sábado, 11 de outubro de 2014

Crônicas do Inferno Permanente


Heróis

Arlindo Gonçalves (*)

“As fábricas, com promessas de progresso, vieram e acabaram com os campinhos...”. Eu interrompo a leitura quando anunciam a próxima estação. Ainda não é a minha, mas falta pouco, nem vai dar tempo de terminar a leitura. Uma editora me pedira um conto sobre futebol. Eu possuía algumas coisas bem antigas sobre o tema e pretendia reler pra ver se poderia interessar, se seria viável de publicar. Escolhi uma narrativa chamada “O enfrentamento”, certa história bastante velha que fiz pra abordar a várzea. Então, eu levava, ali no metrô, uma via impressa que queria revisar, acertar aparas e, com isso, ver se atenderia ao pedido de publicação.
Depois da estação onde estava, eu chegaria ao meu destino, teria de descer e fazer uma baldeação pro trem que me serviria pra ir ao extremo leste da cidade, ao meu bairro de infância. Guardei o papel e me preparei pra descer.
Antes disso, pela manhã, acordei, tomei café, preparei uns documentos numa pastinha. Em meio à papelada, pus a tal via impressa do meu conto de futebol. Tudo arrumado, tomei caminho. Eu não trabalharia; tirara o dia pra resolver uns negócios de família: a venda da antiga casa onde moramos por muito tempo.
Depois da morte do meu pai, o imóvel ficou alugado em benefício da minha mãe. Aí, surgiu uma proposta interessante de compra. Acabamos topando e eu me prontifiquei a formalizar toda a burocracia, juntar vários documentos, tirar cópias autenticadas deles, rever formulários, certidões, etc. De posse de tudo, agendei um encontro com a advogada que nos assessoraria e com os representantes da imobiliária pela qual a casa estava alugada. Tudo teria de ser formalizado em cartório.
Apesar de saber que estávamos fazendo um bom negócio, fui acometido de certa melancolia. Aquele era o único imóvel que tínhamos e, nos dizeres da minha mãe, verdade absoluta: “O único bem material que seu pai deixou”. Mas a decisão já havia sido tomada, bastando o desfecho burocrático que eu estava indo resolver.
Como eu sabia que a distância a percorrer seria longa (de ônibus, metrô e trem), pensei em gastar o tempo com a revisão do conto. Levei, também, um gibi pra ler quando o trabalho no texto acabasse e eu ainda tivesse caminho a cumprir.

***
“O barulho de suas máquinas prometia os tantos empregos de que as famílias daquele bairro suburbano necessitavam...”. Já estou no trem, sentado, com mobilidade e conforto pra revisar meu conto. Leio rapidamente os dois primeiros parágrafos enchendo o papel de correções, anotações, acréscimos, supressões. Quando alcanço o meio da narrativa, decido parar de fazer as indicações dos acertos. Faço apenas uma marca maior e indicativa de onde eu parara de revisar.
Antes de guardar o papel, dou uma relida num dos trechos iniciais: “As fábricas, com promessas de progresso, vieram e acabaram com os campinhos...”. Recordei, então, que eu escrevera aquilo a partir de umas observações que fizera de um velho campo de futebol que vi sumir do bairro onde moro.

Eu sempre passava em frente a ele, via a molecada jogando bola, se divertindo bastante. Nostalgia pura: passava todo dia por ali e ficava me recordando dos meus tempos de moleque, quando eu jogava futebol com os amigos. Eu era péssimo, um verdadeiro perna de pau...
E os anos passaram e as coisas começaram a mudar (pra pior) no bairro. Compraram o terreno, extinguiram o campinho e construíram uma fábrica no lugar. Claro, os moleques boleiros sumiram. Então, quando escrevi “O enfrentamento” e outras pequenas histórias sobre futebol, fiz aquele parágrafo em resposta ao desaparecimento do campo.

***
“A bola? Costuras gastas, oval. O campo? Sulcos malfeitos no terreno para delimitar laterais, traves, escanteios, pequenas e grandes áreas. Futebol era a diversão daquela molecada. Só que ele odiava o esporte...”.
Eu jogava bola. Quem me conhece, hoje, não consegue acreditar nisso. Mas é verdade, eu adorava jogar. Só que gostar não basta. Sempre fui um péssimo boleiro. Ao contrário do meu protagonista de “O enfrentamento”, que detesta o esporte, eu gostava muito de bater bola quando era moleque.
Mas como afirmei, eu era um perna de pau, uma desgraça em campo. Por isso, não fui longe nessa área. Na época, ninguém ligava pra isso; o lance era se divertir. Meus parceiros de futebol eram igualmente medonhos em campo, todo mundo ali judiava a pelota.
“Só que ele odiava o esporte. Logo, o pai notou e passou a infernizá-lo: ‘Esse menino tem de jogar’. Foi quando Roberto percebeu que o melhor a fazer seria fingir. Começou a se entrosar e, mesmo ignorando as regras, não tendo qualquer malícia, sendo mais um estorvo do que uma vantagem pros times, ele ia em frente...”.
Eu, quem sabe, não fosse um estorvo pros meus parceiros de bola, tal como era o Roberto, personagem do meu conto. Fora do campo, no entanto, fui possivelmente um estorvo, chamado de estorvo, talvez, de tanta repetição, virado mesmo um estorvo. Ouvi muito essa palavra por parte do meu pai... Isso ocorria no açougue dele e onde eu tentei trabalhar pra ajudar nos negócios. Não daria certo...

***
O trem avançava. Guardei o conto e comecei a ler a história em quadrinhos. Era uma da Marvel; de super-heróis, portanto. Adoro HQs. Elas são uma longa história de amor, talvez, começada por eu ter sido um estorvo...
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Eu falei que ajudava meu pai no açougue. Disse ajudar meramente como termo figurativo e facilitador pro entendimento. A única atribuição que eu tinha era ficar nos fundos do estabelecimento e por lá, já que nada produtivo teria a fazer, me divertir com o reflexo deformado do meu corpo nas superfícies espelhadas dos frigoríficos. Explico por quê.
Meu velho não deixava eu mexer nas carnes – por segurança (das carnes). Ele até tentou me nomear caixa do estabelecimento, mas não deu certo – eu não conseguia fazer contas de cabeça (não tínhamos calculadoras). Foi quando descobri histórias em quadrinhos nos jornais velhos que usávamos pra embrulhar as carnes. Mas meu pai me proibiu de ler, alegando que as tirinhas retardariam meu desenvolvimento intelectual, aparentemente, muito baixo, o que preocupava a família. Sem ter nem isso pra fazer, virei o citado estorvo...
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Naquela época, as HQs eram tidas como vilãs da juventude, corrompedoras da boa formação de caráter, deformadoras dos bons costumes, fábricas de delinquência. Uma vez classificadas como subversivas, natural foi meu pai, ao me pegar em delito de leitura daquele gênero prejudicial, me proibir de lê-las. O resultado é que só me restou brincar de deformado nas portas reflexivas dos frigoríficos...
***
O tempo passava sem grandes variações. Nada mudava. Nada de novo acontecia. Eu já era um verdadeiro ator expressionista nos palcos que eram as portas dos frigoríficos.
Por esse período, acho que meu pai começou a ficar preocupado com a minha ociosidade. Penso que ele achava que eu estava emburrecendo por falta de atividade. As minhas péssimas notas na escola, ano por cima de ano, seriam evidências contundentes da teoria do meu velho. Realmente, eu estava ficando limitado. Foi, portanto, nesse momento de reflexão, que ele teve a melhor ideia até então.
***
A questão foi a seguinte. O açougue sempre necessitava de pequenas coisas pra funcionar: jornais velhos pra embrulhar as carnes, cambiar notas graúdas por menores a fim de dar os trocos aos clientes, plásticos pra envolver as carnes antes de pô-las nos jornais. Além disso, meu pai precisava ir constantemente à farmácia pra comprar remédios e cuidar de uma perna machucada por um acidente de carro.
Como necessitava administrar tudo isso, ele pensou que eu pudesse ajudá-lo com tais afazeres prosaicos, mas que exigiam tempo e disponibilidade de locomoção. Então, fui nomeado comprador oficial do açougue. Funcionava assim, por exemplo: um dia, ia à farmácia, adquiria os remédios e, na volta, entregava-os ao meu pai; em retribuição, eu ganhava parte do troco do dinheiro usado na operação. Noutro exemplo, quando o açougue precisava de papel pra embrulhar as carnes, lá ia eu pra banca de jornais fazer negócio. Foi num dia desses que eu fiz a grande descoberta...
Era bem cedinho quando entrei na banca. Dirigi-me ao dono e pedi jornais velhos. Ele solicitou que eu esperasse enquanto ia buscar o pacote com a velharia. Fiquei mirando as revistas dependuradas. Foi quando eu as vi pela primeira vez...
Lá estavam elas: inúmeras revistinhas de super-heróis; as HQs da famosa Marvel Comics, que passaram, naquela época, a ser publicadas pela Editora Abril. Os primeiros gibis a sair foram “Capitão América” e um almanaque de nome meio tacanho, mas legal: “Heróis da TV”.
Com as moedas que tinha juntado, dava pra comprar apenas um dos dois lançamentos. Decidi pela Heróis da TV. Comprei. Aquisição arriscada...

***
Na volta ao açougue, levava a revistinha escondida em meio aos jornais velhos. Nada poderia dar errado. Se meu pai descobrisse que o dinheiro que eu ganhava dele estava sendo usado pra comprar HQs – aquela tão difamada leitura juvenil –, seria a minha morte precoce.
Ao chegar ao açougue, tratei de enrolar a revista numa blusa que deixara perto dos frigoríficos. O ardil deu resultado. À noite, em casa, quando meu pai dormiu, li de uma sentada só a Heróis da TV.
***
Passei a colecionar o almanaque. Mensalmente, eu juntava as moedinhas obtidas nos pequenos serviços que fazia e ia torcendo pra que a nova edição chegasse.
O dinheiro que conseguia não dava pra comprar a do Capitão América, também. Isso não era lá um problema pra mim; eu me contentava com o que tinha. Problema mesmo eu tive foi em casa pra esconder do meu pai as revistas. Os meses iam passando e a coleção aumentava rápido...
Geralmente, algumas histórias duravam meses e meses pra acabar. Ou seja, a parte um começava na edição de março, por exemplo, a dois vinha na de abril e assim por diante.
O negócio de HQs, pra Editora Abril, começou a prosperar. Logo, dado o sucesso dos dois títulos iniciais, surgiu uma terceira revista: “Superaventuras Marvel”.


Eu até tentei juntar trocos pra experimentar o número de estreia desse novo almanaque, mas o que eu conseguia arrecadar mal dava pra uma, quem diria pra duas revistas por mês. Passado um tempo, minha coleção secreta era gigante, mas continuava a ser a de um único título mensal.
Tão logo prosperaram ainda mais as HQs da Marvel, pelas mãos da Abril, novos títulos mensais surgiram: “Homem-Aranha” e “Incrível Hulk”.
Por essa época, meu pai, já bastante doente, teve de se aposentar por invalidez e fechar o açougue. Perdi meu ganha pão (ganha revistas)...

***
Após a derrocada dos negócios da família, os poucos trocos que me sobraram serviram pra mais uma ou duas revistinhas. Foi quando eu soube que havia um senhor que vendia, comprava e trocava revistas usadas. O homem trabalhava embaixo de um viaduto perto de casa.
Assim, por precisar de dinheiro, arrumei uma sacolona, pus todas as Heróis da TV dentro e fui a pé ao encontro do tal comerciante de gibis. Com muito pesar, vendi toda a minha coleção por um preço humilhante...
Mas duas coisas boas a dizer. Eu me tornara leitor fanático desde então. A outra coisa era que eu prometera a mim mesmo que, assim que começasse a trabalhar, voltaria a ler HQs. E essa promessa eu cumpri. Até hoje eu sou assíduo leitor...

***
O trem prosseguia. Enquanto eu lia, de tão entretido, nem reparei quando um menino se aproximou de mim, sentou-se ao meu lado e, todo curioso, ficou olhando o meu gibi. Então, falou:
“Tio, que gibi é esse?”
Antes de eu responder, ouvi, vindo do outro banco:
“Deixa o moço ler sossegado, filho, não incomoda!”

Ele nem ligou pra advertência da mãe. Apenas olhava pra HQ com enorme interesse; parecia maravilhado. Eu permiti a ele ver à vontade a revista, fui mostrando cada herói ao garoto:
“Esse é o Homem-Aranha.”
“E esse outro aqui?”, perguntou.
“O vilão da história. Ele se chama Duende-Verde.”
“Eles vão brigar?”
“Sim, o Homem-Aranha vai lutar contra o Duende. Vamos continuar vendo o que vai acontecer.”
Continuamos folheando a HQ. A mãe do menino não se incomodou mais e prosseguimos a viagem de trem e pelas aventuras em quadrinhos.
Desde os tempos mitológicos somos inspirados pelo altruísmo, pelo drama. Então, os heróis nos fascinam, representam o melhor que o esforço humano pode empreender.
Aquela situação do trem era a prova disso e me fez lembrar outra história de infância, mais uma relacionada às HQs. Dessa vez, engraçada, ainda que trágica...
***
Certa vez, antes mesmo das revistas da Abril, lançaram um álbum com as personagens da Marvel. A gente não comprava as figurinhas na banca de jornais, não. Elas vinham era no papel de chicletes. Comprávamos as gomas de mascar e cada uma delas vinha embrulhada com um desenho de um personagem, seja herói, heroína, vilão ou vilã. Bastava, então, colar no álbum, que trazia um texto explicativo logo abaixo de cada figura. Ali eram resumidos os principais fatos sobre cada personagem.
Quando eu soube da coleção, tratei de comprar um exemplar do álbum e um punhado de chicletes. Em casa, abri tudo, nem masquei as gomas (nunca gostei muito delas) e fui conferindo cada uma das figurinhas. O momento foi mágico. Fiquei admirando todos aqueles seres coloridos, fortes, heroicos, alguns tristes, mas todos realmente interessantes pra um moleque sonhador como eu.
Depois de verificar cada cromo, peguei cola branca e passei um tempão fixando as figurinhas no álbum e lendo as legendas. Quando reparei, já era bem tarde e sentia sono. Fui pra cama.
***
No dia seguinte, logo depois do café, peguei meu álbum pra curtir um pouco mais. Então, reparei que algo estava estranho, errado. Percebi que todas as figurinhas estavam enrugadas, deformadas, algumas até furaram e a tinta delas escorrera manchando tudo. O cenário era pavoroso...
Folheei diversas vezes as páginas onde eu colara os cromos. Tive certeza de que cometera uma enorme asneira quando decidi ler a última página, a que trazia a ficha técnica, os dados da editora e as instruções da coleção. Senti-me um enorme estúpido por não ter lido as dicas antes de colar o material.
A questão: as figurinhas não eram feitas pra serem coladas no álbum. As instruções diziam: “Cromo decalque: vire sobre a superfície e raspe até fixar na página”. Que estúpido eu havia sido... Um paspalho fanfarrão e, sobretudo, burro... Não era preciso usar cola. Estava escrito ali e bastava ter lido, não ter sido tão afobado. Mas era inútil lamentar. O álbum estava arruinado, atacado pelo ácido da cola que eu mesmo pusera ali.

E o pior era que eu não tinha mais dinheiro pra comprar outro... Nenhum vilão em toda a história da Marvel havia conseguido destruir os heróis como eu acabara de fazer... Então, restou a resignação, o sabor da derrota enquanto...
Tudo escurece.

Dog

Nota: Esta crônica é uma das que consta no meu livro inédito Sem chuteiras,e sem unhas, eu joguei no pior time do mundo.



Trilha sonora dessa crônica:
“Heroes” – David Bowie

 “No more heroes” – The Stranglers


Arlindo Gonçalves, fotógrafo e escritor. Publicou Dores de perdas (2004), Desonrados (2005), Desacelerada mecânica cotidiana (2008), Corações suspensos no vazio (2010). Parceiro de Luciana, também fotógrafa e escritora. Com ela, mantém o projeto “Diálogos com a Cidade”, tendo realizado algumas exposições e publicado o livro de fotos e de poesias Carinhas(os) Urbanas(os) (2009) e In vino férias (crônicas e fotografia, 2013).

Resenha de Carolina Vigna :

Artigo de Leonardo Tonus sobre Arlindo Gonçalves e Luiz Ruffato

Calos nas mãos de diarista : conto publicado em francês pelas Editions Anacaona

Le massacre de la Sé sous la plume d’Arlindo Gonçalves, par Paula Anacaona



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