sábado, 28 de dezembro de 2013

Quarenta dias com Maria Valéria Rezende

Neste mês de Dezembro a Revista Pessoa publica um trecho do romance inédito de Maria Valéria Rezende que será lançado em 2014 pela Alfaguara. Segundo a autora “O texto foi escrito de maneira cuidadosamente descuidada. “Inventei” a história, que não tem nada de autobiográfico, e fui para Porto Alegre “testá-la”, fazendo em parte o que a personagem faria. Escrevi tudo depois que voltei pra casa”, conta Maria Valeria. ”Não copiei caderninho de anotações, escrevi a partir do que absorvi da experiência e não só dos 15 dias na capital do Rio Grande do Sul, mas da vida ao meu redor… ”Quarenta dias é “um caderno de desabafos. Não é nada “intimista”, embora brote do íntimo da personagem”, como descreve a própria autora. A protagonista é uma mulher comum, nada encucada, que tem a sua vida virada de ponta–cabeça por acontecimentos inesperados. “E é escrevendo que ela tenta entender o que aconteceu, por fora e por dentro dela.”

Confiram o texto de Maria Valéria Rezende no site da Revista Pessoa :
Assistam ao depoimento de Maria Valéria Rezende para o Blog Estudos Lusófonos e à sua participação no encontro de escritores organizado pelo professor Leonardo Tonus  na Universidade da Sorbonne e  no Salão do Livro de Paris em 2012. Cliquem nos links :

Maria Valéria Rezende no Salão do Livro de Paris.

Leiam o conto “Desejo” que o Blog Etudes Lusophones publicou em 2012. 
Desejo


Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, em Santos (SP), onde morou até os 18 anos. Em 1965 entrou para a Congregação de Nossa Senhora - Cônegas de Santo Agostinho. Sempre se dedicou à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste. Formada em Pedagogia e em Língua e Literatura Francesa, e mestre em Sociologia, trabalhou durante 20 anos como educadora em movimentos e organizações populares urbanas e rurais e na formação de educadores. Viveu no meio rural de Pernambuco e da Paraíba e, desde 1986, mora em João Pessoa. Já esteve em Angola, Cuba, França e Timor, entre outros países, convidada a falar sobre seus projetos sociais. Em 2001, começou a publicar ficção e poesia para adultos, jovens e crianças, tendo recebido importantes prêmios nessa área.
A experiência de Maria Valéria com a dor do analfabetismo e também com a educação de jovens e adultos foi o mote para O voo da guará vermelha. “Uma personagem se apaixona por aprender a ler e a outra descobre um sentido para sua vida, ensinando”. A autora constrói no livro o encontro de Irene, uma nordestina que vira prostituta em São Paulo, com Rosálio, um servente pedreiro. Dona de uma escrita inventiva e conhecedora da realidade de “Rosálios” e “Irenes”, Maria Valéria fez uma obra poética e forte, que dispensa trivialidades.

Alguns links...quelques liens

Vídeos

Maria Valéria lê Geraldo Maciel .


Resenhas e informações editoriais

Conversa de Passarinhos traz o diálogo em haikais das escritoras Alice Ruiz e Maria Valéria Rezende” por Wilson Beuno  ( 19/12/2008)

Sobre Modo de apanhar pássaros à mão  ( 05/08/2006)

Reseña de O vôo da guará vermelha de Maria Valéria Rezende. Brincher, Sandro. Revista Estudos Feministas, vol. 18, núm. 1, enero-abril, 2010, pp. 274-275.

Agência Riff

Editions Métailié

Editora Alfaguara

Editora Autêntica

Críticas e comentários

Site Verdes Trigos. (27/05/2006)

Blog do escritor Alfredo Monte (6/11/2011)

“O porto encarnado de Maria Valéria Rezende” por Alessando Atanes ( 28/07/2010) 
http://www.portogente.com.br/texto.php?cod=32966

“Narrativas com fôlego” por Tânia Regina Oliveira Ramos. In : Letras de Hoje.Porto Alegre, v. 42, n. 4, p. 32-41, dezembro, 2007

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Um dedo de prosa com Carola Saavedra

crédito : Andréa Marques
Um dedo de prosa com Carola Saavedra

Assistam à entrevista que a escritora brasileira Carola Saavedra concedeu ao Blog Estudos Lusófonos durante um encontro realizado em Setembro de 2013 na Universidade da Aarhaus.  Num primeiro vídeo, Carola Saavreda relata o seu percurso literário e evoca suas inquietações acerca do seu processo de escrita. Num segundo momento, ela fala da escritora Tatiana Salem Levy e do seu romance Dois Rios.
Para assistir aos vídeos, clique nos links abaixo :



Paisagem com Dromedário ( trecho)

GRAVAÇÃO 1
Barulho de vento e de ondas batendo num rochedo. Pequenas pedras caindo na água. Passos. Interrupção. Voz.

Estou no extremo sul da ilha. Se eu nadasse numa linha reta, imagino que em algum momento chegaria ao Antártico. Terras austrais. De qualquer forma, o extremo sul não significa muita coisa, quando o extremo norte fica a pouco mais de duas horas de carro. Poucas horas de carro, e pronto, terminou a ilha. O mar, em compensação, parece inesgotável. Assustador. O mar aqui é um mar que ainda não foi domesticado. Nunca lhe foi imposto limite algum. Até mesmo as cores, o cheiro, as algas, tudo nele parece que acaba de surgir. E me vem sempre a sensação de estranhamento quando olho em volta e vejo estradas, casas, pessoas, como em qualquer outro lugar.

Faz uma ou duas semanas que estou aqui. Talvez sejam apenas alguns dias, não sei. Alex, os dias passam de modo incomum neste lugar. Mas eu não queria começar falando da ilha, também não queria começar reclamando de que o tempo passa rápido ou devagar. Queria começar falando de uma imagem. Não sei se era uma fotografia ou se fui eu que guardei aquele momento como algo estático na memória. Antes que as coisas com Karen tomassem o rumo que tomaram. Nós três. A imagem era assim: Karen abrindo uma garrafa de vinho, você a abraçava pelas costas, dizia alguma coisa em seu ouvido. Karen ria, envergonhada. Karen sempre ria assim, como se o riso fosse algo obsceno. Ela abaixava a cabeça, desviava o olhar, e ria. Eu, sentada naquela tua poltrona, o couro gasto, desbotado, eu ria também, mas meu riso, como sempre, era quase uma gargalhada. Eu segurava uma taça ainda cheia. Não sei mais qual era o motivo, mas lembro que naquele instante tudo me parecia tão suave, tão perfeito, como se fosse impossível qualquer incompreensão, qualquer desentendimento.

Silêncio. O barulho das ondas batendo no rochedo torna?se cada vez mais alto. Voz muito baixa, inaudível. Pausa. A voz continua, agora num tom mais alto.

Curioso, sabe que eu me lembro das pessoas e das fases da minha vida de acordo com as imagens que as acompanhavam. Não necessariamente relacionadas com o acontecimento em si, aliás quase nunca. Em geral, algo arbitrário, mas que, por algum motivo, ficou ali associado. Qualquer imagem, um filme, uma peça, uma fotografia. Ou simplesmente algo que acompanhou por acaso aquele instante, alguém passando, uma janela, um movimento, qualquer coisa que ficou. Penso, talvez no futuro, quando as lembranças começarem a se desvanecer, toda a minha memória passará a se guiar por isso. Ao evocar a imagem tal, surgirá imediatamente o lugar, a época e a pessoa ao meu lado, e, junto com isso, a lembrança de quem eu era, de como estava vestida, de como me sentia, do que eu pensava. E, ao recuperar de novo aquela memória, a sensação de confrontar dois momentos inconciliáveis, a Érika atual e a Érika daquele instante. Desse confronto impossível, um certo espanto, como se numa viagem no tempo eu me encontrasse comigo mesma. Nós duas, lado a lado, por fim unidas e totalmente estranhas. Penso agora, as imagens poderiam ser isso, um ponto de interseção do tempo, para o qual tudo conflui. O presente, o passado, o futuro, a criança que fui um dia, a velha que vou ser, a pessoa que sou agora. Todas essas possibilidades.

Mas, como te disse, não quero falar sobre o tempo. Tampouco sobre imagens. Na realidade, queria falar sobre sons. Te explicar por que, em vez de atender os teus telefonemas, eu me decidi por este gravador. Tem aquele filme, não lembro o nome agora. Mas era algo assim, um homem passeando por Lisboa. Em vez de uma câmera, ele tinha um gravador. E ele gravava tudo, feito um turista. Acho que trabalhava com isso, era sonoplasta, engenheiro de som, sei lá. Lembro de uma cena, ele andando por Lisboa com um microfone. Era uma imagem bonita. Talvez cada cidade tenha mesmo os seus próprios sons, o barulho do vento e do mar, ou da ausência do mar, o barulho das ladeiras, das crianças brincando, pulando corda. E há também o barulho do idioma, a musicalidade do idioma, das pessoas conversando nos cafés, nos bares, o barulho dos carros, dos trens ou dos cachorros vagando pelos cantos, ou da respiração de um cachorro que dorme debaixo de uma marquise e da sua reação quando alguém o chuta ou lhe faz um afago. Tudo isso contribuindo para os sons da cidade. Talvez cada cidade tenha a sua história sonora. E de uma forma imaginária seja possível fazer uma reconstituição de todos os ruídos que passaram por ela, feito uma sinfonia. Então cada cidade, cada lugar teria a sua própria sinfonia, sua própria partitura. Tudo o que se ouviu naquele espaço, desde seus primórdios, quando nem sequer havia cidade, nem mesmo gente, passando pelos seus primeiros habitantes, nômades que por algum motivo resolveram ficar, os passos dos primeiros habitantes, as primeiras casas sendo construídas, os primeiros amores, as primeiras brigas, depois as lutas e as guerras. Tudo surgindo e sendo derrubado, sucessivamente. A sinfonia."



Franz Erhard Walther, Photographie de l'activation du Werksatz, 1963-1969.
A volta dos que  foram
Carola Saavedra (*)

Todo relato narra uma viagem ou um crime, diz o escritor e ensaísta Ricardo Piglia, toda história seria Ulisses ou Édipo. A partir dessa afirmação de Piglia, é possível construir diversas hipóteses sobre a trajetória geográfica ou investigativa do escritor. Mas deixemos momentaneamente o crime de lado e voltemos nosso foco para a questão da viagem — o escritor como aquele que foi e depois voltou para contar a história. Podemos pensar o escritor como um aventureiro, talvez como uma espécie de Hans Staden contemporâneo. Mas o que seria isso? Comecemos então com uma breve biografia do personagem: Hans Staden foi um mercenário alemão que viveu no século 16, e, entre outras coisas, fez duas viagens ao Brasil, lutou contra índios e franceses ao lado dos portugueses, naufragou na costa de Santa Catarina, foi capturado pelos Tupinambás, e por muito pouco não foi devorado por eles. Ao voltar para a Alemanha, publicou o relato originalmente intitulado História verdadeira e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, no qual conta sua experiência durante os nove meses em que permaneceu prisioneiro.
Independentemente da qualidade do relato (não se trata aqui de crítica literária), vale a pena tomar esse acontecimento como base inicial para pensar a forma como o escritor lida com seus personagens. Assim como Hans Staden, o escritor faz uma viagem, que pode consistir em atravessar o Atlântico ou até mesmo uma viagem interior (na realidade, mesmo atravessando o Atlântico trata-se sempre de uma viagem interior). Ele vai, cruza a fronteira, tem sua experiência, volta e depois senta diante da folha em branco, ou do computador, pronto para narrar o que vivenciou. A partir desse momento há duas formas básicas de lidar com a alteridade: 1) Convivemos durante vários meses com uma tribo de índios canibais, voltamos para casa felizes de termos escapado ilesos, e escrevemos a partir daí um relato sobre os cruéis e nus comedores de seres humanos. 2) Convivemos durante vários meses com uma tribo de índios canibais, voltamos para casa felizes de termos escapado ilesos, e escrevemos a partir daí um relato sobre um estranho prisioneiro que conviveu conosco durante um longo período de tempo. A diferença entre esses dois relatos? O lugar a partir do qual narramos. Na primeira opção, trata-se do relato ao estilo Hans Staden, narramos a partir do nosso próprio ponto de vista, ou seja, o outro é alguém de quem mantemos certa distância, que temos dificuldade de compreender. Na segunda hipótese, há uma aproximação, talvez mais do que isso, há um exercício de colocar-se no lugar do outro, quem é esse índio canibal, o que ele pensa, como vê o mundo, quais as suas crenças e idiossincrasias, quais os seus medos, seu heroísmo, sua crueldade — em outras palavras, um exercício que nos exige enxergar ali características potencialmente nossas (que talvez carreguemos adormecidas em nós). O outro deixa de ser apenas um canibal para tornar-se humano, e talvez até mesmo, dando uma volta maior ainda, ele nos permita olhar novamente para nós mesmos e encontrar algo desconhecido em nós. Entre esses dois extremos — desumanizar, julgar o outro ou fundir-se com ele — situa-se o escritor, que a cada livro, cada personagem, faz sua escolha.
Altérité - Je est un autre : Woodman, Francesca, Self Deceit #1, Rome (I.204), 1977-78

Voltando à afirmação de Piglia, todo relato é uma viagem ou um crime, deixemos agora a viagem de lado, e concentremos nossa atenção no crime. Imaginemos um escritor interessado em escrever um romance em que o personagem principal comete um crime. Para tornar o relato mais verossímil, mais realista, ele resolve visitar um presídio e conversar com os mais diversos tipos de criminosos, assassinos, estupradores, etc., ou seja, faz a chamada pesquisa de campo. Vai lá, grava, anota suas conversas, faz comentários de pé de página, tem experiências únicas e intraduzíveis. Ao voltar para casa, diante da folha ou da tela em branco se vê novamente diante dessas duas possibilidades. Construir o assassino a partir do olhar de quem observa à distância (e também julga), ou colocar-se ele mesmo na pele desse personagem, o que pensa, como age, como vive, como ama, como odeia esse outro à primeira vista tão distante. Na realidade, trata-se de buscar dentro de si mesmo o cerne da própria crueldade, o assassino que ele não foi mas poderia ter sido. O crime que ele jamais cometeria (afinal, ele é uma pessoa de bem, cumpridora de seus deveres, etc.), mas que existe como possibilidade. Para que então, mais tarde, o leitor seja capaz de reconhecer-se ele também nesse jogo de espelhos, e, aceitando sua desumanidade, talvez tornar-se mais humano.
Reconhecer-se no personagem de um livro é sempre um risco que o leitor corre. E talvez seja isso que faz com que uma obra se torne um clássico, a possibilidade de, no decorrer dos anos, continuar surpreendendo, capturando (das mais diversas formas) os mais diversos leitores. Um bom exemplo disso é o romance Amor insensato, do escritor japonês Junichiro Tanizaki. Escrito em 1924, o livro narra a historia de Joji Kawai, engenheiro que conhece Naomi, uma garçonete de quinze anos, apaixona-se, casa-se com ela, e entra num processo de loucura e degradação por causa desse amor que ele não consegue sustentar e ao mesmo tempo vê-se impossibilitado de esquecer. Se de início seu plano é transformar Naomi numa mulher refinada, ele pouco a pouco percebe que quanto mais o tempo passa, e ele se esforça, mais ela foge ao seu controle, Naomi se transforma de serva em senhora dos desejos do marido. O livro, viagem e crime metafóricos (um Tanizaki-autor que incursiona pela humanidade de seus personagens, sem jamais julgá-los), encerra-se com uma afirmação, que de certa forma reafirma as possibilidades de Joji e Naomi em nós: “Aqui termina o meu relato sobre nossa vida de casal. Os leitores que o acharem idiota, sintam-se à vontade para rir. Aqueles que dele possam tirar um ensinamento moral, tomem-no como lição. Quanto a mim, estou apaixonado por Naomi e pouco me importa o que as pessoas pensem a meu respeito”. Se todo relato, como diz Piglia, narra uma viagem ou um crime, talvez para o escritor valha a pena permanecer num lugar intermediário, com um pé aqui e outro lá, Joji e Naomi.

(*) “A volta dos que foram” (maio 2012). Fonte : http://rascunho.gazetadopovo.com.br/a-volta-dos-que-foram/


               
Carola Saavedra nasceu no Chile, em 1973, e mudou-se para o Brasil com três anos de idade. Morou na Espanha, na França e na Alemanha, onde concluiu um mestrado em Comunicação. Vive no Rio de Janeiro. É autora dos romances Toda terça (Companhia das Letras, 2007),  Flores azuis (Companhia das Letras, 2008; eleito melhor romance pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti), e Paisagem com dromedário (Companhia das Letras, 2010, Prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti). Seus livros estão sendo traduzidos para o inglês, francês, espanhol e alemão. Está entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta.

Leonardo Tonus e Carola Saavedra/ Aarhaus 2013



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Um mistério na Rue de la Huchette

UM MISTÉRIO NA RUE DE LA HUCHETTE

                                       Tailor Diniz


Assim que entramos no apartamento, percebemos que as luzes estavam apagadas e havia uma televisão ligada diante de um sofá vermelho. Sobre a mesa de jantar avistei uma garrafa de uísque quase vazia, dois copos baixos com restos de bebida, dois guardanapos brancos, um deles manchado de batom, e, embaixo da garrafa, um manuscrito de cinco páginas. As letras eram perfeitas, o alinhamento impecável, um trabalho de precisão e beleza que só um calígrafo profissional saberia produzir. À primeira vista, me pareceu um conto escrito por alguém com uma visão de fora para dentro, através da janela, do lado oposto. Comecei a ler enquanto meus colegas revistavam os quartos, a cozinha e demais peças do apartamento:

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Dali é possível ver apenas vestígios de sombras e imagens desenhadas nas paredes, como se alguém, em algum lugar oculto, caminhasse contra uma lâmpada também oculta. Às vezes, percebe-se uma leve mudança na tonalidade da luz, de acordo com a troca de cores projetadas pelo vídeo de uma televisão que passa a noite inteira ligada. Sobre a mesa de jantar, é visível apenas uma garrafa de uísque cheia e dois copos vazios ao lado. Não se vê nenhum outro movimento lá dentro.
           
O interior do apartamento logo abaixo pode ser visto através de duas janelas abertas. Há objetos amontoados no chão, discos de vinil, um velho toca-discos, um par de botas, roupas, tapetes enrolados, uma roda de bicicleta junto à parede, um criado-mudo com uma sopeira de porcelana em cima, uma mesa de madeira rústica coberta de livros. Na cabeceira dessa mesa, destaca-se uma caixa de vidro, sem tampa, abarrotada de velhos relógios de todos os tipos, de pulso, de parede, despertadores, grandes e pequenos.

É difícil imaginar que alguém consiga viver ali, em meio àquele caos de sobressaltos, onde a renúncia à vida parece ter tirado espaço até para se pousar um pé. O homem que escreve pensa nisso, até que a verdade, com surpresa, vem contrariar a ficção que ele tenta criar sobre a impossibilidade de alguém habitar aquele lugar absurdo. Aparece ali um casal; ela na frente, ele a uma distância pequena, mas prudente, dada a dificuldade para se manterem em pé ou com equilíbrio. Ele retira alguns livros de cima da mesa, larga-os no chão entre dois tapetes enrolados, e ela acomoda uma terrina de sopa sobre um guardanapo, no lugar onde ele abrira espaço entre os livros. Em seguida, aparece um homem velho, que caminha com dificuldade, e senta-se à mesa. Traz consigo os talheres e um pequeno prato com comida. Assim que se senta, um gato pula para cima da mesa e começa a comer do pequeno prato.

Sobre a mesa do homem que escreve há um relógio, e ele se dá conta de que está há quase vinte e quatro horas do episódio com a moça da água-furtada que mora em cima do apartamento onde a televisão passa a noite inteira ligada. Ele escreve com vagar, como o artista que cinzela um objeto de arte:

"Pode-se dizer que o caso teve início quando ouvi o barulho estridente de algo caindo lá embaixo, de uma garrafa que se espatifa no chão, e saí à janela. Não pude descobrir o que era, mas me chamou a atenção, também olhando para baixo, no apartamento lateral direito, uma mulher de cabelos soltos, muito brancos e ralos, quase careca, as poucas pontas tocando-lhe os ombros. Trazia uma caneca de chá na mão — e, posicionado às suas costas, um homem mais jovem, de camiseta e abrigo, não escondia uma expressão de desagrado com o fato de ela ter aberto o vidro e por ali estar entrando frio. Tenho muito claro que foi nesse instante, ao ver o rosto irritado dele, que olhei para cima, na direção de uma porta-janela, atrás de uma minúscula sacada gradeada de ferro. Ali ficava uma água-furtada adaptada com uma porta-janela, através da qual eu podia ver uma pia com um espelho em cima, parte de um aquecedor de água, a metade da porta de saída, meio forno de micro-ondas, um pequeno armário de parede sem portas com garrafas de água e uma caixa de suco dentro. Diante do espelho, estava ela, uma moça elegante que não devia ter mais de vinte e cinco anos. Esfregava um algodão embebido na face, nas pálpebras e abaixo do queixo. Demorou-se uns quinze minutos nesse trabalho e sumiu. Como demorasse muito, eu pressentindo que alguma coisa estava para acontecer, apaguei a luz e coloquei uma cadeira diante da janela. Embaixo, o homem e o gato terminaram de comer, levantaram-se e não mais pude vê-los. A mulher quase careca e o rapaz de abrigo falavam alto, como se discutissem por alguma contrariedade. Na água-furtada da moça, a luz se mantinha acesa, nada de movimentos ou sombras, apenas os objetos antes inventariados em seus respectivos lugares. Ao desviar os olhos para baixo, tive a impressão de que um outro gato pulava para cima de uma caixa de roupas, ao mesmo tempo em que alguém ligava um aparelho de som. A moça reapareceu diante do espelho acima da pia. Usava uma camiseta branca, e o cinto da calça jeans desafivelado e caído sobre as coxas. Dançava, os braços erguidos, em arco, o que me fez acreditar que a música do aparelho de som vinha de lá. Abriu as partes envidraçadas da porta-janela, olhou para baixo e sumiu outra vez. Em questão de segundos, vi um retângulo de luz se produzir na parede, seguido de uma sombra projetada no armário sem portas, onde estava a caixa de suco. Uma outra lâmpada havia sido acesa, dentro de outra peça, daí a sombra na parede. O rapaz e a mulher quase careca haviam parado de discutir, e sinal de vida no entorno, apenas da música e dos hóspedes do hotel que subiam as escadas até o último andar, onde o elevador não chegava."
 
 Jean-Luc Vilmouth, Local Time


Ao cabo dos vinte minutos que o homem que escreve contou no relógio, filtrada pela luz direta de uma lâmpada oculta, avançou no ar uma frágil nuvem de vapor, vinda da parte oposta à parede da pia. A nuvem cresceu e logo se dissipou em função do ar entrando pela porta-janela que ela deixara aberta. Ele abriu um vão da sua janela e olhou em volta, até onde seu ângulo de visão permitia. Queria ver se mais alguém poderia estar ali a saciar a curiosidade sobre o ambiente e os futuros movimentos dela. Foi nesse momento que, conforme ficou registrado em seu texto, ele sentiu um leve aroma de lavanda, de perfume, de xampu combinando com o vapor de uma ducha aquecida, “um cheiro que vinha a se misturar ao aroma abaunilhado de croissants ao forno que inunda a cidade a partir de todas as madrugas.”
Ela retornou sem demora, os cabelos molhados, um secador branco na mão, que plugou numa tomada ao lado do espelho. Enxugou os cabelos, admirou-os, movimentou-os para um lado e outro, aproximou várias vezes o rosto do espelho, de frente, de lado, mexeu os lábios, desplugou o secador da tomada e sumiu. A partir dali, o homem que escreve poderia ter ido dormir, mas a inquietação o fez esperar. Enquanto esperava, ficou a imaginar de que nacionalidade seria ela, e desenvolveu uma tese: devia ser nórdica, pelo tom da pele, sem marcas de sol, e a cor dos cabelos. E era outono, fazia frio na cidade, ele estava agasalhado dentro do quarto, mas ela fazia tudo aquilo com a porta-janela aberta.

Depois de alguns minutos, que agora ele não marcou no relógio, ela voltou para frente do espelho. Vinha vestida, usava uma blusa de lã vermelha, gola alta, calça jeans muito justa e botas de salto alto. Maquiou-se com esmero, observando todos os detalhes que uma mulher conhece quando quer ficar mais atraente do que já é. Ele acompanhou-a até vê-la abrir a porta — e voltou a escrever:

Terminada a maquiagem, ela pegou um casaco preto, apagou a luz, abriu a porta e saiu. Lembrei-me, então, de um dos tantos episódios de bar relatados por Hemingway em seus escritos em primeira pessoa. Ele escrevia um conto, por sinal num café quase aqui ao lado, quando lhe chamou atenção a presença de uma moça sentada a uma mesa próxima. Ficou alguns minutos a observá-la. Mas como a escrita do conto fluía bem, ele se distraiu e não a viu ir embora: “Reli o último parágrafo e, quando levantei os olhos à procura da moça, não a encontrei mais. Tomara que tenha ido com um homem decente, pensei. Mas me sentia triste.”

Sobre a pequena mesa do homem que escrevia, o relógio marca oito e quinze da noite: pelas suas contas, a hora em que, no dia anterior, ela teria chegado em casa. Apaga a luz e abre as cortinas. No apartamento da frente, as luzes e sombras da televisão que passa a noite inteira ligada se projetam na parede como se fossem as únicas criaturas a habitar a solidão daquele espaço deserto no coração da cidade. É quando a luz da porta-janela da água-furtada dela se acende. Oculto atrás das cortinas, ele ainda tem tempo de ouvir o miado do gato faminto à espera do velho que não demorará a chegar à mesa para lhe fazer companhia. Às suas costas, algo como o movimento de duas folhas secas desgovernadas pelo vento finca as garras pontiagudas na parede e também espera, talvez um morcego que tenha entrado pela janela sem ele perceber. Nesse momento, alguém chega ao apartamento onde a televisão passa a noite inteira ligada, mas ele só vai perceber momentos depois, num sobressalto, quando as luzes forem acesas".



                                   ***********

Terminei a leitura do manuscrito com a sensação de que a escrita fora interrompida de forma extemporânea ou alheia às intenções de quem escrevia. Recoloquei-o embaixo da garrafa e fui até a janela conferir o quarto do lado oposto, no hotel, de onde suponho que o conto fora escrito. As cortinas estavam abertas, e não havia ali qualquer movimento, pelo menos aparente. Pensei em reler o texto, entender o objetivo daquela alternância de narradores que sugeria um exercício de metalinguagem, mas um dos meus colegas que revistavam o apartamento veio me dizer que a porta do banheiro estava trancada com tijolos e cimento. Tomamos as providências, e em pouco tempo tudo foi colocado ao chão. Emparedado no pequeno box, foi encontrado o corpo de uma stripper andaluza que trabalhava em uma casa de shows eróticos da Rue Saint-André-des-Arts e estava desaparecida havia sete dias.
Houve muitas dúvidas e contradições sobre os fatos ocorridos a partir da hora em que o conto supostamente termina, quando retoma a palavra o narrador em terceira pessoa. Ao serem interrogados, o rapaz de camiseta e a mulher quase careca entraram em divergência tão logo começaram a falar. Ela disse que ouviu um barulho ensurdecedor, de um avião ao quebrar a barreira do som, que quase a deixou surda. Ele contestou de imediato. Teria ouvido também um som, mas o grito terrível de uma besta que teria durado mais de um minuto. No entanto, não soube sugerir se esse grito tinha equivalência ao grito de algum animal conhecido. O casal do quarto revirado, por sua vez, se referiu apenas a uma poderosa luz atravessando a janela. Mas, até quando lhes foi permitido falar, divergiram quanto à cor da luz. Ela viu um vermelho alaranjado muito forte. Ele, algo como um azul mortal, embora lhe tenham faltado palavras para esclarecer o que seria em realidade uma cor azul mortal. O homem que comia com o gato era alienado, e dele nada se conseguiu ouvir, a não ser resmungos de quem imita um animal. A moça da água-furtada, uma croata de francês imperfeito, foi a que menos incoerência apresentou. Admitiu que no momento citado sentiu um breve sobressalto, como se estivesse sendo observada por alguém. Mas isso, revelou, era comum quando aquele quarto do hotel era ocupado por homens. Fato com o qual, aliás, ela não se importava. No hotel, porém, não havia registro de que o quarto tivesse sido ocupado nos últimos sete dias. Reli o manuscrito uma dezena de vezes para só então perceber que havia ali, na parte submersa do iceberg, uma pista concreta e objetiva. Mas, daquela noite, para todos os que dela tomaram conhecimento, ficou uma única e irrefutável certeza: o que se ficou sabendo não foi tudo o que de verdade aconteceu.
                                                         
                                                                             Paris, outubro de 2013


Tailor Diniz é escritor e roteirista de cinema e TV. Tem doze livros publicados, entre eles Transversais do Tempo, Bertrand Brasil, Prêmio Açorianos de Literatura 2007 — Melhor Livro de Contos, e Prêmio Associação Gaúcha de Escritores 2007 — também Melhor Livro de Contos. Crime na Feira do Livro, lançado em alemão na Feira do Livro de Frankfurt/2013, foi finalista do Prêmio Açorianos de Literatura, edição 2011, categoria Narrativa Longa. Seu último livro, A superfície da sombra, está sendo adaptado para o cinema.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Dinâmicas Genealógicas

Jan Hogan, Becoming
Palestra com o Prof. Dr. Leonardo Tonus
(Université Paris-Sorbonne)


Novas dinâmicas genealógicas na Literatura Brasileira Contemporânea


Dia 9 de Dezembro
Das 17 às 19 horas

Pontifícia Universidade  Católica do Rio Grande do Sul
Faculdade de Letras

Delfos – Epsaço de Documentação e Memória Cultural
Av. Ipiranga, 6681 Prédio 16, 7o andar | Partenon
Porto Alegre/RS

Com o apoio do grupo de estudos limiares comparatistas e diásporas disciplinares.

Neste trabalho procuro discutir como a literatura brasileira contemporânea  tem pensado os deslocamentos dos paradigmas genealógicos, seus procedimentos de transmissão e suas dinâmicas de filiação.  Trata-se aqui menos de questionar os problemas relativos à chamada crise da instituição familiar, do que observar a emergência de um novo “viver em comum” idiorrítmico. Pensada a partir do cotidiano e de seus ritos, de suas próprias cadências, de suas regras e signos particulares, a utopia idiorritmica barthesiana aponta para a co-existência de modalidades múltiplas que se desregulam e se engendram na fluidez aleatória das vivências e dos seus tempos. O « viver em comum » idiorrtimo pressupõe a dissolução da « comunidade substantiva ». Neste sentido, ele é anti-genealógico como uma boa parte da produção romanesca brasileira recente que tende a posicionar suas personagens nos espaços precários e revogáveis do estranhamento.




Leonardo Tonus é especialista da questão da imigração na literatura brasileira contemporânea, coordenador do Departamento de Português e responsável  pedagógico do Programa PLI-França na  Universidade da Sorbonne. Publicou diversos artigos sobre a obra de Graça Aranha, Plínio Salgado, Samuel Rawet, Lya Luft, Adoldo Boos Júnior, Milton Hatoum, Nélida Piñon, Adriana Lisboa, Bernardo Carvalho, Daniel Galera, Chico Mattaso, Joca Terron Reiners et Luiz Ruffato.  Membro do conselho editorial e do comitê de leitura de diversas  revistas literárias, co-dirigiu a publicação dos ensaios do escritor Samuel Rawet (Samuel Rawet ensaios reunidos, 2008) e do número 2 da Revista Iberic@l sobre Literatura Brasileira Contemporânea (http://iberical.paris-sorbonne.fr ).  Foi responsável pelo número 41 da Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília, consagrado à representação da pobreza na Literatura Brasileira (http://www.gelbc.com.br/inicio.html ) e dirige o Blog Etudes Lusophones. http://etudeslusophonesparis4.blogspot.fr