quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A implosão do romance


 A implosão do romance

                                                                                                     
Ronaldo Cagiano (*)

Poeta, ficcionista e professor, Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira é uma das gratas revelações da literatura contemporânea brasileira, num cenário nem sempre profícuo a dar vez e voz a bons escritores publicados por pequenas editoras ou vivendo longe do eixo hegemônico e monopolista da grande imprensa.
O autor foi revelado nacionalmente a partir de uma crítica homologatória que, em boa hora, foi entalhada por ninguém menos que o abalizado crítico e ensaísta Luiz Costa Lima, no suplemento cultural do jornal Valor Econômico, quando lançou luzes sob a potência de seu trabalho, tendo o romance despertado a atenção de todo o País, saudado ainda por manifestações favoráveis de Raimundo Carrero, Ariano Suassuna e Alfredo Monte.
Figueiredo foi finalista dos prêmios “Portugal Telecom” e “São Paulo de Literatura” do ano passado com uma obra monumental - As visitas que hoje estamos – empreitada de fôlego e meticulosa construção, emergindo da pequena Arceburgo, no sul de Minas, onde vive há mais de vinte anos esse paulista de 48 anos,  nascido em Mococa, formado em Letras pela USP, proprietário de dois armarinhos e professor de literatura e língua portuguesa em escolas e cursinhos, detentor da maior e mais sofisticada biblioteca da cidade, um paraíso em meio ao deserto estético que paira sobre a maioria das comunas do interior.
A obra é uma reafirmação do romance justamente a partir de sua negação como estrutura formal como o conhecemos tradicionalmente, pois o autor confeccionou uma verdadeira babel ficcional, em que vozes distintas e multifárias se encadeiam para erguer uma história caudalosa e fragmentária da vida de um pequeno espaço geográfico, o do interior, onde a cartografia psicológica de cada personagem impulsiona tanto a linguagem como a temática tão caleidoscópica como desafiadora para o autor e instigante para o leitor.
Em diversas entrevistas e incursões na imprensa após a eclosão tsunâmica de seu romance, Geraldo deslindou as bases de sua arquitetura romanesca, a partir de um olhar multifacético sobre o microcosmo de uma cidade de apenas dez mil habitantes,  matéria e circunstância para o livro, fruto de um olhar aguçado e reflexivo sobre as mazelas de uma vida sempre a mesma, onde o tempo passa devagar e as pessoas são coadjuvantes ou testemunhas dessa inércia.
Para o autor – que já teve o livro de poemas Peixe e míngua (Ed. Nankim, São Paulo) custeado com patrocínio de uma empresa da cidade, também só foi possível tirar os inéditos da gaveta e do anonimato, graças ao apoio de lei de incentivo, algo comum à maioria dos autores brasileiros num cenário cada dia mais excludente e sem critérios, onde cavar espaço e publicação é uma injusta via crúcis. 


O pontapé de Costa Lima, que atestou a indiscutível qualidade e originalidade da obra, a reboque da impactante chacoalhada que o autor deu no gênero (“Comecei a lê-lo há poucos dias.  E minha surpresa positiva se instalou de imediato e não me abandonou, até agora, quando já estou além de sua metade. A surpresa, boa, extremamente boa, e inspirada tem sido tamanha que me dispus a escrever uma resenha sobre ele”) foi fundamental para que o livro alcançasse a merecida ressonância, pelo indiscutível padrão da linguagem, pela inequívoca carga semântica das narrativas, pelo olhar crítico e metafórico sobre as vidas miúdas do interior.
As visitas que hoje estamos foge ao romance tradicional, burguês e contemporâneo, sem contudo negá-lo. É pelo recorte de várias situações que o todo se impõe, sem perder o liame, ainda que não seja uma prosa costumeira e linear. A partir de uma opção formal, cujos recursos assimilam dicções da crônica social e incorporam elementos de outras linguagens, como a poesia, o teatro, a crítica literária e o ensaio, delineando um estilo em que linguagem, tensão e densidade formam uma relação simbiótica. Ao imergir no aluvião da memória individual e coletiva, Ferreira auscultou o pulmão e radiografou as vísceras de uma cidade e seus protagonistas, para erguer, numa obra polifônica, que consumiu cerca de dez anos de carpintaria e coleta histórica e sensorial, uma profunda análise dessas vida anônimas e imutáveis, para demonstrar, com requintes metalingüísticos e outras sutilezas narrativas, que “A vida deve ser, e é, maior do que qualquer arte. Entretanto, esse é justamente o motivo pelo qual a grande obra permanece.”
Sem dúvida, As visitas que hoje estamos fará parte do verdadeiro cânone nacional, obra que sobreviverá aos modismos, às idiossincrasias de uma crítica acadêmica nem sempre honesta e aos bafejos oportunistas dos viciados cadernos de cultura dos grandes centros,  pela inventividade, pela liberdade com que esculpiu no gênero romance uma expressão mais dinâmica e inconformada, mais crítica e mais proeminente, porque falou com paixão e qualidade, sobre o que é essencial e profundamente humano sobre nossa precariedade existencial.

(*) Autor de Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio 2006) e O sol nas feridas (Poesia, Dobra Editorial, 2011, SP), dentre outros, Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases e vive em São Paulo.


Assistam ao depoimento que o escritor concedeu ao Blog Estudos Lusófonos e no qual ele homenageia os escritores João Antonio, Samuel Rawet e Augusto Roa Bastos. Cliquem aqui

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