quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Uma família inteira

Théo Mercier, La famille invisible
Uma família inteira

Por Paula Fábrio

         Com um toque suave mas sem afeto, certificou-se de que o bebê ainda estava ali. O bebê tinha três anos. As pernas não muito firmes. As pernas balançavam no ar. Enquanto o vento, o vento balançava os cabelos. Afastou-se dois passos. Podia afastar-se mais. Afastou-se. Foi até a cozinha. Baixou os olhos, não se arrependeu, apanhou um suco. Levantou os olhos e nada acontecera. Tão solitário. Ele e o bebê. O bebê não sabia onde estava. Mas ele, o irmão, sabia. Tinha tudo às mãos. Pensando bem, nem tudo. Mas poderia voltar a ter. Certificou-se: o bebê estava no parapeito.
         Aproximou-se devagar. Para não assustá-lo. O bebê era uma menina. Vestia um pijama de ursinhos. E de repente, o bebê mexeu o bumbum. Mas não fez diferença. O gesto. O gesto não fez diferença. Pensou que os pais jamais lhe perdoariam. Por um instante lembrou-se. Lembrou-se de quando empurrou o carrinho na direção do lago. Fazia tempo. Naquela época, bebê era realmente um bebê. A mãe deixara que cuidasse. A mãe era uma pessoa feliz. A mãe era insuportável. Porque era feliz. E o carrinho, tentador. Tinha rodas. Como todo carrinho. Mas aquelas rodas fixadas entre a terra e o pedregulho, eram rodas que deslizariam facilmente. Bastava um impulso.
         Quando a mãe insuportavelmente feliz retornou com a pipoca, os grãos saltavam em câmera lenta do pacote, suas pernas ensaiavam um passo de ginástica rítmica, até que a bolsa voou, a pipoca em dezenas de grãos, e por fim o saco de papel. Seus pés tocaram a terra, em saltos, e a mão âncora puxou o carrinho, cuja roda dianteira experimentava a água do lago. Mas agora as coisas estavam sob controle. Sob seu controle. E o bebê, o bebê não estava mais no carrinho, estava no parapeito. Do décimo segundo andar.
         Na sala, o som do rock. Ninguém escutaria. Não obstante, pensou: o bebê precisava de música. Música para bebê. Não essa parafernália de Rolling Stones. Voltou à lavanderia, ao parapeito. Tocou-lhe as pernas com segurança. Mas o bebê estava seguro, seguro de si. Seguro como somente seria possível a quem recebia diariamente doses de Danone, chocolates Nestlé e Vila Sésamo. Tocou-lhe a cintura com mais força. O bebê sorriu e entregou-se a seu peito. Por misericórdia ou como parte do plano, não sabia ao certo, fechou a vidraça, chegando as duas partes bem próximas do bebê. Para aumentar-lhe a segurança. Mas o bebê nem precisava disso. O bebê não tinha nada a ver com o irmão. O irmão sorriu com certa ironia e lembrou-se da flauta doce. Sabe o acorde? Falou ao ouvido do bebê. O tema da novela. Melancólico. O bebê tocou, nota por nota. Vou deixar você aí, disse, já afastando-se novamente. Quem sabe seria agora. Com o bebê distraído.
         Moveu-se em silêncio. Não olhe pra trás, não veja o que estou fazendo. Combinado? O bebê já não se importava. O bebê continuava o tema da novela das oito, cada vez mais alto, para que os vizinhos escutassem. Para que os pais escutassem.
         Os pais estacionavam o carro lá embaixo. Os pais vinham com sacolas imensas da feira, com frutas e o pintinho amarelo prometido. Não um, nem dois, uma família inteira. O bebê pensou na caixa de papelão sendo aberta na lavanderia, o colo do pai, a mãe mostrando todos aqueles bebês ao bebê. Será que o bebê pensou?
         O bebê divisou, lá embaixo na rua, o carro branco sendo estacionado. Divisou o olhar dos pais. Mas estes não lhe acenaram. Mas estes não paravam de olhar para a janela da lavanderia. O bebê imaginou que demorariam séculos para subir até o apartamento. O movimento dos adultos sempre demorado. No entanto, no elevador, poderiam ouvir a melodia da flauta doce, o bebê evoluíra, agora o som saía forte como se um urso do pijama houvesse crescido e tomado seu lugar no parapeito. O irmão não tinha mais tempo. A porta da sala traria complicações. Entretanto, conjecturou, já contornara situações piores. Apesar da flauta, podia adivinhar o som da casa de máquinas trazendo pela roldana os pais de volta.
         Os pais subiam pelo elevador. Largaram cestas e sacolas, largaram tudo no térreo quando firmaram bem a vista. Quando identificaram o som da flauta doce no parapeito. Os pais abriram portas com mãos suadas, movimentos rápidos, tensos, mas agora desaceleraram. A mãe, criatura feliz, pousou a mão no ombro do pai, para que este não assustasse o bebê. A mãe, levou o indicador aos lábios. A mãe abraçou o bebê.
         O bebê mostrou a todos que já sabia tocar a flauta e o tema de Vilminha, em Pecado Capital. Os pais se entreolharam. Daquele dia em diante sempre fariam isso, o entreolhar. Reservariam comentários e a falta de decisão e a falta de atitude para de noite, na cama. Entretanto, naquele momento, já com malícia ou esperança, perguntaram em voz alta: quem te colocou aí?
         O bebê esticou o braço e apontou para o irmão. Mas este já não estava na lavanderia. Em seu lugar, junto ao tanque – onde o bebê pensou ouvir seus passos segundos atrás – estava o aquário do peixinho colorido. O aquário vazio. Alguém havia sido despejado para morrer. Súbito, o bebê afligiu-se pelos pintinhos no térreo. Eram cinco. Um já morrera na caixa de transporte. E a mãe já não era mais feliz.



Paula Fábrio nasceu em 1970 na cidade de São Paulo. Formada em Comunicação pela Faap - Fundação Armando Álvares Penteado, atuou como redatora de publicidade em diversas agências paulistanas até 2005, quando abriu a Rato de Livraria, uma das últimas livrarias de rua com perfil independente na cidade.
 Após sua experiência como livreira, foi convidada a gerenciar o acervo da Biblioteca de São Paulo (no local onde foi o antigo Carandiru) e teve seu primeiro romance publicado: Desnorteio [Ed. Patuá] - Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2013, como Melhor Livro do Ano categoria estreante + 40 anos.
Atualmente, além de participar de coletâneas de contos e crônicas, a autora faz mestrado em Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa, na Faculdade de Letras na Universidade de São Paulo, onde estuda a questão da identidade nacional e sua representação na literatura e no cinema.
Seu próximo romance, Ponto de fuga (título provisório), foi premiado pelo ProAC - Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e será publicado em 2015 pela Foz Editora.


Desnorteio
"Balancete
Um dia a menos. Outro dia a menos. Um dia a menos. Outro dia a menos. Tudo o que se viveu. O tempo que nos resta. Ninguém faz essa conta aos quinze anos. Será que nos abandonamos à loucura num momento de contabilidade?
Talvez tenha sido no inverno que os três irmãos Oliveira se tornaram mendigos, mas o primeiro desvario pode ter acontecido em outra estação. À noite, por certo. Na noite frágil dos nossos pensamentos as possibilidades se alargam.
Amor, loucura e morte não se explicam, mas o percurso até eles tem sua dose de encanto e repugnância. E esta história começa no meio desse caminho. Mais precisamente no vagão da segunda classe de um antigo trem da estrada de ferro sorocabana.
Um jovem ainda sem barba nem bigode estremece ao ouvir o nome da próxima estação. Sem meios de compreender aos seus instintos, o rapaz só consegue se lembrar que há horas não coloca nada no estômago.
E esse trem, vai levá-lo onde mesmo?
Para o destino, usamos apenas o tato. A ponta dos dedos. E esse menino não sabe, como agora eu sei, aos quarenta anos. Saber o suficiente Para temer. A conta é simples. A viagem da vida a bordo de um trem. De alta velocidade. O trem da sorocabana é apenas um vagão desse trem maior. Sua viagem nem bem começou, por isso o menino ainda não aprendeu a equação que nunca se resolve. Ele ainda não precisa recuperar as horas e correr a ler todos os livros da estante, tampouco ter coragem de abdicar, sentar-se à beira do rochedo e respirar, pegar um punhado de areia nas mãos e permanecer com um único grão a girar entre os dedos, até que ele faça parte do seu corpo. E aí sim soltá-lo, sem obrigações, com gentileza.
Mas a senhora de cabeleira branca, que mexe distraidamente uma panela para o almoço, conhece o fio do destino que ata as pessoas. Também conhece o tempo. O olhar distante, a cabeça trêmula são provas disso. Mas há satisfação em tudo que faz. Afinal hoje é domingo e a família toda virá almoçar. E esta pode ser a última vez, então é preciso caprichar nos temperos, tirar a acidez do molho, a acidez das bocas.
Com as mãos lentas, a mulher distribui o pão sobre o prato antigo e esse movimento vagaroso é um convite para desviar a atenção e recordar o menino imberbe do trem quando este já era moço e usava bigode fino ao estilo clark gable. Considerou que a irmã tinha feito um bom casamento. Cabelos fartos, olhos amarelos e o rosto quadrado. Sim, a maria luísa conseguira um senhor casamento. Pena foi ter acontecido tudo aquilo. Não gosta nem de pensar.
O molho transbordou da panela e apagou o fogo. O cheiro de gás trouxe a senhora de volta aos seus setenta e oito anos.
Esqueceu de tomar o remédio para a memória. Será que esqueceu mesmo? Ou tomou e não lembra? Não lembra.
Aos quarenta, a memória é a do sentimento. As lembranças já não têm a mesma nitidez. E os passos escondem o vacilo numa cadência eficiente, sem nenhuma chance de errar. O tempo está se esgotando. Todavia, a senhora de setenta e oito já se despiu dessa urgência.
Em que momento o conta-giros desiste? Será no fim do percurso, quando queremos andar para trás e não mais correr em direção à morte?
O garoto de quinze, a senhora de setenta e oito, a mulher de quarenta. Cada qual tem seu relógio. Sua versão da história. Cada qual tocou a face dos irmãos Oliveira com a ternura e o medo que lhe foram possíveis."

Crítica

Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2013, romance de estreia da publicitária Paula Fábrio [Editora Patuá] mescla loucura e memória à trajetória de três irmãos que passaram a viver da mendicância.

 "Paula Fábrio soube colocar seu surpreendente romance de estreia, Desnorteio, num ponto oscilante e preciso entre a narrativa tradicional e a experimentação estética. É uma estratégia inteligente para renovar o interesse pela literatura a partir de temas surrados – um desafio considerável. [...] autora cuja estreia deve ser vista como revelação." - da resenha de Moacir Amâncio, publicada em O Estadão, dezembro/2013.

"Romance de estreia de Paula Fábrio é construído com invejável sutileza", - da resenha de Luiz Paulo Faccioli, para o Jornal Rascunho, março/2014.

"Estreia corajosa de Paula Fábrio na literatura, 'Desnorteio' tem a palavra como fio do labirinto em que se perdem Rodolfo, Miguel e Benévolo, os irmãos que abdicaram do mundo ou foram pelo mundo abandonados, devolvidos como náufragos a uma casa onde fizeram seu reduto de delírio (...)" o livro "nos enreda em uma visão mais profunda do humano, que vem enriquecer nossa literatura na melhor tradição dos escritores do desassossego e da miséria redentora" - do prefácio da escritora Mariana Ianelli.


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