domingo, 31 de agosto de 2014

Um dedo de prosa com Susana Fuentes

Um dedo de prosa com Susana Fuentes

Deslocamentos e desconfortos, eis alguns termos que melhor definam o percurso e o processo de criação da escritora Susana Fuentes. Autora do romance Luzia (7Letras, 2011), Susana Fuentes fois finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2012 na categoria Melhor Livro do Ano - Autor Estreante.  Seu livro de contos Escola de Gigantes (7Letras, 2005) foi selecionado para a Biblioteca do Professor no programa “Rio, uma cidade de leitores”, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro em 2010, sendo distribuído entre os professores da rede do município. Doutora em Literatura Comparada e Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, atualmente desenvolve pesquisa de Pós-Doutorado UERJ/FAPERJ. Participou de várias antologias e revistas literárias com os seus contos, e escreveu a peça teatral Prelúdios: em quatro caixas de lembranças e uma canção de amor desfeito, onde também atua.  Em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim no Rio de Janeiro em 2009, foi selecionada para participar do festival de teatro The New York International Fringe Festival em 2012. Em 2014 Susana Fuentes participou do Salão do Livro de Paris e do Printemps Littéraire Brésilien, organizado na Université Paris-Sorbonne.

Susana Fuentes e Leonardo Tonus na Université Paris-Sorbonne
Consultem os vídeos abaixo nos quais a autora fala do seu percurso literário, evoca o processo de criação do romance Luzia e comenta sua relação com o universo romanesco da escritora Adriana Lisboa.



Um pouco de leitura.

A árvore de que gostava tanto

A árvore de que gostava tanto. Subia, subia em seus galhos. Quando estava triste, escondia-se no alto, entre as folhas. Lembra-se de seu último refúgio, aquela árvore, e continua seu caminho na chuva a pé até sua casa, avança, a chuva faz mover as lembranças. De repente, outro clarão, era o passado vindo em sua direção.

Na Lagoa, abraçou-se à árvore em pensamento. Luzia ainda enxergava as raízes no ar, daí carimbou os pés no chão, imaginou o abraço mais forte. Enterrados os pés, uma nova árvore, suas raízes fincadas na terra. Demorou-se o tempo todo do caminho com o pensamento na árvore escolhida. As raízes de novo no solo, só o tronco, em raspas finas, desfolhava-se. Os pés descem da árvore, pisam a terra, não mais evitam o chão. Há que se plantar de volta a raiz. Fincar o lápis no livro, no caderno.

Num relâmpago, vê. Seu vestido molhado. Lembra-se daquele dia, ali não existia pensamento, o vestido ensopado. Não era água, era vermelho. O sangue no vestido. Os ossos gelam. Água, sempre a água, de novo. Viu Dora, viu seu corpinho, deu-lhe a boneca e o vestido de chita. Pronto, minha irmãzinha, com quem ia brincar e dividir segredos, correr e falar todas as bobagens e escapar da mulher do tio antes que ela pudesse nos pegar. Não ia deixar nada acontecer a você. A gente fugia, com você minhas pernas iam ter forças de correr o mundo.

Avante, vê o passado à luz do céu, usa a espada, desfere golpes de trovão. Avante. O raio lhe diz que está viva. A chuva ao seu redor, já, já, chega em casa. O guarda-chuva é redoma incerta, protege só o alto da cabeça, o peito, mas a sandália no chão desliza de novo, da perna escorre a água até a sola da sandália. Tem esta visão novamente, aquela tarde esquecida, na rua em Botafogo a sandália resvala no pé, foge o apoio do chão, está gelado, o vestido molhado nas pontas, em cima tudo seco, na barra do vestido o molhado, o vermelho, o gelado subindo-lhe pelos ossos, vem de baixo, aqui em cima ainda estou segura, o morno do peito, não, o gelo sobe pelas costas, o desconforto, não gosto da chuva, quero um pano seco, uma toalha branca perfumada, um cobertor macio para afundar, afundar, e não precisar voltar nunca mais.

Da Lagoa para o Jardim de Alá, quando Luzia viu, tinha perdido o guarda-chuva. Na rua, alguém lhe pergunta:
Você está bem?
Luzia sente escorrer uma lágrima. Sabe qual é a lágrima, apesar das gotas no rosto, apesar da chuva.

A criança, a chuva

Chove lá fora. Com o coração aquecido, no quarto de hotel em Maraberto, Luzia fecha os olhos e vê os tijolos sob a escada, os rolinhos de papel. A lembrança deles na volta da escola antiga, aos treze anos. A lembrança deles quando começou a pensar na viagem a Maraberto. Agora que já viajou até lá, a lembrança da lembrança. Luzia fecha os olhos e deixa vir a tarde dos seus treze anos, a lembrança escondida. Seu pensamento voa para o esconderijo de antes. Antes dos tijolos, o esconderijo era a árvore. Seu esconderijo. Naquela tarde de chuva, é para lá que se vê correndo. Ou não corre, anda sem rumo, o vestido está todo molhado. O molhado é vermelho, é água cor de tinta, é a água sem cor e gelada, a que escorre dela. Quente, vermelha, branco também. Continua a chover. O leite branco na perna, não sente dor, nada sente. Só o gelado da água, não quer tocar o chão, levanta no ar um joelho, depois o outro. Ninguém com quem conversar. Sobe na árvore, o joelho no ar, um e outro. Lá em cima, chora, no galho mais alto, seu esconderijo, chora uma dor sem culpa, não tinha mais um corpo seu.

Luzia tinha mantido o silêncio, e quando percebeu a mudança em seu corpo, nos seios inchados, doloridos, começou a viver alguns dias de inesperada paz. Na casa do tio, Luzia começou a fazer todo o trabalho, atenta a tudo. Anatércia andou desconfiada: a menina mais parece uma santa. Mas Luzia continuava o empenho no trabalho da casa, não a deixava esfregar uma panela, e a mulher do tio foi até se acostumando. O único momento de Luzia a sós era no alto da árvore, dali ninguém a tirava, e nessa hora é quando Anatércia cochilava. Mas o que ninguém sabia, e era segredo seu, só seu, era que Luzia olhava e via, via na sua barriga Dora crescer.
O sócio do tio a viu sorrindo daquele jeito estranho. Não gostou. Não gostou que a garota não se deixasse abalar. Pois sim, no dia seguinte, a árvore não estava mais de pé.
– Mandei cortar, Augusto, mandei cortar.
– Mas por quê, homem, não estava bem ali?
– Dava muito trabalho, você há de convir, cuidar da farmácia e ainda ficar com o pátio em ordem, dá muito trabalho, soltava muitas folhas, e depois quem pagará para varrerem o pátio o tempo todo? Já estava causando má impressão. Sabe o quê? A
árvore já estava era doente.
O tio abaixou a cabeça, levantou-se, pegou sua maleta, atravessou o jardim e subiu os degraus da varanda em frente. Não olhou para o toco, ficava o espaço vazio. Foi Luzia quem voltou do colégio e deu um grito. Deu um grito surdo, passou correndo pelo pátio e abraçou-se ao tronco caído.

A barriga cresceu

A barriga cresceu ao lado do cotoco da árvore. Depois, como se fosse inevitável, com a árvore abatida o bebê também se deixou abater. A criança nasceu e morreu, como se acelerando o percurso simplesmente morresse, sem crescer. Luzia não aceitou a fatalidade, e acreditou que Dora, esse foi o nome que deu à menina, crescia em algum outro lugar.     
Sua loucura particular, seu segredo. Estava no ar, na mesa, na cama. Sua irmãzinha Dora, a criança que morreu, escapou de seus braços. A árvore. Ali enterrou os brinquedos para Dora. E plantou flores para Dora. E Dora continuou crescendo, crescendo, Luzia também, crescia, terminava de crescer só em tamanho, e cada vestido novo era seu e era de Dora, no armário cuidava para ter além da conta, para as duas. Mesmo depois quando morreu o tio, foi-se a tia, e o apartamento fechado de sua mãe na Glória passou a ser seu. Quis acreditar que Dora estava lá, sob o teto da infância que ficou para trás. Ali onde a mãe teve seus últimos dias, quando Luzia ainda respirava felicidade. Depois não respirou mais. Coisa alguma. A árvore no quintal da casa em Botafogo foi o único lugar onde ainda respirou. Onde conseguiu sobreviver ao dia terrível. Ao ataque. A árvore era quem a mimava, cuidava das lágrimas em sustos. A irmã subia na árvore também, ela sabe que sim, carregada pelos braços da árvore, e lhe fazia cócegas nos cabelos cheios de nós. Dora, Dorinha, quando o dia está escondido na fumaça, no barulho dos sapos. Você quer pipoca? Pipoqueiro à vista. Olha o pipoqueiro! E Luzia no alto da árvore abria um sorriso porque de repente estava muito feliz.
Quando perdeu a árvore, começou a escrever com o papel
apoiado na barriga:

Uma menina. Dora. Adorada.

Quando perdeu a barriga, apoiou o papel no toco da árvore. E foi a última coisa que escreveu:

O bebê morreu. Um anjinho.

Esse papel ficou ali, no chão, ao sabor do vento. Na terra só as flores. E os brinquedos por último enterrados, onde as raízes persistiam vivas.

Referência das páginas:
A árvore de que gostava tanto (p. 48-50)
A criança, a chuva (p. 70-71)
A barriga cresceu (p.74 -75) 



De cristal, em líquida pureza.
Por Lúcia Bettencourt (*)

Luzia, o romance de Susana Fuentes, chega às nossas mãos em formato de livro, mas é feito de puro cristal. Como se sabe, os cristais com 24% de chumbo são considerados nobres, isentos de qualquer impureza. E é o chumbo presente em sua composição que proporciona às peças de cristal, maior transparência, maior peso e o inigualável brilho característico das mesmas. Pois é a qualidade plúmbea da história narrada no romance que ressalta a prosa elegante e límpida de Fuentes, sua habilidade narrativa e suas imagens poéticas.
Na história de Luzia, traumática, o chumbo da dor não esmaga a personagem. Derrete-a e funde-a em outras, que ajudam a cicatrizar a dor e o medo. As perdas se sucedem, um pai ausente, a mãe morta, a tia mesquinha e brutal, o tio indiferente impelem a menina que cai nas garras do sócio, desprezível. Nas memórias, desentranhadas com delicadeza, descreve-se o estupro, não com os atos, geralmente de violência, mas com as palavras de aliciamento e de ameaças veladas.  “Não vou te machucar”; “você não tem pena de um homem velho como eu?”; “você só não pode contar para ninguém”; “essa gente não entende, não são como nós”, e a menina cala seu desespero, assustada. Esconde a dor até não ser mais possível disfarçar.
A salvação de Luzia está em sua imaginação e também no palco, onde pode ser quem não é, mas, sobretudo, na escrita. As palavras, finalmente proferidas, fazem da história uma trama de romance e é assim que é possível olhar a dor com objetividade e distanciamento. No corpo por escrito o sinal de sangue se substitui pela marca do grafite (onde se suspeitava o chumbo).  Cada vez mais leve, possível de ser apagado, esse novo chumbo já não isola e é escrevendo o próprio corpo que Luzia toma de volta posse do que um dia foi seu. E é assim que nasce duas vezes, de sua mãe, de sua mão.
Numa linda cena de autoerotismo, a personagem conhece-se a si mesma: “o lençol lhe dava ali de presente a outra pessoa, o seu corpo”. Nessa ambígua referência, o nome murmurado é o de Joaquim Marino, mas a evidência é a própria pele, conquistada.
Trabalhando entre dados reais e realidades oníricas, a história se condensa e se desdobra em cenários líquidos.  Um Rio só de montanhas, as ruas de Esperanza, a distância de Maraberto. É preciso que o leitor atente para a presença da água, do mar. A própria epígrafe nos orienta: “No azul onde um falou neve, o outro falou mar.” A água, corrente, livre, libertadora se opõe àquela estagnada, congelada. O gato Murmar só bebe água corrente, as palavras brincam como ondas, nos livros, colados às orelhas, Luzia consegue escutar o mar, esse mar que se revela Azul Marino em Joaquim.
Os fatos do cotidiano se transmudam em beleza, num treinamento para transformar o passado. Descascar um inhame é um ato poético, ler é descobrir a liberdade, escutar música é fazer as pazes com a alegria, escrever é ser, enfim.
A história triste se revela uma história feliz. Há esperança, renascimento. Mar e ilha se complementam e justificam e as rosas aprendem que não precisam se desculpar por existir. Na catarse de Luzia existe até mesmo espaço para o amor, para o outro. E a violência, finalmente aceita, é positiva, criadora. A violência transmudada pela arte, nos desenhos de Lisbet, ou pela glória do corpo aceito, no sexo.
Susana Fuentes confirma, em seu romance, o talento já exibido em seus contos. Seu livro Escola de Gigantes entrou para a Biblioteca do Professor no programa Rio, uma cidade de leitores, da Secretaria Municipal de Educação, para a alegria dos leitores dos seus textos cuidados, bem construídos.
Que esse cristal acondicionado no livro de Fuentes ilumine a imaginação dos leitores e reverbere com o brilho merecido.
Luzia. Susana Fuentes (7Letras).

(*) Lúcia Bettencourt
Lúcia Bettencourt é escritora. Autora de A secretária de Borges, vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005 (Record, 2006). Recebeu os prêmios Osman Lins de Contos, de 2005, e Josué Guimarães, obtido na Jornada de Passo Fundo em 2007.  Publicou também Linha de Sombra (2008) e O Amor Acontece – Um Romance em Veneza (2012), ambos pela Record. Seu livro O banquete: uma degustação de textos e imagens (Vermelho Marinho, 2012) recebeu o Prêmio da ABL na categoria Ensaio em 2013. Colaborou com o jornal Rascunho e o suplemento literário Idéias, do Jornal do Brasil. Doutora em Literatura Comparada pela UFF - Universidade Federal Fluminense, vive no Rio de Janeiro (RJ).



Assistam os videos do Salão do Livro de Paris 2014 clicando no link : Salão do Livro de Paris 2014.

Eunie Gutmann, Luize Valente e Susana Fuentes no Salon du LIvre de Paris 2014




Nenhum comentário:

Postar um comentário