sábado, 8 de fevereiro de 2014

Memória justa

A busca de uma memória justa em Diário da queda

Carine Figueira (*)

A memória relaciona-se a uma determinada política pelo culto à lembrança na Europa ocidental. Quando vinculado à Segunda Guerra Mundial e à Shoah, o trabalho de lembrar é tido como uma obrigação e encontra sua legitimação dentro de um quadro de justiça, uma vez que corresponde a um sentimento de dívida com as vítimas. Neste mesmo contexto em que a memória adquire forte teor político, uma crítica se elabora contra o que Pierre Nora chama l’obsession commémorative[1], um exercício que alimentaria sentimentos nacionalistas, manifestado a partir de uma memória imposta, aprendida par coeur e celebrada publicamente.  
Paul Ricoeur[2], filósofo que dedica boa parte de sua obra a pesquisar a relação do homem com o tempo, assume que a ideia de uma política pela memória justa é uma de suas preocupações cívicas. Ele chama a atenção para o fato de que a memória enquanto território político tem como finalidade tanto atender a projetos futuros, quanto manter poderes presentes, podendo ser manipulada ao proveito de um indivíduo ou de um grupo. Ora, justamente enquanto território, a memória já estaria inscrita dentro de uma perspectiva ontológica que favorece o enraizamento de patrimônios culturais e de identidades estabelecidas.
Também Tzevan Todorov vem falar, em seu ensaio Les Abus de la Mémoire[3], sobre o que seria um excesso de discurso memorialístico na esfera pública. O autor considera que as sociedades ocidentais democráticas tendem a explorar à exaustão a memória coletiva, encontrando assim uma maneira de opor-se aos regimes totalitários. Se estes regimes tinham como objetivo controlar a informação para levar a sociedade ao esquecimento de fatos e poder então reconstruir a tradição à sua maneira, os governos democráticos adotaram uma política inversa, que tende a cultuar a memória. Todorov afirma que a lembrança excessiva poderia levar à banalização dos acontecimentos e, desta forma, a memória estaria condenada ao apagamento, não mais pela falta, mas pelo excesso de informação.
Ao abordar como temas centrais a Shoah e o judaísmo, Diário da queda propõe reflexões sobre como falar de uma minoria ou de como resgatar uma memória individual e coletiva sem cair no comemorativo, nem tampouco negligenciá-la. É interessante observar como o romance traz o debate sobre uma memória justa para o contexto brasileiro no momento em que a sociedade cria novas perspectivas sobre o problema. Ora, são contemporâneos ao texto de Laub o debate sobre a reparação de uma dívida histórica através das cotas raciais, assim como a recente criação de um acervo de documentos sobre a repressão no período da Ditadura militar, mantidos secretos até então. E podemos falar em uma perspectiva nova porque a reparação de períodos traumáticos do país sempre se deu mais pelo esquecimento que pelo dever de lembrar, e também porque a memória assumiu uma função comemorativa na sociedade brasileira durante muito tempo.  
Desde a formação do estado enquanto nação, surge a procura por uma memória coletiva que possibilite a criação de uma identidade nacional, ideia que irá atravessar praticamente todos os movimentos literários brasileiros. São estas as circunstâncias que oferecem condições favoráveis ao emprego de uma memória comemorativa, que através da criação de mitos e de heróis nacionais que a fundamentam, encontra no herói Tiradentes ou na figura idealizada do índio alguns de seus representantes mais notáveis.
Por outro lado, o esquecimento assopra algumas feridas históricas do país. Neste caso, podemos pensar no apagamento da memória das vítimas do sistema escravocrata, que a partir da abolição da escravatura, teve todos os arquivos oficiais referentes queimados.  Ou ainda, o esquecimento deliberado da memória traumática de períodos políticos como a Era de Getúlio Vargas e, mais recentemente, a Ditadura militar. Em um plano político, a propagação da ideologia de democracia racial e seu consequente sincretismo tende a desconsiderar memórias minoritárias, como a dos negros, a dos índios e a dos judeus no Brasil.
Como já mencionado, no âmbito da literatura, teremos publicações que evidenciam o projeto de criação de uma cultura e identidade nacional.  Mas a partir dos anos 1980 surgem na literatura brasileira obras que virão na contramão destas ideias, tendo como intuito recuperar memórias individuais, ou pertencentes a uma minoria ou grupo específico. O texto de Laub aproxima-se desta última vertente ao resgatar, de alguma forma, um patrimônio cultural judaico, partindo de uma memória individual e familiar.
Tal preocupação contida no romance se manifesta através de inúmeros elementos, tais como o discurso performático do pai do narrador ao falar sobre Auschwitz, ou a relação, ora de empatia, ora de hostilidade, mantida com o personagem João, o colega classe goi[4]. Ou ainda, a negação de um discurso memorialístico praticada pela voz narrativa.  O tema Shoah surge logo nos primeiros parágrafos do texto, quando o narrador evoca a história do avô sobrevivente de Auschwitz. Entretanto, o narrador ressalta, também desde o princípio, que não intenciona tratar do assunto, justificando sua abordagem apenas como um interesse pelas memórias familiares. Negar a intenção de falar sobre Auschwitz, já falando sobre Auschwitz, vem desconstruir esta memória para então reconstruí-la, servindo a alimentar as reflexões sobre o exercício da memória justa que o romance traz.
O empreendimento do narrador é a procura por uma memória individual para o avô, através da qual ele possa entender o que foi a experiência de Auschwitz, e desta forma, entender melhor os mecanismos de agressão e exclusão e as relações de poder. O empreendimento de Michel Laub é trazer para o conjunto de sua obra um texto com o teor histórico de Diário da queda, que o permite falar sobre a responsabilidade de lembrar, além de contribuir com o resgate da memória da comunidade judaica no Brasil, sem deixar de mencionar os perigos da comemoração.

Carine Figueira é estudante de Master 2 na Université Paris-Sorbonne e pesquisa a obra de Michel Laub. Em 2013 defendeu sua dissertação de mestrado 1 intitulada Diário da queda : sobre identidade e memória sob a direção do professor Leonardo Tonus.




[1] Pierre Nora, Les lieux de mémoire, t. III : Les France. De l’archive à l’emblème, Paris, 1993.
[2] Paul Ricoeur, La mémoire, l’histoire, l’oubli, Paris, 2000.
[3] Tzevan Todorov, Les Abus de la Mémoire, Paris, 2004.
[4] Goi é um termo hebraico utilizado pela comunidade judaica para designar os não-judeus

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