domingo, 8 de junho de 2014

Auge e derrocada do empenho literário

Da resistência literária à ditadura militar: auge e derrocada do empenho literário

Por Breno Kümmel

Parte 1

Em outubro de 2013 causou bastante espanto o discurso de Luiz Ruffato na Feira do Livro de Frankfurt. Sendo o primeiro a discursar da comitiva do país convidado, o autor aproveitou a oportunidade para enfileirar uma série de estatísticas desgraçadas a respeito da eternamente conturbada realidade social brasileira. Para além do previsível desgosto mal-disfarçado das autoridades governamentais, dentro do meio cultural a maioria das reações foi de surpresa, positiva ou negativa, ao ver um escritor usar de uma hora de homenagem para expor o país daquela maneira. Vários declararam que esperavam mais literatura e menos política, mais poesia e menos sociologia, etc, etc.
Como um exercício imaginativo, ignoremos o fato que a comitiva para a feira é organizada pelo governo (sendo assim compreensível a presença do poeta Michel Temer) e imaginemos que tivesse sido em 1976 o momento do Brasil figurar como convidado especial do evento. Não causaria qualquer espanto o autor que, tendo organizado seu posterior exílio, aproveitasse a oportunidade para falar dos problemas políticos do país. Aumentando um pouco o escopo do esforço imaginativo e inventando aqui a existência convidados desta natureza nas edições da feira nos anos 50, 30, 10 e durante qualquer período do século XIX, em nenhuma desses hipotéticos discursos seria surpreendente o literato falar mais de seu país do que mais especificamente de literatura.
Em seu livro Formação da Literatura Brasileira, Antonio Candido descreve seu objeto de estudo como sendo uma literatura marcadamente empenhada. Ainda que seu estudo se restrinja ao Arcadismo e ao Romantismo, e (como não haveria de ser diferente) tem pesada influência do próprio ímpeto empenhado do crítico, podemos ver a continuação da predominância desta tendência nos períodos posteriores, tanto na literatura da virada do século (estudada por Nicolau Sevcenko em seu Literatura Como Missão), quanto no Modernismo de 22 (um empenho estético emprestado da Europa, trazendo cores nacionalistas), no Romance de 30 (de engajamento social mais explícito, com sua abundância de romances-denúncia) e, por fim, na literatura escrita durante a ditadura militar, quase toda em acusação anti-autoritária, implícita ou explícita.
Em nenhum desses momentos anteriores se esperou do romancista brasileiro médio (imaginando aqui a existência de tal categoria) coisa diferente deste empenho que em Luiz Ruffato, contemporaneamente, acabou espantando a todos: o autor que recusava o empenho o fazia de forma deliberada, melindrando uma série de expectativas sobre qual seria sua função na sociedade. Hoje em dia, o escritor que demonstra empenho político é a exceção, quase figura estranha.
Este artigo é um resumo radicalmente condensado de uma parte de minha dissertação, defendida em 2012, de título Os órfãos da ditadura: causas e consequências do uso constante do regime militar como tema literário. Nela busquei analisar a literatura do período tentando me distanciar de certa postura congratulatória de parte significativa das interpretações a respeito desta produção: ao dar o reconhecimento à real coragem dos autores de publicarem suas críticas numa época em que o governo exercia seu poder de fazer sumir aqueles tidos como inimigos ou inconvenientes, muitos intérpretes exageraram na generosidade, elogiando às vezes de forma irrefletida o mero posicionamento contrário ao regime, sem ver de que forma que este posicionamento se dava, e quais possíveis consequências decorreriam desta formas contrárias tão constantes, tão atadas ao momento que narravam

DESESPERO: Durante a ditadura
Foi o maior trauma coletivo brasileiro, foi a nossa guerra civil espanhola, nossa Guerra do Vietnã (Abel Silva, em entrevista de 1979 a Heloisa Buarque de Hollanda)

Tem sido pano de fundo constante para a atividade intelectual no Brasil certa consciência aguda de seu problemático lugar de fala, o do possível (ou passível de ser taxado de) ridículo de buscar desenvolver-se como intelectual em um lugar de tanta precariedade, seja material, institucional, ou de disseminação de cultura erudita.  Esta precariedade torna-se particularmente terrível se formos cruéis o bastante para comparar o que temos com o que se encontra nos grandes centros. A esta frustração que continuamente se reitera é somada também uma dose significativa de complexo de culpa, sendo a questão resumida com grande concisão por Marcelo Ridenti, em aproveitamento das colocações de Marshall Berman:

Marshall Berman chamou de cisão fáustica do intelectual em países subdesenvolvidos (...) O personagem é existencialmente dilacerado pela consciência de ser portador de privilégios de uma cultura de vanguarda numa sociedade atrasada, cindido pela tensão entre a modernidade e o subdesenvolvimento. Surgiria, assim, uma espécie de identidade subdesenvolvida”, típica do romantismo (Berman, 1986, 44). Os dilemas fáusticos dos intelectuais também aparecem, especialmente no pós-1964,em obras de vários campos artísticos, por exemplo em filmes como O desafio, de Paulo César Saraceni, e Terra em Transe, de Glauber Rocha; em romances como Pessach, a travessia, de Cony, e Quarup, de Callado” (RIDENTI, 2000, p. 175)

Consequentemente, possivelmente como forma de compensação, a reflexão sobre o lugar em si apareceu como tópico bastante favorecido da atuação intelectual: seu trabalho como que naturalmente desenvolveu-se para dentro de uma tentativa constante de encontrar soluções (imediatas) para a sociedade em que vivia. Sendo sempre uma questão discutível (aparentemente ad infinitum) quais seriam estas soluções, durante a ditadura pelo menos era indiscutível qual o principal problema do momento: o de se viver sob autoritarismo violento e persecutório.
A literatura não tinha como deixar de ser parte disso, para além de um mero elencar de exemplos como o feito por Ridenti. Antonio Candido, em seu ensaio “Literatura e Cultura de 1900 a 1945”, publicado em 1953 e 1955, coloca de forma clara:

As melhores expressões do pensamento e da sensibilidade têm quase sempre assumido, no Brasil, forma literária (...) Diferentemente do que sucede em outros países, a literatura tem sido aqui, mais do que a filosofia e as ciências humanas, o fenômeno central da vida do espírito. (...) O primeiro livro propriamente sociológico, no sentido estrito da palavra, só veio aparecer entre nós em 1939 (...) Antes, de Euclides da Cunha a Gilberto Freyre, a sociologia aparecia mais como “ponto de vista” do que como pesquisa objetiva da realidade presente (...) ante a impossibilidade de formar aqui pesquisadores, técnicos, filósofos, [a literatura] preencheu a seu modo a lacuna, criando mitos e padrões que serviram para orientar e dar forma ao pensamento” (CANDIDO, 2010, p. 137-139).

Ainda que durante a ditadura já existissem instituições (atacadas pela opressão, porém existentes e produtivas) que tornassem desnecessária esta função tão forte de preencher lacunas, a literatura ainda carregava esta consagração historicamente conquistada e era parte prestigiada da vida intelectual brasileira. O peso incidente no intelectual de atuar pelo seu país era também, portanto, o peso no autor em suas obras literárias, e diante de um problema da magnitude da ditadura, esta obrigação se agravava. Carlos Heitor Cony coloca que esta intensificação começa até mesmo antes do golpe, com as instabilidades políticas que o precederam:

Nos começos de 1964, instalara-se radicalmente (e simploriamente) no cenário nacional a mesma divisão esquemática que cindira a Convenção francesa, quase dois séculos antes. Fora da dicotomia esquerda-direita – que transformava o debate político e cultural numa espécie de partida de futebol em que a maioria torce e alguns poucos jogam, qualquer outro tipo de assunto era tido como conversa para boi dormir” (CONY, 2004, p. 7, grifo meu)

Se durante a instabilidade social anterior ao golpe a prática intelectual brasileira caía quase sempre para o imediatamente político, esta predominância só haveria de se intensificar após a tomada do poder feita pelos militares: o próprio Cony foi exemplo disto, tido anteriormente como um alienado que em suas colunas só falava de cinema e “temas literários ultrapassados” e depois passou a denunciar continuamente os absurdos que se sucediam na instauração do autoritarismo. Ferreira Gullar depõe a Ridenti: “A ditadura aqui obriga o Mário [Pedrosa, crítico de artes plásticas] a participar da luta política de novo, porque nenhuma pessoa digna realmente ficaria indiferente ao que estava sendo feito no país” (2000, p. 203).
Agir (ainda que pela palavra) não era suficiente, era necessário agir pelo lado correto. Heloísa Buarque de Hollanda, em 1979, escreve com palavras inequívocas que a produção cultural da época era “largamente controlada pela esquerda” (2005, p. 21), e Roberto Schwarz, em meio ao seu exílio parisiense, escreve no início dos anos 70 que “Apesar da ditadura da direita há relativa hegemonia cultural da esquerda no país” (2001, p.7). Atores do meio intelectual que se posicionaram do outro lado passaram a ter seu legado inteiro afetado por esta decisão: difícil se deparar qualquer discussão mais demorada a respeito de Gilberto Freyre ou Nelson Rodrigues que não toque no assunto deles não terem sido contra a ditadura, isto quando a figura não foi completamente apagada do meio intelectual, como aconteceu com, por exemplo, Adonias Filho[1].
Contraditoriamente (o que talvez seja de se esperar quando se fala do Brasil), mesmo com a violenta perseguição governamental a vozes contrárias tidas como perigosas, o período ditatorial foi cenário de significativo fortalecimento da atividade intelectual brasileira, incluída aí a literatura, mesmo sendo primariamente contrárias ao regime imposto. Em depoimento a Ridenti, Carlos Nelson Coutinho rememora que

[na Civilização Brasileira] Tem uma coisa paradoxal que, a partir de 64, há uma enxurrada de produções marxistas importantes no Brasil: Lukács, Gramsci, Adam Schaff, Lefebvre, alguns membros da escola de Frankfurt. É um período muito rico na produção, na publicação e na difusão entre nós de autores marxistas, digamos, não-ortodoxos (COUTINHO, 2000, p.131)”

Fernando Henrique Cardoso, em depoimento a Zuenir Ventura, constata que “talvez o fato que chame mais atenção para nós, que tínhamos uma expectativa de que o movimento intelectual brasileiro ia estancar, é observar essa espécie de convivência entre repressão e fatos culturais (...) continua existindo uma espécie de “explosão” de livros” (2000, p. 81).


Para termos a dimensão literária desta explosão, basta vermos a quantidade de livros lançados durante a ditadura que são lidos (e, em sua maioria, reeditados) até hoje e compararmos com os período imediatamente anterior e posterior: só em 1975 tivemos o lançamento de Confissões de Ralfo, de Sérgio Sant’Anna, Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, O ovo apunhalado, de Caio Fernando Abreu, A morte de D.J. em Paris, de Roberto Drummond, Catatau, de Paulo Leminski, Poema sujo, de Ferreira Gullar, e Museu de tudo, de João Cabral de Melo Neto. No ano seguinte, foram publicados Reflexos do Baile, de Antonio Callado, Essa Terra, de Antonio Torres, Armadilha para Lamartine, de Carlos Sussekind e A Festa, de Ivan Angelo. David Arrigucci reconhece em uma mesa-redonda feita na segunda metade dos anos 70:

A década de 60 foi extraordinariamente fértil para o romance hispano-americano. E no Brasil foi extraordinariamente fraca, (...). A literatura brasileira começou a ter interesse de novo no fim da década de 60 e início da 70. (...) Eu dei uma entrevista em 74 que falava isso: o Dalton Trevisan era o melhor escritor de ficção que tínhamos naquele momento. Hoje já não se pode mais dizer isso” (ARRIGUCCI, 1999, p. 105)

Grande parte desse desenvolvimento se deu pela decisão dos poderes autoritários de concentrar a perseguição política em situações em que se buscasse fazer uma ponte da atividade intelectual para as camadas mais pobres da sociedade. Como bem expressa Silviano Santiago, “a proporção de 60 mil leitores para 110 milhões de habitantes, já levantada por Roberto Schwarz em 1970 e retomada por Carlos Guilherme Motta em 1977, é ridícula e deprimente” (1982, p. 25). Literatura, ainda mais contemporânea (que não goza do mesmo prestígio que “os clássicos”) muito dificilmente apresentaria ameaça significativa à estabilidade governamental. A própria prática da censura, tão frequentemente citada como marco cultural da época, mostra na sua listagem exaustiva de obras interditadas (disponível no livro Nos Bastidores da Censura, de Deonísio da Silva) uma quantidade na verdade bastante pequena de títulos que não fossem apenas pornografia: fica claro que o ímpeto principal era a proteção dos ditos e malditos bons-costumes: Zero foi proibido pelo seu conteúdo brutalista, uma vez que muito do que ele tem de crítica está presente também em A Festa, que nunca foi proibido. Dos poucos livros de natureza intelectual que acabaram sendointerditados, a literatura aparece como número ainda mais ínfimo.
Isto foi percebido pelas próprias figuras da intelectualidade da época. Nas palavras de João Antônio, “quando a censura abrangeu diretamente todas as formas de expressão, da televisão ao jornal, do teatro à vida sindical, a literatura cresceu em importância” (HOLLANDA, 2004, p. 146), sendo a ela possível dizer o que não se podia dizer em outros discursos. A cultura passava a ocupar espaços até então específicos do jornalismo e do debate ideológico aberto, bem mais cerceados:

Carlos Nelson Coutinho (...) vincula a hiperpolitização da cultura depois do golpe de 1964 ao fechamento dos canais de representação política, de modo que “as pessoas que tinham forte interesse pela política terminaram levando esse interesse para a área da cultura. Isso teve um lado positivo. Claramente a cultura tem uma dimensão política. Mas às vezes, também teve um lado negativo, no sentido de que se politizaram excessivamente disputas que na verdade são mais culturais que partidariamente políticas. [...] A esquerda era forte na cultura e em mais nada.(...) o crítico perguntou [a Geraldo Sarno] por que ele fazia cinema. Geraldo teria respondido: faço cinema porque não posso fazer política.” (RIDENTI, 2000, 55)

Já Carlos Nelson Coutinho declara em 1979:

A partir do golpe de 64 eu começo a me interessar muito por literatura e a fazer crítica literária -e isso passa a ser uma atividade dominante na minha vida. (...) eu me pergunto se essa passagem não teria sido um pouco inconsciente, na medida em que eu não podia falar sobre realidade brasileira diretamente, quer dizer, a literatura me servia de... de viés” (HOLLANDA, 1980, 52)

Flávio Aguiar, em texto de 1978, constata que a impressão que se tem ao examinar a produção literária que lhe era recente é a de que houve um renascimento e que os eventos organizados sobre literatura surpreendiam, pois “Percebeu-se que a literatura atraía um público mais amplo do que a expectativa usual, e houve margem para muita coisa, que dormia na gaveta, ir pelo menos dormir na gaveta alheia”(1997, p. 179).


Ainda que se vivesse esta produtividade, criou-se na época o lugar-comum do “vazio cultural”, que expressava a insatisfação do meio intelectual com sua própria produtividade. Como coloca Süssekind:

[o vazio cultural é] verdadeiro lugar-comum quando se fala das duas últimas décadas (...) Tomando ao pé da letra a expressão, já seria possível negá-la. Não houve vazio, houve um volume significativo de publicações. É só pensar na ampliação do mercado editorial no Brasil dos anos 80, possível graças à conquista de público realizada na década anterior” (SUSSEKIND, 2004, p. 107)

Ainda que se produzisse muito e de qualidade acima da média para os padrões brasileiros, permanecia certo ar de frustração: Fernando Henrique, por exemplo, imediatamente após falar em entrevista da existência de uma explosão de livros diz que se vive na época “um momento extremamente negativo, pálido do ponto de vista cultural” (VENTURA, 2000, p.81). Para além da parcela automática de reprovação da cultura de seu tempo, presente em qualquer tempo de que se possa falar, é compreensível este desgosto tendo em vista o objetivo traçado de se discutir (diretamente ou literariamente) a realidade política brasileira daquele momento, escandalosamente equivocada, e a ineficácia completa desses esforços incessantes, sendo sempre possível culpar o regime autoritário por impedir este salto de realização.
Embora certamente não seja exagero a noção da época de que havia certa interiorização da censura por parte dos produtores intelectuais[2], como por exemplo o medo de ter um trabalho de meses ou anos impedido de circular por conta de determinação governamental, provou-se inteiramente infundada a teoria das “gavetas cheias”, muito popular à época, que fabulava que uma vez findo o regime militar e a censura, várias obras interditadas e guardadas pululariam pelas estantes e pela cultura brasileira como um todo. Augusto Boal fala a Zuenir Ventura: “[este vazio cultural] pode ser que exista, mas as gavetas dos censores não estão vazias. Esvaziem-se as gavetas dos censores e se encherá de imediato o vazio cultural que alguns sentem” (2000, p. 46-47). João Luiz Lafetá diz, a respeito da indisponibilidade (pela proibição) do romance Zero, de Ignácio Loyola de Brandão: “nossa insuficiência editorial estava fazendo-nos perder, se não o contato com obras-primas, pelo menos a oportunidade de conhecer experiências ficcionais interessantes e – principalmente – atualizadas em relação à vida do país” (2004, p. 449). O bom leitor decerto entenderia o que o crítico quis dizer por insuficiência editorial.
Finda a censura e finda a ditadura, no entanto, tivemos o que se cunhou de “década perdida”, expressão que tem visto serventia para além do campo econômico e tem migrado também para o lado cultural da vida brasileira. Uma listagem de número de obras notáveis como a feita alguns parágrafos acima restrita aos anos 80 (e talvez também 90) dificilmente chegaria ao número alcançado pelo ano de 1975 sozinho. Não só as gavetas estavam vazias, como também mostrou-se difícil manter a produção literária começada a partir daquele momento de nova liberdade. Até mesmo autores que se consagraram naquele período tiveram dificuldade de manter o nível: qual outro livro de Ivan Angelo, de Ignácio de Loyola Brandão, de Antonio Callado, de Antonio Torres que tenha alcançado o sucesso dos seus lançamentos durante a ditadura? Creio que certa derrocada cultural do período pós-ditadura tinha suas sementes já plantadas nos anos de produtividade surpreendente.

Parte 2

DECEPÇÃO: Depois da ditadura
Ele estudou por quase dezoito anos aos pés do mais consumado fodedor de mentes que eu já conheci na vida, e até agora ele permanece tão confuso que ele pensa que a forma de escapar a influência daquela pessoa é pela renúncia e ódio àquela pessoa. Definir você mesmo em oposição a algo é ainda estar anaclítico àquela coisa, não é?” Personagem de Infinite Jest, romance de David Foster Wallace

João Luiz Lafetá, que à época resenhava a produção literária contemporânea em jornais, expressa seu desgosto e perplexidade ao criticar um novo romance de Antonio Torres:

Difícil entender o que acontece, afinal de contas, com o romance brasileiro recente. Depois da explosão promissora no meio da década de 1970, passou-se o tempo e parece que as expectativas goraram. Escritores cujos primeiros livros anunciavam bons desenvolvimentos futuros apresentam agora, dez anos depois, romances que apenas repetem esquemas já conhecidos e experiências envelhecidas" (LAFETÁ, 2004, p. 487)

É certamente anti-intuitivo imaginar que sem a censura e sem a possibilidade de perseguição estatal os escritores passassem a escrever menos, ou escrever com qualidade inferior: ao se retirar uma restrição (ou a possibilidade de uma restrição), o desenvolvimento que se teria como natural ou razoável é que a escrita cresceria, que os ficcionistas, completamente desinibidos, retomassem projetos antes impossíveis diante da ameaça ou possibilidade de ameaça.


Se nos detivermos, contudo, no conteúdo majoritário dessa pujança da literatura durante o período ditatorial, podemos começar a entender o que aconteceu. Sérgio Sant’Anna, sem a vantagem significativa do distanciamento histórico, conseguiu enxergar exatamente o que estava acontecendo e o que posteriormente se desenrolaria no cenário cultural em sua peça Um romance de geração, de 1980:

talvez não tenha havido uma época tão fértil, pelo menos quantitativamente, quanto esses quinze anos pós 64 (...) Mas por que essa fertilidade, ponto de interrogação? Não seria porque os escritores (...) teriam encontrado na ditadura um excelente ponto de referência, ponto de interrogação e parágrafo? (...) Tínhamos algo contra o que lutar, sem muito risco, e os melhores motivos, ponto. (...) a relação entre a ditadura e a literatura talvez tenha sido como um jogo de gato e rato, ponto. Sem o gato o jogo não poderia continuar, para a tristeza do rato. (...) Nós talvez passemos a ser conhecidos como os “Órfãos da Ditadura” (...) quantas pessoas eu vi pelos bares falando de Herzog como quem fala de um artista famoso (...) entre o Wladimir Herzog que foi morto numa cela do Exército e aquele que aparecia em nossos livros havia uma diferença de grau e substância, ponto. Este último era apenas o personagem que nós, os escritores, precisávamos para manter acesa a “nossa chama”, a “nossa fogueira”, o JOGO, em maiúsculas”. (SANT’ANNA, 1981, p. 65)

Ainda que incomensuravelmente mais poderosa que a literatura, o governo ditatorial, se mostrava alvo fácil e imediatamente válido para as iniciativas literárias. Ninguém questionaria a escolha de assunto de um livro se este assunto era o autoritarismo vigente, praticamente ninguém deixaria de elogiar (talvez não por escrito, ou em meios de ampla comunicação) o livro, a coragem do autor, etc. E com a redemocratização, apagavam-se todos esses atalhos (há quinze anos consagrados) para a validade existencial de um esforço literário/intelectual.
É possível ver a mesma questão expressada por outras palavras no diário de hospício do poeta Torquato Neto, recuperado e interpretado por Flora Süssekind:

A data é 13 de outubro de 1970 e lia-se nele o seguinte fragmento “eu: pronome pessoa e intransferível. Viver: verbo transitório e transitivo, transável, conforme for. a prisão é um refúgio! é perigoso acostumar-se a ela.” (...) em parte profetiza a verdadeira síndrome da prisão que tomaria conta dos escritores e da literatura brasileira de modo geral durante a década passada. E o que caracterizaria esta síndrome? Como é frequente nas selas das prisões, ora gritos de rebeldia, como os da arte de protesto, ora sussurros medrosos, como nas alusões ou parábolas. Ora a tentativa quase sempre difícil de estabelecer contato com o maior número possível de prisioneiros (...) ora o autocentramento(...)” ( SUSSEKIND, 2004, p. 71-2)

Qualquer coisa que fizesse torcer o nariz do militar tinha validade grandiosa e subversiva, e considerando a vasta gama de coisas que não cabem na estreita visão de mundo do conservadorismo mais fossilizado, criou-se por ironia terrível uma grande liberdade de atuação válida para o intelectual. Se a vertente da “ego-trip” poética (expressão de Süssekind) antes parecia uma luta da subjetividade contra a rigidez comportamental desejada e propagada pelo militarismo, qual seria o seu valor subversivo quando o sistema econômico já se impunha não mais pela força de forma tão descarada, quando o narcisismo individualista passa a ser combustível do consumismo e força-motriz do sistema econômico anteriormente tido como opressor e hoje aparentemente inescapável? O que dizer da revolução sexual, seu questionamento profundo dos costumes, e da facilidade com que ela passou de posição contestatória dos valores conservadores dominantes a regra geral midiática e mercadoria de excelente rentabilidade?
Havia também, claro, a perda do território privilegiado de discurso contemporaneamente situado por parte da literatura com a enxurrada de depoimentos pessoais de quem viveu de maneira mais dramática a opressão do Estado. Como coloca Hollanda:

A retomada do discurso político na imprensa, a reorganização das entidades sindicais e estudantis, os movimentos de massa, a novidade das associações de bairro mobilizam os debates e retiram da literatura e da produção cultural em geral o privilégio de ter sido, por um bom tempo, o espaço por excelência da discussão sobre a realidade e o momento brasileiro (HOLLANDA, 2000, p. 188, grifo meu)

O leitor mais interessado em questões políticas do imediato já poderia migrar de volta das estantes de romances e contos, podendo ter os relatos verídicos (divulgados e escritos como tal) sem precisar se preocupar com qualquer volubilidade indesejável do literário. E ainda assim a perda desta função compensatória mais chã não foi o único baque da produção literária, cuja decaída não foi meramente de natureza editorial e sim (e principalmente) qualitativa: esta última queda resultou de todo entendimento do que consistia o ato literário como também do entendimento mais profundo a respeito da realidade do momento, que via no autoritarismo origem e não efeito dos problemas profundos do país. Luiz Costa Lima, em entrevista de novembro de 2013, colocou a questão de maneira sincera: “Nossa geração acreditava que a única coisa que faltava para o Brasil mudar por completo era o fim da ditadura. Linda ingenuidade”.
Havendo uma fonte inquestionável de todos os problemas brasileiros, não deve ter sido recebida com alegria a constatação que a maioria deles (com exceção dos imediatamente ligados ao autoritarismo) continuava após o fim da ditadura, com alguns até se agravando, e o fazer literário viciado em negatividade (em críticas, denúncias, etc) não soube potencializar a perplexidade e o desapontamento. Reaproveitando a expressiva metáfora Tom-e-Jerry de Sérgio Sant’Anna para descrever o jogo que a literatura havia se tornado durante a ditadura, o fazer literário brasileiro não estava preparado para lidar com uma realidade só de ratos.
O hoje esquecido romancista Julio Cesar Monteiro Martins, em entrevista a Heloisa Buarque de Holanda, mistura erros sintomáticos, julgamentos questionáveis e acertos impressionantes em seu diagnóstico da cultura brasileira em 1979:

Jamais a nossa literatura apresentou tamanha diversidade temática ou estilística, e portanto jamais atingiu o grau de representatividade que ora se nos apresenta. A tendência para os anos 80 é de acirramento destas posturas e de desenvolvimento prático destas tendências que agora se revelam, ainda de modo embrionário, principalmente nas publicações dos autores que emergiram durante a fase de arregimentação dos meados da década. Os panoramas confusos irão se clarificando, o patético, o cético e o lúdico irão sendo substituídos pela manifestação de crença dos mais variados valores, e os anos 80 prometem ser férteis em definições, posturas revisadas e questionamentos internos dentro da própria intelectualidade, tudo isto a partir de obras de ficção e ensaísticas que tendem a proliferar-se, com crescente interesse e acompanhamento do público leitor. Nos anos 70 bastava saber-se o que não se queria. Nos anos 80, há que se revelar o que se pretende, sob o risco de, se assim não o fizer, ser o intelectual hesitante atropelado por uma avalanche de definições categóricas e passar a residir num certo limbo cultural, que também já aponta em estado embrionário. (HOLLANDA, 2004, p. 158, grifo meu)


Não só a redemocratização apresentou uma realidade bem mais ambígua e complexa do que o período ditatorial, como também a forma como ela se realizou trouxe toda uma série de frustrações para aquela época inéditas para a classe intelectual, escritores inclusos. Ainda que seja uma constatação bastante perversa, é verdade que a perseguição política (ainda que de natureza menos irrestrita que a de várias ditaduras vizinhas) acabava por expressar que de alguma forma se dava alguma importância para a atividade intelectual: se o desejo é que se permaneça calado, é porque o que se diz incomoda e, assim sendo, é dotado de alguma relevância. Isto, somado à valorização do fazer literário já reportado nos parágrafos anteriores, certamente deve ter contribuído para uma série de expectativas que a redemocratização deixou irrealizadas.
Provavelmente poucos intelectuais teriam imaginado que a ditadura acabaria por iniciativa interna do regime (como narra Elio Gaspari em seus quatro livros famosos sobre o assunto), que a transferência de poder de volta para a sociedade civil se daria de forma tão distante e obscura (e “segura”) quanto o jogo sucessório de generais. Como relata Ronaldo Costa Couto, até mesmo após vários anos de suposta “certeza da necessidade de se re-estabelecer a normalidade política”, todo o movimentar político do primeiro dirigente civil, Tancredo Neves, precisou ser cuidadosamente articulado de forma a assegurar aos militares que não haveriam “revanchismos” por parte do novo governo civil (o próprio medo servindo de reconhecimento da ilegitimidade dos atos cometidos). É como se, em vez de uma retomada do poder usurpado, os civis precisaram pedir licença e “por gentileza” aos militares para que a população do país novamente pudesse eleger seus líderes. Tudo isso passando bem longe das universidades, dos intelectuais, dos escritores, que pareciam tão importantes poucos anos antes. Como coloca Roberto Schwarz:

A resposta intelectual à feição decepcionante da Abertura   brasileira foi decepcionante por sua vez. Nada à altura do jogo de cena e dos acertos nos bastidores a que se dedicaram os conservadores dos campos autoritários e democrata. É como se a mudança nos termos da procuração social do pensamento houvesse lhe quebrado o ânimo crítico e abrangente (SCHWARZ, 1999, p. 175)

Maria Rita Kehl, por sua vez, diz que “foi espantosa a displicência, diria mesmo a frivolidade, que caracterizou a maior parte do ambiente crítico dos anos 1980: como se a ditadura por aqui tivesse terminado não com um estrondo, mas com um suspiro” (KEHL, 2010, p. 128).

CONCLUSÃO

Ocorreu com o fim do regime militar uma espécie de ruptura brutal de expectativas (inversamente proporcional à ausência de semelhante ruptura na redemocratização): por todo seu empenho, esforço e eventual sofrimento, não houve qualquer grande conquista ou até mesmo recompensa para a camada intelectual brasileira para além da recuperação do pleno direito de expressão, e chamar isto de recompensa é não levar em consideração que se trata de algo que desde o princípio não deveria lhe ter sido arrancado. Diante de tal panorama, parece natural certa decadência do empenho imediato em vários dos esforços intelectuais contemporâneos, não somente nos literários: qual o valor de tanta revolta se o único resultado realmente demonstrável é o desapontamento reiterado?
Não se diz aqui que a questão social se tornou algo totalmente ausente na literatura brasileira contemporânea, mesmo porque tal ausência total seria completamente impossível; até mesmo um autor próximo do abstrato como Samuel Beckett encontra muito sentido (quem sabe a contragosto) colocado em seu contexto da Europa pós-guerra. Autores tidos pelos ainda engajados como “alienados”, como por exemplo Daniel Galera, revelam muito do mundo em que vivem (e no qual vivemos, também) ao falar da vidas individuais de seus personagens. O que aconteceu foi o fim da predominância de certo entendimento a respeito do que consiste trabalho literário, o fim da missão como cerne da existência intelectual (ainda que pela negativa, centrado no ser-contra) do escritor.
É verdade que ainda aparecem obras elogiadas que se situariam com maior facilidade no enquadramento do empenho, como por exemplo os livros do já mencionado Luiz Ruffato, ou os romances Habitante Irreal, do Paulo Scott (tratando da questão indígena) ou O Passageiro do Fim do Dia, do Rubens Figueiredo. No entanto, se pegarmos as entrevistas deste último autor, em divulgação ao seu (merecidamente) premiado romance, percebe-se sua perplexidade diante de sua contemporaneidade literária “apaziguada” com as injustiças do mundo, e se verificarmos as listas de premiações literárias, encontraremos uma maioria de obras que dificilmente seriam bem recebidas sem a velha controvérsia (hoje quase inexistente, e quando suscitada sempre carregando certo ranço de ressurreição forçada) da “problemática da alienação”.
Ainda que não se taxe aqui de impossível um futuro retorno desta predominância do empenho, tendo em vista que o número de leitores de literatura no Brasil não melhorou muito a proporção citada como ridícula e deprimente nos anos 70 (em um país de quase duzentos milhões de habitantes o sucesso editorial ser uma vendagem na casa de alguns poucos milhares de cópias), em um mundo de televisão, internet, redes sociais e etc, parece impossível que a retomada das causas políticas na literatura possa produzir uma retomada de seu prestígio antigo e orgânico, provavelmente fazendo com que esta improvável retomada possa soar como mero modismo, escolha artística dentre várias outras possíveis, provavelmente esvaziada de um sentido que seja exterior ao texto.
Se formos julgar o conteúdo político da atividade literária empenhada por um critério bastante razoável do agir político, a eficácia (ou, em forma de pergunta, “qual o resultado da iniciativa, no final das contas”), e colocar isto ao lado das tiragens minguadas de literatura contemporânea e ao seu lugar relativamente desprivilegiado dentro mesmo das atividades intelectuais como um todo (deixando de lado a possibilidade da atividade intelectual em si estar em situação desprivilegiada no mundo de hoje), não parece inteiramente descabida a predominância do desenvolvimento de formas literárias que não priorizam o engajamento, ainda mais em um mundo em que as causas não são tão facilmente identificáveis como válidas como quando se vivia sob o autoritarismo ditatorial. Ou, colocado de outra forma, em um esforço compensatório apressado diante de um texto sobre literatura em que se chega ao fim tendo citado trecho de apenas uma obra literária (e ainda assim trecho ensaístico), podemos citar o poeta Paulo Henriques Britto em seu poema Pós, publicado em 2012:

Antes era mais fácil – sim, porque era
Mais difícil, havia mais em jogo,
E o tempo todo se jogava à vera.
Precisamente: mais difícil, logo

Mais fácil. Porque sempre se sabia
de que lado se estava- havia lados,
então. E a certeza de que algum dia
tudo teria um significado.

E nós seríamos os responsáveis
por dar nomes aos bois. Havia bois
a nomear, então. Coisas palpáveis.
Tudo teria solução depois.

Chegou o tempo de depois? Digamos
Que sim. E no entanto os nomes dados
Não foram, nem um só, os que sonhamos.
Talvez porque sonhássemos errado

Talvez porque, enquanto alguns se davam
ao luxo de sonhar, outros, insones,
imunes, implacáveis, se entregavam
à tarefa prosaica de dar nomes

sem antes sonhar. E, dia feito,
agora tudo é fácil. E por isso
difícil. Não, a coisa não tem jeito.
Nem nunca teve, aliás. Desde o início.

BIBLIOGRAFIA
AGUIAR, Flavio. A palavra no purgatório: literatura e cultura nos anos 70. São Paulo: Boitempo Editorial, 1997.
ARRIGUCCI, David. Achados e Perdidos. São Paulo: Companhia das letras, 1999.
BRITTO, Paulo Henriques.  Formas do Nada. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. São Paulo: Ouro sobre azul, 2007
_________________. Literatura e Sociedade. São Paulo: Ouro sobre azul, 2010.
CONY, Carlos Heitor. A revolução dos caranguejos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
GASPARI, Elioet al. 70/80 Cultura em Trânsito. Rio de Janeiro: Aeroplano editora, 2000.
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MACHADO, Janete Gaspar. Os romances brasileiros dos anos 70: fragmentação social e estética. Florianópolis: Editora da UFSC, 1981
NOVAES, Adauto (org). Anos 70 ainda sob tempestade. Rio de Janeiro: Aeroplano editora/SENAC Rio, 2005.
PEREIRA, Carlos Alberto M. e HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Patrulhas ideológicas: arte e engajamento em debate. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980.
RIDENTI, Marcelo. Em Busca do Povo Brasileiro. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa: ensaios sobre questões político-culturais. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
SCHWARZ, Roberto. Cultura e Política: 1964-1969. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2000.
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SEVCENKO, Nicolau. A literatura como missão. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SILVA, Deonísioda. Nos Bastidores da Censura: sexualidade, literatura e repressão pós-64. São Paulo: Editora Liberdade, 1989.
SUSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária: polêmicas, diários e retratos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.
WALLACE, David Foster. Infinite Jest. Nova Iorque: Little Brown Company, 1996.

Breno Kümmel se gradou eu Letras Português pela UnB e fez o mestrado em Literatura Brasileira na UFMG. Em 2006 lançou um livro de contos, Estrada de Espelhos, e atualmente está escrevendo um romance. De vez em quando posta textos e traduções e trechos de sua ficção no blog http://asordensdadesordem.blogspot.com.br/

Sua dissertação de mestrado pode ser lida integralmente no blog :





[1] Janete Gaspar Machado, no que deve ser o primeiro livro acadêmico sobre a produção literária do período, se recusa de estudá-lo, colocando-o ao lado de Autran Dourado, Lygia Fagundes Telles, e Guimarães Rosa, entre outros também amplamente reeditados, por se tratar de autores que “o tempo já consagrou”(1982, p. 17) 
[2] Ainda que seja importante mencionar que a mera leitura dos livros da época mostra que a noção muito difundida de que a censura impeliu aos escritores adotarem certa estética da expressão indireta, alegórica, é inteiramente equivocada. Falo mais a respeito disto no capítulo 5 da minha dissertação.

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