quarta-feira, 7 de maio de 2014

Errância e paisagens urbanas em Samuel Rawet

Errância e paisagens urbanas em Samuel Rawet

Por Michel Mingote (*)

 Foi nas minhas andanças que formulei todas as questões, refiz todas as perguntas, sonhei todos os sonhos.
                                                                                                    Samuel Rawet    

A obra literária de Samuel Rawet, escritor judeu-polonês que emigrou na infância para o subúrbio do Rio de Janeiro, tornou-se fonte de diversos estudos teóricos na contemporaneidade. A abertura propiciada pelos estudos culturais, estudos de minorias e suas diversas representações na literatura, além do próprio interesse da teoria contemporânea em relação à alteridade, puseram em pauta a obra do escritor, lida principalmente pelo viés judaico. Embora essa questão seja importante e visível em sua escrita, identificável praticamente em toda a obra do autor, seja em seus contos, seja em suas novelas, outras perspectivas, outras abordagens de suas narrativas também são possíveis, uma vez que ele traça uma escrita singular, nômade e intensiva. Dessa forma, em suas narrativas, percebe-se, além de temas relacionados ao judaísmo, como a presença do mito do “judeu errante” e a influência do Hassidismo[1], uma relação muito intensa entre sujeito e paisagem, entre o observador e aquilo que ele vê.
A atitude perceptiva das paisagens, predominantemente urbanas, advém da condição errante de grande parte dos personagens que figuram em suas narrativas. O conto Crônica de um vagabundo, de 1967, por exemplo, apresenta um personagem errante, que, embora afirme a existência de uma espécie de busca pessoal, angustiante, do conhecimento de si, caminha ao acaso pela cidade, sem rumo certo. O conto se inicia com a apresentação do andarilho: “Era uma vez um vagabundo, pronunciou quando ergueu a maleta e caminhou em direção à rua. Gostaria de um dia ouvir uma história que assim começasse”. (RAWET, 2004, p.211) E logo em seguida a tônica de toda a narrativa, os passos firmes e bem determinados que, no entanto, não o levam a nenhum ponto de destino:

Caminhou com firmeza mas sem saber para onde ia. A necessidade de movimento projetava-o como se estivesse bem determinado em seus propósitos. O corpo doía-lhe da viagem noturna, e embora trouxesse uma carga de amargura suficiente para garantir um deslumbramento momentâneo diante da paisagem, ele que normalmente não era tão amigo assim de paisagens, caminhava em passadas firmes sem desvios de atenção nem rompantes de ódio (Idem). 


Esse ato de caminhar sem saber para onde, sem um destino preciso, também atesta o vínculo corpo/escrita/movimento. A necessidade do deslocamento perpassa todo o conto, e propicia a apreensão da paisagem urbana. É deambulando sem rumo preciso que o protagonista adentra a paisagem. Cabe ressaltar que esta errância urbana comporta momentos de pausa, de estaticidade, e também de negação de um olhar de deslumbramento:

“Numa esquina de bilhar engraxou os sapatos. Percorreu o trecho de avenida já deserto e com iluminação deficiente, parando às vezes em um canto, diante de uma porta ou lampião, sem o ingênuo encantamento de quem descobre coisas. Tudo lhe surgia como em um desfile permanente, ele mesmo participando, onde o máximo a atingir era a constatação do desfile” (RAWET. 2004, p.215).

Embora o personagem apresente esta negação, em outro momento ele deixa entrever a possibilidade de captar as singularidades do espaço urbano: “E nessa caminhada apenas varria com os olhos as paisagens idênticas em todas as cidades, em todos os cantos, idênticas porque à exceção dos detalhes em que poderiam diferir? Ou os detalhes...”. (RAWET. 2004, p.243) O caminhante observa, apreende a paisagem ao redor, capta as intensidades do espaço através da sua caminhada sem rumo, guiada pelo acaso. No conto, o exílio, a insignificância, a desterritorialização são assumidos, com a apresentação desse sujeito do não-lugar[2], que utiliza a caminhada como essencial na apreensão do lirismo subjacente à cidade. É caminhando que o personagem perde a sua individualidade, se desterritorializa, se torna um sujeito descentrado. Assim, as palavras do ensaísta Maurício Vasconcelos, acerca da escrita do brasileiro João Gilberto Noll, podem ser visualizadas no conto de Samuel Rawet: “A força desta novelística e o aspecto de revelação nela contido vem da entrega aos choques da caminhada, do deixar-se levar pela deambulação (como um modo de meditação, de aprendizado), pela perda de um sentido originário” (VASCONCELOS, 2000, p.248). O elo entre escrita e caminhada, o entrelaçado de visão e movimento, a entrega, configura, no conto, uma espécie de “escrita de caminhada”, ainda nas palavras de Maurício Vasconcelos, como radicalização da flânerie, em que ocorre uma transformação do caminhante pelo o que ele vê, pelo que se objetiva na paisagem. Ele contagia-se pelo que vê, advindo daí o apagamento dos traços pessoais, de uma subjetividade homogênea, fixa. Outrossim, o que se observa é uma outra relação entre o sujeito e a paisagem urbana, uma vez que ele atravessa e é atravessado pela paisagem, e percorre o espaço de uma forma mais intensiva, lírica, experiencial, não programada.


Dessa forma, a narrativa de Samuel Rawet atesta a possibilidade de se pensar a reinvenção da percepção sobre a cidade, sobre a paisagem urbana. De acordo com PEIXOTO (1998), redescobrir a cidade significa passar do olhar à visão, à vidência, significa testemunhar a presença, captar o invisível, o inefável: iluminações profanas. Os viajantes, imigrantes, os desterrados na própria pátria que muitas vezes aparecem nas narrativas de Samuel Rawet, apresentam a possibilidade de falar, narrar, re-apresentar a cidade para além de seus ícones, símbolos, monumentos e marcos. O que o estrangeiro, ou aqueles que não se enquadram na cidade, sujeitos do “não-lugar”, desterritorializados, instauram, é a possibilidade de um olhar desarmado, um outro tipo de percepção do espaço, uma outra visualidade, uma iluminação profana, apta a captar o invisível da cidade, suas intensidades, o lirismo subjacente à opacidade do tecido urbano:

Ou então retém a visão de um segundo que te custou anos de trabalho e de esforço. O instante em que pela primeira vez te deslumbraste com um entardecer metálico de uma franja vermelha na crista dos montes e uma chapa rósea se esbatendo em roxo, azul, cinza e noite. Quem sabe desgraçaste tua vida apenas para conquistar esse instante, que nunca mais se repetiu, nem te interessa mais. (RAWET, 2004, p.222)

E é caminhando pela cidade, deambulando pelas ruas, como se tateasse as reentrâncias, os buracos, os avessos, os espaços muitas vezes inabitáveis, com pouca luz, quase desérticos, que se dá a busca da desterritorialização. A busca interior, ou a “descida em si mesmo”, presente no conto, desvela a paisagem urbana, vai além da mera descrição e inventário da cidade. É através da caminhada que vem à tona afetos primários, sensações primordiais, “Todos os incidentes passaram a funcionar como evocadores de seu mundo animal, e como evocadores de um mundo próprio que não se coaduna com as palavras, nem com as sutilezas, mas com a ação bruta, encerrada em ganga e escória de hábitos e afetos” (RAWET, 2004, p.215). Mundo animal, mundo imanente, em que o sensível não é apenas evocado, mas re-apresentado. Dessa forma, pode-se afirmar que a força das narrativas de Samuel Rawet está na configuração de uma escrita intensiva, visceral, carnal, que toma o corpo como fundamento para a percepção sensível do espaço urbano.

Referências

AUGE, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. 5ª ed. São Paulo: Papirus, 2005.
COSTA, Flávio Moreira da. “Rawet fala de Rawet” In. Correio da manhã (jornal), Rio de janeiro, 18/06/1972.
RAWET, Samuel. Contos e novelas reunidas. SEFFRIN, André. (org), Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
RAWET, Samuel. Ensaios reunidos.  KHOL BINES, Rosana (org), Rio de janeiro: Civilização brasileira, 2004.
VASCONCELOS, Mauricio Salles. Rimbaud da América e outras iluminações. São Paulo: Estação Liberdade; Belo Horizonte, 2000.
PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens urbanas. 2.ed. São Paulo: SENAC: Marca D'Agua, 1998.

((*)Actuellement inscrit à l’Université Fédéral de Minas Gerais (UFMG), sous la direction de M. le Professeur Élcio  CORNELSEN, Michel Mingote mène un projet de recherches sur la représentation et la perception du paysage urbain dans l’œuvre de Samuel Rawet, Georges Perec, Andrei Tarkovski e Jem Cohen. Intitulé « Perambulações urbanas: do olhar à visão », ce projet s’appuie sur une démarche comparatiste et vise à étudier la mise en scène des processus de déambulation  dans la contemporanéité, notamment, à partir des rapports entre les langages littéraires et filmiques. En 2014, Michel Mingote a effectué son stage doctoral à l’Université paris-Sorbonne sous la diretion de Leonardo Tonus, Maître de Conférences et Responsable du Département d’Etudes Lusophones de cette Université.

Leiam o artigo do professor Leonardo Tonus sobre a obra de Samuel Rawet no link : Humilhados, maginais e traidores. 


[1]  Em um depoimento publicado no Correio da manhã, em 1972, o autor comenta sobre a influência do Hassidismo em seu pensamento: “Tenho lembranças da vida na aldeia, lembranças do inverno, da vida religiosa, da convivência com parentes, lembranças inclusive de um mundo que não existe mais, e que mais tarde passou a me interessar por ser um mundo – não sei bem localizar – talvez na idade média, ou do século XVIII ou mesmo XVII. (...) Só muito tempo é que fui dar importância Àquilo, que estava ligado a um movimento que Martim Buber andou estudando – O Hassidismo – um movimento religioso da Europa Oriental, e que chegou a ter uma importância enorme para mim, filosófica inclusive”. (RAWET apud COSTA, 1972)
[2] Na concepção de Auge (2005), os não-lugares seriam aqueles espaços que não poderiam ser definidos como identitários, relacionais e históricos. Instalações necessárias à circulação acelerada das pessoas e bens (via - expressas, trevos rodoviários, aeroportos), além dos próprios meios de transporte ou grandes centros comerciais. Aqui, o termo utilizado faz referência a esse sujeito desterrado, descentrado, que apreende a paisagem para além dos seus marcos históricos, para além do aparelho de estado.

Um comentário:

  1. Lindo artigo. O deambulador que a paisagem consola, pois as pessoas só lhe trazem dissabores. Conheci a rua da infância de Rawet, a sinagoga que frequentou (está lá até hoje, pequena), e o Largo do Machado, as ruas transversais do Catete-Flamengo...sei que biografia e obra são coisas distintas, mas não pude deixar de pensar, ao ler seu artigo, no quanto ele sofria, para sempre inadaptado...

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