quinta-feira, 17 de julho de 2014

Recitais na praça e na academia

Recitais na praça e na academia

Por Alexandre Staut*

Com 17 obras publicadas, desde o lançamento de Um Cão Uivando para a Lua (1972), o escritor e jornalista Antônio Torres nasceu num povoado do sertão baiano. Nesse lugar descobriu a vocação literária, mais precisamente na escola rural em que estudou, incentivado por professores. Os primeiros escritos foram cartas aos moradores da cidade. Ainda menino, o contato com a literatura aconteceu também por meio de Castro Alves, que chegou a recitar na pracinha do vilarejo.
Hoje, Torres mora em Itaipava (Petrópolis). Seus livros foram traduzidos em mais de 11 países, Cuba, Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha, Itália, Holanda, Inglaterra, Israel, entre outros.
Foi condecorado com o título de “Chevalier des Arts et des Lettres” pelo governo de França, em 1998. Em 2000, recebe o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, instiuição da qual faz parte como membro desde o ano passado, quando foi eleito para a cadeira 23, já ocupada por Machado de Assis, Lafayette Rodrigues Pereira, Alfredo Pujol, Otávio Mangabeira, Jorge Amado, Zélia Gattai e Luiz Paulo Horta. Abaixo, o bate-papo do autor com este colunista.

Com alguns livros, como Essa terra, você vendeu milhares de exemplares, mais ou menos 100 mil. Literatura, hoje, não tem vendido tanto assim no Brasil. Como vê o mercado editorial nacional nos dias de hoje?
De fato, os números do Essa terra impressionam, desde os 30 mil exemplares do seu lançamento, em 1976, pela Ática, onde ficou até a 14ª edição com tiragens muito acima da média nacional. Hoje, deve beirar os 200 mil, no barato. Agora mesmo acabo de receber a notícia de que a Editora Record já rodou a sua 26ª. edição, sem incluir nisso duas outras em formato de bolso, pela BestSeller, um selo da mesma Record. E tal romance continua circulando pelo mundo. Recentemente foi publicado na Bulgária e no Vietnã, e está para sair na Albânia, Romênia, Croácia e Paquistão, somando, assim, 14 traduções. Mas sim, concordo com você que hoje literatura não vende muito. Percebo que o leitor mudou, e desconfio que em todo o planeta. Numa viagem recente aos Estados Unidos, constatei que os livros expostos nas livrarias de lá são os mesmos que encontramos em destaque nas daqui. E só fui ver o melhor da literatura norte-americana na City Lights, de São Francisco, na Califórnia, que ali permanece como uma espécie de santuário legado pela geração beat. A verdade é essa: estamos no olho do furacão global, que arrasa quarteirões e estabelece um abismo entre o texto feito para consumo e o literário. Nesse contexto, literatura passou a ser um deleite para poucos. Contemos com esses poucos e... fé nas teclas e mãos às obras, camaradas.


Quais considerações gostaria de fazer sobre a literatura nacional do momento?

É difícil acompanhar tudo o que os autores brasileiros vêm publicando. Mas percebo duas linhas de força: a primeira, centrada no transe urbano, seguindo a trilha aberta por contistas admiráveis como Rubem Fonseca e João Antônio, lá pelos anos de 1960. O que é muito natural, pois o país se urbanizou, aglomerando-se nas cidades de médio e grande porte. A segunda: a busca de inserção no cenário internacional. Isto não quer dizer que todos estejamos batendo na mesma tecla. Há estilos e faturas literárias bem diferenciados, no momento, que considero promissor.

E sobre os personagens nacionais, hoje, o que te chama a atenção?
Já há até um polêmico estudo acadêmico tratando disso, que não li, portanto sobre suas conclusões não posso falar. Limito-me a alguns poucos casos. Por exemplo: se lemos o amazonense de ascendência libanesa Milton Hatoum vamos encontrar em seus romances personagens diferentes dos de Márcio Souza, um amazonense de ascendência judaica, e criador de Galvez, o imperador do Acre, Mad Maria etc. Os dois, porém, são bem brasileiros e exímios investigadores da história de sua região, cada qual com seu viés. E quando lemos o paranaense Miguel Sanches Neto encontramos personagens que nem de longe lembram os de Dalton Trevisan, assim como os do carioca Alberto Mussa, autor que vem se empenhando em ficcionalizar a história do Rio de Janeiro, não se confundem com a galeria de tipos que a cidade já inspirou, de Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis e Lima Barreto a Clarice Lispector, o já citado Rubem Fonseca e etc. Luiz Ruffato nos traz do interior de Minas Gerais personagens que “reescrevem” a fala dos do Grande Sertão, mas em outro contexto histórico, e que é urbanizado. Ou seja, os personagens nacionais continuam sendo criados de acordo com o ambiente que os seus criadores dominam, refletindo o tempo e o espaço de cada um. Como sempre foi. Afinal, no romance ou no conto, ação é personagem, já dizia o finado Scott Fitzgerald.


E os seus personagens, o que gostaria de dizer sobre eles?
Acho que não fujo à média geral: estou em todos os meus personagens, que de alguma maneira refletem as minhas vivências, andanças, trânsito em diferentes classes sociais, mudanças: de profissão e lugares – sim, já rodei muito chão... sertão, Oropa, França e Bahia! Tematicamente, procuro não ser um sambista de uma nota só, até porque, como Júlio Cartázar e Clarice Lispector, sou curtidor dos improvisos do jazz. Portanto, passeio tanto por cenários rurais quanto urbanos e da História (como na trilogia carioca formada por Meu querido canibal, O nobre sequestrador e O Centro das nossas desatenções, que será relançado em 2015 pela Editora Record). Ou seja, meus personagens vão do repórter de Um cão uivando para a Lua ao publicitário de Um táxi para Viena d’ Áustria; do retirante nordestino para São Paulo de Essa terra – que, com O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha veio a dar início a uma trilogia -, ao índio Cunhambebe; do aprendiz de político de Carta ao bispo, ao corsário do rei Luiz XIV (René Duguay-Trouin) que sequestrou o Rio de Janeiro em 1711.

O que seus personagens te pedem hoje em dia?
Eles pedem que eu vá em frente, sem me preocupar se há ou não algum leitor à espera disso.

As aspirações desses personagens são as mesmas daqueles dos seus livros lá do começo?
Imagino que não. Nada será como antes, diz a letra de uma música de Ronaldo Bastos cantada por Milton Nascimento.



Sobre o começo da sua carreira literária, poderia falar sobre a recepção de seu primeiro livro, Um cão uivando para a lua? Quais as histórias ao redor deste lançamento que você gosta de relembrar?
Considerado pela crítica a revelação do ano (1972), Um cão uivando para a Lua causou impacto também no público e me levou a receber manifestações entusiásticas de autores consagrados – que não conhecia pessoalmente -, como Jorge Amado, José Américo de Almeida, Marques Rebelo e o português José Cardoso Pires. Considerado “o uivo de uma geração”, foi saudado na imprensa pelo hoje celebrado autor de novelas da Globo Aguinaldo Silva como “uma estreia feliz”. Nada mal para começar, não?

Ainda revisitando o começo da sua escrita/carreira, poderia falar sobre a forma em que a sua infância influenciou a sua literatura? Num discurso da Academia Brasileira de letras, há pouco tempo, você disse que a infância é a sua principal fonte de inspiração.
Sim, há passagens em Um cão uivando para a Lua que são inspiradas em minha infância rural, embora o livro seja ambientado no Rio de Janeiro com descolamentos pela Amazônia e São Paulo. Certos episódios vividos em tenra idade me marcaram indelevelmente, e de vez em quando pululam no meu teclado, dando um certo colorido a relatos como os do livro Meninos, eu conto, que já está na 12ª. edição, com mais de 40 mil exemplares vendidos – um deles, aliás, intitulado “Por um pé de feijão”, foi incluído na antologia dos Cem melhores contos brasileiros do século, organizada por Ítalo Moriconi, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. No fundo é isso: a infância que descrevo já não existe. Virou ficção.


Sobre a academia... como foi receber a notícia de que faria parte da instituição? E como tem sido?
Ser eleito para a Academia com uma votação expressiva – praticamente unânime -, e para a cadeira fundada por Machado de Assis, e ocupada pelo Conselheiro Lafaiete, Alfredo Pujol, Otávio Mangabeira, Jorge Amado, Zélia Gattai e o querido Luiz Paulo Horta, e que tem como patrono José de Alencar, convenhamos, é uma consagração. Ainda estou assuntando o ambiente. E muito feliz por estar lá.

Qual o seu próximo projeto literário?
Venho escrevendo um romance, e já há bastante tempo, mais de 3 anos, com muitas interrupções, em função de compromissos variados, palestras, viagens para cima e para baixo. E isso é um problema. Mas o romance existe e pode ser retomado a qualquer momento. Não conto de que se trata, porque, toda vez que o fiz, empaquei. É como se, ao contar o romance, já o tivesse escrito. Espero que venha a valer a pena. E se representar algo de novo na minha trajetória, tanto melhor.

Qual livro, no âmbito da literatura nacional, ainda está por ser escrito?
Talvez um livro sobre o poder.




* Alexandre Staut é colunista do blog Études Lusophones e autor dos romances Jazz Band na Sala da Gente (2010) e Um Lugar Para se Perder (2012). Tem contos publicados na França e em Moçambique.

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