sábado, 29 de novembro de 2014

A herança japonesa em Catarina Gushiken

Fotografia  : Jefferon Coppola 
A herança japonesa em Catarina Gushiken

Por Beatriz Lordello (*)

O Brasil é palco da maior imigração japonesa no mundo. Contando com 1,5 milhão de nikkeis, a cultura nipônica deixou marcas profundas na sociedade brasileira, bem como em sua produção artística. Um dos exemplos mais interessantes da atualidade é o trabalho da artista nipo-brasileira Catarina Gushiken que não dissimula sua relação com sua ascendência. Desde os primeiros traços, observa-se na sua obra a influência das estampas japonesas, do Ukiyo-e e do Shunga-e, como atesta a sensualidade de suas personagens femininas, próximas das gravuras eróticas de Utamaro. Em West encouters East, documentário que mostra o encontro da cultura asiática com o Brasil, a artista afirma: “ Sou uma mestiça apaixonada pela cultura oriental, uma pessoa com referências contemporâneas (...), e do Japão e do Brasil...”Os trabalhos de Catarina Gushiken inserem-se num novo tradicionalismo que, no seu caso, se manifesta pelo olhar voltado para o país de origem na vã tentativa de buscar uma impossível identidade. Catarina começou seu percurso atuando no campo da Moda. Ex-diretora criativa da marca “Cavalera”, dedica-se hoje exclusivamente a seu próprio estúdio, às aulas que ministra e a projetos artísticos que, como em seus últimos trabalhos, trazem à tona novos elementos da arte japonesa.

Sede, Catarina Gushiken, acervo da artista

Onde nasceu seu interesse pela arte ? Houve alguma influência da sua própria família?

Minha mãe engravidou cedo, e teve que voltar logo ao trabalho, por isso, fui criada pelos meus avós japoneses. Como primeira neta, tinha muita liberdade na casa deles ; desenhava por todas as paredes e gostava de mexer em tudo. Usava as roupas e quimonos de dança da minha avó, passava horas olhando as fotografias antigas do meu avô. Essas fotografias, retratavam o Japão e as colônias de imigrantes japoneses aqui no Brasil. Assim, em meio a esses objetos, adornos, músicas, dança, e com o perfume da comida japonesa da minha avó, surgiu meu amor pela arte. Minha avó foi criada na colônia do Manabu Mabe, e meu avô era fotógrafo, por isso me davam muito incentivo, e sem dúvida, foram minhas maiores referências.
Ryu, Catarina Gushiken, acervo da artista
Você foi recentemente escolhida para ser publicada junto com outros importantes ilustradores de Moda no livro da Editora Taschen – ILLUSTRATION NOW, Fashion. Como foi isso? Você ainda vê no seu trabalho uma ligação muito forte com a Moda?

Em 2011 tive trabalhos publicados no Illustration Now, e no ano seguinte, o editor Julius Wiedemann decidiu fazer uma edição Fashion do livro, e me convidou para participar novamente. Desenho figuras femininas desde a infância, e por influência das roupas da minha avó, as estampas e os adornos se tornaram recorrentes em minhas composições. Além disso, trabalhei sete anos com moda. Também sou fascinada pelas Bijingas, que são as figuras de beleza do Ukiyo-e. Acredito que tudo isso de certa forma, se relaciona com a moda. Mas me sinto mais ligada a construção das imagens de beleza, através de tudo que envolve o feminino do que a moda em si. Não tenho um olhar modal; mesmo quando trabalhava com moda, nunca me interessei pelas tendências. Gosto de pensar nas formas, cores, texturas, ritmos e movimentos ligados ao universo feminino; mas acredito que isso precisa de um tempo de maturação, que às vezes pode ser lento. Por isso acabei me desligando da moda, porque a indústria não te dá esse tempo.

O interesse pela arte japonesa sempre foi latente?

Sim. Acho que está no sangue e na energia ancestral!

Fluidez Incompressível, Catarina Gushiken, acervo da artista
Há em seu trabalho alguma influência dos surrealistas ?  

Sim, durante estes anos fui influenciada por diversos artistas, e em determinado momento, muito fortemente pelas figuras do Dalí. Também pelo Egon Schiele, Mucha, Toulouse Lautrec, Klimt, as gravuras do Ukiyo-e, com Utamaro, Hiroshige, Hokusai... Atualmente tenho pesquisado muito os pintores chineses que influenciaram os japoneses. Alguns deles são Guo-Xi e Shi Tao, e também tenho visto muita coisa da Escola Rimpa que influenciou o Klimt. Voltei a revirar os arquivos de fotografias do meu avô, e tenho feito alguns auto-retratos como referência para pintura das minhas novas Bijingas. Esta é uma nova série que está nascendo.

Jardim da Gueixas, Catarina Gushiken, acervo da artista

Você atuou no IED e hoje, dá aulas na “Sala Ilustrada”. Como encara o seu trabalho de professora?

Como professora, busco ouvir o aluno e o ajudar com suas ideias. Passo a técnica, mas gosto de trabalhar a poética pessoal de cada um. Assim, as aulas são um momento de troca. Tem uma frase do maestro e também professor Koellreuter queme inspira muito. “Aprendo com o aluno o que ensinar.”
HE,Catarina Gushiken, acervo da artista
 O que você pensa da produção artística brasileira contemporânea?

Tenho muito orgulho de ser uma artista brasileira e mestiça. Existem muitos talentos na Arte contemporânea brasileira. O Brasil é um país enorme, e existe uma grande diversidade cultural ; cada região tem costumes típicos, e isso é muito rico! Essa energia multicultural, nos traz muita inspiração e movimenta nossa criatividade, assim como algumas dificuldades que enfrentamos, nos ajudam com a flexibilidade e o improviso.

Akai ito - Catarina Gushiken, acervo da artista
Existem artistas brasileiros que participam do seu “painel de inspiração”?

Me inspira muito o trabalho das artistas Edith Derdyk e Sandra Cinto. Admiro muito a obra e a trajetória da japonesa naturalizada brasileira Tomie Ohtake. Também tenho como referência outros três grandes artistas brasileiros que são meus professores: Evandro Jardim, Gilberto Salvador e Rubens Matuck.

Quais foram as principais  exposições de que participou?

Participei da Exposição Construtores do Brasil – Museu da Câmara em 2012; Exposição individual no MUBA – Museu Belas Artes – 2012; Exposição Entre Mundos – IQ Art Gallery – 2011; Exposição Kasato Maru – SESC – 2008. Em 2012 fui convidada para participar do documentário West Encounters East, que mostrou a integração contínua de tradições asiáticas na cultura latino-americana, ao lado de grandes nomes como Tomie Ohtake, Yutaka Toyota e Takashi Fukushima. O documentário estreou na Flórida e depois percorreu diversos países. Estou preparando uma nova série, e pretendo realizar uma exposição em 2015, ano de comemoração de 120 anos um tratado de amizade entre Brasil e Japão. Estou me dedicando muito nesta nova série, e sonho um dia realizar uma expo fora do Brasil.

fotografia de Dani Sa 

(*) Beatriz Lordello tem formação técnica em Estilismo e Coordenação de Moda pelo SENAC. Atualmente é graduanda em Letras (Português- Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de Intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional ) com a Université-Paris Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones.

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