sábado, 24 de agosto de 2013

Fusing Culture

Projeto FAHR 021.3
Fusing Culture


Mickael Cordeiro de Oliveira

Entre 1 e 4 de agosto teve lugar na Figueira da Foz a primeira edição de um dos festivais mais inovadores jamais criados em Portugal : o Fusing Culture Experience. Música, gastronomia, arte urbana, e desporto foram as quatro áreas que a jovem associação figueirense DoisTrêsTrês propôs ao público.

« O projeto surgiu realmente porque sentimos a necessidade de criar eventos deste tipo, não só na Figueira da Foz, mas também na zona Centro. Diz-se muitas vezes que ‘a cultura não é descentralizada’… achámos que a Figueira da Foz tinha esse potencial inexplorado. Creio que estavam reunidas todas as condições para a realização de um evento desta natureza », revelou Carlos Martins, um dos membros da organização, ao blogue BandCom.

Eime
Durante esses quatro dias, mais de 35 bandas portuguesas, entre as quais algumas das mais talentosas do país, atuaram nos dois palcos do recinto figueirense e no Casino. Se a música portuguesa foi celebrada como nunca, grande parte das bandas foram escolhidas por incluirem nas suas músicas influências de vários géneros musicais, e até de outros países. Essa fusão sempre procurada pela organização teve como ponto alto a atuação de António Zambujo e de Samuel Úria com o rancho de cantadores da aldeia nova de São Bento, proposta levada a cabo pela curadora do Casino A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria.

Outra das ideias deste festival foi também a de impulsionar a interação entre os diferentes públicos, os encontros entre o recinto e o Casino, mas também entre a Figueira e as suas gentes. Em vários pontos da cidade, artistas de arte urbana deixaram as suas marcas, direcionados e dirigidos por Lara Seixo Rodrigues, uma das responsáveis do WOOL, festival de arte urbana da Covilhã.

PAUS

Na área do desporto, o objetivo foi o seguinte : « Quisemos pegar em coisas da cidade e potencializá-las. Como no desporto - com o surf, e tendo uma pista de snowboard em Agosto numa cidade », disse Carlos Martins, na entrevista ao BandCom. Um dos pontos mais altos deste festival acabou mesmo por ser o « maior workshop de cozinha do mundo », dirigido por Chakall, um chef argentino, que deu uma aula a mais de 500 pessoas. Graças a este record, o Fusing Culture Experience conseguiu entrar para o Guiness. Espera-se que este festival tenha sido o primeiro de muitos e que para o próximo ano o público volte a aderir !

Chakall Cozinha

(*) Mickaël C. de Oliveira nasceu em 1989 nos subúrbios parisienses. Mestre em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade Paris Sorbonne Paris-IV, sempre teve como objetivo a divulgação de artistas portugueses emergentes ou simplesmente não conhecidos. Mickaël C. de  Oliveira é escritor e colabora para o Blog Estudos Lusófonos. Leia suas outras reportagens e crônicas na rubrica Culturas Urbanas. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Uma biblioteca em ruínas



Los Carpinteros, Estanteria II, 2008

Uma biblioteca em ruínas

Mário Araújo

         Ao sair de minha primeira visita à Biblioteca Nacional de Brasília, há cerca de um ano, corri para o Houaiss: Biblioteca – coleção de livros; lugar onde se guardam coleções de livros. Nacional – que pertencem a uma nação, que é próprio de uma nação, que a caracteriza, que a distingue das demais. Como pode ser cruel a objetividade dos dicionários!
         Tinha decidido frequentar a maior biblioteca da cidade onde moro em busca de tranquilidade para escrever um novo livro – meu primeiro romance -, fugindo dos confortos de casa, com sua geladeira bem fornida, o violão acomodado num cantinho do escritório e as mil e uma tentações da internet. Mas ao percorrer os andares do edifício, belo projeto de Niemeyer cravado na margem direita do Eixo Monumental, grandioso entre a aridez do cimento e a profundidade do céu maçantemente azul, não encontrei nada do que o dicionário dizia. Nada de coleções de livros que caracterizem a nação e que a distingam das demais. Nem tive notícia de um vasto acervo sobre a história do Brasil, sua produção intelectual, artística e científica, devidamente catalogado e acessível à população.
         A Biblioteca Nacional de Brasília, quase cinco anos após sua inauguração, simplesmente não tinha livros.                 
         Ou melhor, contava com uns parcos volumes que podiam ser vistos – mas jamais tocados – através de paredes envidraçadas, como peixinhos de aquário ou plantas numa estufa. Do outro lado de um corredor, ficam instaladas as mesas e cadeiras para estudo, ocupadas por jovens que se debruçam sobre materiais trazidos de casa, e a quem os livros das estantes pareciam não fazer muita falta.
        

      Mais de uma vez perguntei a um funcionário: “Onde estão os livros?”. E ouvi como resposta: “Eles estão bem ali, mas ainda não podem ser consultados”.  (Um dia, tive a oportunidade de dirigir essa mesma pergunta ao diretor da Biblioteca em pessoa, num episódio que sozinho vale uma crônica). Reparem que o advérbio “ainda”, assim como as expressões “estão sendo catalogados” ou “vão estar sendo (sic) disponibilizados”, também sabidas de cor pelo staff, contêm uma doce promessa; são a encarnação verbal da esperança e servem para manter o cidadão chato e inoportuno fora de combate por algum tempo.
         Mesmo assim, continuei comparecendo quase que diariamente à sala de estudos do terceiro andar, a maior de todas. Ali não havia lugar para o prazeroso hábito de se perder entre as estantes e, na busca do livro X, encontrar o livro Y que poderia mudar sua vida. Limitei-me, portanto, a sentar e escrever. E devo dizer que mesmo para cumprir essa tarefa aparentemente simples do ponto de vista logístico, tive que me haver com os problemas de uma instituição em acelerado processo de deterioração, processo esse que parece ter se iniciado junto com a sua inauguração – ou quem sabe antes. Cada movimento dentro da Biblioteca Nacional faz pensar no verso do Caetano: “...ainda é construção e já é ruína”.
         Nos banheiros, mictórios desativados desde sempre, como natimortos cobertos por sacos de lixo pretos. Pelos corredores, bebedouros com torneiras mutiladas, remediadas por elásticos, clipes e pedaços de arame. No andar térreo, lajotas soltas no chão, que trovejam a cada passo como numa exibição de dança flamenca. E tudo isso sob uma temperatura que varia entre 26 e 32 graus, pois o ar condicionado central “não funciona direito”, ou “ninguém sabe fazer funcionar”, ou ainda, “mas ele está funcionando!”, conforme as respostas que recebi aos meus questionamentos impertinentes.
         Mas eis que há poucas semanas, ao tomar o elevador do térreo para o terceiro andar, tive uma surpresa. (Antes, porém, um esclarecimento: o prédio da Biblioteca possui quatro elevadores; dois deles tiveram os botões externos arrancados no térreo, assim como extirpado foi também o botão interno de outro, que levaria ao terceiro andar). O elevador que tomei, portanto, é o único capaz de conduzir ao meu destino. E está com as lâmpadas queimadas. Assim, imprensado entre passageiros e forçando a vista na escuridão, deparei-me com um discreto aviso colado na parede: “A partir do dia tal, a Biblioteca Nacional oferece um NOVO serviço à comunidade”. Aproximei o rosto das letras em corpo 12 e descobri que o novo serviço se refere a nada menos que os LIVROS (não todo o acervo, mas parte dele), que de agora em diante estarão disponíveis para o cidadão.
         Não pude deixar de me perguntar quais seriam os serviços oferecidos antes desse verdadeiro divisor de águas na história da instituição. Sauna? Bronzeamento artificial? Deixando de lado o sarcasmo que sempre pega uma carona na indignação, parece-me que o único serviço oferecido anteriormente era o espaço para que o cidadão pudesse se preparar para o concurso público que resolveria todos os problemas da sua vida, aspiração de metade da população da capital federal.
         Seja como for, no pouco tempo transcorrido desde o advento do “novo” serviço, não vi ninguém fazendo uso dele. Ou as pessoas não foram atentas o bastante para ler as letras miúdas do aviso, ou podem prescindir tranquilamente de livros na sua caminhada rumo a um emprego estável na administração pública. Isso significa que, ao contrário do que pensei quando abri o Houaiss, há na Biblioteca Nacional de Brasília algo que caracteriza a nação e lhe é próprio: o quase total desinteresse de usuários e funcionários pelos livros, estejam eles disponíveis ou não.

Mário Araújo participará do encontro com escritores brasileiros realizado pelo Departamento de Estudos Lusófonos da Sorbonne em Outubro de 2013. Aguardem em breve o programa completo pelo Blog.



Mário Araújo nasceu em Curitiba, Brasil. Em 2005 publicou seu primeiro livro de contos A Hora Extrema  vencedor do Prêmio Jabuti em 2006. Seu segundo livro Restos foi publicado em 2008. Além disso, participou de antologias no Brasil, Espanha e México e tem publicado textos nem jornais e revistas literários e na internet. Atualmente, prepara seu primeiro romance.

Mário Araújo participará do encontro com escritores brasileiros que o Departamento de Estudos Lusófonos da Sorbonne organiza no mês de Outubro de 2013.

Consultem a entrevista de Mario Araújo para o blog Etudes Lusophones no link:  Um dedo de prosa

Leiam as crônicas do autor e consultem seu site nos links
Crônica : O amigo retornado

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Um dedo de prosa com J. Miguel e Sílvio Borges

Um dedo de prosa com J. Miguel e Sílvio Borges

Neste mês de Agosto o Blog Etudes Lusophones volta a Bezerros no estado de Pernambuco e publica as entrevistas realizadas com os xilogravuristas J. Miguel e Sílvio Borges. Nelas os artistas evocam seus percursos e exploram o mundo magico da xilogravura nordestina.

Assista à entrevista de J. Miguel e clique no link abaixo:


Assista à entrevista e Sílvio Borges e clique no link abaixo :


J. Miguel

José Miguel da Silva, conhecido como J. Miguel, nasceu em Bezerros, Estado de Pernambuco, no dia 13 de Janeiro de 1961. Filho de J. Borges, começou a trabalhar aos 10 anos de idade na gráfica do pai, onde se produziam grandes quantidades de folhetos de cordel. Inicialmente, trabalhou em composição tipográfica, atividade que o manteve próximo aos trabalhos do pai e à qual foi progressivamente incorporado, em face do grande talento e da capacidade técnica que logo desenvolveu.Iniciando com pequenas gravuras, Miguel despertou desde muito cedo o interesse de marchands e colecionadores. Embora tenha vendido muitas de suas matrizes, ele formou um acervo que hoje conta com mais de 100 obras, algumas das quais expostas em Garanhuns, em Recife e no Rio de Janeiro. Hoje, suas gravuras podem ser encontradas na Casa de Cultura Serra Negra em Bezerros, oficina que divide com seu pai J. Borges, na feira de artesanato de Caruaru e em Recife.

J. Miguel
Casa de Cultura Serra Negra
Avenida Major Aprígio da Fonseca, 420 - Cohab (Rodovia BR-232) - Bezerros/ PE
Tel.: (81) 3728-0890/ 9936-1336

Sílvio Borges

Herdar um sobrenome, às vezes, abre algumas portas. Mas, herdar talento é para poucos e assegura o sucesso. Estamos falando de Silvio Borges, artesão, filho de Amaro Francisco Borges e sobrinho de J.Borges, ambos xilógrafos e cordelistas. Silvio mora em Bezerros, cidade pernambucana, a caminho de Caruaru e considerada palco da xilogravura, arte tão divulgada, atualmente, na abertura do folhetim Cordel Encantado, da Rede Globo de Televisão. Inclusive, depois da telenovela, Silvio Borges avalia que houve um aumentou na procura de xilogravuras por turistas e escolas da região.
O Tudo na nécessaire foi recebido na Casa da Xilogravura, local onde Silvio produz a sua arte há pouco mais de cinco meses. A casa representa um sonho antigo de expor à produção de sua família, incluindo a mãe Nena, a irmã Silvia e agora seu filho mais velho Douglas Borges, que está iniciando no ofício. Todas as vendas da Casa da Xilogravura são administradas com muita dedicação por Cleide, esposa de Silvio.
Em 2004, quando o Banco do Estado de Pernambuco – Bandepe foi comprado pelo Banco Real, Seu Amaro Francisco recebeu um convite para confeccionar 16 folders que divulgariam o Banco entre os pernambucanos.   Na época, Seu Amaro encontrava-se internado num grande hospital de Recife. Para não perder a oportunidade de fazer o trabalho, Amaro Francisco mandou chamar o filho Silvio, que tinha abandonado a arte desde seu ingresso na Policia Militar. Para agradar ao pai, Silvio fez os folders e sempre que concluia um trabalho, levava orgulhoso ao hospital para mostrar ao pai.
A arte de Silvio Borges, que começou a talhar a madeira aos sete anos de idade, se diferencia muito de outros xilógrafos pela riqueza dos detalhes. Inspirado nas cenas do cotidiano e nas paisagens do sertão nordestino, Silvio tem como clientela turistas estrangeiros e de muitas cidades do sul e sudeste do Brasil. Atualmente, Silvio está envolvido no Projeto Cordel nas Escolas, iniciativa da Secretaria de Educação de Limoeiro com o apoio do governo do estado de Pernambuco. O projeto pretende resgatar e valorizar a literatura popular, oferecendo oportunidades aos estudantes de revelar, também, seus talentos. Nesse intuito, os textos que serão produzidos pelos alunos das escolas públicas, terão suas capas confeccionadas na Casa da Xilogravura, sob orientação do artista.


Casa da Xilogravura
BR-232 – Km 100 – via local – Bezerros
Pernambuco - Brasil
Fone: (81) 3728-0208

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Papo de passarinho



Papo de passarinho

Por Alexandre Staut(*)

Um dia convidei o escritor Humberto Werneck para participar dessa coluna de entrevistas. A resposta chegou, por email, assim: “Só não me peça teorizações de que não seja capaz – pois sou passarinho, não ornitólogo.” Prometi que o papo seria de passarinhos, sobre aquilo que é assunto para uma crônica; sobre poesia; seu começo em 1968, no Suplemento Literário de Minas Gerais, ao lado do Murilo Rubião que foi seu mestre ; seu trabalho como jornalista - ele trabalhou no Jornal da Tarde, do qual foi também correspondente em Paris, nos anos 1970; na Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil, Elle e Playboy.
Cronista do jornal O Estado de S. Paulo, escrevendo aos domingos no Caderno 2, e no site vidabreve.com às sextas-feiras, Werneck é presença constante no meio literário nacional. Como autor, publicou O desatino da rapaziada – Jornalistas e escritores em Minas Gerais (Companhia das Letras, 1992; 2ª edição, revista, junho de 2012); O santo sujo — A vida de Jayme Ovalle (Cosac Naify, 2008; Prêmios APCA e Jabuti); Chico Buarque — Tantas palavras (Companhia das Letras, 2005/ versão atualizada e aumentada de Chico Buarque Letra e Música, da mesma editora); Esse inferno vai acabar (Arquipélago Editorial, 2011); O espalhador de passarinhos & outras crônicas (Dubolsinho, 2010); O Pai dos burros — Dicionário de lugares-comuns e frases feitas (Arquipélago Editorial, 2009) e o livro de contos Pequenos fantasmas (NovesFora, 2005).
Como editor, organizou, Bom dia para nascer, crônicas de Otto Lara Resende (Companhia das Letras, 2011); Minérios domados – Poesia reunida de Hélio Pellegrino (Rocco, 1993), entre outros.
Leia a entrevista a seguir:

Você já disse que gostaria de ter sido poeta. Como seu leitor, a impressão é de que resolveu esse desejo escrevendo crônica. É isso mesmo?
Para quem não mereceu ser poeta, a crônica pode ser, quem sabe, um consolo. Se bem que a crônica não pode ser, como a poesia, uma garrafa jogada ao mar, pois tem um compromisso com o leitor.

Como definiria a poesia?
Uma iluminação sutilíssima capturada com um mínimo de meios. 

E a crônica, qual é a sua definição para o gênero?
Crônica, para mim, é uma boa conversa, num tal clima de cumplicidade que aquilo me dá a impressão de ter sido escrito apenas para mim. O cronista e eu estamos sentados lado a lado num meio-fio. 


Poderia falar mais da comunicação de um autor de crônicas com o seu com público leitor? Tem alguma história curiosa que tenha acontecido entre você e um dos seus leitores?
O clima de cumplicidade de que falei facilita a comunicação com o leitor – o qual, por sua vez, muitas vezes acaba tratando o cronista como coisa dele: o “meu” cronista. Vínculos vão se estabelecendo entre pessoas que nunca se encontraram pessoalmente. Na minha modesta experiência, acabei por me ligar afetivamente a um punhado de leitores que me escrevem com elogios, eventualmente com reparos, algumas vezes com sugestões para crônicas. Desde que comecei a publicar no jornal O Estado de S. Paulo, eu me aproximei de pessoas como uma senhora de mais de 80 anos de idade que mora no interior paulista. Nunca nos vimos, mas posso dizer que somos amigos. Trocamos e-mails. Na primeira oportunidade, quero ir à cidade onde ela mora, só para conhecer esta senhora fina, educada, bem-humorada. Uma ocasião, quando observei numa crônica que a língua portuguesa não tem uma palavra para designar a condição de avô e avó – algo como “avoidade”, por analogia com “paternidade” e “maternidade” –, essa senhora me escreveu indagando se não poderíamos buscar tal palavra em outras línguas. No francês, por exemplo, sugeriu ela – para em seguida observar, divertida: “grand-père” nos daria “grandperdade”, mas o feminino não ficaria bem: “grandemerdade”... Evidentemente aproveitei isso na crônica seguinte, com o cuidado de não revelar a identidade da minha amiga...

Poderia falar sobre a crônica feita pelos mestres – Rubem Braga, Nelson Rodrigues etc. – e aquela feita hoje no Brasil? Quem são os autores jovens que estão fazendo bonito?
A crônica teve no Brasil uma era de ouro, que já vai longe no tempo. Foi nas décadas de 1950 e 60, quando nos jornais e revistas o leitor encontrava, entre outros, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Antônio Maria, Vinicius de Moraes, Nelson Rodrigues, José Carlos Oliveira, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector. Todas as semanas, a revista Manchete servia ao leitor crônicas de Braga, Sabino e Mendes Campos. Depois dessa fase de ouro, a imprensa passou por transformações, as quais significaram menos espaço para a crônica, ao mesmo tempo que escasseavam grandes cronistas. Jornais e revistas passaram a ter muitos colunistas, mas poucos deles cronistas. O panorama ainda é este, mas já se observa um revigoramento da crônica, com veteranos como Luis Fernando Verissimo, Ivan Angelo e João Ubaldo Ribeiro, e também como jovens talentos como Antonio Prata, Luis Henrique Pellanda, João Paulo Cuenca, Victor da Rosa, Carpinejar, Vanessa Barbara e Fabricio Corsaletti.



E sobre a literatura nacional de hoje, o que teria a dizer?
Não tenho acompanhado como deveria a literatura de ficção que se faz hoje no Brasil. Daquilo que leio, uma boa parte me parece marcada por um realismo que lembra, infelizmente, a objetividade jornalística, e no qual a palavra, quase sempre, é mais um meio de dizer do que um fim em si, como pede a literatura. Com o risco de provocar sopapos literários, eu diria que tenho visto muito Hemingway e bem pouco Scott Fitzgerald... Um autor que não cessa de me fascinar: Antônio Carlos Viana, o contista de “O meio do mundo e outros contos”, “Aberto está o inferno” e “Cine privê”.  

Nas suas crônicas, muitas vezes você conta pequenas histórias que teria vivido ou (presenciado) ao lado de figuras como Murilo Rubião, Pedro Nava, Jayme Ovalle. Este é um trabalho de resgate de nomes muitas vezes esquecidos da nossa literatura?
Quando, numa crônica, eu trato de personagens notórios, pode ser que esteja contribuindo para trazê-los de volta à tona. Mas não estou especialmente empenhado num trabalho de resgate – como estava ao escrever, em O Santo sujo, a biografia do extraordinário Jayme Ovalle. Minhas crônicas são povoadas também por gente pouco ou nada conhecida, mas nem por isso menos interessante. Notória ou não, não vejo no mundo nada mais interessante do que gente. 

Quais são os autores nacionais esquecidos, que, na sua opinião, deveriam estar na boca do povo?
Há autores que jamais empolgarão multidões, mas que é preciso tirar da sombra em que acabaram caindo. Cornélio Pena, por exemplo, o grande romancista de Fronteira e A Menina morta. Outros não foram, como ele, inteiramente esquecidos, mas não têm tido a divulgação que merecem – caso de Cyro dos Anjos, autor deste clássico que é O Amanuense Belmiro.

Pegando carona nas perguntas anteriores... Os festivais literários que têm acontecido em todo o país, ultimamente, estão dando a devida atenção a esses autores um tanto esquecidos da nossa literatura?
Os festivais literários têm por hábito homenagear autores consagrados, como, neste ano, Graciliano Ramos na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Sem prejuízo desses grandes nomes, indispensáveis para atrair atenções para tais eventos, seria importante, também, abrir pelo menos algumas “janelas” para escritores menos conhecidos. Ou, até, para gêneros menos considerados pela academia. É o caso da crônica. Teria sido ótimo assistir a um evento de porte em torno de Rubem Braga, nosso melhor cronista, cujo centenário de nascimento transcorre em 2013. Falar de Rubem Braga significaria dar relevância também a um gênero que os brasileiros adoram, descortinando também a obra de outros bons cronistas.  


Existem bons e maus assuntos para crônicas? O que sempre é assunto no Brasil? 
O que é muito grave e solene em geral não rende boa crônica – costuma render, no máximo, um editorial, um artigo. O mesmo não se passa com as miudezas, ou aparentes miudezas do cotidiano, das quais a crônica em geral se alimenta. Mas um grande cronista nem precisa ter assunto. Manuel Bandeira disse que Rubem Braga, quando tem assunto, é muito bom, e quando não tem, é ótimo. Não é exagero do poeta. Há crônicas de Rubem Braga que você lê com imenso interesse e prazer, embora, no fim, não saiba dizer sobre o que o cronista escreveu. Não é o que muitas vezes acontece, também, com uma boa conversa?



Humberto Werneck (1945) nasceu em Belo Horizonte, mas adotou São Paulo no início da década de 70. Escritor com diversos livros publicados, jornalista com passagem em vários veículos de informação, como o Jornal da Tarde, Veja e Isto É, Werneck celebrizou-se pela qualidade de sua prosa jornalística e por sua apuração minuciosa. Com 40 anos de profissão, começou sua carrreira em 1968, no suplemento Literário do Minas Gerais.

Entre as experiências marcantes em sua vida profissional, estão a passagem pelo Jornal da República, criado por Mino Carta em 1979. O jornal tinha um projeto libertário e inovador, que permitia aos jornalistas, participar de todo o processo, desde a idéia à publicação das matérias. “Aquilo era o sonho para certos tipos de jornalistas, entre os quais eu me incluo. Um veículo em que você participa de todo o processo, desde a idéia, quais matérias fazer; até o título, o olho, o último ponto que você vai pingar na matéria”, disse Werneck. O jornal durou apenas cinco meses, encerrando as atividades por problemas organizacionais e financeiros. “A gente caiu do cavalo. Aprendemos que não basta ter vontade de fazer, todo esse pique. Porque você precisa de uma retaguarda dentro da redação. Uma estrutura por trás do negócio, uns camaradinhas de terno correndo atrás de anúncio”.

A greve histórica dos jornalistas em 1979 também foi outra experiência marcante para Humberto Werneck.  “Ali a gente aprendeu um negócio fundamental sobre os limites da categoria. A gente achava que ia parar aqueles jornais e revistas, e a gente se esqueceu que já tinha uma maneira de se fazer jornal sem jornalistas. Um fura greve poderia mandar as matérias por fax; tinha matéria na gaveta, matéria estrangeira. E as publicações saíam e nós éramos informados sobre a nossa greve pelos jornais, cuja saída tentávamos impedir”.




Leiam as crônicas de Humberto Werneck no jornal O Estado de São Paulo pelo link : http://www.estadao.com.br/colunistas/humberto-werneck



(*) Alexandre Staut nasceu em Espírito Santo do Pinhal (SP) em 1973. Jornalista, já trabalhou como cozinheiro na Inglaterra e na França (em Brest, Tours e Arromanches-les-Bain). Ministrou oficinas de haikai na Oficina Cultural do Estado de São Paulo (Bauru/SP). É roteirista do documentário “O anjo da guarda de Caio F.” e autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toada Edições/2010) e Um lugar para se perder (Dobra/2012). No momento, trabalha em seu terceiro romance, num livro infantil e numa peça de teatro que está sendo escrita para a atriz cubana Phedra de Córdoba. Alexandre Staut é colaborador do blog Études Lusophones.

Consultem as outras entrevistas realizadas por Alexandre Staut na rubrica Entre Letras.
Link : Entre Letras

Leiam a respeito do romance de Alexandre Staut Um lugar para se perder no link :
Um lugar para se perder

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O imperfeito reinando

Lucian Freud, Jovem nua com ovo
O imperfeito reinando
Elvira Vigna

Vou comparar duas bolas de sebo, uma escrita, outra pintada. Não é pintada. É uma gravura em  metal. Porque as enormes e fantásticas telas que Lucian Freud fez da Big Sue não vieram para a exposição do MASP. E mesmo essa gravura, a modelo é a Big Sue,  mas ela não está identificada.
A Boule de Suif escrita é a do Maupassant, claro (*).
O MASP abriu a exposição e, como outras que vi na mesma instituição, essa também só tem as obras menores dos nomes maiores alardeados, sinônimos de boa bilheteria. Nenhum dos grandes quadros pelos quais o pintor se tornou famoso e rico estava presente. Nenhum dos grandes óleos, além desse "Jovem nua com ovo", de 1980.  Da Big Sue, a gravura "Mulher com tatuagem no braço" e, pelo que deu para sacar, foi só.
Minha comparação.
O que é igual entre a Sue Tilley de Freud e a Elizabeth Rousset de Maupassant é o sebo.
O que é diferente é o porém.
A puta de Maupassant é puta, porém. A mal paga de Freud é mal paga, feia, gorda, escrachada e posa de perna aberta, e não tem porém algum. Lucian é muito melhor que o avô Sigmund. Resolveu tudo. Juntou tudo. Thanatos e eros, o bem no mal. Sem dicotomias, sem  moralismos. Maupassant é moralista.
Presentes na exposição do MASP, umas poucas telas de início de carreira, uns documentais produzidos pelo fotógrafo, modelo, assistente e amigo David Dawson, e muitas gravuras em  metal.
E não é só no conteúdo explícito de sua obra que Freud se apresenta amoroso em relação ao imperfeito. Na feitura também. Nenhuma de suas gravuras o faria passar de ano em uma boa escola do ramo. Várias impressões, para não dizer quase todas, com o chanfro sujo (isso quer dizer que a borda da peça em metal suja o papel da cópia). Há pelo menos um original "errado", corrigido a lápis direto na cópia impressa ("Cabeça de Bruce Bernard", de 1985, cujas luzes no cabelo foram feitas à mão, posteriormente ao processo de impressão). Um verniz mal aplicado provoca corrosão da água-forte de forma não intencional e não controlada (no "Mulher com tatuagem no braço", de 1966, já citado). E há o caso do "Homem posando" de 1989, em que a gravura recebe parcialmente um tratamento a cor em pastel, tratando-se ou de obra inacabada ou de estudo para outra obra, o que deveria estar explicitado pela curadoria e não está. Coisinhas. Não fosse eu ter visto a exposição com minha filha, a Carolina Vigna-Marú, observadora de arte desde sempre e muito chata, não teria visto. Estivesse eu na frente dos óleos da Big Sue e não haveria como não ver. Um certo amor, um óbvio prazer nos corpos vividos, fora de qualquer padrão de beleza, em posições pra lá de desfavoráveis. O imperfeito reinando. A frase é do artista:
"Meu trabalho é autobiográfico. É como um diário."
E nada como a vida cotidiana para eliminar qualquer ilusão de perfeição.
Lucian Freud, Mulher com tatuagem no braço

Mais: os bichos. Lucian Freud gostava de bichos, convivia com eles e quem convive com bichos sabe: sujeira, cheiros, imprevistos. Nessa exposição, tão pobrinha, a presença animal é estatisticamente enorme: galo (esse morto), o cachorro Eli, o cachorro Pluto, muitos cavalos, um filhote de raposa. E uma lontra, coitada, que deu os pelos para o pincel de pintura artística com que o artista faz a barba, jocosamente. Bichos e crianças. Os três filhos, o neto. A relação dele com as duas filhas e o filho em uma sequência de altos e baixos. Pintou uma delas tão nua quanto qualquer outra de suas modelos. Também pintou o travesti Leigh Bowery, alguns amigos, suas muitas mulheres, o cara da esquina.
Mais: não tem dicotomias na obra do Freud no conteúdo explícito das obras, não tem na sua feitura, e também não tem na relação das figuras com o cenário, ausente ou quase.
Sue Tilley, a Big Sue, é feia, gorda (127 quilos, segundo o Wikipédia) e trabalha em um centro beneficente para desempregados na época em que posa para Lucian Freud.
A Boule de Suif de Maupassant também tem essa conotação de beneficente, embora não só para desempregados.
O conto é uma espécie de road movie. Tudo se passa entre a partida de uma carruagem de uma cidadezinha às margens do Sena até sua chegada no porto de Rouen. Dentro, o cenário que está fora: a sociedade burguesa e urbana da época, perturbada pela inconveniente invasão prussiana. Em Freud não há esse registro jornalístico. Ninguém sabe o que se passa fora do ambiente interno em que são pintados os personagens, ninguém sabe o que eles fazem. Só se sabe que vivem, e que viveram, e muito.
Na carruagem de Maupassant, somos informados que nos bancos de trás, os mais confortáveis, estão um cara que ficou rico adulterando vinho e sua esposa; um nobre falido e sua esposa; um detentor da Legião de Honra e sua esposa. Depois vêm duas freiras; um republicano (o subversivo da época); uma puta. Parece início de piada, mas é o início do conto. Maupassant primeiro descreve o contexto externo e social de todos os personagens, depois inicia a ação, ou a viagem. A puta é Elisabeth Rousset, "redonda quando vista por qualquer ângulo, gorda como um toucinho, com os dedos inchados, estrangulados nas falanges como pedacinhos de salsicha, a pele lustrosa e esticada, e um peito enorme a fazer volume embaixo do vestido".
E, aos poucos, à medida que a carruagem anda, a caracterização de puta vai ganhando os seus poréns.
É puta, é verdade,  mas excelente pessoa. Melhor que todos os outros.
Ela começa repartindo generosamente sua galinha assada com os companheiros de viagem. Depois fica claro que se trata de alguém temente a deus e com grande respeito pelas freiras e pelas mulheres honestas presentes. Também é boa patriota, pois trepa  com todo mundo menos com prussianos, mesmo quando são bonitões. E, além disso tudo, também é mãe extremada. Não convive com seu filho porque os ambientes em que anda não são apropriados para crianças, mas se comove às lágrimas com um batizado presenciado por acaso no caminho.
Ou seja, ser puta, para Maupassant, na verdade é muito ruim. Você precisa ser quase santa para compensar.
O conto termina com o republicano assobiando a Marselhesa e comigo suspirando minha falta de paciência com o cânone literário vigente.
Prefiro o Freud, mil vezes.
Não sei nem por onde começar. Acho que pelas cidades e a visão reacionária de um certo realismo do século XIX (e do século XXI também) em ver a vida cosmopolita, urbana e caótica como engendrando o mal.
"Ele cavou buracos nas planícies, derrubou arvoretas nas florestas vizinhas, armou armadilhas nas estradas e, com a aproximação do inimigo, satisfeito de seus preparativos, se recolheu prestamente na cidade."
Não foi só Maupassant. Era recorrente essa noção da indústria nascente a provocar aglomerações humanas como sendo tudo de ruim. Até era. Em termos ecológicos e ideológicos do capitalismo explodindo em toda glória. Mas esses realistas pegavam justamente a única coisa boa - que era a fricção do diferente, a convivência integrada nas ruas - para criticar.
(Não foi só Paris e não foi só Maupassant. A São Petersburgo de Dostoievsky também está descrita pelo escritor russo como a grande culpada pelos crimes de Raskolnikov. Ambas as cidades, aliás, foram vistas como ninho do mal e sofreram o mesmo processo de tentativa de controle pelo poder. Paris foi arrasada e reconstruída por Haussmann. São Petersburgo a mesma coisa. As massas foram jogadas para longe sob argumentos higienistas, as grandes avenidas abertas em desenhos geometrizados para facilitar o controle, caso essas massas resolvessem passear pelo centro.
E ponho Dostoievsky entre parêntesis porque, embora saiba o mínimo sobre "Crime e Castigo", nunca li. A religiosidade implícita nessa dicotomia de que falo me impediu.)
Os passageiros de Maupassant, descritos de forma pejorativa, irônica, ficam aflitos em atravessar a zona rural. Só se sentem bem em cidades. São fruto das cidades.
Os personagens de Freud também são fruto das cidades. Mas não há contraponto. São fruto das cidades e isso é bom e as cidades de Freud  não são antagônicas a nenhum conceito de um "natural". Contêm o natural. Em Maupassant, não. Por exemplo, os bichos.
"A diligência, atrelada afinal, esperava na porta, enquanto um exército de pombas brancas, estufadas em sua plumagem cerrada, com o olho vermelho manchado no meio por um ponto preto, passeava entre as pernas dos seis cavalos e ganhava a vida ciscando o excremento exalando vapor que eles distribuíam."
Não é a única hora em que Maupassant se trai. Não é só a coleção cuidadosamente escolhida de personagens a viver um isso ou aquilo em relação à cidade versus natureza. O autor também vive.
Outro exemplo:
"(...) e marchando atrás de todos, o general desesperado, nada podendo com esses loucos disparatados, perdido ele mesmo na grande derrocada de um povo habituado a vencer e desastradamente vencido, apesar de sua bravura legendária (...). Muitos burgueses gaguejantes, emasculados pela atividade comercial, esperavam ansiosamente pelos vencedores."
Um tom indisfarçável de ufanismo militarista, esse de Maupassant. Uma patriotada. Aqui, o isso ou aquilo é ser francês ou não ser, sendo que ser francês é  muito melhor.
Mais uma diferença. A relação de Freud com a sujeira. A exposição trouxe fotos do ateliê. Ou atulhiê, como diz um amigo meu. Há vídeos na internet. E nem precisava. Ele fez um quadrinho pequenininho da Rainha Elizabeth, muito famoso. Tem uma sombra preta no queixo dela. Não se trata de uma cara limpa.
Em Maupassant, essa sujeira tão bem acolhida, tão bem integrada, por Freud, também está presente. Mas como crítica.
"Ele tinha um jornal, que estendeu para não manchar sua calça e com a ponta de uma faca que ele sempre mantinha no bolso, pegou uma coxa de frango envernizada de geleia, a decepou com os dentes, mastigou com uma satisfação tão evidente que em todo o veículo se escutou um grande suspiro de alívio."
Ou:
"Sim, Madame, essa gente só faz comer batata com porco e  mais porco com batata. E não pense que  são limpos. Ah, não. Sujam tudo, desculpe a falta de respeito."
O Princípio do Prazer do outro Freud, o Sigmund, diz o seguinte: Thanatos impele a destruição do ser e luta com Eros, que é o princípio da vida.  A autobiografia pintada de Freud integra. Eros é thanatos e vice-versa.
Freud é  um desses casos únicos da pintura. Não tem um precursor, não tem seguidor. Maupassant influencia gente até hoje. Para ficar aqui no Brasil: Mutarelli, Ana Paula Maia. O mesmo fascínio pelo abjeto, entendido como um sublime ao contrário. Freud era fascinado só pela vida mesmo.

Elvira Vigna
Agosto de 2013


(*) Publicado em 1880, é um dos contos da antologia Les soirées de Médan e está na internet. As citações aqui presentes têm tradução minha.

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