sábado, 29 de março de 2014

Simbiose literária

Simbiose literária

Por Alexandre Staut*

Vizinhos na infância, em Cataguases, Minas, os escritores Eltânia André e Ronaldo Cagiano moraram muito próximos entre 1971-1975. Aos dez anos, Ronaldo conhecia Eltânia, que tinha cinco. Mas ela não se lembra dele. “Isso apesar de eu frequentar a casa dela, pois era muito amigo de seu irmão, Elierme José, meu contemporâneo e também poeta, que morreu precocemente, aos dezenove anos, num acidente de caminhão”, diz Ronaldo. Em 2007, ele leu a notícia sobre o lançamento do primeiro livro dela, Meu nome agora é Jaque, num jornal local. “Chamaram-me a atenção o título e o nome da autora. Logo intuí que era a menina dos porões da minha infância. Morávamos em porões análogos”, conta o autor, que foi se aproximando dela por e-mail, SMS, telefone e carta, até que, finalmente, marcassem encontro em Belo Horizonte. “Nesse dia começamos a namorar. A literatura nos (re)encontrou em 2007, depois de três décadas de afastamento”, conta ele.
A seguir, a entrevista que o casal concedeu, por email, a quatro mãos, para o Études Lusophones.

A literatura é algo muito presente na relação de vocês...
A literatura nos (re)uniu, a literatura é leitmotiv de nossas vidas, portanto presente em todos os momentos, como também outras artes e linguagens que compartilhamos, como cinema, teatro, pintura, música etc. Estamos sob as mesmas influências culturais e literárias, o que contribuiu para uma empatia maior entre nós, porque desde cedo amamos as mesmas coisas, assim como também viagens e uma boa mesa.

Quando estão escrevendo, como um participa do processo criativo do outro? Leem juntos? Tiram dúvidas? Um é o primeiro leitor do outro? 
Sem dúvida, compartilhamos tudo. Dividimos nossas experiências e ansiedades, nossos sonhos e frustrações, como nossas decepções diante de um mercado editorial tão oligopolizado e injusto, da mesma forma que outros momentos práticos da vida. Sempre há a intervenção, seja por meio de leitura, seja pela crítica ou sugestão, de um no trabalho do outro. Essa simbiose é fundamental. Tanto que já escrevemos uma novela juntos, uma arquitetura que levou em conta os distintos modos da escritura individual, no entanto, é uma narrativa bastante híbrida, que contempla a influência de um no texto do outro. Essa interação se processa normalmente, sem tensão, na condição de leitor e de escritor.

Um já trabalhou personagens do outro? Quando e como isso aconteceu?
Algumas vezes acontecem essas interferências no processo criativo, inclusive de sugestões sobre um determinado personagem. Isso tanto ocorre nos trabalhos individuais como nesse livro que escrevemos juntos, ainda inédito, Diolindas .

Poderiam falar sobre este trabalho?
A ideia surgiu a partir de uma conversa, ainda éramos namorados (Ronaldo morando em, São Paulo e Eltânia em Minas). Fomos construindo a história e os personagens a partir de fatos e experiências pessoais e de terceiros. O livro foi nascendo, a ficção baseada em vivencias (re)colhidas ao longo do tempo temperadas com ingredientes ficcionais e fantasiosos que foram amalgamando a trama. Uma novela que fala de conflitos entre gerações.


Quais projetos literários ainda pretendem fazer juntos?
Ainda é cedo para estabelecer prioridades no sentido de ampliar a escrita em parceria, porque cada qual necessita também dar continuidade aos seus projetos literários e isso demanda tempo, energia e recursos criativos que exigem demais do escritor. Mas não descartamos a possibilidade de mais adiante outra ideia emular um projeto semelhante ao Diolindas. É muito prazerosa a escritura a quatro mãos. Já publiquei dois livros em parceria, Espelho, espelho meu (com Joilson Portocalvo) e Moenda de silêncios (com Whisner Fraga), que foi um desafio prazeroso esteticamente (diz Ronaldo).

Ambos participam bem de perto do mundo literário de São Paulo. Quais observações gostariam de fazer sobre o métier?
Participamos mais como observadores do que como integrantes de determinados grupos ou movimentos, embora haja o contato com colegas de ofício em lançamentos de livros, palestras e debates. Entendemos que devemos dar prioridade à literatura e não à vida literária, sem, contudo, uma posição excludente ou de extrema misantropia.

Como é a sua experiência com a poesia, Cagiano?
Embora escreva outros gêneros, considero-me essencialmente poeta. Desde a infância minha relação com a literatura e com o próprio modo de olhar o mundo, deu-se por meio da poesia. Ainda pré-adolescente, tomou-me de assalto a poesia de Augusto Anjos, cujos versos expressavam as sombras e a inquietação de um ser agredido pela tuberculose, chamaram-me a atenção, pela maneira candente com que o poeta auscultava sua angústia e a transforma em matéria de inquirição poética. Todo aquele niilismo, todo aquele sentimento de vazio, deserto e angústia foram determinantes na minha formação, catapultaram-me para uma percepção mais aguda da nossa finitude.


Quais autores brasileiros contemporâneos têm apreciado?
Ronaldo: Há muitos autores brasileiros, fora dos arruídos da mídia hegemônica e monopolista do eixo Rio-São Paulo, que admiro pela qualidade e densidade de suas obras, escritores, tanto de poesia quanto de ficção, que nada devem a certas mediocridades incensadas que estão nas grandes editoras, fruto desse ambiente literário mercantilizado, requentado e panelizado, que funciona à base de compadrios e afinidades, que sempre mostra mais do mesmo. São autores publicados principalmente por pequenas editoras, não são alcançados pelo guarda-chuva onipotente e excludente das da mídia, entre os quais, destaco: Edmar Monteiro Filho, Jádson de Barros Neves, Sérgio Fantini, Alberto Bresciani, Alexandre Marino, Ronaldo Costa Fernandes, Anderson Braga Horta, Lina Tâmega Peixoto del Peloso, Sérgio Tavares,   Guilherme Gontijo Flores, Francisco de Morais Mendes, Tércia Montenegro, Jéter Neves, Leo Barbosa, Gilberto Tadeu Nable, Mauricio de Almeida, Alexandre Guarnieri, Andityas Soares de Moura, dentre outros. Pela alta voltagem de suas produções, mereciam maior espaço nos cadernos de cultura e literatura e atenção da crítica.
Eltânia: Além desses, há um escritor de que gosto bastante: João Anzanello Carrascoza. A arte, seja ela qual for, tem que me arrepiar. É com o corpo, com as sensações que me entrego. E o Carrascoza tem um livro de contos: “Dias Raros”, que me emocionou a partir de uma viagem em Minas Gerais, enquanto o ônibus me levava ao meu destino eu e os personagens íamos em grande estilo: rindo, chorando, contemplando o mundo pela janela do veículo.  Claro, gosto de outros, entre os quais Roniwalter Jatobá. Não consigo deixar de reler o seu livro - Crônica da Vida Operária. Os contos do Roni são ótimos. Não entendo o discurso que ouvimos de que o conto não vende, pois as livrarias estão repletas de bons livros do gênero, para o qual também não faltam leitores.

Ambos são contistas. Como veem a produção constística atual?
Ronaldo: Há uma produção intensa, diria um verdadeiro boom, principalmente pela facilidade com que se produz e se faz circular hoje o livro no Brasil. Hoje, os suportes eletrônicos têm contribuído para a divulgação de um fabuloso material literário e na aldeia virtual há, sem dúvida, uma vitalidade criativa. Claro, nem tudo o que cai na rede é peixe, então com os devidos descontos que se deve dar, separando-se o joio do trigo, garimpa-se uma literatura de qualidade que, mais cedo ou mais tarde, haverá de apresentar-se também na circulação tradicional, por meio de revistas, suplementos literários, livros.
Eltânia: Escrevo apenas ficção, seja conto, crônica ou romance. A minha relação com a poesia é intensa, mas como leitora. Ela, a poesia, desafia-me sempre. Cada dia eu me entrego mais à leitura de poemas; muitas vezes peço ajuda para o Ronaldo e ele, várias noites, lê poemas para mim antes de dormimos. Também tenho no carro pen-drive que um amigo gravou com vários poemas em várias vozes. Ia me esquecendo: o assunto é sobre conto, então, ficamos com a resposta do Cagiano.  


Cagiano, poderia falar do seu trabalho de agitador e mediador cultural?
Não me considero um agitador nem mediador cultural. Apenas alguém que, nos vinte e oito anos que morou em Brasília, onde pude consolidar minha relação com a escrita e consequentemente publiquei meus primeiros livros, contribuiu para solidarizar-se com os colegas de ofício, que como todo autor enfrenta os gargalos do processo editorial e dessa forma tornar menos angustiante a relação de autor e obra com o público e com os mecanismos de produção e divulgação, aí atuando uma tendência natural ao intercâmbio com diversas regiões do País, dinamizando um contato produtivo nesse sentido. Talvez tenham associado a mim a imagem de agitador/mediados, justamente pela interlocução que sempre tentei realizar entre os diversos agentes literários e culturais e outros autores em diversas regiões, assim também pelo fato de ter publicado três antologias, que mapearam a produção literária candanga: Poetas mineiros em Brasilia (2001), Antologia do conto brasiliense (2003) e Todas as gerações - o conto brasiliense contemporâneo (2006), iniciativas que me possibilitaram mapear minimanente a cena da produção poética e ficcional da Capital da República, de certo modo projetando certa visibilidade, mas de nenhuma forma me considero um ponta-de-lança, sobretudo num cenário cada dia mais exigente e competitivo. Considero que fiz uma pequena semeadura nesse terreno onde há muito o que colher.

Eltânia, de que maneira o trabalho como psicóloga junto a populações carentes tem impacto no seu processo de escrita?
Tudo que capto da vida, seja através de minha experiência e/ou de meu olhar sobre o mundo, me impacta. Os livros que leio, as conversas que entreouço pelas ruas, o cinema, o teatro, as telas que me impressionam, a comida, o afeto, minha infância, eu-menina, eu-mulher, enfim cada detalhe pode servir à literatura. A loucura, há tempo, me seduz. Trabalho com saúde mental em bairro periférico de São Bernardo do Campo, recebemos casos de psicoses e neurose graves, e estou lá não apenas como profissional, mas inteira, e creio que é inevitável a simbiose entre essa experiência e a ficção, todavia creio que preciso distanciar-me minimamente do cenário para que ele cresça na arte.

Poderiam falar um pouco sobre os trabalhos individuais - atuais - de vocês?
Ronaldo: Além de dois livros à espera de uma editora, um de contos (Todos os desertos) e um de poesia (Incorpóreo silêncio), alinhavo outros trabalhos ficcionais e poéticos, ainda indefinidos, mas que apontam pela continuidade de um projeto pessoal de fazer da literatura uma ponte dialética entre mim e o mundo, por meio da minha escritura. Por outro lado, na medida do possível, escrevo sobre livros e autores que me agradam, com algumas resenhas e críticas em jornais e revistas, atividade ao mesmo tempo prazerosa e desafiadora.
Eltânia: Estamos lapidando Diolindas, que escrevemos juntos há alguns anos (um romance dentro de outro – época de início de nosso namoro). Este ano, a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo aprovou um projeto de criação literário para uma história juvenil, que tem o título provisório de Desde o Ventre, mas sem a certeza de publicação. Tenho ainda em fase de construção outro romance – Da Varanda vejo o mundo. Há um volume de contos, que finalizei no final do ano passado, também pelo ProAC: Poderia o mundo durar mais do que eu? Tenho também alguns contos avulsos na gaveta. Não sondei nenhuma editora, ainda não encaminhei nenhum dos meus trabalhos para avaliação em busca de mercado.



Poderiam falar sobre os personagens de cada um de vocês? O que eles desejam? Em que ponto se encontram?
Ronaldo: Nossos personagens são eclosões de nossa própria inquietude, veículos de uma pulsão interior que quer dar vez e voz a muitos questionamentos e inquirições, que não quer salvar nada ou resolver os dilemas individuais ou coletivos, mas fazer a necessária catarse, capaz de nos tornar mais humanos diante da desumanidade que viceja nesse mundo-cão. Como disse Northrop Frye, "a literatura é o único território em que nos sentimos verdadeiramente livres" e se não for por ela, de outra forma não poderíamos fazer a denúncia, o libelo ou o acerto de contas com nossos próprios passivos psicológicos, afetivos, morais e políticos.
Eltânia: Ronaldo já disse tudo. 




*Alexandre Staut nasceu em Pinhal (SP), em 1973. É autor dos romances Jazz Band na Sala da Gente (2010) e Um Lugar Para se Perder (2012). Tem contos publicados na França e em Moçambique. Participou do “Printemps Littéraire Brésilien”, organizado pela Université Paris-Sorbonne e do Salão do Livro de Paris de 2014.

Consultem a entrevista que Ronaldo Cagiano concedeu ao Blog Etudes Lusophones no link : Um dedo de prosa com RonaldoCagiano.

Leiam a resenha de Alexandre Staut sobre o Livro “As manhãs adiadas” de Eltânia André no link : Eltânia André.

Nenhum comentário:

Postar um comentário