domingo, 16 de novembro de 2014

Um dedo de prosa com Alexandre Vidal Porto


 Por Ryan Stevenson 
Um dedo de prosa com Alexandre Vidal Porto

Neste mês o Blog Etudes Lusophones publica uma entrevista realizada com o escritor Alexandre Vidal Porto em Paris. Assistam aos vídeos em que o autor fala de seu percurso literário, evoca os procedimentos de composição do seu último romance Sergio y vai a América e comenta sua paixão pela obra de Luiz Ruffato. 
Cliquem nos links abaixo

  
Alexandre Vidal Porto nasceu em São Paulo e passou parte da infância e da juventude no Ceará. É diplomata de carreira, mestre em direito por Harvard e ativista de direitos humanos. Viveu em Nova York, Santiago do Chile, Washington, Cidade do México e Tóquio. Mantém uma coluna no jornal Folha de São Paulo e é autor de dois romances: Matias na cidade (Record, 2005) e Sergio Y. vai à América (Companhia das Letras, 2014), ganhador do Prêmio Paraná de Literatura
  
Um pouco de leitura

Sergio Y. vai à América 
Encontramo-nos no salão de chá da Fundação Oscar Americano. De propósito, estacionei o carro longe e fui caminhando pelos jardins. Eram quatro horas da tarde. O dia era de sol, mas não fazia muito calor.
Quando cheguei, Tereza já me esperava. Cumprimentamo-nos com um beijo no rosto. Arrisco-me a afirmar que, ali, desde o início, entre nós, havia um sentimento mútuo de alívio por estarmos finalmente nos reunindo para conversar. Tereza pediu chá preto, e eu a acompanhei no pedido.
Naquela mesa, naquela tarde, as únicas testemunhas do que Tereza falou seriam dois bules, duas xícaras, duas colheres, duas fatias de limão, e eu.
"Uma primeira coisa que eu preciso lhe falar é que eu só estou aqui hoje porque o Sergio era feliz. Se não fosse por isso, acho que não teria resistido. Saber que ele era feliz na época em que morreu me consolou demais. Nem sei o que teria feito se não fosse assim. 
Eu sei que o senhor, como médico, já terá visto muitos casos complicados, mas meus filhos, convenhamos, tiveram vidas especialmente difíceis. Em momentos de desespero, cheguei até a desejar que eles morressem, não importava de que maneira.
Um filho sem a tampa do crânio e o outro com o sexo invertido. Foi isso o que eu produzi. Foi essa a minha contribuição para o mundo.  Uma pessoa superficial talvez não entenda, mas aprendi a ter orgulho dos meus filhos. Geraria os mesmos fetos novamente.
Roberto foi um anjo. Esteve no mundo por nove dias e não deixou nada, absolutamente nada, de negativo. Uma alma pura, sem uma mácula sequer. Eu quis estar com ele desde o primeiro momento. Sabia que ele morreria 'em dias'. Foi o que me disse o médico.
É difícil não amar um filho loucamente quando se sabe que ele vai morrer 'em dias'. Minha atenção era para o meu filho doente. Mas esses meus dias de agonia acabaram logo. Roberto foi embora sem olhar para trás. Deixou mais sensações que lembranças. Fiz o melhor que pude. Recebi um anencéfalo, mas devolvi um anjo.
A morte de Sergio foi pior porque foi inesperada. Demorei para concebê-la. Não aceitava que, depois de tanta dificuldade para ser feliz, ele, na hora em que sua vida estava deslanchando, morresse de uma maneira tão estúpida, tão sem sentido.
Depois que ele morreu, deixei de chamá-lo de Sandra. Salomão fez a mesma coisa. Para a gente, Sandra era Sergio. O nome de quem eu pari era Sergio. Enquanto ele estava vivo, porém, nos referíamos a ele como Sandra, porque ele nos pediu e a Doutora Coutts recomendou.
Quando soube de sua transexualidade, meu primeiro pensamento foi de fracasso. Eu gerava coisas imperfeitas, incompletas. Meu ventre não era profícuo. Era mal acabado, subumano, pensei.
Queria não ter problemas. Queria estar sonhando. Mas a gente não faz só o que quer, correto? O que eu poderia fazer? Tem muita coisa que a gente faz por amor. Eu carreguei o Sergio -ou a Sandra, sei lá- dentro do meu corpo. Não desisti do meu filho porque não conseguia parar de amá-lo.
Valeu a pena. Depois de que foi morar em Nova York, tudo mudou para melhor. Existia a dificuldade da mudança de sexo, mas a pessoa que Sandra se tornou era admirável. Eu sei que era meu filho, e eu sou suspeita para dizer isso. Mas o que ela conseguiu ser como pessoa e estava conseguindo profissionalmente era muito especial. Acho que, de alguma maneira, era o resultado do amor do pai e meu por ele.
Eu não me esqueço de um dia de primavera em que cruzamos o Central Park para chegar ao West Side. Caminhávamos os dois, respirando o ar diferente da nova estação. Isso foi um pouco depois de sua operação. Do nada, disse-me: 'Mamãe, eu nunca achei que chegaria a ser tão feliz quanto agora.'
Dr. Armando, ajuda muito pensar que fizemos um bom trabalho com o Sergio. Não soframos por ele. Ele não gostaria disso. Ele conseguiu ser Sandra. Era o que ele queria. Era feliz. Conseguiu não ter problemas de consciência. Era ótimo vê-lo tão empolgado com o restaurante, vê-la tão bonita. Parecia uma modelo. Tinha valido a pena.
Algumas vidas são curtas. Outras, começam mal e melhoram. A vida de Sergio foi a combinação desses dois tipos. Nós apoiávamos o Sergio no que podíamos. Não havia limites. Havia distância física. Mas isso era bom para o tratamento, dizia a Doutora Coutts.
O senhor não chegou a vê-lo, mas, acredite em mim. Se a visse, sentiria orgulho.


Por Ryan Stevenson 



Acidente de trânsito sem vítimas
Por Alexandre Vidal Porto

"Incomoda se eu sentar no banco da frente? Estou indo ali para a João Cachoeira, quase esquina com a Nove de Julho, sabe onde é?
O senhor me desculpe, mas eu estou precisando desabafar. Se não quiser, nem preste atenção nas loucuras que eu vou falar. O senhor está vendo que eu sou um cara normal. Lá em casa, sempre fiz tudo direitinho. Até participar de Encontro de Casais com Cristo eu participei.
Sempre gostei mais de sexo do que ela. Desde o começo do casamento, já dava para notar. Muitos casais são assim, o senhor sabe. Eu já estava até conformado com a ideia de passar a vida me trancando em banheiros, olhando fotos de gente que eu nunca encontraria, lendo histórias que nunca aconteceriam comigo.
Mas, um dia, minhas fantasias venceram a minha força de vontade. O senhor sabe como é a cabeça da gente, não dá para controlar. Eu tentei resistir, mas a resistência tinha prazo de validade. Era só uma questão de tempo. A partir de certo ponto, não consegui mais me segurar.
Logo no primeiro encontro fora do casamento, entendi que a minha vida sexual era uma porcaria. Parecia que eu tinha passado a vida toda vendo o mundo numa telinha pequena de TV, daquelas de portaria de prédio, com um bombril na ponta da antena para melhorar a recepção ruim. Sabe como é? E de repente, lá estava eu: vendo o mundo em uma TV gigante de 200 polegadas. Me senti diante de uma tela de cinema. Aí não teve mais jeito. Descobri o sexo tarde. Isso é um problema, porque o corpo ficou pedindo para recuperar o tempo perdido. Esse diabo da internet me mostrou coisa que eu nunca nem tinha imaginado.
Comecei vendo foto pornô, mas hoje gosto das salas de bate-papo. É quase um vício. Entro nas salas nas noites de sexta, quando minha mulher vai dormir. Ela fica tranquila, porque eu estou esperando nossa filha caçula voltar das baladas dela, e dorme pesado. É aí que eu tenho mais segurança para ficar batendo papo e olhando sacanagem. ("Moacir é uma coruja, não dorme nada, fica até tarde mexendo na internet. Quando ele vem para a cama, eu já estou dormindo faz muito tempo.")
O apelido que eu uso nas salas é MaduroMoema. No começo do ano, conversei com um cara muito legal. O apelido dele era AstroBH. O senhor sabe, um cara assim, estável, de bom nível, formado. Trabalhava com comércio exterior. Mora em Belo Horizonte, mas vinha a São Paulo umas duas vezes por mês, a negócios. Desculpe a franqueza, mas não vou ficar com frescura com o senhor. Para mim, nestas coisas de homem com homem, beleza não conta muito, não. Eu acho mais importante ter uma aparência normal e um aspecto limpo. Concorda? Não curto caras que dão pinta. Cara com brinco? Nem pensar. Tatuagem, só se for muito discreta. Se for de fora e estiver em hotel, melhor, que é mais sigiloso.
Com esse cara, o papo rolou bem desde o começo. Primeiro, pelo Messenger, a gente teclou e trocou fotografias de rosto e de corpo. Nessa mesma noite, mais tarde, a gente conversou e fez umas sacanagenzinhas na câmera. Na última semana de março, ele veio a São Paulo, e a gente se encontrou.
Sabe aquela insegurança que dá quando a gente entra com a amante num motel? O medo de que alguém esteja passando e reconheça o carro? O senhor sabe como é, né? É parecido. Talvez seja até um pouquinho mais forte. Mas, com o tempo, a gente racionaliza. O medo passa quase completamente.
Lembro que, no dia em que encontrei esse cara, saí mais cedo do trabalho. Para não me atrasar, nem procurei vaga na rua. Fui direto ao estacionamento pago. Cruzei a recepção rápido, olhando para o chão, para não ter risco de ninguém me identificar. No elevador, senti meu coração bater mais forte. Enquanto caminhava no corredor, achava que eu era especial. Nem me ocorria que vários encontros semelhantes ao meu aconteceriam naquele dia em outros hotéis de São Paulo.
Ao vivo, ele era a mesma coisa do que na foto. Me ofereceu uma cerveja do frigobar. A excitação que a gente sentiu no vídeo se confirmou, e, na segunda cerveja, acabamos nos beijando. Aí eu não vou entrar nos detalhes com o senhor porque não vem ao caso. Basta dizer que a gente transou a tarde inteira. Até hoje me lembro.
O medo voltou no elevador. Só me senti seguro mesmo quando entrei no carro e saí do estacionamento para a rua. Disse para minha mulher que havia ido olhar um terreno em São Miguel Paulista. Tinha ficado preso na marginal por causa de um acidente de trânsito. Reclamei de dor de cabeça e fui direto para o chuveiro. Fiquei pensando no que eu tinha feito e digo para o senhor que, em geral, é melhor nem pensar muito sobre isso, porque é muito louco imaginar que você esteve pelado, tendo intimidade com alguém que nem conhece direito. E você abraça, beija, lambe, chupa. Uma maluquice.
Esse cara, por exemplo, eu nunca mais vou ver. Uma pena que perdemos o contato. Era um cara muito gente fina. Sempre penso nele. Acho que, depois de nosso encontro, ele mudou de emprego e parou de viajar a São Paulo. Uma vez, me ligou para marcar algo, mas eu não podia falar. Depois disso, nunca mais ligou.
Lá em casa, ninguém desconfia de que eu faço isso. Imagina. Destruiria o meu casamento. Sou cuidadoso, mas também não vou ficar paranoico. Afinal, as estatísticas estão a meu favor. Ninguém precisa ficar sabendo. É melhor para todo mundo, o senhor não acha? Até fui a uma psicóloga por causa desse problema, e ela me disse que eu criava uma vida dupla para me reinventar. Aí, eu falei: Doutora, não é nada disso, não. A senhora não compreendeu nada. Eu não quero me reinventar. Ao contrário: o que eu quero é me desinventar. O senhor me entende, né?
Se der para encostar ali, do lado direito, logo depois da farmácia... Olha, tá certo. Muito obrigado. Um bom dia para o senhor também."

Publicado na Folha de São Paulo ( Ilustríssima) em 29 de maio de 2011


 Por Ryan Stevenson 

Bibliografia sobre Sergio Y. vai à América


"A maior surpresa do ano (...)Vale muito a leitura."
Raphael Montes, Blog da Companhia das Letras

"Não sei se muitas pessoas estão falando sobre esse livro. Se não estão, deveriam»
Carol Bensimon, Blog da Companhia das Letras,

"O livro é narrado com elegância e ritmo ágil, como um thriller em que se desenrola a história de Sergio"
Elias Fajardo, CadernoProsa, O Globo

"O livro descreve a jornada transformadora de um jovem paulistano que vai morar em Nova York para mudar radicalmente de vida."
Fabio Victor, Ilustrada, Folha de São Paulo

 "O livro de Alexandre Vidal Porto é um achado."
Paulo Camargo, Caderno G, Gazeta do Povo

"Flagrei-me demorando a ler as últimas páginas, amarrando a leitura e tentando ao máximo fazer com o que o livro nunca acabasse."
Laura Abdon, Catavento de ideias

"Eu não conseguia largar a leitura"
Arthur Tertuliano,Posfacio





Nenhum comentário:

Postar um comentário