terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Geografia do inconsciente

Geografia do inconsciente & outras catarses

                                                           Ronaldo Cagiano (*)

Uma das grandes vozes da poesia brasileira contemporânea, autora, dentre outros, de Romanceiro dos amantes (1999) e Sonetos de amores mortos (2006) a escritora, crítica e ensaísta carioca Rita Moutinho acaba de lançar uma nova safra poética, numa incursão que lhe proporcionou um profundo mergulho existencial, dialogando coma psicanálise para explicitar poeticamente questões íntimas, sentimentais e artísticas, abordadas ao longo sua trajetória afetiva e intelectual, a partir a da visão de um paciente em terapia.
Realizando uma profunda simbiose com a obra freudiana, tanto no título quanto nos textos poéticos, Psicolirismo da terapia cotidiana (Ateliê Editorial, SP, 2013, 194 pgs., R$ 46) recorre à experiência da autora com a psicanálise, panoramizando vários anos de suas sessões de análise, por meio de um percurso crítico e ao mesmo tempo catártico dessa viagem ao insondável do inconsciente, tanto individual quanto coletivo.
Não é a apologia da terapia psicanalítica ou qualquer outra tentativa de homologação do cenário de um consultório nem mesmo a extrapolação da reserva entre terapeuta e paciente que a autora mapeia, como se fosse extensão de um longo processo de descoberta ou cura que o leitor vai encontrar nessa obra.
Aqui, é a poesia possível que ela procura – e encontra – na angústia, na inquietação metafísica, no desassossego da alma, nos vácuos espirituais, na instabilidade dos afetos e emoções. Enfim, é a tentativa poética de desmitificar também as re(l)ações do ser diante dessa dolorosa geografia nos anos em que o divã por testemunha e os escuros íntimos como cúmplices contribuíram para que a poeta realizasse a transição entre os cipoais do mundo exterior e os labirintos e nuvens dos becos-sem-saída de nossos temores e agruras.
Cada poema é uma projeção onírica do desejo de superar perdas, vazios, silêncios, incômodos, apartheids, insularidade psicológica e tudo o que apequena o ser diante da (o)pressão e das urgências que a nossa própria condição nos impõe. E em cada verso, a artista que dosa sua inquietude com o facho luminoso de um lirismo tenso e denso, parece ir des(a)fiando o fio de Ariadne, para percorrer até o fim o espanto e a dúvida de um caminho escuro, mas passível de ser alcançado, para neutralizar os minotauros que ainda vicejam e atormentam.
Dividida em quatro momentos – Tempo nublado, Tempo instável, Tempo parcialmente nublado, passando a limpo e Céu quase limpo com clarões no horizonte – a poética de Rita Moutinho desloca-se pelas estações da mente e do corpo, entre versos livres e de forma fixa, alternando tradição e vanguarda, num claro indício de simbiose entre os próprios estados que o indivíduo experimenta em sua quotidiana lida, no campo interior e na vida prática.
Por meio dessa poesia que celebra as ancestrais dicotomias de que somos forjados, a poeta, com peculiaridade estilística e paixão, narra suas paixões e seus fracassos, seus delírios e suas esperanças, suas explosões e seus recolhimentos, suas chamas e seus definhamentos, pluricanta quedas e tormentos e faz da depurada arquitetura de seus versos, uma catapulta para compreender esse recalcitrante dilema, essa luta dialética (que também é ética e estética) entre Eros x Thanatos, vida x morte, da qual não escapamos, mas podemos remediar, exorcizando lutos e lutas, como ela o faz, com maestria e pungência, moldura de novo olhar sobre o que a cerca e a faz sentir viva.
 Em Rita Moutinho, a palavra em pleno estado de graça encontra o seu apogeu para juntar os cacos de nossas andanças e recriar, como num caleidoscópio, ou numa polifonia de gritos & sussurros,  todas as possibilidades de transformar a memória desse caos e as débâcles do viver e sentir, ressignificando a vida até então pressurizada nos containeres da individualidade, das conveniências, das demandas e urgências de uma civilização contemporânea que elegeu, de forma fetichista, o mercado e a competição, colocando em combate permanente o ser e o ter.
Rita nos diz que é possível sair dessas algemas, romper amarras, implodir as celas do pensamento, que não há confessionário nem terapia maior que a palavra, cuja profilaxia e eficácia desmantela com o que nos aprisiona, inviabiliza e proscreve. Pois ela nos assegura e sinaliza que “Quem faz um poema abre uma janela./ Respira, tu que está numa cela/ abafada,/ esse ar que entra por ela./ Por isso é que os poemas têm ritmo/ – para que possas profundamente respirar./ Quem faz um poema salva um afogado”.
              Numa “Viagem interna,/levando a alma/ como lanterna” a poeta nos aponta o caminho, nas trilhas do que bem já o disse Freud: “Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim.” Assim como Rita o fez, sua clínica pessoal é o poema, instância em que a subjetividade se expõe sem mesuras, porém sem apelação sentimentaloide, para interditar toda melancolia e realizar uma reflexão objetiva, ainda que sob o pálio de uma inflexão pessoal e intimista, sobre suas vivências e seus confrontos, sobre seus contatos e seus desconfortos, algo tão humano e universal.
E nesse balanço-testemunho-testamento, a mulher ressurge a partir de uma percepção agudíssima, que a poeta enfrenta a travessia, para compreender, além das enfermidades que tantas vezes esterilizam corpo & alma, a sensação de nossa finitude e de neutralidade dos oásis nos desertos de nossos questionamentos, pois nos evocando mais a busca do que o encontro de verdades prontas, Rita Moutinho desfere o golpe de misericórdia contra o estanque e imutável das convicções inúteis: “Minhas certezas se evaporam,/ e as perguntas são rarefeitas como gases./ Suas respostas?/ São miragens, não oásis.”


Um pouco de leitura

Soneto da Aventura marítima e das Descobertas

Ah aventura oceânica a desta alma
nos labirintos feitos pelas ondas.
Alteiam mal-estar, alteiam calma,
e a Terra é tão redonda, tão redonda...
Agora o sei, mas antes, quinhentista;
Temia ser a sina naufragar,
Receava o afã idealista,
Quase morri sem circum-navegar.
As paredes de vagas ânsias dão,
Mas agora sei, há especiarias
Para meu destempero e depressão
Quando a alma grande crê em utopias.
            Matar, enfim, marinho minotauro!
            Buscar o meu caminho e o meu restauro! ( p.143)


42.
O que faço
com este ramalhete de viços
que murcharam ou adoeceram?

O que faço
com esta cabeleira de sonhos
agora tão tosquiada?

Você até responde a contento :
- Tudo resta em seus compartimentos fechados.
            E a memória recuperará o perdido
                        Quando voltarem a voar os ventos.

Que vontade de pôr a mão no futuro
e, sadia, tomar posse da ventania! (p. 109)



(*) Ronaldo Cagiano é mineiro de Cataguases e autor de Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio 2006) e O sol nas feridas (Poesia, Dobra Editorial, 2011, SP), dentre outros.

Assistam ao depoimento que Ronaldo Cagiano concedeu ao Blog Estudos Lusófonos e no qual ele homenageia João Antonio, Samuel Rawet e Augusto Roa Bastos. Cliquem no link : 







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