sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Krov u rot

© Jean-François Martin / Télérama
Krov u rot
Reginaldo Pujol Filho (*)

Sangue na boca era o terceiro livro dele, terceiro livro que pagava para publicar. De modo que passou a dever também pra avó materna, Eulália. Mas acreditava, entretanto, que a ousadia e agressividade desse projeto – a pormenordetalhizada narração da primeira vez (baseada em fatos reais) do protagonista (que tinha o seu nome) com sua namorada (que tinha o nome da sua ex-namorada), bêbada, em que o narrador só descobre que a jovem está menstruada no momento em que faz sexo oral nela; ou as cáusticas críticas aos seus professores (mantendo os nomes) críticos literários; e o recurso narrativo de fazer acontecer, literalmente, na realidade do texto, os impulsos agressivos que surgem como lapsos na cabeça de todos frente a situações negativas[1], como arrancar cabeças, partir ao meio, mandar longe –, acreditava, pois, que todo este empreendimento literário valeria os bingos a menos da avó e acabaria com a indiferença em relação ao nome Renê Schwartz. Os 18 amigos e parentes, mais o primeiro desconhecido a aparecer num lançamento seu (o sujeito havia anotado erroneamente a data de um outro lançamento, pediu desculpas, deu os parabéns e foi embora), e o silêncio mundial em relação a Sangue na boca, invalidaram as certezas. Até que chegou na sua caixa de e-mails uma mensagem de um destinatário cujo endereço terminava em .com.ua. Alguém queria traduzir Sangue na boca para o ucraniano. Por quê? Por que não? As tratativas todas correram por e-mail. Questionado, o Google confirmou a existência da editora, o cheque do adiantamento caiu na conta, Dimitriev (o dono do endereço .com.ua) enviava pdfs com as traduções, Renê ria do seu texto incompreensível para si mesmo, admirou seu nome em uma sanguinolenta capa em ucraniano, mais um cheque caiu na conta, assim poderia pagar a avó – ou fazer um livro novo –, e outro cheque caiu – pagar  avó & fazer um livro novo –, e mais um cheque – pagara a avó, o pai (pelo primeiro livro) & fazer um livro novo – e mais um cheque e outro e tudo bem e, então, tudo ótimo: veio o convite: Renê você está atualmente sendo o maior estrela dos livros aqui. Você é um convidado especial de Feira de Livro do Krakhovka.

O cachê, a ideia de sucesso, a viagem-com-tudo-pago, mais uma vez, por que não?

E agora faz menos 17 graus na rua. Mesmo assim, Renê sua dentro do auditório de Krakhovka. Dimitriev e mais dois ucranianos, pelo tom de voz empolgados, já falaram para a plateia sobre ele[2]. Olha o espaço lotado e uma coisa que não consegue entender, além do idioma local, é porque há tantos adolescentes no público (seu livro é mais maduro que isso), porque tantos de preto, alguns com capas; não consegue compreender exatamente o que se passa. Da mesma forma que, há instantes, não entendeu a primeira pergunta da assistência (mesmo, ou em especial, depois que Dimitriev traduziu para ele): Há muitos autores de livros de vampiros em Brasil? Em português, simultaneamente vertido para ucraniano por seu tradutor, respondeu que não sabia, é um gênero pouco valorizado literariamente, e notou o virar rápido de rosto de Dimitriev, as perguntas franzidas em sua testa – que bem poderia se dever à dificuldade da tradução simultânea –, assim como o burburinho adolescente com a sua resposta. Talvez já faça menos 18 graus na rua. E agora ele treme. Porque acaba de ouvir a segunda pergunta: A sede de sangue do vampiro Renê é um metáfora do ansiosismo do jovem querendo estarem sempre a chuparem experiências novas, traduz Dimitriev. Renê não entenderia nem mesmo com o melhor tradutor do mundo, nem que tivesse nascido em Kiev, nem que estivesse bebendo vodka no lugar de água, e responde que é uma interessante leitura e que todas as leituras são válidas. Vem mais uma pergunta, Haverá continuamento da saga? E mais outra: O amor verdadoso ter poder de humanizar o vampiro Renê? Com longas pausas, inteligentes respirações e olhares no horizonte, Renê procura fazer com que suas repostas demorem tempo suficiente para não dizer nada. E evitar novas questões.

++++++

Mira a fila de pretendentes a autógrafos. Mesmo que sua fala, obviamente, não tenha sido empolgante, tem o quê? 200, 300, 400 pessoas? Ainda lembra da pergunta: Por quê o vampiro mordisca a namorada não em pescoço?, e de dizer Essa resposta está em cada um de nós. Muita gente esperando do lado de lá da mesa. Ele sozinho no de cá. Pega um livro que está sobre a mesa, lê – ou pronuncia como Dimitriev ensinou – o título, Krov u rot,  e confere o nome do autor, o nome no seu passaporte, na identidade. Ainda é o mesmo. Faz que sim com a cabeça para seu tradutor e para os organizadores da Feira. A fila anda. A primeira jovem, branca como se não soubesse do sol, loiríssima, roupas pretas e maquiagem negra sob os olhos tristes, apesar dos olhos tristes, sorri um elogio ucraniano e entrega um exemplar ao autor. Renê capricha no Spasybi caneteado na folha de rosto pálida como a menina. Olha de novo a fila, quem sabe mais de 500? O negócio é assinar logo todos esses livros. Garrancha um Obiy̆maye, Renê Schwartz, logo abaixo do abraço ucraniano para, quem diria, sua leitora ucraniana, pensando em quanto tempo isso vai durar, em que talvez precise participar de alguma entrevista para a TV local e, mais importante: assinando já o segundo livro, agora para um menino com uma capa preta e uma franja quase uma asa da graúna passando rente aos olhos, dá uma nova olhada para a multidão e decide: não ir embora desse país sem perguntar para o orgulhoso Dimitriev, que sorri para Renê agora, se topa traduzir mais livros seus para o ucraniano. Ou português.



(*)Reginaldo Pujol Filho é escritor nascido em Porto Alegre (RS) em 1980. Publicou os livros Azar do Personagem (Não Editora, 2007) e Quero Ser Reginaldo Pujol Filho (Não Editora, 2010). Tem contos em revistas, jornais, sites e coletâneas e organizou a antologia Desacordo Ortográfico, lançada no Brasil e Portugal (Não Editora 2007 e Livro do dia 2010). Tem no currículo roteiros de curta-metragem, colaborações editorias em jornais e revistas com resenhas literárias e matérias, além da experiência como redator publicitário. É pós-graduado em Artes da Escrita pela Universidade Nova de Lisboa e está cursando o mestrado em Escrita Criativa na PUCRS.

Assistam o vídeo realizado a partir do conto “Querido U” de Reginaldo Pujol Filho no link : Querido U

Consultem o website do autor no link : Reginaldo Pujol Filho










[1]Cf declaração do autor em uma entrevista que imaginava um dia dar
[2] É o que imagina Renê: que Dimitirev tenha explicado que descobriu o imenso Renê Schwartz no semestre em que fez intercâmbio em uma universidade brasileira, “eu vi o livro em loja de usados e, sendo barato (isso ela não precisa dizer), comprar para ler na volta pro Ucrânia”, contou pra Renê num café de Krakhovka e deve ter contado para a plateia esse causo em bom ucraniano.

Nenhum comentário:

Postar um comentário