terça-feira, 29 de outubro de 2013

Conversa com o Diretor

Tribut Telephon Sheep, 1989, Jean-Luc Cornec
UMA BIBLIOTECA EM RUÍNAS PARTE II –
CONVERSA COM O DIRETOR

Por Mário Araújo

Aconteceu numa tarde de verão, não me recordo bem se em maio, setembro ou novembro - há anos espero pelo fim do verão em Brasília. Fui à Biblioteca Nacional para prosseguir com a tarefa de escrever meu primeiro romance. Uma rotina com tudo para ser agradável: escrever algo próximo de uma página, tendo ao meu lado alguns livros que trago de casa, grandes títulos da literatura universal que me dão apoio nos momentos difíceis. Já não me importava mais que não houvesse livros na Biblioteca, tinha os meus, escrevia o meu, e só precisaria mesmo de uns poucos elementos para fazer  o trabalho render, coisas triviais como ventilação, energia elétrica, ergonomia e silêncio.
Ao entrar, avistei o salão térreo onde, por algum erro de projeto, o piso de lajotas soltas parece explodir a cada passo. Soam como bombas, mas são apenas lajotas, e isso faz pensar no quanto é bom viver num país pacífico. Dirigi-me então ao elevador, o único dos quatro existentes que, graças a uma complexa combinação de botões arrancados (depredação esta não flagrada pelas câmeras de segurança, que não funcionam) impedem que o cidadão vá do térreo ao terceiro andar, onde está localizado o grande salão de estudos.
Após realizar a travessia vertical no escuro, visto que o tal elevador está com as lâmpadas queimadas, notei que não havia uma mísera escrivaninha disponível, nem no terceiro nem no segundo andar. Pela lotação plena, imaginei que estivéssemos às vésperas de um concurso público importante, objetivo de 99% dos frequentadores desta e de todas as bibliotecas da capital federal.
Depois de circular alguns minutos entre as mesas, encontrei uma vaga. Ao lado de cada “estação de trabalho” (bela expressão a exalar modernidade), há uma tomada instalada num buraco no chão. Abri-o, achando até engraçado o pedaço de papel que dizia “proibido jogar lixo aqui”, e liguei o computador. Calor. O termômetro marcava 29 graus e o relógio mais próximo indicava 15h07. Do outro lado do salão, outro relógio sugeria 19h16, fazendo-me especular se naquelas paragens longínquas, onde já era noite, a temperatura não estaria mais amena. Não há em todo o edifício dois relógios marcando a mesma hora, e eu me pergunto por que alguém não os acerta - será que consideram a tarefa tão simples que não mereça ser feita? Ou acreditam que a tarefa, de tão elementar, se fará sozinha?
Depois de alguns minutos trabalhando, percebi que a bateria do notebook estava prestes a acabar. Desatento, não tinha me dado conta de que a tomada não estava funcionando. Levantei-me e fui atrás de outro lugar, mas não encontrei: as provas do importante concurso público deviam ser iminentes.
Vendo que havia tomadas em lugares insólitos, como corredores e entradas de banheiros, arrastei minha cadeira para uma passagem que conduz do corredor principal às estantes, área por onde quase ninguém circula, visto que os livros não estavam disponíveis na Biblioteca Nacional. Conectei o notebook a uma das várias tomadas existentes – funcionava! – e retomei o trabalho, sem ser notado pelos demais usuários, todos concentrados em suas apostilas e manuais. Algo, porém, me dizia que onde o essencial não funciona, é grande a eficiência para futilidades.
Pois. Não se passaram dez minutos e meus pressentimentos já se materializavam na forma de uma mulher gordinha de uniforme, que se postou bem à minha frente com os braços cruzados:
- Os móveis não podem ser tirados do lugar - ela disse, no tom confiante de quem recita o mandamento mais sagrado.
De modo um tanto impaciente – ou talvez grosseiro, admito – para uma primeira manifestação, respondi:
- Ah, eu sabia que a senhora viria!
E levantei-me para devolver a cadeira ao seu lugar. Em seguida, voltei e sentei-me no chão, com o notebook sobre as pernas cruzadas – na infância, achava a posição de lótus um símbolo de rebeldia. Mas ela disse:
- Senhor, não é permitido sentar no chão.
Foi então que um dique se rompeu e eu desatei a fala:
- Mas as tomadas não funcionam! Nada funciona! E afinal pra que servem tomadas neste lugar? Não estou incomodando ninguém! Se a ideia é respeitar as regras, por que não respeitam a regra de dar ao cidadão uma Biblioteca que funcione?
Eram muitas as indagações e afirmações passando pela minha mente e reconheço que verbalizá-las todas de uma vez não foi a estratégia mais correta.
Um tanto assustada com o protesto inesperado, talvez inédito, ela ameaçou chamar um segurança – desta vez um homem, imaginei, que pudesse pôr fim à minha insolência. Tentando ser respeitoso e não perturbar os colegas de sala, emiti um grito sussurrado:
- Só saio daqui se for para falar com o diretor!
Quando o tal homem, baixo e barrigudo, apareceu, apontei para ele meu celular, disposto a gravar cada gesto e cada palavra (mais tarde descobri que me confundira com os botões e que nada fora registrado). Fui informado de que não era permitido gravar imagens e sussurrei novamente que só sairia dali para ir à sala da diretoria. Eles se retiraram. Viajei os olhos pela sala: alguns poucos curiosos erguiam as cabeças, mas logo voltavam aos estudos. Enfim, um terceiro segurança veio e me pediu que eu o acompanhasse.
Na sala de espera da diretoria, senti que havia respeito no olhar dos que passavam, afinal, eu seria recebido pelo chefe da casa. Eu podia ser um parente, um velho amigo ou alguém que iria apresentar um relevante projeto; eu podia ser - nunca se sabe - o futuro diretor!


Chen Zhen, Short circuit. 1999

No gabinete, em quinze minutos de conversa, o diretor mostrou-se simpático e afável. Expliquei-lhe pausadamente o que ocorrera e ele concordou comigo em quase tudo. Em busca de empatia, revelei também minha condição de servidor público, gestor de recursos escassos, e por fim, sacramentei:
- Mas, afinal, onde estão os livros?
O homem, boa-praça, sorriu e desabafou:  tem respondido diariamente a essa pergunta. Discorreu então sobre as dificuldades de sua função e a carência de verbas e recursos humanos. Perguntei qual a razão de haver tomadas em locais onde não podiam ser utilizadas, e ele se queixou do projeto arquitetônico equivocado e confessou que administra uma instituição com problemas “insolúveis”. Acrescentou que não era fácil sensibilizar as autoridades distritais para os problemas da Biblioteca e conclamou a população, de quem pareceu reconhecer em mim um legítimo representante, a pressionar o governo por melhorias.
Sobre a questão prosaica que me conduzira até ali, o diretor disse que, infelizmente, as regras tinham de ser respeitadas, mas bondosamente designou uma assessora para que providenciasse um lugar para mim, “onde alguém não estivesse usando sua tomada” – jeito tipicamente brasileiro de resolver um problema: para ruas esburacadas, automóveis 4x4; para os perigos das noites sem policiamento, home theaters potentes.
Com gestos polidos, a assistente me indicou o caminho, o segurança que antes me reprimira apressou-se em chamar o elevador, e eu deixei o gabinete sem saber se tinha conversado com o diretor ou com um caseiro, cuja função é apenas olhar pela propriedade de outro na sua ausência. Fiquei pensando como deve ser tranquila a vida de quem administra problemas insolúveis.
Sentei-me diante da nova escrivaninha, trocada com uma moça gentil, que de nada reclamou. Lá fora, uma passeata ocupava parte da Esplanada: era a manifestação semanal de servidores por aumento de salários. No alto-falante, a voz estridente de sempre, pasteurizada como as locuções de rádios FM, tornava a concentração impossível. Mas meus companheiros de sala pareciam não se incomodar - talvez considerassem útil tomar pé das reivindicações que, em pouco tempo, poderiam ser deles também.
Suado e atordoado, coloquei tampões nos ouvidos e encarei a tela branca. Nesse momento, toda uma fileira de lâmpadas do teto se apagou, reacendendo minutos depois. Isso acontece duas ou três vezes por dia na Biblioteca Nacional. Não sei se é uma sobrecarga de energia ou se é obra daquele funcionário especialista em se encostar na parede sempre no local onde está o interruptor.
Depois de tudo, olhei ao meu redor: a maioria estudava com afinco; alguns, antes entediados, se alegravam ao ver que novas mensagens chegavam aos seus tablets. Mas nenhum deles parecia se importar com o que ocorria à sua volta, ocupados que estavam memorizando artigos da Constituição Federal. Esperançosos de um futuro melhor.

 Mário Araújo nasceu em Curitiba, Brasil. Em 2005 publicou seu primeiro livro de contos A Hora Extrema  vencedor do Prêmio Jabuti em 2006. Seu segundo livro Restos foi publicado em 2008. Além disso, participou de antologias no Brasil, Espanha e México e tem publicado textos nem jornais e revistas literários e na internet. Atualmente, prepara seu primeiro romance.

Leiam a primeira parte desta crônica no link : 
Biblioteca em ruinas

Consultem a entrevista de Mario Araújo para o blog Etudes Lusophones no link:  Um dedo de prosa

Leiam as crônicas do autor e consultem seu site nos links
Crônica : O amigo retornado



domingo, 20 de outubro de 2013

O país dos pipoqueiros


O país dos pipoqueiros

Alexandre Vidal Porto (*)


Luiz Ruffato é uma anomalia. Filho de uma lavadeira analfabeta com um pipoqueiro discursar na maior feira literária do mundo? Jamais se viu. Estatisticamente, Ruffato nem deveria existir.
Mas acontece que ele existe.
O tom de seu discurso na abertura da Feira do Livro de Frankfurt, na qual o Brasil é homenageado, incomodou muita gente. Suas críticas contundentes à realidade social brasileira causaram constrangimento a alguns dos presentes.
O escritor Ziraldo esbravejou em protesto, e a ministra da Cultura, Marta Suplicy, declarou sentir falta de um Brasil mais "literário e mágico" no discurso do escritor mineiro.
Eu, porém, acredito que a fala de Ruffato foi apropriada. Se o Brasil é o país homenageado, é natural que os escritores brasileiros tentem apresentar o país como o conhecem.
O universo literário de Ruffato revolve em torno do proletariado. Ele fala do Brasil do qual provém. Em Frankfurt, descreveu o mundo daqueles que, como ele, jamais chegariam àquela feira.
Falou das vítimas da violência, da discriminação e do abuso; dos injustiçados. Falou dos que sentem, mas não têm voz.
O quadro que ele pintou pode ser sombrio. Mas o recado é otimista. O simples fato de ele estar ali, discursando na sessão de abertura, já por si é eloquente.
Apesar de todas as mazelas, o Brasil consegue transformar filhos de lavadeiras analfabetas em escritores cujos discursos movimentam a maior feira de livros do mundo.
Em Frankfurt, Ruffato corporificou o poder redentor da literatura e mostrou que o Brasil é capaz de fazer mais e melhor do que faz.
Não basta querer um país desenvolvido e justo. Temos de construí-lo. Progresso dá trabalho, e ainda falta muito para chegarmos lá.
Mas desenvolvimento e justiça social são missões urgentes, porque, enquanto não se realizam, as pessoas morrem e desperdiçam vidas que poderiam ser mais felizes e profícuas.
Há quem considere que a realidade apresentada por Ruffato reforça um clichê indesejável e persistente do Brasil. Mas seu discurso nada tem de inverídico. Descreve problemas reais do país.
O que para muita gente é clichê desagradável para outros é realidade quotidiana. Se algum deles for escritor, provavelmente escreverá sobre isso, e, se chegar a Frankfurt, e discursar, sobre isso falará.
Idealizar o Brasil e esconder seus problemas no armário não é justo com nossos analfabetos --escritores, músicos e médicos-- que ainda empurram carrinhos de pipoca pelo país afora, como o próprio Ruffato empurrou.
Se houvesse outros filhos de lavadeiras analfabetas discursando na abertura da maior feira literária do mundo, o que diriam eles? Será que o tom do discurso seria diferente?
O escritor revela o mundo. Ruffato traduziu de maneira muito fiel o retrato que sua vida de operário lhe revelou. Nele, presidentes ainda trabalham como torneiros mecânicos, e cientistas nunca aprenderam a ler.
Nesse quadro, o Brasil literário é tragédia, e o que há de mágico é sobreviver.

Texto publicado inicialmente na Folha de São Paulo em 12/10/2013

Alexandre Vidal Porto é escritor e diplomata. Mestre em direito pela Universidade Harvard, trabalhou nas embaixadas em Santiago, Cidade do México e Washington e na missão do país junto à ONU, em Nova York. Escreve aos sábados, a cada duas semanas, no caderno "Mundo" da Folha de São Paulo. Publicou os romances  Matias na Cidade (2005) e Sergio Y. vai à América (2012), vencedor do Prêmio Paraná de Literatura na categoria do melhor romance do ano (Prêmio Manoel Carlos Karam).


Discurso para abertura da Feira de Frankfurt, em 8 de outubro de 2013

Luiz Ruffato

"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro --é a alteridade que nos confere o sentido de existir--, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas - ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania --moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade--, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios --o semelhante torna-se o inimigo. 

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados. 

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade. 

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais --ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples. 

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia - são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo --amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro --seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual-- como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora."
                                                                                                                                          
 Vejam a entrevista que Luiz Ruffato concedeu ao Blog Etudes Lusophones. Cliquem aqui. 

domingo, 13 de outubro de 2013

SEMAINE BRÉSIL

Beatriz Milhazes, Dancing, 2007
Semaine Brésil

Quand
Du 16 au 23 octobre 2013

Université Paris-Sorbonne
Maison de l’Amérique Latine
L’Entrepôt

Organisateurs : Leonardo Tonus (Université Paris-Sorbonne) Rita  Maubert (Université Paris-Sorbonne) Vinicius de Carvalho (Université d’Arhaus)

Programme

Les engenhos  de José Lins do Rego
Le mercredi 16 octobre à 18h00
Rencontre-Conférence avec Vinicius de Carvalho (Université d’Arhaus) et Paula Anacaona (traductrice et éditrice des Editions Anacaona). Débat animé (en français) par Leonardo Tonus (Université Paris-Sorbonne).

Centre universitaire Malesherbes – Amphi 122
108, boulevard Malesherbes - 75008 Paris
Métro : Malesherbes ou Villiers


Chega de Saudade
Le jeudi 17 octobre à 14h30
Installation du Musée Itinérant de la Saudade par Rita Maubert (Université Paris-Sorbonne)

Hall de la Bibliothèque du Centre Clignancourt
2, rue Francis de Croisset - 75018 Paris
Métro : Porte de Clignancourt

Parcours Contemporains
Le jeudi 17 octobre à 17h00
Conférences (en français)

Les artistes brésiliens de l'exposition América Latina 1960-2013 à la Fondation Cartier pour l'art contemporain. Isabelle Gaudefroy (Directrice de la programmation et des projets artistiques à la Fondation Cartier pour l'art contemporain./Commissaire de l'exposition America Latina 1960-2013 )

Avoir le cafard : un certain mal-être chez Clarice Lispector e Lygia Pape. Eduardo Jorge (ENS Paris et Université Fédérale de Minas Gerais/ Brésil)

Rencontre avec les écrivains Mário Araújo, Tailor Diniz et Hector Bisi
Débat animé (en portugais) par Leonardo Tonus (Université Paris-Sorbonne) et Vinícius de Carvalho (Université d’Arhaus). Textes dits par Rita Maubert (Université Paris-Sorbonne)

Centre universitaire Malesherbes – Amphi 111
108, boulevard Malesherbes - 75008 Paris
Métro : Malesherbes ou Villiers

Courtes Histoires
Le lundi 21 octobre à 17h00
Projection des courts-métrages O Pacote (2012)  de Rafael Aidar, Terra Prometida ( 2006) de Guilherme Castro et Rolex de ouro  (2006) de Beto Rogrigues.
Débat animé (en portugais) par Alberto da Silva (Université Paris-Sorbonne) et Rita Maubert (Université Paris-Sorbonne)

Centre universitaire Clignancourt- Amphi Vidal de la Blache
2, rue Francis de Croisset - 75018 Paris
Métro : Porte de Clignancourt



Lecture musicale franco-brésilienne
Le mardi 22 octobre à 19h00
Textes dits par Rita Maubert (français et portugais), Simone Herault (français), accompagnées à la flûte par Diana Horta Popoff
Réalisation : Cie LIRE AUTREMENT et Cie PIED’ŒUVRE

L’Entrepôt
7 rue Francis de Pressenssé - 75014  Paris
Metro : Pernety


Bleu-Corbeau
Le mecredi 23 octobre à 19h00
Rencontre avec l’écrivaine Adriana Lisboa autour de son dernier roman publié aux Editions Métailié
Débat animé (en français)  par Leonardo Tonus (Université Paris-Sorbonne)

Maison de l’Amérique Latine
217 Boulevard Saint-Germain  75007 Paris
Métro : Solférino


Avec l’appuI de


Université Paris-Sorbonne
Ambassade du Brésil à Paris
Editions Anacaona
Editions Métailié
Maison de l’Amérique Latine


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Crianças


Crianças
Por Horácio Dib (*)

 Era tão tarde da noite que a lua dormia em seu leito de leite, as estrelas ressonavam em uníssono e o ronco do vento ecoava por toda a cidade, numa infinita valsa soporífera recheada do mais belo silêncio do acalentar noturno. Era exatamente nenhuma horas e nenhum minutos e na Rua Nenhuma o garoto cambaleava com seus passos incertos pelo solo frio que não conseguia dormir graças ao ser que o pisoteava  tão duramente - solo frio e cansado como a noite que se espreguiçava com os olhos envoltos de remelas encrostadas, selando-os pra qualquer observação e intervenção no que poderia acontecer. O garoto sapateava, lentamente, com seus pés sonâmbulos e perdidos pelo chão de pedras, poças e estrelas, numa marcha incerta para o nada, enquanto seus olhos, grandes olhos, bolas de um negro escuro como o céu daquela noite, porém muito mais acordados que ele, tateavam ao redor, à procura de repousos para seu olhar, tão longo olhar, colorindo o negro-acinzentado da noite com cores de criança solitária que pede dinheiro na rua pra conseguir sobreviver na cidade agressiva que pisotea lentamente sua inocência inexistente. Os olhos balançavam no balanço natural do movimento nenhum em que a rua balançava, balançava como numa música de ninar, no ritmo marcado das vozes das crianças que ele nunca conhecera cantando alegremente músicas de rodas e cirandas alegres, numa alegria que ele nunca sentira escorrer pela pele e adentrar seu corpo, de baixo pra cima, num arrepio de efervescência dos poros,  a rua balançando-se como se estivesse dormindo, estirada numa rede, balançando sob os olhos ao ritmo das pernas longas do menino que avançava guerreiro por sobre os cascalhos irritadiços do solo. Os olhos pairavam como os pombos sonolentos e gordos, pintavam a tela da escuridão que saía dos postes e balbuciavam sem encontrar o que gostariam de encontrar. Olhos perdidos assim como os pés, assim como o corpo e a mente do garoto infinito da rua nenhuma, às nenhuma horas e nenhum minutos, num lugar que ninguém se importaria, portanto não me dou o trabalho.

     Era tão tarde que a tarde ficara para trás, lenta e idosa, com suas pernas cansadas estiradas pelo chão, tentando recobrar as energias para que, no próximo dia, conseguisse correr junto com a noite e ganhar, quem sabe, da mesma. O garoto, que era mais ativo e jovem que a tarde, continuava a vagar -  uma sombra reta pelas ruas, sombra no chão e sombra na pele -, vagava extremamente ereto, pois se ousasse projetar o pescoço pra frente e entortar as costas certamente seria levado pelo vento ou cairia no solo num O, rolando ladeira abaixo sob o peso de suas fomes não-saciadas e de suas costelas frágeis. Sua postura não era nada mais que uma proteção, assim como seus pés que, de tanto andarem desprotegidos, criaram uma própria camada de calos e durezas agrestes, insensíveis ao calor e ao vidro mais afiado, provas da adaptação do garoto à miséria e tristeza da cidade melancólica com seus cacos de vidro espatifados pelo chão, como búzios mortais. O pouco que o garoto conseguia decodificar daqueles símbolos que os homens gostavam de ostentar em papéis mostrava o que aquele dia era em especial. O dia do que ele fora. O dia das crianças, dizia o papelão azul com letras roxas em formato de salsichas. Ele gostava de salsichas. O formato da letra roxa acordava a fome que tentava dormir embalada pela valsa noturna. Como reflexo, o garoto apertou o parco dinheiro que conseguira com um mês de engraxadas, engraxadas naqueles sapatos reluzentes e pretos como sua sombra e sua pele, sapatos fortes, ricos, que pisavam em seus dedos de birra, em seus dedos de garoto marginal indigno de tocá-los. Apertou o raso dinheiro imaginando o que poderia fazer com aquilo, a quantidade de salsichas que poderia comprar, salsichas vermelhas, mais bonitas do que as do papelão, mais gostosas do que as de papelão. Provavelmente conseguiria umas dez salsichas, daria para a semana toda, ele mais o irmão. O pensamento parasitou sua cabeça fraca e infantil e escorreu pelo seu corpo, saindo pela boca em salivas gritando fome. Mas não era para isso o dinheiro, não era para comer, era para o dia especial. Não precisava nem saber ler pra saber que era dia das crianças, dava pra ver isso e ouvir nas vozes esganiçadas dos filhos mimados que corriam com seus brinquedos, nas vozes grossas dos pais mimados que mimavam seus filhos que corriam com seus brinquedos, nas vozes agudas das mães mimadas que mimavam os pais e mimavam seus filhos que corriam com seus brinquedos de lá pra cá pelas ruas e pelas casas, enjaulados em sua liberdade monetária, felizes em sua mediocridade de plástico e energia. Aquilo tudo não o fazia mal, mas ele percebera, no canto inferior esquerdo do olho direito de seu irmão, uma gota de saudade daquilo que nunca teve, um cintilar rebelde de uma infância esquecida pelos homens grandes e logo esquecida por si mesmo. Mas ele não esqueceu, por seu irmão lembrava do que fosse preciso e esquecia do que necessitasse. Lembrou de uma loja de brinquedos sonâmbula igual ele, com sua boca aberta num bocejar infinito. Esqueceu, enquanto caminhava até ela, da fome que arranhava sua barriga com suas unhas apodrecidas. Lá estava a loja, alegre na melancolia da cidade, um ponto de luz colorida na escuridão negra, negra como a criança e sua sombra. Não daria certo, ele logo percebeu, não daria certo sua escuridão refletida na luz daquela loja, todos o veriam.

     Era tão tarde que o sol sequer sabia onde estava, mergulhava em si no eterno esquecer-se do sono profundo, vivendo suas vidas oníricas e impossíveis, deleitando nos sedosos cabelos do imaginário dos sonhos, tocando a ária de seu sono que jazia embalsamado numa música lenta de sopros, roncos e assovios ritmados. O sol, que poderia pôr um fim em tudo aquilo, perdia-se em delírios e poluções noturnas em seu apartamento lacrado do resto do mundo, tão lacrado que não aceitava o ar dos mortais com seu moderno aparelho de ar-condicionado esbanjando energia, água e saúde naquilo que poderia ter de graça. Assim como o sol, o vendedor da loja-alegre quase caia de seu impávido posto, cambaleante em seu próprio eixo. O homem alto dançava ao som da valsa da noite, um metrônomo humano involuntário no tom vibracional que todos os corpos que dormem assumem. Diferente do sol, acordou com o som alegre e irritante da porta da loja que gritava música quando alguém entrasse. Alguém entrava, gritou a porta, alguém entrava, ecoou seu cérebro, alguém entrava!, arregalou os olhos e fingiu estar acordado. Olhava para o garotossombra e apenas olhava, com seu radar posto no automático, apenas pra intimidar quem quer que estivesse ali, enquanto dormia de olhos abertos. Dormia sim, pois se tivesse acordado nunca deixaria um menino desses entrar em sua loja. O garoto perdeu-se entre as gigantescas prateleiras de felicidade e media o dinheiro que tinha com o tamanho de felicidade que poderia comprar para seu irmão. Foi ficando cada vez mais triste quando percebeu que a felicidade diminuía de tamanho e o dinheiro não era o bastante para consegui-la. Até que no fim das prateleiras encontrou um boneco. Um boneco preto, igual ele, igual a noite dorminhoca, igual seu irmãozinho também. Parecia triste o boneco, devia ser triste porque valia tão pouco, devia ser triste mais ainda porque sabia que esse pouco que valia era exatamente o muito que o garoto trazia na mão apertada de dor. Pegou o boneco, não tenha medo boneco você está entre iguais, e levou até o caixa que não o vigiava. Botou o boneco em cima do balcão e o caixa, automático e robótico, recitou o preço, abrindo a mão para receber as míseras gotas de suor infantil e, sem contar, porque seu cérebro jazia desligado até que o sol resolvesse alongar seus cabelos loiros no céu, botou o boneco numa sacola de lixo que tinha embaixo da prateleira. Se ele estivesse realmente acordado riria, sádico, mas como não estava apenas bocejou meia ironia e sussurrou um volte sempre para ninguém. O menino, em poucos passos largos, já estava perto de seu irmão, escuridão dormindo na escuridão que dormia, agasalhado apenas com sua pele fina e suas roupas sujas, uma criança esquecida no reino das crianças grandes e muito cruéis.

     Era tão tarde que o relógio esquecera de continuar sua caminhada esquizofrênica e infinita, deixara de rodar em sua lenta dança do passar do tempo, perdendo-se nos horários confusos e longínquos da noite que não avançava. O tique-taque nada mais era do que seu ronco automático para deixar os homens que dormiam tranquilos, pois aos ouvidos sonolentos parecia que o tempo passava. Se o relógio ousasse parar o tique-taquear cotidiano com certeza todos os homens com suas homenzices contagiosas acordariam, assustados, sem o som hipnotizante murmurando em seus ouvidos "você está perdendo tempo". O garoto não perdeu tempo, excitado com a surpresa que planejara ao irmão, cutucou-o logo embaixo do peito, entre o terceiro e o quarto sono, sem resposta. Mais uma vez apertou os ossos do irmão, ainda que com delicadeza, tentando desafogá-lo do mar delicioso onde a fome não roncava seu violoncelo dramático. Mais uma vez apertou e sussurrou o nome do irmão ao seu ouvido que, atento aos barulhos perigosos da rua e às sirenes perigosas dos homens, acordou primeiro que o corpo e logo espalhou o acordar para o resto do serzinho. A criança levantou-se, num pulo assustado, em resposta ao seu nome chamado de forma doce. Não era normal ouvir algo tão ruim numa forma tão doce. Os homi os homi, perguntou a criança assustada, vamo ter que fugir de novo, não irmão, disse o garoto, eu queria te dar uma coisa. A criança acalmou-se e junto com a calma tomou um gole de irritação e voltou para sua concha de espinhos, por que me acordou caralho tava sonhano porra só me acorda com o sol já te disse!, mas eu queria te dar uma coisa que eu comprei pra você. A criança ainda estava brava por ter sido acordada, deus sabe como é difícil dormir com a fome e os pernilongos cutucando a pouca carne que sobrou em seu corpo, fechou os olhos e salivou, imaginando o que o irmão teria comprado. É pra mim é, perguntou, é sim comprei pra você com o dinheiro dos sapatos chiques, é pra me dar de presente, pra me deixar feliz, perguntou a criança, virando para seu irmão que tentava reproduzir um sorriso enquanto sacudia a cabeça, afirmando. A criança também tentou reproduzir um sorriso e colocou a mão sobre a barriga que rufava os tambores, o que é, adivinha, o garoto coçou a cabeça nua de cabelos e soltou, entre salivas de desejo, uma salsicha bem grande pro seu irmãozinho, não é, safado. Não era. Poderia ser, mas não era. O sorriso do garoto tremeu e os olhos da criança tremeram junto, ambos tremeram ao mesmo tempo, não era a salsicha bem grande, não era. Não é salsicha mas é comida né. O sorriso perdeu-se em terremotos e dissolveu na tristeza dos olhos do garoto. Não era comida. O garoto, já sem forças, mostrou a mão que levava escondida nas costas e sussurrou, envergonhado, surpresa, feliz dia das crianças. A criança olhou o boneco meio preto, meio marrom, meio vermelho, mal pintado, o olho entortado, a boca sorridente e melancólica, com uma camisa de havaiano e short de rico e pegou o boneco, surpreso. O garoto ficou feliz com a aceitação do irmão. A criança olhou o boneco de perto, o toque e o cheiro do plástico vagabundo inflando as narinas conhecedoras de tantos cheiros em tão pouca idade. Apertou o boneco com a mão. Apertou o boneco com a mão. Apertou o boneco com a mão. E foi apertando, lentamente, entre os dedos ossudos, cobras mortais apertando os ossos do boneco fraco. Logo o plástico retorceu-se e o boneco gritou de dor, junto com o garoto, que não entendia porque o irmão fazia isso. É pra brincar não quebra é pro dia das crianças é pra você é um brinquedo por favor não quebra. A criança olhou para o irmão, os olhos cintilando de raivatristeza, tremeluzentes entre lágrimas presas pelo orgulho e pelo costume de não ser humano, o leite da lua derretendo no preto preto dos pretos olhos pretos. Eu não sou criança seu filho da puta. E atirou o boneco no chão, destroçando-o e espalhando-o pelos paralelepípedos cheios de musgo, entre as baratas, as fezes e os sonhos perdidos.

     Era tão tarde que a lua fingia dormir, os olhos ardendo, segurando as lágrimas. Era tarde demais.

Texto a ser lido ao som de "Rosa de Hiroshima" 


(*) Horácio Dib é graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Comendo os excluídos

Comendo os excluídos

Elvira Vigna

Não gosto. Tem a ver com a própria ideia de representação, que é antiga. E tem a ver, principalmente, com a ideia de que, representando, incluímos. Pelo contrário. Na Nara Roesler, a exposição Cães sem plumas (*) reúne nomões da arte contempo com, justamente, um tema. E que tema: os excluídos. Curadoria de Moacir dos Anjos.
Antonio Dias, Armando Queiroz, Berna Reale, Cildo Meireles,Claudia Andujar, João Castilho, José Rufino, Marcos Chaves, Paula Trope, Paulo Bruscky, Paulo Nazareth, Regina Parra, Rosângela Rennó, Thiago Martins de Melo, Virginia de Medeiros.
Não é que não seja boa arte. Imagine. É excelente arte. Ninguém desse time cai no óbvio, no panfletário.
E claro, tem alguns que me impactaram mais do que outros. E os que, além de atuar o que considero um equívoco - o de fingir que se inclui o excluído ao representá-lo - vão um passo além e usam o excluído, excluindo-o outra vez, agora na própria gênese da produção do objeto, tornando-o mero material moldável, inanimado, subjugado pelo poder de uma autoria outra, a do artista.
Tem um exemplo do bom e do ruim em um mesmo subtema, o do anonimato.

Virgínia de Medeiros, “Fábula do olhar”
Virgínia de Medeiros colore fotos de moradores de rua de Fortaleza. Colore, enfeita, usa cores fortes, flores. O processo, lento, carinhoso, de tinta "lambida" (onde o gestual não aparece) traz para um abraço de quem vai à galeria os modelos tão distantes por classe social e geografia. Ao lado, Virginia acrescenta depoimentos que começam assim: "Meu nome é Maria da Penha...". Você se descobre gostando daquelas pessoas, sorrindo para elas. Um breve momento de compartilhamento de histórias - que te modifica. Aliás, a série se chama “Fábula do olhar”.

Paulo Bruscky, por outro lado, tem fotos de anônimos, muito pequenas, em PB, e que ele assina. A cara do sujeito desconhecido lá, bem pequena e apagada, e a assinatura famosa embaixo, quase do tamanho da foto. Uma tomada de posse, um assujeitamento. Mais um assujeitamento contra quem já não tinha conseguido ser sujeito antes.

Paulo Bruscky, série “Anônimos”

Outra que não gostei é a série “Malencontro” de fotos de índios, de Claudia Andujar. Zoom frontais dos rostos e você se lembra do século XVII, dos retratos em que o artista acreditava desvelar a alma do retratado, sua essência, conceito hoje incompreensível, pelo menos para esta velha ateia que vos fala. A única parte boa é que as fotos estão na paleta terra (preto - marrom - vermelho), o que remete ao tema retratado de forma menos, ahn, boba.

Claudia Andujar, série “Malencontro”

José Rufino juntou umas pedras com uma marca de luto preto embaixo. Belíssimo. A galeria nos informa que se trata de 49 pedras recolhidas em áreas de conflito agrário das antigas ligas camponesas da Paraíba. Não fico muito confortável com esse tipo de bula que às vezes acompanha obras de arte. A instalação do Rufino é belíssima e tem um impacto grande de morte, ausência, fim, mesmo sem que se saiba de onde as pedras vieram. O fato de haver um texto explicando a origem das pedras diminui a obra. Faz com que ela possa servir para que o visitante de uma das galerias mais chiques de São Paulo se sinta participante do movimento massacrado pela ditadura militar brasileira, apoiada pela elite à qual, em princípio, o visitante pertence. Um efeito reconfortador, apaziguador. Ah, eles foram massacrados, mas acho as pedras bonitas, o que é uma maneira de desmassacrá-los um pouco. Não. Eles foram massacrados. E a obra de Rufino não está lá para servir de conforto. É pesada e inquietante, principalmente porque não se sabe por quê.

José Rufino, “Lexicon silentii”

E agora o que gostei mais. O vídeo de 16 minutos de Paula Trope, com garotos conversando, rindo - e cantando o hino nacional, todo errado. As imagens são ruins, de baixa qualidade, meio fora de foco, difíceis de ver, como é difícil realmente ver os meninos de ruas e favelas.

Paula Trope, “Contos de passagem”, vídeo de 16 minutos

Vou voltar à questão da representação. E a uma de suas consequências, a existência de exposições temáticas.
Mudou.
Às vezes falo melhor pela boca de outra pessoa.
Guimarães Rosa.
(De quem também não gosto muito.)
Não se trata mais de representar nada. Alou. Não é que seja "proibido". Imagine. Mas a arte se dá em um encontro, uma ação, é um acontecimento e não mais um objeto que contém, nele, toda a possibilidade de impacto estético. As obras da exposição Cães sem pluma são perfeitamente capazes de produzir impactos estéticos transformadores, inclusive por apresentarem excluídos e, portanto, algo que foi jogado fora pela cultura e, que está, assim, em situação capaz de ser reinserido de forma significante e alimentadora na própria cultura. Perfeito. Servem mesmo para isso. Mas, assim, os excluídos são instrumento a ser utilizado, são "comidos", não viram sujeito de forma alguma, porque para isso, eles precisariam...
Precisariam participar, eles, de experiências estéticas transformadoras. A questão é que eles podem. E podem sem controle algum de elite alguma, sem participar em nada de um processo de produção/acumulação de riqueza. Podem, têm o poder e os meios para isso, e não haverá mais valia a ser obtida com isso por ninguém. Veja só. É o caos. E digo mais, porque o Brasil passou meio que ao largo do moderno, é uma das geografias que mais estão aptas a viver o contemporâneo e seu espaço abrangente, não hierarquizado. Ou seja, os anônimos e os excluídos que não, não estão incluídos, embora estejam representados, na arte da galeria paulista, podem viver experiências estéticas que os põem ao meu lado, eu também tendo uma experiência estética, olhando a representação deles. Sendo que a deles não terá tabela de preço.
Mas eu não ia dizer um pio, ia deixar o Guimarães Rosa dizer.
O conto “Desenredo”, de autoria desse médico e diplomata da alta classe média mineira, conta um caso meio que engraçado, meio anedótico, como são os contos dele. É do livro Tutaméia, palavra que quer dizer ninharia, bagatela, coisa nenhuma.
Começa assim:
"Do narrador a seus ouvintes:"
Logo, há um narrador, um "artista", que é o autor (de uma obra oral, já que há "ouvintes") do que se seguirá. O que se segue à frase inicial é a história de Jó Joaquim e uma mulher que adota nomes e amantes com grande facilidade. O narrador conta as traições femininas até metade do conto, quando quem era personagem passivo, o Jó Joaquim, insatisfeito com a maneira como sua amada é representada no imaginário de narrador e ouvintes, toma as rédeas da narrativa e a modifica, tornando a moça "nua e pura" para sua felicidade.
"Nunca tivera ela amantes!"
Rosa faz nesse conto quase uma parábola da mudança que acontecia na mesma época em que o livro surgiu, na década de 60. A mudança da maneira com que a arte - qualquer arte, incluindo a literatura oral ou escrita - era produzida/consumida. Até então, havia um autor, um produto e um destinatário, o fruidor artístico. (Além de todo um esquema de ganho de dinheiro acoplado a isso.) A partir de então, a arte passou a ser, para ser arte, um acontecimento sem participante passivo. O Jó Joaquim passivo diante de sua história contada por outrem, representada, é substituído por um Jó Joaquim que não passa pela mimeses da representação. É autor.
Esse conto faz referência a Joyce várias vezes. A mulher é Liviria, Rivilia, Irlivia, e na segunda parte, Viliria. Uma brincadeira com a Ana Livia do Ulisses joyceano, aliás citado: "Sábio sempre foi Ulisses". E até mesmo os dois jotas de Jó Joaquim podem lembrar os dois jotas de James Joyce. Tanto quanto o irlandês, Rosa também queria ser autor até mesmo da linguagem, repotencializando as palavras.
É o que fazem os meninos de Paula Trope:

"Ouviram guei piranga lá se flácida
Se o povo heróico o braço recubante
E o sol da liberdade em raio súbido
Brilhosco lossa passa lotissante."

Perfeito. Tomam eles posse do que os define, a linguagem, e num hino que os excluiria, já que a nação representada nos versos famosos finge que eles não existem. E Trope faz com que eu possa ter eu a minha experiência estética a partir da deles: ver o vídeo fez com que eu, o hino e os meninos que encontro por aí ficássemos diferentes. Mas são duas as experiências. Intuo a deles. Desejo que tenha havido. Acho que houve. E sei que, tendo havido, eles se igualam a mim. É a inclusão afinal, ocorrendo independente de qualquer controle, intenção ou concessão. E a inclusão possível. Economia não é arte. A inclusão na arte se dá pela posse da linguagem. Não é sendo tema que isso vai acontecer para aqueles que são tema.

Paula Trope, “Contos de passagem”, vídeo de 16 minutos


(*)
"É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem."
(João Cabral de Melo Neto)
Elvira Vigna
Outubro de 2013

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora  :

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Etudes Lusophones :  

O que deu para fazer em matéria de história de amor : Um dica de leitura por Maria Valéria Rezende. Clique aqui.