sábado, 27 de julho de 2013

Literatura boa ou ruim : that is the question!

Maria Elena Vieira da Silva, La bibliothèque, 1955
Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião, a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?

A resposta mais óbvia a essa questão seria, de fato, afirmar que a literatura brasileira conhece atualmente um momento fasto dentro de sua história, sobretudo se levarmos em conta a multiplicação de seus canais (e atores) de criação, promoção e divulgação. Essa resposta reitera, no entanto, um lugar-comum de grande repercussão na mídia atual que, através de um discurso eufórico (e ideológico), tende a vincular a produção literária nacional à vitalidade econômica que o país (ou parte dele) conhece. O que dissimulam, finalmente, tais pressupostos que tomam como parâmetros os indicadores valorativos, quantitativos e mercadológicos, mas sem analisar a situação real da produção e da circulação da literatura brasileira no país e no estrangeiro? Como explicar, por exemplo, que num país com mais de cem milhões de leitores potenciais, as tiragens de autores nacionais raramente ultrapassem três mil exemplares? Como entender a pouca visibilidade dos escritores situados fora dos eixos da agitação cultural e de suas redes de influência? Como compreender, finalmente, o pouco interesse na divulgação da literatura contemporânea brasileira no exterior? Sim, muita coisa mudou: nos últimos anos a taxa de analfabetismo no Brasil diminuiu drasticamente, o número de editoras multiplicou-se no país, uma parte da literatura nacional concedeu voz aos afásicos sociais, as feiras de livros nacionais e internacionais têm transformado os escritores em novos produtos de consumo até para uma exportação made in Brazil. O que me leva a concluir que, de fato, a literatura brasileira está num momento muito bom, muito bom mesmo, sobretudo por expor publicamente suas velhas e incuráveis mazelas.

José Leonardo Tonus
Jornal Rascunho, 2013

Resposta do Professor José Leonardo Tonus a Luiz Bras no Jornal Rascunho

José Leonardo Tonus é especialista em literatura brasileira contemporânea na Universidade Paris-Sorbonne e coordenador do Blog Etudes Lusophones. Acaba de coordenar o número 41 da Revista Estudos de Literatura brasileira Contemporânea publicado pela UnB. Consultem o link :  http://etudeslusophonesparis4.blogspot.fr/2013/07/literatura-e-pobreza.html

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Chega de saudade.

Museu Intinerante da Saudade

Você já sentiu saudade? Talvez você possua algum objeto, ou foto, ou história, que lhe faça lembrar desse sentimento tão particular em sua vida, tão familiar ao brasileiro e tanto mais ao imigrante.
Participe do maior acervo de saudade já então construído,
o « Museu Itinerante da Saudade »
Deposite esse seu objeto numa de nossas urnas coletoras de saudade e alimente a grande história da saudade.
Participe da construção dessa exposição íntima, poética, musical e transcontinental.



O Setor de Cooperação Educacional da Embaixada do Brasil em Paris contempla o projeto elaborado pela Cia. PIED’OEUVRE:

Integrando o Programa de Difusão da Língua e Cultura Brasileiras lançado pela Embaixada do Brasil na França, CHEGA DE SAUDADE ! convida todos os brasileiros que vivem na França a participarem da criação de uma grande coleção coletiva de fragmentos de vida : « MIS - Museu Itinerante da Saudade ».

Se você deseja separar-se de alguma memória, ou condensá-la no tempo e no espaço de uma obra, deixando assim, um rastro de sua história, enriqueça a grande coleção coletiva de histórias, objetos e emoções de quem já sentiu saudade.

Até 31/10 « urnas coletoras de saudade » instaladas na cantina da Embaixada do Brasil, no Consulado Geral do Brasil, em Paris, e em breve, na « Maison du Brésil » (Cité Universitaire) e na Universidade da Sorbonne estarão à espera de sua saudade.

Traga sua saudade em forma de objeto e participe dessa grande coleção coletiva!

Esse rico acervo será penetrado por poemas, sonetos, personagens e notas musicais recolhidos da obra de Vinícius de Moraes e toda a obra lançada no espaço - cujo movimento   será dado pela relação entre os objetos, as construções, a narrativa da conferência, e o corpo do observador - se transformará em um museu vivo de memórias e histórias (e emoções).

Enriqueça o acervo do MIS doando seu objeto e participe dessa celebração centenária em forma de instalação coletiva, em prosa, verso e cantoria em plena interação com a comunidade brasileira na França, que acontecerá na sede da Embaixada do Brasil, em Paris.

« Chega de Saudade ! Cem anos de Vinícius de Moraes »

Participe desse projeto inovador!  Você, co-autor da obra.

Saravá!

IMPORTANTE:

ü  Se o seu objeto não entra em nossa urna, deposite um envelope contendo o nome do objeto e seu contato que nos comunicaremos com você.
ü  Se você deseja que uma urna seja instalada em algum local de seu contexto, não deixe de entrar em contato conosco.
ü  Se você deseja receber mais informação sobre nossa itinerância, não deixe de entrar em contato conosco.
ü  Se você deseja que a saudade se transforme em obra de arte, não deixe de entrar em contato conosco.

Dessa forma, a Cia PIED’ŒUVRE agradece sinceramente a Embaixada do Brasil na França e a preciosa contribuição do Consulado Geral do Brasil em Paris, que tornam esse estimável projeto, viável.


Equipe Chega de Saudade !
Cia PIED’OEUVRE
Chuca Toledo
Curadora
Diretora artística


chegadesaudade@hotmail.fr                                www.facebook.com/MISaudade

Chuca Toledo é atriz, dramaturga, diretora de teatro, tradutora e professora. Desde 2005, desenvolve projetos artísticos e culturais na Europa e no Brasil. Desde 2008, é professora de língua, cultura e civilização brasileiras, tendo lecionado nomeadamente na universidade de Poitiers e no instituto de estudos políticos Sciences-Po, em Poitiers. Atualmente exerce o cargo de leitora na universidade Paris-Sorbonne e lenciona na ENSIIE – École Nationale Supérieur d’Informatique pour l’Industrie, em Evry. Desde 2012, desenvolve seu doutorado na universidade Paris-Ouest/Nanterre, sob a orientação de Jean-Louis Besson, onde segue investigando a relação entre o espaço cênico, corpo do ator e dramaturgia, a partir de experiências brasileiras e francesas. Também ministra cursos e ateliers de teatro em Paris, Brasil e Europa. No teatro esteve ao lado de Marco Antonio Rodrigues, Oswaldo Gabrieli, Luciano Chirolli, Tiche Viana, Eugênio Barba, Rena Mirecka, Tage Larsen, João Pires, entre outros. Atualmente atua e dirige a Compagnia PIED’ŒUVRE, instalada em Paris desde 2010, onde segue criando dramaturgias próprias, brasileiras e européias contemporâneas.


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Um dedo de prosa com Adriana Lunardi

Um dedo de prosa com Adriana Lunardi

Assistam à entrevista que escritora concedeu ao Blog Etudes Lusophones. Consultem os links e o dossiê bibliográfico disponíveis abaixo :


Não deixem de assistir à participação de Adriana Lunardi  no Salão do Livro de Paris de 2012 e no encontro sobre Literatura Brasileira Contemporânea realizado na Université Paris-Sorbonne e organizado pelos professores 
Leonardo Tonus e Maria Graciete Besse. Cliquem nos links:




Adriana tem formação acadêmica em Comunicação Social e estudou Literatura. Nasceu em Xaxim, Santa Catarina, morou em Santa Maria, Porto Alegre (onde teve sua estréia literária), Paris e São Paulo. Atualmente, vive no Rio de Janeiro. Escritora e roteirista de TV, estreou na literatura com As meninas da Torre Helsinque (Mercado Aberto/PMPA, 1996), livro pelo qual recebeu os prêmios Fumproarte e Troféu Açorianos (1997) em duas categorias: melhor livro de contos e autor estreante. Em 2002, lançou Vésperas (Rocco), livro de contos agraciado com a bolsa para escritores da Fundação Biblioteca Nacional e indicado ao prêmio Jabuti. Vésperas também foi publicado na França, Argentina, Portugal e Croácia. Corpo estranho, seu primeiro romance (Rocco, 2006), foi finalista do prêmio Zaffari/Bourbon e está sendo traduzido para o francês. Quando não escreve livros, Adriana redige roteiros para a TV, especialmente documentários. Já ministrou um curso de leitura para futuros escritores e uma oficina de texto para moradores de rua, que resultou na publicação do livro Letras na Rua (PMPA, 1993). Adriana tem formação acadêmica em Comunicação Social e estudou Literatura. Nasceu em Xaxim, Santa Catarina, morou em Santa Maria, Porto Alegre (onde teve sua estréia literária), Paris e São Paulo. Atualmente, vive no Rio de Janeiro.



Ecrivaine et scénariste pour la télévision, Adriana Lunardi a fait des études de communication et a travaillé dans le journalisme et  dans la publicité. Son premier livre, As meninas da Torre Helsinque (1996) est un recueil de nouvelles qui traite de la vie et de la sexualité de jeunes adolescentes. Dans Vésperas (2002), Adriana Lunardi évoque la mort de neuf femmes écrivaines : Dorothy Parker, Virginia Woolf, Clarice Lispector, Colette, Katherine Mansfield, Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald, Ana Cristina César et Julia da Costa. Il s’agit ici moins de reconstruire le parcours de ces écrivaines que de faire advenir, par le biais de l’écriture et de la subjectivité, le moment épiphanique de l’agonie : temps de la conscience et de la liberté qui rompt des frontières entre fiction et réalité. Son dernier roman, A vendedora de fósforos, vient de paraître au Brésil et Corpo estranho (1996)  sera très prochainement publié en France.


Leonardo Tonus


A vendedora de fósforos

Ficamos um bom tempo sem conversar. Eu me concentrava para perceber o efeito dos remédios. Já havia cheirado éter, antes. Dava uma vontade de rir, apenas, e passava rápido. Com os comprimidos a reação devia ser diferente, mais forte, imaginei.
Cirineu cavoucava o chão com um pauzinho, ficou nisso por horas. Foi ele quem começou.
Sabe o que eu gostaria de fazer agora?
Virei o rosto para indicar que escutava.
Escovar os dentes.
Comecei a imaginar a espuma, a boca mentolada, fresca, e entendi o que ele queria dizer. O gosto da coca-cola parecia sujar a boca. Tomei um gole, o gás limpou aquela sensação. A sujeira voltou em seguida, e a sede era maior ainda.
Se estou numa festa, vou até o banheiro e uso a primeira escova que encontro.
Você não tem nojo?
Tenho.
Eu também teria. Não quis falar para não ofender o meu amigo. Então me ocorreu sugerir que ele levasse sempre uma escova no bolso.
Já fiz isso. Dura dois dias, depois esqueço.
Não queria ficar pensando no problema de Cirineu. Esperava o momento em que os comprimidos começassem a agir. Eu ia gostar? Ver monstros? Distorções? Procurei uma veia em meu pulso. Ela pulava bastante, mas eu não sentia nada além de uma pequena ansiedade. Talvez eu fosse uma daquelas pessoas imunes ao efeito das drogas. Ou era uma questão de tempo.
Que planta é essa?, perguntei, já que estávamos ali.
Colza. A economia da cidade, Cirineu disse. Tem uma indústria aqui, reparou? É do que as pessoas vivem.
E o que se faz com ela?
Óleo de cozinha.
Passei a reparar melhor na vegetação. As plantas tinham quase um metro de altura e formavam, no conjunto, uma saia plissada de tamanho gigante. Ao tomar-se uma delas, individualmente, dava para ver que a haste central abria-se em apêndices para formar um candelabro pequeno e delgado que se replicava de espaço a espaço, tanto acima quanto abaixo. As folhas finas, de um verde bem escuro, pareciam mais pesadas do que o caule podia suportar. Seriam elas que, esmagadas, davam o azeite?
Não, ele vem da semente, Cirineu contou. Nunca sentiu o cheiro na cidade?
ilustração : Carolina Vigna-Maru

Ele tinha razão. Dia e noite havia um bafo de cozinha no ar. No começo senti um pouco de náusea, depois deixei de prestar atenção naquilo. Como em todo o resto.
Debaixo dos pés de colza podia-se ver a terra que, de tão vermelha, parecia estar em brasas. Era uma combinação bonita, o verde com a argila: uma cor fazia contraste para a outra ficar mais intensa. E por cima, o infinito, que na hora me pareceu a parede de uma caverna azul.
Com as mãos, recortei um quadrado imaginário na horizontal, depois na vertical, onde coubesse um pedaço de cada coisa.
Agora, não parecia mais uma plantação. Era mais uma bandeira de três listras — vermelha, verde, anil — o que eu via. Por causa do tamanho reduzido, o pedaço que eu havia recortado deixava os tons ainda mais vivos e brilhantes.
Quando baixei as mãos, o quadrado permaneceu no ar. Pisquei, ele continuou ali. Desviei o olhar e o quadrado acompanhou. Era como uma janela, uma lente que aumentava as cores de qualquer coisa que meus olhos enxergassem.
Estrangeira, você está viajando.
A voz de Cirineu era fina, ele disfarçava falando baixo.
Perguntei o que aconteceria depois, com a plantação já madura.
Vai ser ceifada por máquinas colhedeiras. Uma parte vira farelo, a outra, óleo. Mas antes, vai ficar tudo florido.
Logo?
Setembro, por aí.
Eu estava pronta para dizer que ia voltar para ver a floração quando o quadrado ficou na frente de Cirineu. Era como se eu visse o seu rosto pela primeira vez. Já tinha notado a marca de espinhas nas bochechas e a cicatriz da testa; o arco torto do nariz, nunca. Os olhos pequenos, verdes, ficavam bem no fundo da órbita dos ossos. Dava para imaginar a caveira do Cirineu. Então me dei conta de que eu não prestava muita atenção nos objetos, nem nas pessoas. Olhava tudo por alto, a buscar outra imagem, para além das aparências. Um reflexo que talvez não exista. O fato é que olhar, enxergar de verdade, era outra coisa. Dá para reproduzir em palavras tudo que existe só a partir dos detalhes, das particularidades que a pressa não permite ver. Agora, mesmo se fechasse os olhos, eu podia fazer um retrato falado do meu amigo.
Seus dentes têm bordas azuis, eu disse, certa de que Cirineu ia gostar de ouvir aquilo.
Ele sacudiu a cabeça levemente, repetidas vezes, como um desses cachorros de mola no pescoço que os motoristas põem no painel do carro.
Você vê cada coisa, Estrangeira.

Fonte : Jornal Rascunho

Dossiê Bibliográfico

Resenhas
HORÁCIO, Luiz. Entre escritoras e personagens imortais. Postal Cristina Carriconde. Disponível em: http://www.cristina.carriconde.nom.br/horacio.html.

SANTOS, Márcio Renato dos. Resenha estranha, de Adriana Lunardi. Rascunho, Curitiba. Disponível em: http://rascunho.rpc.com.br/ index.php?ras=secao.php&modelo=2&seção=25&lista=0&ordem=1229&semlimite=todos.

TUTIKIAN, Jane. As meninas da Torre Helsinque. Revista Blau. mar. 1997. Disponível em: www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php?liCodigo=2.

RODRIGUES, Carla. Nove escritoras à beira da morte. Jornal do Brasil. out. 2002. Disponível em: www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php?liCodigo=6.

LOBATO, Eliane. Fins Poéticos. Vésperas reinventa a morte de escritores. Isto é. 16 out. 2002. Disponível em: http://www.terra.com.br/istoe/1704/ artes/1724_fins_poeticos.htm.

VASQUES, Marco. Um labirinto em nove contos. Diário Catarinense. 5 mar. 2005. Disponível em: <www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php?liCodigo =6 >.

Le crépuscule des plumes. L´ Express. 2 maio 2005. Disponível em: http://www.adrianalunardi. com. br/XHTML/resenhas.php?paCodigo=5&reCodigo=28>.

Adriana Lunardi et la litanie des derniers instants. Le Monde. 20 maio 2005. Disponível em: <http://www.adrianalunardi. com.br/XHTML/ resenhas.php? paCodigo=5&reCodigo=29>.

Histórias de Mulheres. Público – Edição Impressa – Mil Folhas, Portugal. 3 jun. 2006. Disponível em: <http://www.adrianalunardi.com.br/XHTML/ resenhas.php?paCodigo=6&reCodigo=30>.

MOREIRA, Carlos André. Da brevidade da vida. Zero Hora, Porto Alegre. dez. 2006. Disponível em: <www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php? liCodigo=7>.

ILHA, Flávio. O romance ainda respira. Revista Aplauso, ano 9, 2007. Disponível em: <http://www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php?liCodigo=7>.
HORÁCIO, Luiz. Corpo estranho, de Adriana Lunardi. Jornal O Globo – Prosa & Verso. 2 fev. 2007. Disponível em: <http://www.oglobo.globo.com/blogs/prosa /post.asp?cod_post=47384>.

STRECKER, Heidi. Personagens flagrados à meia-luz. Revista Entre Livros. mar. 2007. Disponível em: <www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php?li Codigo=7>.

MOREIRA, Carlos André. Vidas e mortes paralelas. Zero Hora, Porto Alegre. mar. 2007. Disponível em: <www.adrianalunardi.com.br/XHTML/livros.php?li Codigo=7>.

CARVALHO, Regina. Um corpo nada estranho. jul. 2007. Diário Catarinense. Disponível em: <http://www.adrianalunardi.com.br/ XHTML/livros.php?li Codigo=7>.

PINTO, Júlio Pimentel. Corpo estranho. Paisagens da Crítica – UOL Blog. 3 ago. 2007. Disponível em: <http://paisagensdacritica.zip.net/arch2007-07-292007-08-04.html>.

Entrevistas
“Come chocolates, curiosa”. Entrevista concedida ao Zero Hora. 8 abr. 2007. Disponível em: http://www. adrianalunardi.com.br/XHTML/entrevistas.php.

Não acredito em governos que exilem artistas”. Entrevista concedida a Deonísio da Silva. Observatório da Imprensa. 17 jul. 2007. Disponível em: <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=442AZL001>.

Encontros de Interrogação (Participação de Adriana Lunardi). TriploV. 28 maio 2007. Disponível em: <http: //www.triplov.com/blog/index.php?s=carrascoza>.

Participação na Flip. UOL. 3 jul. 2008. Disponível em: <http:// www. entretenimento.uol.com. br/flip/2008/adrianalunardi.jhtm>.

Cursos – Conto e romance juntos na Estação (Participação de Adriana Lunardi). Publishnews. 20 fev. 2009. Disponível em: <http://www.publishnews.com.br/ noticias/newsint.asp?idnoticia =26707>.

Encontro e crítica entre diversos escritores da literatura contemporânea da literatura brasileira (Participação de Adriana Lunardi). Versões/Site SESC Campinas. 1 maio 2009. Disponível em:

Ensaios

VECCHIA, Adriana Dalla & TEIXEIRA, Nícia Cecília R. Borges. O passado traçando caminhos na literatura de Adriana Lunardi. Site Adriana Lunardi. Disponível em: <www.adrianalunardi.com.br//XHTML/etc.php>.

BRIDI, Marlise Vaz. Memórias ficcionais de escritoras: acerca das Vésperas, de Adriana Lunardi. Site Adriana Lunardi. Disponível em: <http://www.adriana lunardi.com.br/XHTML/etc.php>.

ALMEIDA, Lélia. Linhagens e ancestralidade na literatura de autoria feminina. Espéculo. Revista de Estudios Literarios. Universidad Complutense de Madrid. 2004. Disponível em: <http://www.ucm.es/info/especulo/numero26/linhagens.html>.

FRANCO, Adenize. Às vésperas do fim: um passeio pela narrativa contemporânea de Adriana Lunardi. Temas & Matizes, v. 5, n. 9, 1º semestre 2006. Disponível em: <http://www.unioeste.br/saber>.

CARNEIRO, Flávio. As escritoras da nova ficção brasileira. 22 jul. 2006. Portal Literal. Disponível em: <http://www.literal.com.br/artigos/as-escritoras-da-nova-ficcao-brasileira>.

OSAKABE, Haquira. Corpo estranho – sobre o romance de Adriana Lunardi. Caderno Pagu, Campinas, n. 30, jan./jun. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/ scielo.php?pid=S0104-83332008000100020&script=sci_arttext>.

 Site da escritora









quinta-feira, 18 de julho de 2013

Enredo

Foto : Ricardo Queiroz Pinheiro
Enredo
Ricardo Queiroz Pinheiro (*)

E o rapaz insistia em não ter saudade de nada. A gritaria era enorme, a quantidade de pessoas que passava por ali reduzia seu tempo de pensar sobre coisas que já tinham sido. Não era a primeira vez que trabalhava num guichê de rodoviária, coisa antiga.

Seu tempo sempre foi diferente. Obedecia à lógica do fluxo, no princípio interessava um rosto destacado, atentava aos vários tipos de sorriso, às carrancas, pulsavam por ali trechos de história. Observava as roupas, alguns perfumes incomodavam, e sempre os trechos de história…

Pegava o fortuito, o incompleto, sabia o destino, nunca o enredo. Fazia anos que esperava o nome do lugar e o horário, já havia trabalhado até em transnacional que mandava gente pra Bolívia. Quanto enredo perdido. Aquelas idas e vindas é que tiravam dele o luxo de ter saudade de algo.

Tickets verdes, cinza, azul, brancos, código de barras, horários, lugares, sobre tantos lugares ele desenvolveu uma fobia do “longe”, nunca queria ir, abominava viagens e deslocamentos, o máximo que partilhava com o deslocamento era saber o ruído dos ônibus, a diferença entre eles, ouvia todo dia e sabia.

“Obrigado, brigado, obrigada, brigada, tchau”…silêncios…muitas vezes era o silêncio o seu diálogo com os viajantes, gente que para ir ao mundo precisava passar no seu mundo de quatro por três. Dia qualquer uma moça perguntou sobre uma foto de família que o seu antecessor deixara na mesinha de trabalho, disse que não era dele, a moça sorriu, talvez, da sua falta de enredo…”brigada”…

Tinha manias temporárias. Por um tempo brincou de advinhar para onde as pessoas iriam, era naqueles segundos entre a chegada e o pedido. Errava muito, era melhor pra inventar enredos do que pra descobrir destinos. E os enredos não passavam de destinos inventados. Essas manias passavam rápido.

Nunca teve tempo pra tentar entender porque não tinha saudade de nada. Nos últimos tempos dobrava o horário, pouco ficava em casa, percebera que há meses não ligava o rádio, ouvia sempre as músicas dos outros, as notícias dos outros, estava tudo pronto mesmo, mas sempre eram trechos, trechos que passavam e seguiam seus destinos.

Morava bem perto da rodoviária, um quarto e sala variava sua vida do três por quatro. Mesmo dentro da casa se deslocava pouco, o que curtia era esmerar na brancura e no prumo da camisa bem passada, caprichava, os cabelos ainda fartos e a camisa limpa e branca, esse era o modo de se mostrar ao mundo, é certo que substituiam o sorriso e as demais expressões do rosto.

Por curto período dividiu seu guichê três por quatro com um rapaz de outra empresa. Ficavam os dois ladeados. O rapaz era falante, no início tentou enredar um papo com ele, mas o silêncio continuou. O rapaz estendia a conversa com as pessoas, isso o incomodava, mas os enredos cresciam e com eles o trechos, agora maiores, das histórias.

Durou pouco, bem pouco. Logo, tiraram o seu parceiro dali. Nem foi parceiro, mas foi uma história completa, um enredo e um destino que ele soube inteiro e dessa feita pra dentro do guichê. Talvez isso trouxesse alguma saudade, passou, mas se completou. A diferença foi que o parceiro partiu sem ticket, atinou. Agora novamente sem saudade.

Feriados prolongados, festas de final de ano, dias santos, reclamações, palavras ríspidas, pressa, atraso, cansaço…vivia no contrapelo, descansava nos dias sem destaque, sem emendas. Suas férias eram sem sentido. Ficava andando ali pelo centro, vez ou outra se deparava com algum ônibus que costumava ajudar a encher sem nunca ver. Fora do guichê. Passavam os dias de férias. Era isso.

Seis e trinto e oito da manhã, entrava às sete, bebericou mais um café de coador, a menina da lanchonete era bonita, ele não sabia o nome dela, mas sabia seu gosto pela cor verde, pagou o café e deu um sorriso, a menina surpresa retribuiu, ele nunca sorrira antes, tampouco bebera mais uma dose de café. Era um dia diferente.

Manhã de pouco movimento, um rapaz chega e pede uma passagem para o norte, cidade no interior do Pará, vende para uma cidade próxima, não há caminho direto para aquele destino. Grande intervalo sem ninguém. O café bebido começa a atiçar a queimação, bebe água, tempo passa devagar. Outro grande intervalo.

Ficou olhando para a máquina de tickets, ela sem o barulhinho seco que emitia, não era nada. Sem destino certo não tinha nem o ruído da máquina. Pensou sobre o tempo, sobre a máquina, sobre a saudade que não tinha. Bateu o dedo na lista, nem leu o nome da cidade, digitou o código e logo veio o barulhinho. Ticket emitido. Pegou a mochila, aproveitou o intervalo e foi buscar seu enredo sem destino certo.

(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é bibliotecário trabalhando há 22 anos  com mediação de leitura. Mora em São Bernado do Campo e tem gosto por andar a pé ou de transporte público, numa cidade que, segundo ele,  não se sabe industrial ou pós-industrial. É responsável pelo Blog Klaxonabc, “página de gostos e implicâncias”. Consultem o link :  http://klaxonsbc.com/


sábado, 13 de julho de 2013

Origens das coisas e das palavras



Por Alexandre Staut*

Noemi Jaffe é escritora, crítica e professora de literatura brasileira. Lançou, no ano passado, O que os Cegos Estão Sonhando (Editora 34) e A Verdadeira História do Alfabeto (Companhia das Letras). No primeiro volume, ela se debruça sobre memórias familiares do Holocausto. Para contextualizar, sua mãe, Liwia Jaffe, foi prisioneira em Auschwitz. O segundo é uma obra fabular. Figura entre os finalistas do prêmio Portugal Telecom de Literatura, na categoria contos. A autora falou para o blog Études Lusophones sobre ambos os livros, sua escrita e também sobre a produção literária nacional contemporânea.  

Como surgiu a ideia de escrever A Verdadeira História do Alfabeto?
A ideia surgiu a partir de uma brincadeira que duas personagens do livro A Mulher Foge, de David Grossman, fazem entre elas, quando pequenas, que é a de criar um hospital para palavras doentes. Pensei que também poderia criar uma gênese das letras e das palavras, em que elas surgissem a partir de uma necessidade, tanto gráfica quanto existencial. Isso torna a existência das letras e das palavras muito mais significativa, próxima de sua origem. Assim elas não precisam nunca ir para o hospital!

Qual foi a primeira letra para a qual inventou uma história? Poderia contar sobre o processo?
 A primeira letra foi o A mesmo. Pensei em Demócrito (460-370 a.C.), um filósofo atomista, inventando a ideia do que seria essa partícula supostamente indivisível da natureza e de tudo e criando um símbolo que justificasse esse pensamento. Assim criei essa relação aparente entre a letra e a palavra e assim eu fui fazendo com todas as letras subsequentes.

Em alguns momentos, as histórias lembram pequenos casos da tradição oral contados para crianças. Este foi um dos caminhos escolhidos?
Confesso que não tinha pensado nisso. Mas acho que, como tudo é muito próximo de relatos de origem, de formas simples, acaba lembrando as formas orais tradicionais. Sempre um refrão (no final), tentativas de justificar o absurdo através de ideias artificiais, coisas assim.

Há histórias ouvidas na infância que teriam inspirado a criação de narrativas do livro?
Não, especificamente não. A não ser as formas simples que mencionei acima e que sempre admirei, como "causos", mitos, fábulas, contos de fadas.

Fábulas infantis parecem ter sido pontos de partida para o projeto do livro. Ao mesmo tempo, em que você usa fatos da ciência e da história. Como fez essa junção, de forma a criar conjuntos harmoniosos?
Um autor cuja literatura admiro muito é Ítalo Calvino (1923-1985). Sem querer me comparar a ele, penso que ele fez algo semelhante no livro Cosmicômicas, por exemplo. Afinal, os mitos e as abordagens imaginativas da ciência antiga eram muito próximos.

Quais são as suas considerações sobre a literatura brasileira feita para o público infanto-juvenil?
Infelizmente, não tenho contato com a literatura produzida para essa faixa etária.

No mesmo ano em que lança um livro que é pura fantasia, publica também O que os Cegos Estão Sonhando, em que se debruça sobre memórias familiares do Holocausto. Como passou da experiência de um livro a outro? Os dois livros fazem parte de um único projeto?
Foi uma coincidência que ambos os livros tenham sido escritos ao mesmo tempo. O livro "O que os cegos..." era um projeto muito antigo e a bolsa da Petrobras saiu justamente nesse período. De certa forma, creio que um livro tenha sido o parque de diversões do outro, algo assim, mesmo tendo sido trabalhoso. Mas, grande parte do livro do alfabeto foi escrito tendo o Google como base, para você ver como houve também diversão. Mas, quanto mais penso, mais vejo que há relações entre eles: ambos vão atrás das origens das coisas e das palavras, mas de pontos de vista totalmente diferentes.

Como ficcionista, poderia falar um pouco dos personagens que habitam o seu imaginário? E como professora de Literatura Brasileira, o que gostaria de falar sobre os personagens brasileiros contemporâneos?
Vivo prestando atenção em tudo: coisas, pessoas, cenas. Muita coisa, para mim, parece imaginária, ou pode pertencer a um livro. Não preciso inventar demais para transformar pessoas em personagens. Está tudo aí: é só pensar em formas de fazer montagens, colagens. Juntar as pessoas com o conhecimento das palavras e da experiência.
Tenho gostado bastante dos personagens brasileiros que tenho lido. O professor de educação física de Barba Ensopada de Sangue (Daniel Galera), os personagens de Marcelino Freire, de Bernardo Carvalho, de Marçal Aquino, da Beatriz Bracher e muitos outros que não cabem numa lista. São personagens consistentes, ricos, com problemas ao mesmo tempo atemporais e novos, escritos numa linguagem mais atual.

Quais personagens/livros mereceriam mais destaque na literatura nacional?
Para mim, o livro mais injustiçado da literatura brasileira é Os Ratos, de Dyonélio Machado. É um livro sensacional, tão grande quanto Vidas Secas, por exemplo. Não entendo por que ele não é considerado um clássico.

Se tivesse que escrever um manifesto pela literatura brasileira num cartaz, para uma manifestação de rua, o que escreveria?
Não sei. Algo na linha de "a literatura brasileira existe". Mas não sou boa de slogans.




(*) Alexandre Staut nasceu em Espírito Santo do Pinhal (SP) em 1973. Jornalista, já trabalhou como cozinheiro na Inglaterra e na França (em Brest, Tours e Arromanches-les-Bain). Ministrou oficinas de haikai na Oficina Cultural do Estado de São Paulo (Bauru/SP). É roteirista do documentário “O anjo da guarda de Caio F.” e autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toada Edições/2010) e Um lugar para se perder (Dobra/2012). No momento, trabalha em seu terceiro romance, num livro infantil e numa peça de teatro que está sendo escrita para a atriz cubana Phedra de Córdoba. Alexandre Staut é colaborador do blog Études Lusophones.