sábado, 30 de novembro de 2013

As contingências de Veronica Stigger

Escrever as contingências, escrever com as contingências:
Opisanie Świata, de Veronica Stigger

Por Eduardo Jorge


Somos atravessados por contingências. Elas, por vezes, chegam a ser definitivas se incorporadas a projetos, e podemos nos perguntar o que leva alguém a escrever um livro, ser filósofo ou dedicar-se a antropologia ou matemática. Em um momento, tudo que é aparentemente contínuo pode ser interrompido, alterado, seja na vida ou nas narrativas que estão no seu entorno; como escreveu Maurice Merleau-Ponty, em La Nature, a vida não possui obrigação de continuar aquilo que ela começou. Opisanie Świata, de Veronica Stigger, dialoga com uma urgência parecida. A narrativa começa com uma interrupção, com uma carta. Carta, aliás, ditada por um jovem moribundo no leito de um hospital ao norte do Brasil. Natanael, filho de um polonês que nem sequer se sabia pai, delira com a possibilidade de conhecê-lo pessoalmente. O senhor Opalka, que desconhecia o fato de ter tido um filho, empreende a travessia marítima da Polônia à Amazônia. Trata-se ainda de uma travessia entre som e sentido, continuidade e descontinuidade, entre palavras-polo que contrastam suas histórias e geografias, expondo o que elas têm em comum, os confins.
A paternidade de Opalka é uma dupla contingência. Quando ele descobre que tem um filho, é praticamente para perdê-lo. Mesmo assim, ele empreende a viagem para ver o filho doente nos trópicos, isto é, situado na “geografia do mal-acabado”, para fazermos uma menção a Raul Bopp, autor do Cobra Norato. Nesse sentido, Bopp surge como um dos personagens controversos do Opisanie Świata. Sempre com cadernos, meio desajeitado em gestos curtos, ele afeiçoa-se a Opalka e decide partir com ele para a Amazônia, torcendo para que seu filho esteja bem. Bopp aparece como um viajante. Em uma de suas lembranças, uma das mais intensas que ele relata a Opalka, uma mulher lhe aparece quando ele estava dormindo em uma rede, na Amazônia; era uma viajante que lhe transmitia uma experiência que muito bem pode ser um ethos do deslocamento, uma busca pelos lugares provavelmente afastados do mito do cosmopolitismo: “viajar é ir para o Egito, para a Líbia, para a Turquia”, “Conheci o Egito, a Líbia, a Turquia. Fiquei dois anos for a. Sempre trabalhando. Trabalhando e viajando. Mas preste atenção, me disse ela, por fim, com o dedo apontado para o meu nariz, é preciso voltar. Fique um ano, dois, três. Mas volte”, e repete, finalmente, é preciso saber voltar
Além da carta enviada a Opalka, existe uma fotografia enviada por Natanael, “estou com os olhos exageradamente arregalados e ela, linda, com os cabelos presos num coque alto, parece triste. Os olhos dela não brilham e uma ruga corta-lhe a testa. Aos nossos pés está Frida, a macaquinha que o senhor deixou conosco. Nossas roupas eram emprestadas e o fundo, uma paisagem falsa”. A fotografia descrita por Natanael se inscreve parodicamente à clássica fotografia de Tristes Tropiques, na qual Lévi-Strauss posa com Lucinda, macaca de companhia do antropólogo no período em que esteve no Brasil.
Opisanie Świata incorpora explicitamente dois procedimentos. A prosa telegráfica das Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade (também incluído no livro como personagem), e as obras que Verônica Stigger produz como artista visual, isto é, placas de frases contingenciais ou ainda frases-ready-mades, que, uma vez reapropriadas por ela, são exibidas em uma tipografia manual, em placas, como pode ser visto no centro de São de Paulo, mais precisamente na Rua 24 de maio, na unidade do Sesc em construção, e na exposição que ela fez na Bélgica, no contexto da Europalia, entre dezembro de 2012 a fevereiro de 2013. Essas frases, deslocadas do contexto original, ganham outro significado, uma “arqueologia do presente”, segundo Veronica Stigger; enfim, frases que dialogam com alguns versos de Chico Alvim, por captarem com precisão todo um inconsciente cultural exposto em frases feitas. Entre ambos os procedimentos, existe o trabalho da pesquisadora, a escolha dos anúncios publicitários e os textos de guia de viagem que fazem parte da imagerie da travessia, agora de Opalka e de Bopp. Em um dos episódios do livro, os dois dividem o vagão do trem para chegar ao porto, com um russo monolíngue visivelmente em estado deplorável e uma italiana, Priscila Antonini, que dança a tarantela. Priscila tem um certo tarantismo quando fecha os olhos e faz com que os movimentos involuntários do corpo venham à tona. Ela mobiliza praticamente todos os passageiros que seguem em busca de um animal que provavelmente é uma tarântula. As aparições, os acontecimentos quando se está em deslocamento migratório, sobretudo para Opalka, que volta para encontrar o filho, retomam os mitos imemoriais da viagem, como as sereias, a linha do equador, que, para quem nunca a cruzou, tem de passar por um curioso rito de iniciação. Nesse sentido, a carta do comandante Egon Schild à tripulação do navio cria um momento plástico para a passagem do navio pela linha física, nada imaginária, do equador.
Quando Opalka cruza o atlântico, Jean-Pierre o aguardava, como Nataneael avisa na carta. Mal ele chega, Jean-Pierre lhe diz que a Polônia não existe mais e que seu retorno era improvável: “Porque o senhor não poderá voltar, pelo menos não por agora, não sabe? O senhor ouviu as últimas notícias? A Polônia acabou. Anunciaram hoje. Acabou. Foi tomada. Daqui a pouco a Europa não vai existir mais, se é que ainda existe”. Opalka, no entanto, parte diretamente para o hospital para conhecer o filho, cujo estado de saúde era bem frágil. Gravemente enfermo, o filho no próprio universo da doença parece fazer jus ao que Raul Bopp escreveu sobre a malária, que, contraída em suas viagens, acomodou uma humildade no seu espírito, mas também um mundo surrealista com espaços imaginários. Prova disso talvez seja seu caderno de capa dura vermelha, que após sua morte é lido por Opalka, caderno do qual reproduzimos dois excertos: “O homem e o chimpanzé serão muito amigos/ (talvez amantes)/ e dormirão no mesmo quarto” ou “O segredo estará do outro lado do país/ desse país imenso/ que ele acredita ser seu”. 
O tempo da travessia foi mais forte que o tempo de resistência do filho sobre o leito. Sem filho e sem pátria, Opalka chega a tempo para cumprir socialmente o luto, encarregando-se da cerimônia. Na ocasião, Bopp lhe entrega um caderno em branco, já envelhecido pela falta de uso: “Para que o senhor escreva o que passou. Ajuda a superar. E a não esquecer. A gente escreve para não esquecer. Ou para fingir que não esqueceu (…) ou para inventar o que esqueceu. Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu”. Nesse momento, a operação de montagem do romance, sua cesura, começa a partir dos erros de Opalka. Essa operação é demonstrada pelo gesto de escrever e rasurar: Opisanie Świata. Rasura para a tradução do termo que em português é Descrição do mundo. E em seguida: memórias. Bopp. Romance, até que ele chega à dedicatória de um livro que ainda não foi escrito: “Para Natanael, meu filho”.




Eduardo Jorge (Fortaleza, 1978) publicou San Pedro (2004), Espaçaria (Lumme Editor, 2007) e Caderno do estudante de luz (Lumme Editor, 2008).

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Todo africano nasce escritor



 Todo africano nasce escritor

Por Alexandre Staut

Para o escritor moçambicano Eduardo Quive, a escrita é um cordão umbilical, conforme ele diz. « À semelhança da maioria das crianças do meu país, não tive acesso à escrita e isso veio a agudizar-se pelo facto de estar fora da metrópole. Na verdade em Moçambique a cidade é um sonho. Nada há o que a torna realmente cidade. Tudo centra-se na palavra ‘capital’”, diz. Para encontrar bibliotecas, por exemplo, é preciso que se vá a Maputo, a cidade mais importante do país. Dessa forma, na infância passada no interior, a inspiração não veio dos livros, mas da noite e das crianças do seu bairro, que lhe contavam histórias de xitukulumukumbas (monstros). “Mas, efectivamente, quando tive o primeiro contacto com o livro gerou-me o susto que me custa a vida até hoje. Os contos de Suleiman Cassamo em O Regresso do Morto, os poemas de José Craveirinha em Karingana wa Karingana e Xigubo, bem como a rapsódica do tio Dinasse em Xikandarinha na Lenha do Mundo, de Calane da Silva tornaram-me naquele que já sabia que nos livros há outros meninos como eu, há sonhadores, imbecis também”, enumera.

Autor do livro de poesia Lágrimas da Vida Sorriso da Morte (2012), de Brasil e África: laços poéticos, escrito em coautoria com o brasileiro Valdeck Almeida de Jesus e dois escritores angolanos, Quive ainda participou de antologias na Itália e outros países lusófonos. Agitador cultural e criador de encontros e revistas literárias em seu país, lança no mês que vem um livro de entrevistas de escritores moçambicanos pela editora brasileira Kazuá, de São Paulo. Quive falou com o Études Lusophones, por email, sobre a literatura moçambicana, sobre seu processo criativo e literatura brasileira contemporânea. Leia a seguir:

Quais são os aspectos que mais chamam a atenção na literatura do seu país?
A literatura moçambicana tem o factor interessante de ser feita mais por natividade literária do que por gosto adquirido. O que quero dizer é que o escritor moçambicano tem a literacia dentro de si. Nós temos aqui escritores natos. É verdade que estes precisam de se cultivar. E há o factor curioso de haver este “conflito” dentro do autor entre a oralidade e a escrita. Muitas das nossas personagens literárias são fontes vivas, mesmo tratando-se de ficção. É como diz o escritor angolano Ondjaki, todo o africano nasce escritor, este continente está cheio de histórias/estórias, imagino que saiba, já pisou estas terras. O que me chama atenção é esse factor comum em quase todos os livros. A grande surpresa em mim, quando leio um autor moçambicano, não é a história em si, mas é notar que o que eu sei/vivo foi contado com alma e sangue. O grande tema recorrente, aliado a isso, são as guerras. Se se sai daí, entra-se directo para a sociedade e o tradicional. E também há o tema da esperança… Moçambique vive histórias bastante conturbadas, então isso é involuntário do próprio autor. Fazemos uma literatura engajada, ideológica e sanguínea. Uma literatura de causas para bem dizer.

E quando comparamos a literatura do seu país a outras de língua portuguesa?
Dentro do continente e se calhar porque todos os países de língua portuguesa africanos tem quase a mesma história, então quase a sensibilidade é a mesma. O que se difere é como os autores de diferentes países exercem essa literatura patriótica que também se pode converter em literatura política. Em Moçambique, nós temos bons escritores, mas há sempre aqueles que têm relação inflamada, não necessariamente com a pátria, mas com os rumos que toma. Sucedida a literatura do “amanhecer” ou do enaltecimento da nova república (famosa geração Charrua, criada a partir de 1982) em substituição da literatura de combate (literatura como forma de luta contra o jugo colonial), há um olhar mais crítico para a pátria actual. Quanto a Portugal e Brasil, vejo a nossa literatura mais próxima do Brasil. Como disse uma vez o professor-doutor Lourenço do Rosário, ainda há uma relação de colonizado e colonizador entre Moçambique e Portugal, embora, assuma-se os escritores moçambicanos tenham lido os clássicos portugueses. Mas é o Brasil que mais se faz sentir entre a nossa escrita e os escritores já vieram assumir isso. Eduardo White, tido como maior poeta vivo em Moçambique, já veio a declarar Carlos Drummond de Andrade como seu poeta. E podemos encontrar um pouco de Machado de Assis sobretudo na forma cómica que o escritor Aurélio Furdela tem tratado as suas acções fatídicas.



Quais temas, ainda não abordados, gostaria de ler nos livros dos autores moçambicanos?
É complicado responder esta pergunta. Hoje, nós temos no país escritores a desapegarem-se, cada vez mais abrem-se para o mundo, principalmente por parte dos poetas. Mas podia dizer que falta, por exemplo, que grandes reportagens sejam tratadas em livro. Ainda não estamos num país de total liberdade de criação isso porque se quer há como publicar esses livros. Falta, no entanto, libertar-nos dos curandeiros, feiticeiros, entre outros problemas que já foram muito bem explorados. E depois falta, principalmente na poesia, que se deixe de confundir sexo e sexualidade. Para mim, por exemplo, em literatura tem mais sentido que se explore a sexualidade que o próprio sexo. O sexo é óbvio e a sexualidade é uma descoberta. Entre outras coisas…

Mia Couto é muito conhecido fora de Moçambique. Mas e os outros autores? O que sugere como leitura a quem queira se iniciar na literatura do seu país, pensando-se na escrita contemporânea?
Mesmo no contexto dos autores dos anos 1980, há aqueles de quem as academias sempre passaram por cima. Agora que realmente tenho um contacto com professores de literaturas africanas no Brasil imagino as dificuldades de se obter livros moçambicanos sem que esses sejam editados no Brasil. Por isso ainda falaria de um nome antigo, mas que ainda não foi lido, ao meu entender, como merece, falo de Aldino Muianga (contista) e Amin Nordine (poeta). Mas, dos contemporâneos, se é que esse termo serve realmente para nós, sugiro Adelino Timóteo principalmente em livros como A Virgem da Babilónia, Nação Pária, e estes dois últimos livros Não Chora Carmen e Nós, os do Macurungo; tem também os contos de Lucílio Manjate, particularmente fascinou-me o seu romance Os Silêncios do Narrador e este último A Legítima Dor da Dona Sebastião, tem o Andes Chivangue em A Febre dos Deuses; o Midó das Dores em A Bíblia dos Pretos; pode-se ler a poesia de Tânia Tomé, Mbate Pedro, Léo Cote e Sangare Okapi, este último o que considero a verdadeira certeza da poesia moçambicana. Se fosse em altura própria podia dizer que se leia também o poeta Amosse Mucavele e Mauro Brito e interligando-os a outros três bons contistas Nélio Nhamposse (Matiangola), Japone Arijuane e Nelson Lineu. E temos uma boa poetisa a caminho, chamada Hirondina Joshua. Em fim, a grande dificuldade nisto tudo será conhecer estes escritores, porque certamente não será possível achá-los em grandes livrarias seja no Brasil, Angola e muito menos Portugal. Escolho estes nomes por encontrar neles o símbolo desse novo rumo da literatura moçambicana. Estes escritores demonstram que hoje, há novas leituras que feitas e que o país, fora Mia Couto, em curto espaço de tempo pode recolher prémios internacionais porque fazem uma literatura que ultrapassa o território moçambicano. Isso para mim é bom.

O que gostaria de falar sobre os seus personagens? Quais são os seus desejos?
Os meus personagens são engratos. Para comigo e para o leitor, certamente. E isso pode se calhar, notar-se na novela que espero publicar no próximo ano cujo título, caso não mude, será A Estranha Morte de João Barbosa Filho. O que acontece é que há respostas que eu próprio, na qualidade de seu criador não tenho sobre esses personagens e certamente, será uma tarefa especialmente para o leitor. Gosto de fazer esse jogo decifratório. Fazer com que eu próprio me sinta desconhecido das minhas criações. Mas acima de tudo penso que eu vaticino má vida aos personagens se calhar por questões de espaço em que vou encontrando o motivo para criá-los. Quanto ao meu desejo é sempre o de escrever, escrever sempre, e nunca escrever só por escrever. Escrever por causa e missão, nunca por tarefa.



E sobre os personagens da literatura moçambicana. O que os move?
Um dos maiores inventores de vidas ou de personagens, como queiramos, é o escritor Mia Couto, creio que não há muitas vozes contra isso. E os personagens de Mia Couto são gentes conhecidas, pessoas que convivem ao nosso lado ou nós mesmos. Acho incrível quando um escritor consegue, tão bem, tornar essas pessoas comuns em incomuns quando os encontramos nos livros de Mia. É um camponês normal que na escrita miacotiana conseguem ser verdadeiros profectas, pensadores e atiradores de provérbios. Podia falar de escritores como Luís Bernardo Honwana e Suleiman Cassamo que ninguém, até hoje, os conseguiu substituir nos seus livros Nós Matamos o Cão Tinhoso e O Regresso do Morto, respectivamente. Em Suleiman Cassamo em particular, encontramos “o povo pela sua própria boca” como ele já se referiu numa entrevista que o fiz. A diferença nesses dois últimos e Mia Couto é que enquanto o Luís Bernardo consegue fazer personagens consoante o aspectro colonial, Suleiman foi buscar a ruralidade dos moçambicanos e Mia trabalha com a sabedoria humana nos seus personagens o que os torna eternos. O Aldino Muianga e Carlos Paradona Rofino Roque são também pessoas que entram para a essência tradicional para buscar as vidas que retratam as suas obras. Mas há também personagens modernas na actual literatura, que já vão saíndo da ruralidade ou de aspectos sociopolíticos. Personagens como Yara da obra A Virgem da Babilónia de Adelino Timóteo, que por um lado nos parece irreal conseguem trazer um aspecto abstratista e poético muito forte. A missão desses novos personagens, como os que podemos encontrar no romance Os Silêncios do Narrador de Lucílio Manjate, é a de nos criar a viagem e emoções fora do aspecto habitual. Elas nos trazem um novo exercício que é o da constante tentativa de desenhá-las e depois fazer o reconhecimento. De um modo geral, penso eu, fora o próprio Mia Couto, pelas razões que já mencionei, ainda há um campo muito aberto para a criação de personagens. O grande problema, em que concordo com o professor Francisco Noa, é que temos bons contistas que se agoiram no romance, seduzidos pelo sucesso aludido (supostamente) e a grandeza que se dá a esse género, que acabam matando grandes histórias. Penso, outrossim, que a fertilidade do continente de alguma forma, vai empobrecendo os nossos escritores, não por culpa da fertilidade em termos de histórias para contar, mas pela infertilidade dos próprios escritores.



Poderia falar do seu trabalho como editor de revistas literárias?
Actualmente, dirijo a revista NÓS – Artes e Cultura, que se trata de um sonho antigo de fazer um jornal só e somente cultural num país em que a cultura está para 10º plano. Um país que a sua maior riqueza é a cultura, tratando-se desta que não trás conflitos, muito pelo contrário, muitas vezes usada como solução pacífica para vários conflitos. Então NÓS seria ou é esse espaço aberto para a multidisciplinaridade das artes. Mas a primeira revista que fundei mesmo foi a Literatas, nos finais de 2010. Eu já era jornalista e começava a entender que a cultura é meu sol, meu mar e minha terra. Na mesma altura em que o Movimento Literário Kuphaluxa estava no auge da sua criação mobilizei meus parceiros do movimento para que criássemos a revista e falei-lhes de uma coisa muito estranha ainda em Moçambique chamada “blogue”. Nessa altura, a ideia embora reconhecida como boa e inovadora, foi olhada com muita timidez e desdenho. Desdenhava-se essa coisa chamada “blogue”, dizendo-se que não seria encarada com seriedade e não se acreditava na utopia de jovens como nós tão pouco influentes em muitas esferas, que podiam criar o seu próprio espaço perante um cenário em que nenhum jornal tem espaço para as criações literárias. Confesso que desiludi-me com os companheiros. Mas a minha teimosia fez-me criar, mesmo assim o blogue e dei unilateralmente o nome à revista, chamando-a Literatas e criei também o blogue: revistaliteratas.blogspot.com. Os primeiros quatro meses eram penosos para a ideia, porque nenhum companheiro colaborava, mas eu fazia as reportagens, já que era jornalista. E tínhamos mais brasileiros dispostos a colaborar. Só mais tarde, depois desses primeiros quatro meses foi sendo entendida a ideia até que passamos a paginar a revista e enviar por e-mail. Aí era uma espécie de afirmação total. Com muitos que só criticavam sem se quer colaborar a ideia foi abraçada por muitos jovens hostilizados e outros que só precisavam de estar em um ambiente igual para publicar seus escritos. A Literatas teve uma sobrevivência já mais vista em revistas literárias em Moçambique, nas minhas mãos, ela foi até a edição 58. Tivemos incentivo por parte de escritores de todo o mundo, até professores e escritores norte-americanos ficaram encantados com a iniciativa e até hoje, são muitos os escritores que vem a Moçambique porque conheceram o país, literariamente, pela Literatas. Uma pena que o país em si, de certeza não dava a mesma importância e ouve aqueles que, inclusive, vaticinaram a revista à curta vida. O que veio a confirmar-se, isto porque até os que nunca deram muito por ela dentro do Movimento Kuphaluxa, foram percebendo o seu valor mais do que literário e quiseram usar-se disso para ganhos individuais. Hoje e pela primeira vez nesta entrevista, declaro a morte da Literatas – Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona, um facto que nunca quis assumir, por uma questão de nostalgia e do facto de esse sonho, se calhar ter sido mais meu do que de muitos. E vou mais longe, sem querer exagerar no discurso (todos conseguem notar isso), bastou que eu abandonasse o projecto por “perseguição interna” para que o projecto não fosse para mais de uma edição. É uma pena para o nosso Kuphaluxa, que poderia ter dado mais duração à Literatas ou, pelo menos, uma morte digna a uma revista que, assuma-se, era a única referência actual que Moçambique tinha e usada em vários países como uma fonte segura para o ensino de literaturas africanas de língua portuguesa entre outras. Hoje sei que há alguns estudantes que tem a revista Literatas como tema de teses de licenciatura. E até hoje tenho recebido vários e-mails de gente querendo informações que só a revista Literatas sabia dar sem que as pessoas contactassem alguém. E agora neste projecto que movo a título individual pretendo trazer um espaço para a literatura e todas as artes moçambicanas.

Você também cria encontros e feiras literárias... Poderia se dizer que você é um agitador cultural, em Maputo?
No capítulo dos encontros e feiras literárias é-me difícil falar deles como realizações somente minhas. Posso até conceber ideias sozinho, mas a execução é bem mais exigente e complicada e só um movimento literário como Kuphaluxa dentro do País consegue fazer isso. Todos sabem que a Associação dos Escritores Moçambicanos já desfez-se desse papel há algum tempo, embora seja a entidade que tem mais facilidades de ter patrocínios para essas actividades. Nessa altura, lembro-me do que sempre falamos entre companheiros do Kuphaluxa, não é o dinheiro que impede muitas realizações, mas a incapacidade humana e organizativa. O Kuphaluxa sempre teve forças para fazer esses encontros com e entre escritores. Eventos com participações internacionais, com destaque para Brasil, Angola e Portugal. Já tivemos vários escritores que antes de chegar a Moçambique contactavam-nos para realizarmos consigo várias actividades. E eu coordenei muitas delas. Mas é como digo, o Kuphaluxa embora nos últimos tempos fragilizada, ainda tem a mesma força de organizar esses eventos. Tinha sido criada uma grande feira de livro em Maputo, durou por dois ou três anos, se não me engano, e tinha todas as condições para acontecer, com várias embaixadas e instituições públicas e privadas envolvidas. Mas não se manteve. Uma vez mais o grande problema não foi o dinheiro aquilo que para nós é sempre problema. Falta gente que faz esses eventos pela própria literatura que por dinheiro. Essa gente passa a vida reunida que no terreno a fazer trabalhos. E eu, embora formalmente conhecido como jornalista cultural, é lá em grandes e pequenas movimentações culturais onde me encontro. E sou realmente esse agitador cultural. E quero agitar mais. Para o próximo ano, seja com Kuphaluxa e por outras vias as ideias são várias e muitas delas serão realizadas.

E sobre a literatura brasileira contemporânea? O que tem te chamado a atenção?
Uma vez, um bom escritor paraibano, Bruno Gaudêncio, comentava comigo e outros escritores e activistas literários, pessoas que respeito muito e que nos reencontramos na Bienal do Livro do Ceará que marcou a minha primeira presença física no Brasil, que “Eduardo Quive é a pessoa que conhece mais a literatura contemporânea brasileira que nós os brasileiros”. Essa é uma afirmação exagerada, como muitas vezes sabem fazer homens com a arte a correr nas veias, mas em parte com um tom de verdade. Muitos moçambicanos sobre a literatura brasileira ainda estão nos anos 1950 a 1960. De 1980 para esta parte conta-se pelos dedos quem está informado aqui. Enganam-se os brasileiros que lhes chega no ouvido que o Brasil aqui é um país conhecido. Conhecemos sim, o lado das telenovelas da Globo que são muito assistidas e propaladas pelos canais nacionais e algum lado criminoso que é sempre difícil de esquecer. Mas a literatura em si, chega muito pouco, até porque isso não é para as massas. O que sei é que se mantêm a pujança na criatividade de escritores brasileiros. Faltam apenas escritores que conseguem invadir o mundo e estarem nas nossas livrarias. Isso vai acontecer quando as próprias editoras brasileiras vão ter a ousadia que as editoras portuguesas tiveram em estender-se para os países de língua portuguesa. Eu gosto da escrita da Ana Paula Maia, por exemplo. Temos bons textos do poeta Rubervam Du Nascimento, um poeta de voz grossa, gosto da poesia e principalmente dos contos de Ronaldo Cagiano; gosto das loucuras de Ademir Demarchi e Alberto Bresciani. Se calhar seja uma das pessoas que mais tem acesso a muitos escritores emergentes também que quase mensalmente vou recebendo seus livros. O próprio Bruno Gaudêncio para mim é um óptimo contista e Demetrios Galvão bom poeta. Há bons romancistas como Jasen Viana que conheci no Ceará. Mas acredito que de tão grande que é esse país, embora eu conheça escritores de quase todas as regiões, tenho fé que quando a acção cultural entre Moçambique e Brasil se elevar vamos poder ler e conhecer bons escritores. As experiências que tivemos de receber e levarmos para palestras escritores brasileiros, como Rubervam Du Nascimento, Ana Rusche, entre outros foram boas. Mostrou que há um público disposto a ler para além da fronteira.

Revista NÓS – Artes e Cultura : https://www.facebook.com/nosartese.cultura.7?fref=ts

(*) Alexandre Staut nasceu em Espírito Santo do Pinhal (SP) em 1973. Jornalista, já trabalhou como cozinheiro na Inglaterra e na França (em Brest, Tours e Arromanches-les-Bain). Ministrou oficinas de haikai na Oficina Cultural do Estado de São Paulo (Bauru/SP). É roteirista do documentário “O anjo da guarda de Caio F.” e autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toada Edições/2010) e Um lugar para se perder (Dobra/2012). No momento, trabalha em seu terceiro romance, num livro infantil e numa peça de teatro que está sendo escrita para a atriz cubana Phedra de Córdoba. Alexandre Staut é colaborador do Blog Études Lusophones.


Consultem as outras entrevistas realizadas por Alexandre Staut na rubrica Entre Letras.
Link : Entre Letras

Leiam a respeito do romance de Alexandre Staut Um lugar para se perder no link :




segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Roberta

Catherine Rebois, Corps latu sensu
Roberta

por Eliézer Rodrigues

Quando conheci Roberta, achei estranho sua maneira de andar.
Mudara-se para São Paulo na mesma época que meus vizinhos mudavam-se para o Rio de Janeiro, sua família tomou o acaso do destino e a abrigou ali ao meu lado.
Lembro que ia para a sala de aula quando a vi pelos corredores no exato momento em que ela cortava seu dedo com a tampa de um lote defeituoso de um refrigerante vagabundo que ela tentava abrir. Me prontifiquei a abrir seu refrigerante e o fiz sem nenhum trauma. Me agradeceu, apertou seu dedo machucado para estancar o sangue, fez uma expressão de dor eufemizada.
Percebi prazer naquele rosto, não sabia dizer se eu o também sentia.
Roberta demorou pra se adaptar. Se vestia de um jeito estranho, tinha a voz enjoada, um jeans muito apertado e gostos que nenhum outro tinha. Fazíamos juntos o caminho de volta pra casa e lembro que sempre me contava um ou outro causo que passou por conta dessa falta de aceitação dos colegas veteranos. Eu sempre dizia que com o tempo as coisas se acertariam, bastava os alunos se acostumarem com ela e tudo daria certo. Ela sorria, me agradecia e mordiscava os lábios. Eu nunca soube o que fazer. Entrávamos, mas nunca a vi sair. Uma noite, enquanto entrava no carro de um amigo, pensei ter visto Roberta me olhando pela janela. Parti mesmo assim.
Meus amigos a maldiziam e eu nunca a defendia, só dizia que ela era uma boa pessoa, que eles a deixassem em paz. Eu era um cara bem apessoado, as garotas me procuravam, as mães das garotas queriam que eu as desposasse, fui sempre hábil em tacadas de sinuca e em notas menores de blues, era jovem e tinha o mundo ao meu alcance. Roberta não tinha amigos, não saía de casa, ninguém a procurava. Vez ou outra, percebia-a triste. Desconfiei que a chateação era em resposta ao meu silêncio, a minha não defesa dela. Eu era a única pessoa que ela tinha, e eu agia como se não gostasse dela, me ausentava ante a sua humilhação. Ela nunca me disse nada, era sempre a mesma coisa: caminho, queixume, consolo, sorriso, mordiscada no lábio, casa.
 Foi pelo seu sorriso que vez ou outra se apagava que decidi defendê-la do mundo que a engolia sem nenhuma razão, apenas por considerá-la diferente. Começou a frequentar a minha casa, eu a dela, mostrava-me suas músicas e eu os meus livros. Meus amigos achavam que era tudo uma grande brincadeira da minha parte e esperavam que no fim de tudo isso eu pregasse alguma peça nela. Não o fiz. Disse que o fazia porque gostava dela. Primeiro riram, depois calaram, perceberam que era verdade, tentaram me converter a uma doutrina ignorante e sem razão, sem sucesso. Quando disse que queria que Roberta saísse com o grupo, pediram que eu tomasse uma decisão: ela ou eles.
Não me importei em sair a sós com Roberta. O roteiro de volta pra casa por vezes se estendia num cinema ou parque. Tornei-me seu confidente, e ela o meu lenço. Era pra ela que eu chorava as minhas mágoas, era ela quem me ajudava como nenhum outro me ajudou, ou pelo menos não com a mesma vontade. Já não dizia mais sobre as chateações dos colegas, mas continuava com a mordiscada na boca. Foi depois de uma dessas mordiscadas que eu percebi que teria de enfrentar muito mais do que até então enfrentara. A amizade com Roberta, para os outros, era impensada, sem causa. Mais do que isso, tal ligação parecia macular paradigmas, romper as dimensões do que é bom e se exagerar nos horizontes do maligno. Segundo os outros, alguém como eu, com o mundo ao meu dispor, com todas as pessoas me adorando, não poderia ter a amizade de alguém deslocado, diferente, estranho e sozinho. Meu lugar era junto aos vencedores, meu lugar era o centro dos holofotes. Nunca o quis. O que sempre quis foi a simplicidade, a calma, o sorriso no início do dia e no fim da noite. Roberta me mostrava que a vida era simples, mas que os outros a dificultava. Roberta estava disposta a me dar o sorriso, seja qual fosse o momento do dia. Roberta faria de tudo para que o dia não acabasse. O holofote, as noites, os caras, não me faziam feliz, não cuidavam de mim quando na madrugada eu me injetava pra esquecer a tristeza que vinha repentina, sem mais, nem menos, só por ver ali espaço, o vazio de alguém que não foi preenchido e decidia se alocar. E então, depois daquela mordiscada, percebi que queria Roberta mais do que um amigo quer um amigo. Eu queria Roberta embaixo de meu cobertor, em cima de meu lençol, enroscada em meu pescoço.
Quando beijei Roberta, senti em seus lábios a sua espera, o seu desespero, os seus medos, a sua esperança. Roberta chorando, dizendo que estava feliz, que me queria, mas que também sabia que não seria fácil, que não éramos feitos um pro outro. Tentei acalmá-la, disse que não fazíamos nada de errado, que nos importássemos conosco, esquecêssemos os demais pronomes.
Esperei o fim de tarde para dizer aos meus pais que namoraria Roberta.
Lembro-me da expressão de meu pai, estático, grave, e das mãos de minha mãe que foram levadas a sua boca. Meu pai disse pra repetir, ele não havia entendido direito. Não esperava suas mãos em meu colarinho quando terminasse de repetir, mas elas vieram prementes e sem razão. Não ousei levantar as mãos contra o meu pai, ele que tanto me ajudou, ele a quem tanto eu amava. Não entendi porque ele não pensou o mesmo. Enquanto me maldizia, com um único soco fez de mim jorrar um fio carmesim que despontava até a mesa de centro da sala. Saiu em passos largos, disse que não queria ficar ouvindo asneiras de um ingrato que nunca soube dar valor aos esforços de seu pai. Minha mãe, que pensei estar morta por conta de sua inércia, veio limpar a minha boca, ajudar a recolher o que o meu pai deixara de mim. Mas nada disse. Apenas se movia desesperada, o choro suprimido, as lágrimas que molhavam a minha boca.
Expliquei a minha boca roxa para Roberta no dia seguinte, o que não deveria ter feito. Roberta se culpava, chorava, dizia querer que tudo acabasse. Quando estávamos em frente as nossas casas, percebemos que nossos pais, separados por anônimos que por ali passavam, haviam trocado golpes há alguns minutos. Ainda babavam, berravam e queriam esmurrar um ao outro. Sabíamos, mesmo antes de nos aproximarmos, que brigavam por nós. Meu pai não engolira a história e ao retornar do trabalho decidiu exigir uma resposta dos pais de Roberta para o que ele considerava ser um absurdo.
Roberta chorava, dirigiu-se resignada a sua casa. Meu pai me chacoalhava, me ameaça, minha mãe absorta em sua ausência, nada fazia, queria apoiar o marido, mas não queria atingir o filho.
Meu pai pediu que eu decidisse: ou ela ou o teto dele. Eu já havia escolhido Roberta uma vez, natural que eu escolhesse novamente e o fiz, sem qualquer trauma.
Naquela noite, sem a permissão de levar nada do que era meu, saí sabendo que o fazia sem nenhum retorno. Foi por isso que fui até um hotel, liguei para Roberta e pedi que me encontrasse. Quando abri aquela porta no meio de uma noite chuvosa e encontrei-a abatida, chorosa, dizendo que não queria causar tantos transtornos a minha vida, pedi que se acostumasse com o meu rosto, que os planos haviam mudado um pouco. Disse a ela que fui expulso, disse a ela que a tinha escolhido e propus que fugíssemos, que morássemos noutro lugar. E foi num misto de aceite, choro e calor que eu, naquele quarto de hotel, deitei-a sobre a minha cama, despi-a e descobri um corpo diferente dos demais que havia tido, uma diferença que me provocava um desejo diferente. Suas curvas inexistentes, seus seios inexistentes, sua pele lânguida. Os olhos grandes que me despiam, o seu desejo implícito de me fazer caça, de me fazer caçador. Foi naquele corpo que percebi que mudava para sempre a minha vida. Aquela estranha, renegada e isolada, aquela que não conhecia metade dos lugares que eu conhecia, aquela que me ajudava quando precisava e que tinha o corpo ausente do que eu procurava outrora, fazia-me feliz e disposto a construir tudo do zero, a enfrentar a sociedade arcaica e hipócrita. E assim fizemos. Anos mais tarde, longe de tudo, enriquecidos, Roberta confessou desejar uma cirurgia plástica e assim prosseguimos. As curvas que lhe faltavam, os seios que lhe faltavam, a coloração do cabelo que lhe faltava, tudo foi reposto, e a fez feliz. Roberta passa na rua e é desejada, recebe elogios. Não liga, só quer saber do homem que suportou tudo por ela. A cirurgia foi pra ela, quis se sentir mais a vontade e também rir de uma sociedade cega pelos seus próprios padrões.
Tenho orgulho de Roberta há tantos anos comigo.
Quando conheci Roberta, ela era Roberto.


Eliézer Rodrigues é graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade de São Paulo. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne, colabora para o Blog Etudes Lusophones e gere as páginas "Editora Pirata" e "Feridas Lexicais"


Feridas Lexicais:

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A la poussière tu retourneras…..



Rencontre avec l’écrivaine Ana Paula Maia
autour de son roman Charbon animal aux éditions Anacaona

En présence de sa traductrice et éditrice Paula Anacaona

Le jeudi 21 novembre
à 18h00 – Amphithéâtre CHEAUNU

Centre universitaire Clignancourt
2, rue Francis de Croisset 75018 Paris
Métro : Porte de Clignancourt

Trois hommes dans une ville minière au Brésil. Un pompier, un employé dans un crématorium, un mineur. Entrer dans un immeuble en feu, défoncer des portes à la hache et sauver des vies. Brûler des corps à 800°C et les passer au broyeur. Travailler dans une mine à deux cents mètres de profondeur et ne connaître du soleil que l’aube et le crépuscule. Des hommes qui ont le courage de tout faire, compétents mais ignorés. Des anti-héros invisibles, aux échecs plus nombreux que les succès. Excaver du charbon végétal ou transformer des corps en charbon animal. Ici, les professions sont violentes et emprisonnent. Confrontés quotidiennement à la mort physique et matérielle, ces travailleurs ne ressentent ni tristesse ni solitude. Ils vivent, du mieux qu’ils peuvent, et apprennent à orienter leur regard là où la misère est moindre.

Née à Rio de Janeiro en 1977, Ana Paula Maia publie d’abord des nouvelles à partir de 2003 puis son premier roman en 2007. Charbon animal est son premier livre publié en France.

Le feu est la seule chose qu’il aime affronter
Extrait du 1er Chapitre

À la fin, tout ce qu’il reste, ce sont les dents. Elles seules permettent d’identifier qui vous êtes. Le meilleur conseil à vous donner, c’est de préserver vos dents plus que votre dignité, car la dignité ne dira pas qui vous êtes – ou qui vous étiez. Votre profession, votre argent, vos papiers, votre mémoire, vos amours, ne serviront à rien. Quand le corps se calcine, les dents préservent l’individu, sa véritable histoire. Ceux qui ne possèdent pas de dents deviennent moins que des misérables. Ils sont réduits à du charbon et des cendres. Rien d’autre.
Ernesto Wesley risque sa vie en permanence. Il se jette dans le feu, traverse la fumée noire et épaisse, avale une salive au goût de suie et est capable de reconnaître le matériau des meubles de chaque pièce au crépitement des flammes.
Il s’est habitué aux cris de désespoir, au sang et à la mort. Quand il a commencé à travailler, il a découvert, dans sa profession, une sorte de folie et de détermination à sauver l’autre. Il ne se considère pas comme un héros du fait de ses actes de bravoure. Mais à la fin de la journée, il s’en souvient encore. C’est la tentative de préserver un espoir de vie quelconque, quelque part, qui le motive à se lever tous les jours pour travailler.
Ses échecs sont plus nombreux que ses succès. Ernesto a compris à quel point le feu est traître. Il surgit silencieusement, se propage partout, supprime toute trace et ne laisse que des cendres. Tout ce qu’une personne construit et montre orgueilleusement est dévoré d’une flambée. Tout le monde est à la portée du feu.
Ernesto Wesley n’aime ni les accidents de la route ni les accidents aériens. Il n’aime pas le fer tordu, et encore moins le scier. La scie mécanique le déstabilise. Lorsqu’il scie en deux le fer, le tremblement de son corps lui fait perdre pendant quelques instants la sensibilité de ses mouvements. Il se sent rigide, comme un automate. La moindre erreur est fatale. Dans sa profession, un individu qui commet une faute devient maudit, condamné. Il doit risquer sa vie en permanence. C’est pour cela qu’il est payé. C’est à cela qu’il sert. Il a été formé pour sauver et quand il échoue, les yeux déçus des autres réduisent son honneur en poussière.
Le feu est la seule chose qu’il aime affronter. Éviter les hautes flammes, fuir la violence de l’incendie lorsqu’il trouve un oxygène abondant. Se traîner sur le sol qui crisse sous le ventre, sentir la chaleur traverser l’uniforme, se protéger de la chute d’une plaque d’enduit ou de l’écroulement d’un étage, voir les fils qui pendent et les murs qui s’effondrent. Le crépitement des flammes chronométrant son temps de résistance, l’instant imminent de la mort et, enfin, ce poids plus lourd que le sien sur son dos, le sauvetage d’un être qui n’oubliera jamais son visage noirci par la suie.
Ernesto Wesley est le meilleur dans ce qu’il fait, mais peu de gens le savent.
Il sourit devant le miroir des toilettes puis se passe du fil dentaire entre les dents. Il nettoie soigneusement tous les interstices et termine son nettoyage par un bain de bouche aromatisé à la menthe. Ses dents sont propres. Peu de plombages. Il a une couronne en or sur une molaire – l’alliance de sa défunte mère qu’il a fait fondre. C’est pour le reconnaître, au cas où il mourrait au travail ou dans d’autres circonstances. Avoir une dent en or est une spécificité qui facilite l’identification.

Ernesto et Ronivon sont deux frères qui vivent dans une petite ville minière du Brésil. Le premier est pompier, « le feu est la seule chose qu’il aime affronter », et il le fait naturellement, pourrait-on dire : adolescent, il a sauvé un de ses frères d’un des incendies qui ont touché leur maison. C’est peut-être de là que vient sa vocation. Le second n’a trouvé comme métier que d’incinérer les nombreux corps qui échouent au crématorium. Ana Paula Maia décrit leur vie quotidienne dans un style documentaire qui se révèle plutôt trompeur : sous la froideur assumée d’un texte distancié, affleure une sensibilité qui se cache pour mieux se diffuser et n’en être que plus forte. Ce qu’elle nous montre, ce n’est pas que l’horreur ordinaire, c’est surtout la condition de ces quelques personnes qui parviennent à vivre malgré tout. Ils sont soumis aux petites contrariétés (la voisine qui se plaint des dégâts commis par la chienne d’Ernesto) comme aux grands drames humains (un coup de grisou au fond d’une mine de charbon ou la désincarcération d’un blessé dans un accident de la route). Il n’y a pas de hiérarchie soulignée dans ces tracas, et il en est de même pour les rapports humains : la chienne n’a pas moins d’importance pour Ernesto qu’un collègue croisé chaque jour.

La force énorme du livre vient bien de la façon de faire d’Ana Paula Maia, ce contraste entre la froideur des mots et des phrases (une froideur qui s’applique, paradoxalement, au feu et à ses conséquences) et la réalité des hommes, de leur corps et de leur esprit. En effet, si tout ce qui est dit a un rapport direct avec le corps, ses blessures, son avenir, après la mort, l’auteure ne parle en réalité que de l’esprit (de l’âme ?). Ce qu’elle dit ne peut donc que nous atteindre directement, nous laisser ébahis devant tant de talent.
Christian ROINAT

Ana Paula Maia. Charbon animal, traduit du portugais (Brésil) par Ana Anacaona, éd. Anacaona, 137 p.

Pour plus d’information consultez le site des Editions Anacaona sur : http://www.anacaona.fr/

Consultez l’interview de Paula Anacaona pour le blog Etudes Lusophones sur : http://etudeslusophonesparis4.blogspot.fr/2012/10/les-marginaux-moteurs-de-la-culture.html









terça-feira, 12 de novembro de 2013

Conférences : Art Colonial et Santé publique

Art colonial et métissage au Brésil du XVIIe siècle : confréries, artisans, anonymat et modèles européens dans les Capitaineries de Minas et du Nord du Brésil

Madame le Professeur Carla Mary da Silva OLIVEIRA,
Université Fédérale du Paraíba

le 14 novembre 2013
à 9h00 - salle salle 423

Centre universitaire Clignancourt
2, rue Francis de Croisset 75018 Paris
Métro : Porte de Clignancourt


Santé et politiques publiques au Brésil – problématiques actuelles

João GOMES DA SILVA
Psychologue et doctorant en Santé Publique à l’Université de São Paulo

le jeudi 14 novembre 2013
à 17h00, salle 21

Institut Hispanique
31, rue Gay-Lussac
75005 Paris


Graduado em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba (2001) e mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Campinas (2003). Atualmente é doutorando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de São Paulo, bolsista da CAPES, com estágio sanduíche desenvolvido em Psicanálise, Saúde e Trabalho, na École Manegement et Société/Conservatoire National des Arts et Métiers/Paris/FR. Tem experiência nas áreas de Saúde Coletiva, Psicologia e Psicodinamica do Trabalho,  atuando principalmente nos seguintes temas: Psicanálise e Saúde Mental, Saúde do Trabalhador, Saúde Comunitária, Estudos Críticos do Discurso e Políticas Queer.

Aqui você pode ver o link da entrevista do professor no programa Mais Médicos http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2013/09/muitos-vieram-prontos-para-guerra-diz-professor-do-mais-medicos-em-sp.html

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O hexágono circunferou

Tarsila do Amaral, Carnaval em Madureira, 1924
O hexágono circunferou
Por Horácio Dib (*) 

         O movimento é o pai do homem e atinge os filhos com suas experiências de antigas rotas e duros caminhos, de pontiagudas estradas, de perdas e ganhos e joga-os na terra, na terra nua e nefasta, aos olhos bondosos dos céus, dizendo, com a voz da maior doçura impostada: Provem.
E os filhos provam das mesmas heras de eras longínquas, das velhas quimeras e das novas mandingas, de todo o fel e do mel desse mundo, e ao longe, no fundo do monte, os olhos brilham, sorrindo. E nos dias de sol, da água e da colheita, o pai orgulhoso espreita seus filhos, em silêncio continuo. E nas noites profundas, de turbulentos silêncios, sussurra às escuras canções de ninar e toma nos braços, nos braços calejados de sol, os corpos cansados dos filhos perdidos.
O movimento é inerente à alma humana, regredir não é uma capacidade nossa. Ou somos estáticos ou somos movimento constante.
Um dia abri a porta e quando percebi dava um passo em Paris e ali, naquele segundo, Paris dava um passo para dentro de mim. Para trás, se para trás eu olhasse, veria a convidativa porta, sua boca escancarada, seus dentes pingando da fome de ter meu corpo de volta, de volta ao seu estomago seguro e quente, à sua paz, ao seu imóvel conforto. Para trás, se para trás eu ousasse, veria as lagrimas de minha mãe, sentiria o cheiro do café com leite, tocaria os cabelos frágeis da minha vó, ouviria meu Chico Buarque a embalar meus passos para a volta. Para trás, se o para trás existisse, eu veria, ainda que invisível aos olhos que não usam esses óculos, a cama afofada de seda avermelhada com a madeira do tempo a envolver todos os lados, claustrofóbico, o caixão escancarado e rotulado com meu nome com uma foto em cima de paletó, gravata e cabelos engomados.
Mas o passo do homem é sábio, pois o pai movimento ensinou: se até na queda só se cai para frente, não teria como voltar no único passo que dei. E o fiz. Metade em Brasil, metade em Paris. E ali fiquei durante alguns séculos, eterna estátua da indecisão que assola a humanidade. E ali ficaria se não fossem os olhos ao longe, atrás da montanha, encharcados de desgosto e desespero. O movimento e o tempo flertando desavenças: Ele vai caminhar! Não, ele vai perecer! Até que os braços me empurraram pra frente e meu corpo todo jogou-se em Paris e foi aí que, bem mais contundente que um passo, Paris jogou-se em mim e percebi que os braços de outrora nada mais eram que estes aqui que vos falam, os meus.
Desde crianças aprendemos que é difícil encaixar aquele brinquedinho de formato quadrado no buraco impossível de um círculo. Mas mesmo assim persistimos, ainda que em vão. Há uma questão de honra até a aceitação da impossibilidade dessas duas formas se preencherem perfeitamente, se encontrarem em alguma esquina e baterem um papo amistoso, cafés nas mãos, sorrisos nos rostos. No começo Paris era um quadrado enorme. Ou um hexágono, pra ser mais preciso. E os braços dessa criança enorme que dormita nesse peito esforçavam-se com o trabalho de encaixar nesse formato mutante a circunferência da minha existência. Os dedos esfolados, a mente desconhecedora do insucesso, o desespero banhado de lágrimas, não se encaixavam. Então lembrei que o movimento provoca a adaptação, e que, ainda que imperfeita e com uns dentes faltando, ainda que genérica e de início impossível, modularia as formas e encaixaria os vincos. Foi nesse momento, acredito que nos primeiros dois meses aqui, que o hexágono começou a alagar suas arestas e minha circunferência também começava a moldar-se. Como numa sinfonia telepática entramos no mesmo campo harmônico, o hexágono circunferou, a circunferência hexagonou, mas não nos tornamos um no outro, antes, encaixamo-nos. Não perfeitamente, ainda faltavam peças, mas a criança do meu peito levantou-se pela primeira vez e, cambaleante, deu seus primeiros passos. Foi aí que eu aceitei Paris e Paris me aceitou.
O Brasil também mora aqui, nos contatos, nas novas descobertas de seres humanos mais seres e mais humanos do que jurávamos ser, nos fantasmas amorosos que nos perseguem quando a tristeza tenta nos acalentar, na música dos nossos antepassados que marcam o passo no bombear de nossas artérias. O Brasil mora aqui, na pálpebra que se fecha de cansaço, na lágrima que se destila de saudade, no riso que se abrilhanta de alegria, nas igualdades e dicotomias, nas plurais idiossincrasias de nossos seres. O Brasil mora aqui, em Paris, ainda que num quarto emprestado, ou talvez no sofá da sala mudando os canais da televisão, eles andam de mãos dadas, discutem indiferenças, vibram numa só energia modular do ser humano, são extremos parecidos, velhos companheiros que nunca se encontraram. E dessas mãos que se cumprimentam vertem cristalizadas as plêiades de conhecimentos interestelares, de gigantescas e complexas sapiências e palavras garbosas que ousam a tentativa da explicação ou, quiçá, do espelhamento daquilo que nasce no ser humano. E aí nasce o movimento. Do empurrão desses dois pares de mãos. E, junto desses pares, das minhas mãos, das mãos que me empurraram pra longe da porta de casa.
Hoje, olho distante para o longe, onde o pai movimento nos assiste, eterno e constante, o sorriso conformado, os olhos apaixonados pelas suas criações. Há dor e dificuldade no caminho dos homens, mas há caminho. Espero, e que não tome muitos anos, voltar os olhos para aqueles olhos que pairam e sorrir com tamanha potência ao falar, com todas as letras que caibam em meus dentes: Obrigado, eu provei. E com as mãos tremeluzentes pela emoção, pelo peso, pela excitação do compartilhar, jogar o tudo de meu nada no solo fértil das vidas que virão e que já aqui estão. Com estas mãos, tresloucado amigo, vendo nos olhos as estrelas de Bilac, pintando com as mãos as pedras Telles, despetalando ao vento a rosa de Drummond, cultivando a lavoura de Nassar, limpando a sujeira de Gullar, sentindo as sombras e as tristezas de Augusto, catando os feijões de Melo Neto, declamando as palavras de Vinícius, e, bebendo o cálice de Chico, gritar com todo o resto de meu ser: Provem!




Texto escrito e lido por Horácio Dib durante o encontro com o Exmo Sr. Ministro Aloizio Mercadante realizado na Universidade da Sorbonne no dia 7 de Novembro de 2013.

(*) Horácio Dib é graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones

Assistam ao vídeo da apresentação no link : O hexágono circunferou

Outras informações sobre o encontro no link : Sorbonne Universités





domingo, 10 de novembro de 2013

Um dedo de prosa com Vinicius de Carvalho

 Um dedo de prosa com Vinicius de Carvalho

Assistam à entrevista que o Professor Vinicius Mariano de Carvalho coordenador do Programa de Estudos Brasileiros da Universidade de Aarhaus,  concedeu ao Blog 
Etudes Lusophones.

Clique nos links



sábado, 9 de novembro de 2013

Dimensão plural

Novos brasilianistas: no lugar dos típicos gringos, surgem os especialistas brasileiros

Pesquisadores se dedicam a temas de Machado de Assis ao tropicalismo

Por Ana Clara Brant

O termo brasilianista costumava se referir ao estrangeiro que estuda o Brasil ou é especializado no país. De uns anos para cá, o perfil desse profissional mudou, o que torna necessário rever a expressão. "Foi-se o tempo em que o estudioso/historiador era aquele típico gringo, a grande maioria norte-americanos, sem domínio total da nossa língua. Nos anos 1970 e 1980, a proporção de estrangeiros que estudavam nosso país era de 95%. Justamente por isso, implicava um olhar até exótico sobre o Brasil. Hoje, há uma novidade: o crescimento considerável de brasileiros radicados no exterior que se interessam pela terra de origem", avisa o professor associado de literatura comparada da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) João Cezar de Castro Rocha.

Ele realizou diagnóstico atual da pesquisa em literatura brasileira produzida em universidades no exterior e conseguiu um mapeamento inédito dos chamados brasilianistas brasileiros que estudam nossa literatura.

Boa parte desses pesquisadores se constitui naqueles que foram fazer mestrado ou doutorado fora e por lá ficaram, sobretudo nos Estados Unidos, país com extenso número de universidades, bibliotecas e melhores condições financeiras. "Os laços entre instituições norte-americanas e a academia brasileira se estreitaram muito nos últimos anos. Há uma noção melhor no estrangeiro sobre a qualidade do pensamento e da pesquisa no Brasil. Por um lado, isso é reflexo da maior circulação de brasileiros no exterior. Por outro, cria-se círculo virtuoso: mais conhecimento sobre o Brasil produz mais curiosidade e interesse também", opina o carioca Bruno Carvalho, professor assistente no Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Princeton. Ele está escrevendo livro que relaciona as Minas Gerais de Cláudio Manuel da Costa e a Virginia de Thomas Jefferson.

Autocentrado

Há anos em território norte-americano, onde é professora de literatura brasileira na Universidade de Stanford, na Califórnia, a paulista Marilia Librandi Rocha nota que há sim um crescimento da presença brasileira no câmpus onde trabalha, seja de colegas professores visitantes, de alunos de pós-graduação ou da graduação. No entanto, segundo ela, a maioria fica curto período de tempo. "E o Brasil pode ser tema de seus estudos ou não. Só o fato de sair do Brasil e desenvolver sua pesquisa (sobre qualquer tema, nacional ou não) faz muito bem para a internacionalização do país, em geral muito autocentrado", diz. Marilia, que no momento prepara o livro Escritas de ouvido, sobre a prosa de ficção moderna brasileira, de Machado de Assis a Hilda Hilst, revela que não se vê necessariamente como brasilianista.

"Fora do Brasil, é útil ser reconhecida assim, pois na função de professores nativos somos chamados a representar o país, um pouco como embaixadores culturais. Ao mesmo tempo, somos levados também a vincular os estudos sobre o Brasil ao mundo exterior, sobretudo a América hispânica, aos países lusófonos e também, claro, aos Estados Unidos, Europa e outros continentes", acrescenta.


Esforço enriquecedor

Mineiro de Belo Horizonte, Gustavo Furtado é professor de estudos luso-brasileiros na Universidade de Duke, na Carolina do Norte (EUA). Foi para lá como imigrante, em 1994, e só depois de legalizado formou-se e conseguiu bolsas de estudo. Gustavo, que se interessa bastante pela produção audiovisual brasileira, admite que, a princípio, o termo brasilianista o incomodou. Mas de qualquer forma, segundo o professor, na prática, o termo designa um papel pedagógico na universidade americana.

"O fato é que, como pesquisadores, temos áreas de conhecimento e interesse bem específicas, assim como os professores universitários no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Mas como professores temos que fazer uma performance mais ampla e complexa – até porque, se não o fizéssemos, não teríamos alunos. Um especialista na narrativa contemporânea acaba tendo que ensinar cursos sobre Machado de Assis ou sobre o cinema novo, por exemplo. Isso reflete o fato de que muitos departamentos de romance languages and literatures ou romance studies (que combinam estudos de literatura e cultura nas línguas latinas) têm só um ou dois brasilianistas, que naturalmente têm que oferecer ampla grade de cursos", analisa. Gustavo acrescenta que isso acaba implicando grande esforço, especialmente no começo da carreira acadêmica, mas é também experiência enriquecedora. “Enfim, ainda que eu veja o termo com certa distância irônica, o brasilianismo é a realidade da distribuição de trabalho na universidade norte-americana”, conclui.

Outro brasileiro radicado nos EUA é o carioca Pedro Rabelo Erber. Professor assistente de estudos brasileiros na Universidade de Cornell, em Ithaca, Nova York, ele também vê um aumento de compatriotas lecionando temas relacionados ao Brasil em universidades norte-americanas. Com relação ao termo brasilianista, acredita que, no contexto institucional em que está inserido, desempenha sim este papel, o que, de acordo com o professor, inclui não só o ensino de literatura, história, arte e política brasileiras, como a administração do currículo universitário relacionado ao Brasil no nível interdepartamental.

Armadilha

Curioso é que o escopo de interesses desses pesquisadores é bem diversificado. Passa por Machado de Assis, literatura indígena, cinema marginal, arte contemporânea, MST, tropicalismo, cinema novo e até poesia concreta. "Acho que o traço comum mais forte entre nós é termos um pé em cada hemisfério do continente intelectual americano, participarmos ao mesmo tempo do debate acadêmico no Brasil e nos Estados Unidos", acrescenta Pedro Erber. Para ele, há vantagens e desvantagens em ser brasilianista brasileiro e elas se equilibram. Se por um lado a facilidade com o português ajuda, em contrapartida o pesquisador brasileiro tem que chegar a um nível de proficiência na língua estrangeira em que trabalha que também requer muito esforço.

"Um dos desafios é não sucumbir à tentação de se colocar no papel de informante nativo, de 'explicar o Brasil' aos estrangeiros. É uma expectativa recorrente na universidade americana, que é preciso frustrar. Pois é também uma armadilha. É importante se posicionar em relação a temas brasileiros como pesquisador e não como brasileiro. Nesse sentido, o próprio aspecto contraditório da ideia do brasilianista brasileiro torna-se produtivo, pois recorda essa tensão entre o sujeito e o objeto da pesquisa", explica.

Dimensão plural

A maioria dos especialistas está nos Estados Unidos, mas a Europa também concentra parte significativa deles, principalmente França, Alemanha e Inglaterra. Professor de literatura brasileira no Departamento de Estudos Lusófonos da Universidade Paris-Sorbonne, o paulistano Leonardo Tonus revela que não há uma semana em que não se fale do Brasil na França, e que, além do boom econômico dos últimos anos, os grandes eventos culturais, esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, e o trabalho que a Embaixada Brasileira vem promovendo no país contribuíram para toda essa visibilidade e interesse.

Leonardo lembra também que a facilidade de intercâmbios e o encurtamento das distâncias ampliaram o fluxo de pesquisadores tupiniquins na Europa. Mas, ao contrário dos Estados Unidos, a coisa por lá é mais complexa. "A chegada de um brasileiro a uma universidade europeia não é simples. Ele precisa dominar perfeitamente o idioma, tem que se integrar na comunidade; há vários crivos. As exigências são maiores. Em todo caso, acho muito interessante ser esse brasileiro com olhar externo. Acho que o deslocamento geográfico ajuda a ter outra percepção. Talvez seja até o nosso diferencial", frisa Leonardo, responsável também pelo blog de estudos lusófonos etudeslusophonesparis4.blogspot.com.br.

Vivendo na Dinamarca há cinco anos, onde a comunidade brasileira não é grande mas significativa, o professor associado de estudos brasileiros na Universidade de Aarhus, o carioca (de família de mineira) Vinicius de Carvalho considera desafiador e ao mesmo tempo motivador ser brasilianista naquele país. "O que acho interessante é que, de uma perspectiva das ciências sociais, vamos alargando os horizontes de estudar o Brasil para outras áreas das ciências humanas. Com isso, a definição do termo brasilianista também vem se alargando e dando dimensão muito plural a esse grupo de estudiosos", pontua Vinicius, que é diretor e coordenador do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Aarhus, que foca na formação de profissionais que sejam mediadores entre o Brasil e a Dinamarca.

Publicado pelo jornal O Estado de Minas em 06/10/2013