sábado, 5 de julho de 2014

A Garota da Sorbonne

A Garota da Sorbonne.

 Hector Bisi (*)

1
E Marine de blusa folgada sem soutien pelos cafés da Place de la Sorbonne e segundos à frente seus livros de encontro aos peitinhos empinados no que talvez fosse o mais sincero dos abraços. Da universidade ela saiu, atrás do seu universo eu fui, larguei minha fome na mesa, na cara do garçom, e a troquei pela sede de, quem sabe peut-être como ela anda rápido é menos alta do que eu pensava, viver para aquela blusa folgada sem soutien. Salut como vai olho no olho que lindos cílios você tem, não falaria dos olhos, não falaria daquela cor que nem a velhice vai esconder. Andamos pelo Boulevard St.Michel, passamos pelas arcadas do Palais Royal, encontramos amigos dela, pronto, vai me deixar, povo de moda, estamos na Semana de Moda, mulheres-quilômetro indo e voltando das Tulherias, Marine é menos alta do que eu pensava e não me deixou, sentamos às cindo da tarde pra tomar champanhe no A Jean Nicot, na Rue Saint Honoré. Não rolou só química entre nós, rolaram todas as matérias. Geografia do seu corpo, História das nossas vidas, Letras que se atropelavam na empolgação de tornar as mínimas coisas relevantes, É o outono mais quente em vinte anos, Vou mudar de apartamento no fim de semana, Cortázar, conhece?, falei, Você é a minha Maga, não falei, então as despedidas, os preciso ir, Tenho casting pra Yves Saint Laurent, Quero mesmo é ser atriz, e deixou seu email seu telefone e por que nãos?, Vamos numa exposição dia desses?, O dia desses pode ser amanhã?, deixou também a mulher do caixa a repetir que rosto, que rosto e a me olhar com a inferioridade que todo homem merece.

Man Ray, Noire et Blanche, 1926

2.
Vou ao cinema com Marine. Ela na tela, eu na plateia. Estou num cinema com Marine perto da Avenida Paulista, ela sem blusa sem soutien musa de filme francês, eu torturado por e ses?, fui a Moscou logo depois do nosso único encontro, e se? liguei de telefone público, não comprei um celular francês pra mandar textô, não é pra isso que servem agora os celulares, pra mandar textô?, e se? Entro na Consolação, a mais apropriada das estações de metrô pra esta noite, e faz dois anos que não vou a Paris, que não rondo pela Victor Cousin e Saint-Jacques à procura dela, salivando em excesso, me contorcendo, um contorcimento contido e sem lamentos e descabelamentos, ao ver as estudantes mais charmosas que existem no doce balanço a caminho da Sorbonne, echarpes jogadas nos pescocinhos Beauvoir, clones de Charlotte Gainsbourg de calça skinny e camisa masculina branca displicente coisa de louco, seja no verão das minissaiais ou no inverno dos casacos coloridos, garotas que merecem elogios em forma de cantos gregorianos. Marine ainda estuda Philô? O trem chega, parto na direção da minha memória.





O escritor Hector Bisi nasceu em Belém, morou em Londres e hoje vive em São Paulo. Foi engenheiro civil na Amazônia, servente de obra na Inglaterra, redator de publicidada e agente de modelos em São Paulo. Em 2011 lançou pelo Selo Edith seu primeiro romance Copacubana. Com prefácio do ator e locutor Paulo César Pereio, o livro conta as aventuras de um narrador politicamente incorreto que adora mulheres feias e passa seus dias nas farras com amigos, nos botecos cariocas ou em congressos de escritores-travestis. “Não aguento mais o politicamente correto. Quis escrever um livro politicamente pervertido”, explica Bisi. “Fui até Havana terminar o livro e resolvi escrever tudo de novo”, conta ele. Leia alguns trechos do romance nos links abaixo :

Tradução para o espanhol na revista El Malpensante : http://elmalpensante.com/index.php?doc=display_contenido&id=2731

Tradução para o francês no site Racontemoi : http://racontemoi.fr/


Informações no site do selo Edith : http://visiteedith.com/?page_id=1562

Bisi com as estudantes da Sorbonne durante a primeira edição da Semaine Brésil em 2013




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