sexta-feira, 9 de maio de 2014

Febre

La Voix Lactée de Geneviève Cadieux
Febre
Carla Alexandra Ezarqui (*)

365. Abre o chuveiro e se pergunta que dia é hoje. Trezentos e sessenta e cinco dias. O vapor da água embaça o espelho. Trezentos e sessenta e cinco dias em pleno desenrolar de um história que ainda se escreve e se inscreve no corpo, talvez pelo tempo, essa mão sem sentidos, pois aquela mão ardente já se cansou de apagar, amassar o dia, jogar a semana fora, começar um papel novo. Um papel difícil de assumir, quando o pouco que se queria era respirar, mas respirar profundamente, naquele instante em que se consegue só respirar e sentir paz. Um instante. Sentir o ar que se renova e renova todo um processo de existir. Sentir a alma respirar, depois de todo o suor. 36,5 graus. Já faz algum tempo, deve estar passando. Não muda, nunca se sabe quando vem, mas vem, tão certa quanto a certeza de que ela vai voltar.
Franklin D. Roosevelt. Nona estação da linha um. Correspondência com a nove. Cores jaune e vert, nove. Rumo à estação Champs-Élysées. Fila, tumulto, quanta gente! Um pé, depois outro, outro e outro... A escada rolante cujos degraus desaparecem e reaparecem, assim como a febre estão sempre ali, um ciclo contínuo e infinito, a menos que a energia acabe. Os meus degraus ainda param qualquer dia. A escada carregando o peso do corpo, os degraus apanhando e empurrando a todo instante, um corpo pra frente, como a esteira de uma linha de montagem da máquina de fazer gente, a única diferença é que as pessoas saem na mesma forma que entraram. Forma. É muito difícil se manter o mesmo, enquanto se pensa. Se não se vive, ao menos, desloca-se. De uma estação à outra, compromissos-escadas-rolantes. A continuidade de uma vida inteira em modo escada rolante. Um som. A música. Eu conheço essa música, não consigo me lembrar, mas esse som... Nanananana-na-na, et si tu n'existais pas, nada teria existido e eu não sentiria esse borbulhar na alma. Tantos versos, tantas palavras descobertas ao descoberto, no momento em que a febre tomava conta de dois corpos e a música tocava e o verso se repetia... longe, o infante... que intuito tem... ele mesmo era.... a febre. Vinte e nove de abril, diplomata sessenta e um. Papeizinhos. Semáforo, seu melhor amigo. Viagens, distância, estrada. Fim de semana, voyage. Nove. A camiseta já estava molhada outra vez. O termômetro, jogado fora. Há números demais! Mas também, você não vai querer abrir a sua bolsa aqui e agora, não é? Me deixa. Que besteira numerar o que é pura palavra. Não dá pra medir a sua extensão, tão menos o não-palavra. A palavra cria um estado, o não-palavra, fantasmas falantes que deixam a cabeça a ponto de explodir. Os e-mails, as músicas, as conversas mais inexplicáveis. A poesia. O livro colocado de propósito embaixo do travesseiro. Índice, receita. Eu já tinha te falado, você deveria saber. As feias, belo e inesperado. Alguma coisa além da carne, a trinta e sete graus centígrados. Queimaduras. A escada, nanananana-na-na, a música que se acabava, a tentativa desesperada de acompanhar a melodia para encontrar a letra esquecida em meio a tantos papeis bem lá no fundo das gavetas da memória que não devem ser abertas, mas assim permanecem, já não se consegue trancá-las. Aliás, você sempre perde a sua chave, qualquer dia você ainda fica pra fora de casa. É preciso tirar os outros papéis de cima pra conseguir puxar. Não dá, está preso. A bigorna retém, porque pesa de razão e de tempo. Não lembrar é não sentir, de novo, a febre. O suor ainda escorre, as palpitações diminuem. Segundos eternos de deslocamento e quando se pisa firme, a música terminara. Et si tu n'existais pas. Não valeria a pena pedir ao cara que tocava o sax, tocar de novo. Ele poderia ser grosso, enquanto que minutos antes, bastaria jogar algumas moedinhas pra ele ficar satisfeito. Além do mais, no metrô tem tanta gente estranha, ele deve ser mais um desses loucos. Para de pensar essas bobagens, cuida da sua vida, o metrô está chegando, presta atenção, aperta o botão logo. As portas se abrem e a vida continua na próxima estação. Attention à la marche en descendant du train. Please mind the gap between the train and the platform. Attenzione al gradino scendendo dal treno. Atenção à lacuna! À porta também! Pardon, pardon, pardon, vai fechar, vai logo. Eu não sei o que eu faço com você, se de novo, você precisar voltar uma estação e não esqueça: às nove. Não se atrase! Lembre-se que o metrô sempre pode parar.


Meia noite, um ano e todo um tormento de meses na tentativa de escapar dela, dia após dia, de minuto a minuto. Nesse momento a falta de barulho faz pensar. Não pensa, não pensa. Só agradece a Deus e dorme. Do outro lado da rua ainda se ouve o movimento dos vagões nos trilhos, aqui o metrô é um cômodo estendido da casa. Trezentos e sessenta e cinco dias, trezentos e sessenta e seis agora. O pensamento já aprendeu a colocar a sua camisa de força pra dormir, pelo menos assim vocês se cansam menos. Dorme. Mas um barulho no meio da noite, uma algazarra lá fora, pode acordar a febre ainda antes que ela acorde o sono. Ela está em plena vigília, esperando o momento mais inoportuno de acontecer pra se liberar na pele, se acaso falta espaço na mente. Não sonha, você sabe que ela vem. Pronto, as lavas. Cuide delas agora, com bastante água. Eu te avisei. As gotas de suor caem involuntariamente, as lágrimas não. O calor. Trinta e nove graus.
"Eu não sinto mais, mas eu ainda sou...” A febre. “Que eu senti por você." A frase vem reprimida, em pedaços como o que ainda resta. Não pensa, não lembra, não sente de novo. Pior conhecer o céu e não vê-lo mais ou nunca ter enxergado? O que prefere quem não pode ver, enxergar o que há no final da escada ou simplesmente sentir-se levado? Eu sinto a felicidade ou só a recordo? Quando é que você vai parar com isso? Levanta, toma uma água. Quando foi embora? Que dia chegou? Memória. Tenho uma caixa de recordações, um monte de coisas sem valor que valem além da presença. Tudo o que se passou foi moldado pelo formato do acaso, agora cabe na caixa. É preciso ver acabado, ver de fora e de longe. Uma obra de arte enquanto se faz, não o é. O que se tem não é aquela coisa ali que eu disse, ou pas encore. Se ela ouvir, não volta mesmo. Detesta ser esperada. O que ela quer é surpreender, assim como a febre, dá no mesmo. Como a temperatura que sobe, o suor que escorre, o devaneio que equilibra a lucidez na corda bamba da loucura, só é febre quando acaba, se continuasse seria doença e porque não, a morte dos romances do século XIX? Resíduos acumulados cujo teor de nocividade corresponde ao tempo em que ficaram guardados, sem nenhum toque, apesar das milhares tentativas. Corroem. E nem experimente mexer lá. Não! No seu corpo... Trindade, curvas, o cartão. 1 La Défense – Château de Vincennes. Paz infinita, festa vinte anos... e continua a viajem, a dança... 9 Pont de Sèvres – Mairie de Montreuil. A embriaguez, o amor febril, as loucuras... O apito da porta, a paz. Tem um assento livre ali. O suor que não cessa, escorre, a frase que se repete interminavelmente como o ruído de uma obra em construção. Outra roupa molhada. Levanta, se troca e liga o note, se distrai, já vai passar, tão rápido que não dá nem tempo de começar a chorar. "Eu não sinto mais, mas eu ainda sou” tanta coisa escrita, que é impossível ler. O ser, o tempo, a febre, o que restou dos quatro. Está tudo ali, começo meio e febre. Pense as gotas de suor, pense na passagem do ser, de estação em estação, a febre que antes estado, passou a ser existência. O corpo não aguenta, a temperatura sobe. Distantes demais no tempo. “Eu também não sinto mais, mas sempre vou ser”... é preciso parar, o suor escore, o calor sufoca, a febre enlouquece... Para de reler esse e-mail. Exclui. “Em que você me transformou.” Trinta e nove graus, a febre. Descobre-se algo, simplesmente para saber que estava ali? Em você ou em mim? Existia. Respire, acalme-se, durma.
Espelho embaçado. Franklin D. Roosevelt, o cara gordo e barbudo do sax não está mais lá. Tente não falar sozinha, quando muito faça uma expressão leve com o rosto, sem entortar a boca como você costuma fazer, mas não se entusiasme, as pessoas podem tentar imaginar o que você está pensando. Direction La Défense prochain train dans une minute le suivant dans quatre minutes. Eu digo que você acaba ainda, como aquelas pessoas loucas do metrô. No metrô. Vá pela escada e aperte o botão verde.  



Carla Alexandra Ezarqui é graduanda em Letras (português-francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do programa de intercâmbio PLI ( Programa de Licenciatura Inertnacional) com a Université paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones




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