia perceber um corpo que cai. Corpos não caem a toa, não é da condição natural do homem cair. É sim da gravidade regra, mas do homem, que acredita ter o equilíbrio do umbigo e do mundo no próprio umbigo, cair, que seja de uma distancia menor que de um prédio, digamos a distância de uma cadeira ao chão, é uma vergonha publica. Usam a pobre vítima como centro de suas raivas encravadas e descontam chibatadas nas bundas machucadas daqueles que caem, chibatadas risonhas, disfarçadas de gracejos, gargalhadas e dedos em riste, afiadíssimos. As línguas pulam de alegria, envenenadas, os olhos lacrimejam de prazer. Cair nesse mundo é um evento tão grande quanto os apedrejamentos e esquartejamentos com cavalos puxando os membros em praça publica. Joga-se toda a repressão naquele que cai, o que aumenta o peso, o que faz a queda doer dentro e fora. Um homem não pode cair. Nunca, na existência da terra, se viu um homem de terno cair. O terno deve ter algo antigravitacional, ou ainda, para usar um terno você deve ser imposto a vários empurrões. Se você não falhar, você merece a vestimenta. Criança cai. Mulher cai também, salto alto é compreensível. Babaca cai. Homem não. Imaginei, então, que minha enorme queda seria tanto uma ajuda para mim, ao ser percebida, quanto uma ajuda para a população, jogar sobre mim toda raiva oprimida, sujar com meu suco e meus órgãos, tirar aquela tensão no ar com pessoas gargalhando pros meus pedaços espalhados no solo. Ajudar, fazer da vida dos homens sérios que nunca caem algo mais suave.

         Mas nenhum dos meus cálculos, apontamentos e regras da natureza humana faziam sentido quando eu realmente caí. Nesses segundos entendi que há um grande precipício entre a teoria e a prática. E foi irônico cair pensando em precipícios metafóricos.  Assim como na grande porcentagem da minha vida, vi, entre os cacos do espelho no chão que refletiam minha alma e me faziam me chamar de “eu”, que até na morte eu fui falha. Não valia mais a pena, então. Morrer dá um puta trabalho pessoal e social. Imagine os parentes que fingem lágrimas, os meus gatos sem alimentos, meu marido sem sua carne cortada no prato antes de bem apresentada na mesa. Imagine que peso essa morte vã faria na vida do meu filho quando ele estivesse sem dinheiro e conseguisse visualizar os acontecimentos sem a fumaça da droga que ele fumava pra fugir... Imagine a prefeitura tendo que acionar os garis, os coveiros e urubus. Tendo que acionar o Chico Buarque pra fazer uma música só com rimas proparoxítonas sobre um peso morto que explodiu, uma piñata de mau gosto que fraturou mais três pessoas em sua queda e caiu na contramão atrapalhando o sábado...

Sans titre, Biarritz, n°3, Denis Darzacq

         De repente, morrer não fazia mais importância. Não tinha holofote algum. Não ouvi nenhuma mão indo à boca, nenhum grito desesperado, nenhuma compaixão jogada para me apanhar no solo duro. Os homens cinzas, da cidade cinza, em seus ternos antigravitacionais, não olhavam pra cima. Seus olhos eram pra frente e pra dentro. E não havia como me jogar de um prédio deitado, nem me jogar pra dentro de todos. Ninguém enxergava a baleia que iria explodir em poucos segundos no chão, sozinha, sem companhia nem de um pote de flor.

         Fora tudo tão bonito... Me apoiei no extremo do prédio, totalmente ereta, como o cristo redentor abrindo os braços abri também os meus. Um cristo sem chagas, sem coroa, nem cruz. Um cristo marginal, sem importância, sem louros. Um cristo mulher. Também cinza como a cidade, portanto imperceptível. Me posicionei então, como se fosse me jogar pra um nado sincronizado no meio do asfalto e do escarro alheio. Botei minha toca e o pé de pato, sorri pros jurados, e me joguei, perfeita. Senti meus cabelos vivos e negros ondulando como cobras em meu rosto e subindo eternos acima de minha cabeça. Até pensei que seria engraçado se eu ficasse presa em algum ar-condicionado pelos cabelos e quebrasse o pescoço, mas não aconteceu. Senti o vento frenético sussurrar um acalanto em meu ouvido, nanando esse neném-búfalo, acalmando minhas feras e quase, quase dormi. Mas eu precisava estar atenta para ver os outros me verem. No fim, fiquei atenta e sozinha e só eu me vi. Meu único momento de perfeição serviu a mim e ponto. Não, não valeu a pena.

Convergence, Jackson Pollock
         Aí veio o chão. O chão vinha feito bobo, de braços abertos, querendo um cheiro. Vinha que vinha, bole que bole, rebolando a pança na minha direção. Vinha duro, vinha sujo e melado, vinha cheio de gente. Vinha corpo estalado como ovo, vinha sangue explodindo, vinha dentes rolando. E veio, assim. Ainda ouço o som do meu corpo explodindo seus diques no solo. Explodi como um balão cheio de água, todas minhas fronteiras se rompendo em vermelho. Meu ser não existia mais, em uma fração de segundos eu era uma papa endiabrada no solo, um monte avermelhado de carne. Como uma pintura surrealista, escorri por todos os cantos, incompreensível, fantasma. Eu parecia um quadro de Pollock, mas ninguém mais gostava de Pollock. Era ameba, plasma, não era importante, ninguém percebera minha morte, ninguém balbuciara um grito, nem uma interjeição, mão alguma foi à testa nem à boca, nenhuma autoridade foi chamada, nenhum transito ou sábado foi atrapalhado por meu corpo intruso. Não valera a pena, nunca valera a pena. Agora era uma bolha de carne e sangue, olhos desorbitados, cérebro explodido e dentes pra tudo quanto é lado.

         Puta que pariu!, eu gritei, Vocês não sabem como isso dói! Mas ninguém se deu o trabalho de ouvir. Eu estava espalhada pela calçada e um pouco pelo asfalto. Sentia meus órgãos soltos como numa sopa de letrinhas macabra, sentia alguns carros atropelando minha orelha esquerda e percebi assustada que perdera meus brincos na queda. Gritei mais um palavrão, o povo gosta. Mas nem isso pareceu chamar atenção à minha morte. Meu ser desfigurado, incompreensível, digno de um quadro à ser analisado pelo maior crítico francês e ser avaliado como a nova vanguarda da Arte, doía para caralho. Não há discrição ou descrição, ultrapassei os limites do corpo, atingi todos os chacras possíveis, senti o gozo verdadeiro, e toda aquela poesia falsa só fazia arder cada poro e explodir de dentro pra fora. Era tudo mentira, não tinha nenhum alívio, nenhum prazer em ligar-se com o Cosmos. O Cosmos era uma merda, era tudo cinza, era tudo homens de terno, não havia prazer, nem fuga. Ruí, nada era verdadeiro. Lembrei de novo do precipício entre a teoria e a prática e fiquei com vontade de me jogar dele. Doía tanto que pensei sim em me matar mais uma vez.

         Mas ninguém veria, como ninguém viu. E que importância teria? E que importância eu tive? Só me baguncei e fiz doer o que antes não doía ainda. Fiquei puta da vida. Uma bola amassada de carne, osso e tripas puta da vida. Levantei, então, de uma vez só. Toda torta, toda cubista, fui pegando alguns membros que ainda estavam em bom estado. Resgatei aquela orelha amassada, peguei um dos meus olhos porque o outro havia explodido na queda, garimpei um pouco do meu cérebro que grudara no asfalto, juntei numa bolinha de mim. Abaixar assim depois de uma queda daquelas? Nem te conto a dor nas costas! O que a falta do que fazer não faz...


Então parei na primeira vendinha pra comprar um super bonder e fingi não sentir mais a dor pra ver se ela parava. Enquanto o caixa me dava o troco, eu me perguntava filosoficamente como diabos eu cortaria o bife da janta do meu esposo se só tinha encontrado quatro dos meus dez dedos. Bufando, voltei na minha poça de sangue e me prometi que só sairia dali com oitenta por cento da minha mão completa. Ainda não encontrei os mindinhos.

Horácio Dib é graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones

Consultem os outros textos de Horacio Dib nos links abaixo : 



Lien vers le site du photographe Denis Darzac : http://www.denis-darzacq.com/

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