sexta-feira, 14 de março de 2014

Escritor, jornalista ou os dois?

Escritor, jornalista ou os dois?

Por Iva Oliveira

Para que escrever senão para contar uma boa história? Para que escrever senão para arrastar o leitor pelas mãos e levá-lo para um mundo desconhecido, percorrendo cada detalhe do caminho?

Só que, no caso do escritor e jornalista brasileiro Klester Cavalcanti, os detalhes são reais, uma vez que o trabalho dele se intitula jornalismo literário. E isto seria algum demérito?! Não, ao contrário, principalmente se considerarmos os três prêmios Jabuti (o maior da literatura brasileira) que ele conquistou e os mais de 10 mil exemplares vendidos de Dias de Inferno na Síria, seu mais recente livro, que teve três tiragens e uma segunda edição (Editora Benvirá). E não seria justamente esta experiência diária em redações a responsável pela fluidez do texto e a “briga” por informações sempre precisas?!

Além disso, as fontes em que Klester Cavalcanti bebe são de grandes nomes da literatura como Fiódor Dostoiévski e José Saramago.

“Eu parto da informação, o que não significa que o personagem não será tratado psicologicamente ou que a história não terá movimento”, observa Klester Cavalcanti, que, recentemente, recebeu um grande elogio do cineasta brasileiro Fernando Meirelles (realizador de sucessos como Cidade de Deus e Ensaio Sobre a Cegueira). “Meirelles me enviou um e-mail, dizendo que tinha adorado meu livro (Dias de Inferno na Síria) e que meu texto é cinematográfico. Quer elogio melhor que este?”, observa Cavalcanti.


E não só Meirelles como outros cineastas estão de olho nos livros de Klester para levá-los para a tela do cinema. O primeiro projeto já está fechado: o livro O Nome da Morte (que fala sobre um matador de aluguel) será filmado por Henrique Goldman (o mesmo de Jean Charles).

“Percebo que as pessoas gostam de histórias reais. É só reparar que, no Oscar deste ano, por exemplo, dos nove filmes indicados, seis contavam fatos verídicos”, observa Cavalcanti. E completa: “No Brasil, o escritor Laurentino Gomes também faz sucesso justamente por isso. E Laurentino foi mais do que meu chefe na Editora Abril, ele foi meu mentor”. Laurentino figura entre os autores de livros mais vendidos por obras como 1808, 1822 e 1889.

Os dias de inferno na Síria

Como bom jornalista, Klester “fareja” uma boa história. Assim foi também com Dias de Inferno na Síria. Ele trabalhava como editor-executivo na revista IstoÉ quando vislumbrou a possibilidade de contar in loco o que estava acontecendo por lá. “Sempre quis cobrir uma guerra, mas, mais do que isso, queria contar como o conflito influencia a vida das pessoas”, relata o escritor.

Klester tirou o visto de imprensa e propôs a reportagem à revista. Diante da alegação de que não havia verba, o jornalista resolveu pagar a passagem do próprio bolso e a editora arcou com ajuda de custo.

No visto constava a observação de que Klester deveria se dirigir ao Ministério da Informação em Damasco, coisa que ele não fez. “Já saí do Brasil decidido a ir direto para Homs, onde se concentram os conflitos. Se eu fosse ao Ministério, eles iriam colocar um oficial para me acompanhar e me Impedir de ver a guerra de verdade. E eu não estava na Síria para mostrar apenas o que o governo quisesse", diz ele.



Klester sabia do risco que estava correndo e bastaram algumas horas em Homs para que ele fosse preso. Aí sim começou o seu calvário. “Imagina você ser preso em um país onde não fala a língua e no meio de uma guerra. Tinha certeza de que iria morrer”, conta ele.

A Klester não foi permitido sequer um telefonema e queriam que ele assinasse um documento em árabe, coisa que não fez. “Então eles ficaram mais violentos e começaram uma sessão de tortura”, relata o escritor, que teve o rosto queimado com um cigarro para ser obrigada a assinar um documento escrito em árabe.

O jornalista ficou durante seis dias em uma cela com 20 presos árabes e a sua companhia constante era um caderninho onde anotava tudo, principalmente a história de vida daquelas pessoas. “No momento da minha prisão, confiscaram meu celular e minha câmera, mas, felizmente, eu entrei na penitenciária com minha mochila como todos os outros presos da ala em que eu fiquei aprisionado. Na minha mochila, estavam roupas, minha carteira e, o mais importante, meu bloco de anotações e duas canetas”.

O que era um tormento se transformaria depois em livro. “Não tinha pensado nisso quando fui para lá, mas tudo mudou com a minha prisão”, diz Cavalcanti.

Ali, ao lado daquelas pessoas tão cheias de fé, Klester repensou a sua existência, criou laços de amizade (muito bem retratados no livro) e treinou, mais do que nunca, a paciência. “Posso dizer que minha vida mudou muito depois que voltei da Síria. Estou mais focado no presente e tenho questionado a questão da imortalidade. Para que fazer planos se você não sabe se vai existir o amanhã”, pondera ele.

O escritor foi libertado por interferência da direção da revista IstoÉ e da Embaixada Brasileira na Síria.

E foi justamente esta mudança de vida que fez com que o escritor tomasse uma decisão importante: abandonou a redação da revista IstoÉ e passou a se dedicar somente à divulgação do livro. “Tenho certeza de que este trabalho de corpo a corpo tem ajudado muito na venda”, afirma ele. Klester vem fazendo cerca de dez palestras por mês e conquistou a admiração de pessoas de todo Brasil, que demonstram isso principalmente pelas redes sociais, como o Facebook. “Todo dia, recebo dezenas de depoimentos de pessoas que leram o livro. Isto é muito gratificante”, finaliza.

Família unida lê livro

Entre os muitos depoimentos de leitores que Klester Cavalcanti recebe todos os dias, um deles chama a atenção. É de um delegado de polícia, que leu o livro com toda família. Leia a seguir:

“Caro Klester,

Finalmente terminamos de ler hoje DIAS DE INFERNO NA SÍRIA. Como havia comentado antes com você, minha esposa também não resistiu e passou a ler a grande história de dor, medo, amor e fé que você experimentou na Síria. Até mesmo Clarissa, nossa filha, de repente, indagou: ‘Papai, ele ainda não saiu da prisão? Meu Deus!!!’. Cara, você descreve o ambiente com uma riqueza de detalhes que chegamos a imaginar como tudo era naquela ‘jaula’ e como a guerra civil devasta aquele povo. No momento em que você insiste para você mesmo que não vai soltar lágrima alguma naquele local, naquele momento de despedida, me pego emocionado, imaginando tudo que você passou. Poucos segundos após, pela voz da minha esposa, corroborada pelas lágrimas correndo pelo seu rosto, que estava lendo o livro em voz alta, para nós dois, foi suficiente para denunciar que ela estava chorando e muito. Brinquei com ela, quando então a mesma retrucou: ‘Não foi você que passou por tudo aquilo’. Muito mais que pelo próprio sofrimento que você passou, nossa emoção se deu por conta dos vínculos de amizade que você construiu naquele ambiente tão inóspito. Você não chorou, mas imagino que fez muita gente chorar como fez conosco. Enfim, nesse caso foi um mal que veio para o bem. Talvez se você não tivesse sido preso naquele lugar sombrio, não teria tido um material tão rico para compor o seu livro, que reputo um trabalho extraordinário, produzido com dor, angústia, amor, fé, amizade e muita sabedoria. Parabéns, Grande Sahafi. A minha curiosidade é saber se você agora tem notícias de Ammar Ali, Adnan e Walid, seus companheiros de Cárcere.” (Aneilton Castro)


Klester Cavalcanti é jornalista desde 1994. Já trabalhou em alguns dos maiores veículos de comunicação do Brasil, entre eles Veja, Viagem e Turismo, Vip, O Estado de São Paulo e IstoÉ. Conquistou prêmios de relevância internacional, como o de Melhor Reportagem Ambiental da América do Sul, conferido pela agência Reuters e pela IUCN (União Mundial para a Natureza), e o Natali Prize, o mais importante prêmio de Jornalismo de Direitos Humanos do mundo.  Foi agraciado, também, com o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e com o Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo. Dias de Inferno na Síria é seu quarto livro, após Direto da Selva, Viúvas da Terra e O Nome da Morte, os dois últimos vencedores do Prêmio Jabuti de Literatura, em 2005 e em 2007, respectivamente.

 

Iva Oliveira nasceu em Cerqueira César, interior de São Paulo, e formou-se em Letras e Jornalismo pela Unesp. É autora do livro A Força da Fé - 30 Celebridades Revelam Histórias de Superação nos Momentos mais Difíceis da Vida (Panda Books). Trabalhou nos veículos de comunicação mais importantes do Brasil e atualmente tem uma empresa de produção de conteúdo sobre televisão que presta serviço para a Agência Estado, do grupo Estadão.



Nenhum comentário:

Postar um comentário