segunda-feira, 2 de junho de 2014

A arte de reinventar mitos, crenças e desilusões

A arte de reinventar mitos, crenças e desilusões

Por Alexandre Staut*

Astrofísico ou Aquele que sonha as estrelas; Arqueólogo ou Aquele que inventa o passado; Delinquente ou Aquele que subverte uma época; Antropólogo ou Aquele que perscruta o ser; Vidente ou Aquele que inventa o porvir; Falsário ou Aquele que perjura a memória; Ficcionista ou Aquele que finge seu prazer; Amador ou Aquele que se dedica ingenuamente ao deleite; Poeta ou Aquele que inspira a imaginação (...); Autor ou Aquele que plagia a outra dor. Estes são os títulos dos fragmentos de Antiterapias, ficção de estreia do mineiro Jacques Fux. Ele constrói a obra tendo como base um judeu que passeia por entre mitos e movimentos literários que emergem ao longo dos 21 capítulos do romance ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura 2013, categoria estreante (autores com menos de 40 anos). 
Escritor e tradutor, Fux é formado em Matemática, tem mestrado em Computação e doutorado em Literatura Comparada, pela Universidade Federal de Minas Gerais; além de um doutorado, pela Universidade de Lille, na França, em Língua, Literatura e Cultura Francesas. Pesquisador acadêmico, publicou em 2011 o seu primeiro livro de crítica literária: Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO, versão da sua tese de doutorado, que recebeu o Prêmio Capes de Melhor Tese do Brasil em Letras/Linguística 2010. Na entrevista abaixo, Fux fala do seu romance, de matemática e sua relação com literatura, além das pesquisas para o próximo livro.

Em sua escrita ensaística, a matemática é um tema sempre presente. Um exemplo é o seu estudo sobre Georges Perec, que parecia ter obsessão por palíndromos, pela escrita calculada (autor do romance Les revenentes, de 1972, em que usa apenas palavras formadas pela vogal ‘e’). E na sua ficção? Como a matemática entra no processo de criação?
No meu primeiro livro de ficção, Antiterapias, eu me impus algumas regras para escrever cada capítulo. Apesar de ser uma ficção com argumentos autobiográficos, em cada capítulo há um ‘evento’ de alguma outra literatura. Nada na vida do personagem principal é ‘inédito’, tudo que acontece pode ser encontrado em outras literaturas. Assim ele se torna um ser ‘híbrido’, formado pelo cânone da literatura. Ele recebe outros ‘conhecimentos’, e evolui, assim como na matemática. Para se provar um teorema é necessário se valer de postulados e do conhecimento anterior. Da mesma forma, para se compreender a profundidade do Antiterapias, é necessário desvendar, descobrir, desvelar o que vem junto. Porém, não saber ou não conseguir resolver os quebra-cabeças, não impede que o leitor entre no livro (o Perec é o que soube fazer isso como ninguém!). 

Já que falamos em matemática, em que a disciplina mais te parece interessante?
A matemática é linda! As suas histórias e estórias. Seus personagens malucos, seus amores não correspondidos, a devoção à descoberta de, talvez, um Deus. Assim a paixão e as possibilidades inventivas que a Matemática desperta, nos fornece ferramentas inestimáveis para a ficção.


Como pode ser usada como ferramenta por autores de ficção?
Acho que quanto mais você conhece do assunto, mais você pode descobrir suas aplicações. Borges leu um livro chamado Matemática e Imaginação e lá encontrou os paradoxos, o infinito, a enumeração de conjuntos, os números reais e imaginários... e fez o que fez, com brilhantismo e ineditismo. Perec também criou outras listas, outros problemas, outras estruturas matemáticas e fez, do quase impossível, uma nova e formidável possibilidade literária. Eu estou aprendendo com eles, ousando um pouco, e buscando algo de novo. De diferente. De inédito. Mas falta muito. Muitas leituras, muitos estudos, muitas ideias. Mas continuo tentando.

Em seu livro de estreia há diversas referências e citações, algumas claras, outras escondidas, a Drummond, Lispector, Pessoa, Proust, Vargas Llosa, Jorge Luis Borges, Freud, Isaac Bashevis Singer, Primo Levi, Rousseau e Leon Tolstoi. Como foi o processo de criação da obra? Como foi reunir tantos autores, muitos deles tão distintos entre si?
Sim, são estilos, épocas e problemas completamente diferentes, mas que fazem parte de um cânone. Assim os insiro no meu livro, na vida do personagem que quer se juntar a esses escritores. Que viveu algumas das dores, das alegrias, das frustrações e da beleza de tê-los encontrado pelo caminho. Além disso, eles ‘prefaciam’ o Antiterapias, uma releitura do “Os precursores de Kafka”, de Borges, e do “plagiadores por antecipação”, do Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle, corrente literária que propõe regras que flertam com o surrealismo, formada por escritores e matemáticos, como Raymond Queneau, Itano Calvino, Anne F. Garréta, Perec; surgiu na França, nos anos 1960).

E os seus personagens, o que te pedem? Como você os inseriria na literatura de temática judaica?
Ainda tenho poucos personagens, mas eles querem ser inéditos e, ao mesmo tempo, fazer parte do cânone. Eles reinventam mitos, crenças, desilusões. Alguns são judeus, com uma pitada brasileira. Outros são universais, ou buscam ser parte de um todo, de uma ligação metafísica que una todas as pessoas, algo que encontramos na busca empregada por David Foster Wallace.

Como vê a literatura de veia judaica produzida no Brasil, hoje?
Acho que alguns escritores contemporâneos brasileiros judeus estão surgindo. Eles não trabalham necessariamente com o tema judaico, mas receberam uma carga cultural e literária que os auxiliam na literatura. E tem muita coisa boa por aí e que merece atenção.

De forma ampla, quais as suas observações sobre a literatura contemporânea brasileira?
Acho que a literatura contemporânea brasileira está bem interessante. É muito difícil, no entanto, saber o que vai ‘permanecer’, já que só o tempo dirá. Mas acho que nós, acadêmicos e escritores, temos que fazer nossa parte lendo e difundindo nossa literatura, talvez o que existe de mais precioso na nossa cultura tão miscigenada e rica.

Qual livro acredita ainda não ter sido escrito pelos autores de ficção brasileiros? E os personagens, quais gostaria de ver em nossos livros?
Acho que um dos maiores livros, Grande Sertão: Veredas, nos mostra a necessidade de fazer algo diferente, mas que seja totalmente universal, apesar das inúmeras dificuldades da língua e das traduções. Assim, temos que lutar para fazer algo ainda melhor, mesmo sabendo que isso seja quase impossível. Mas o fato de tentar, de querer, de ousar, pode ser um grande incentivo para a nova produção literária brasileira.

Poderia falar sobre a sua relação com a literatura francesa e o doutorado que defendeu na França? O que tem pesquisado, no momento, em matéria de literatura?
Trabalhei, sobretudo, com as obras de Perec e dos outros membros do Oulipo. Atualmente estou pesquisando um pouco mais sobre o mal du siècle da literatura francesa do século XIX. Os problemas levantados por esses autores são bem interessantes e fazem parte do meu novo projeto literário. Vou lançar, ainda nesse ano, um livro ‘infantil para todas idades que vai sair pela Rocco. Estou bem animado e trabalhando bastante. Espero conseguir publicar meu novo livro por uma grande editora também. Além disso, continuo com minha pesquisa acadêmica, que foca na questão da memória e do trauma.



* Alexandre Staut é colunista do blog Études Lusophones e autor dos romances Jazz Band na Sala da Gente (2010) e Um Lugar Para se Perder (2012). Tem contos publicados na França e em Moçambique.








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