domingo, 30 de junho de 2013

Dos espaços da literatura contemporânea

Dos espaços da literatura contemporânea

Em sua 5º edição, Simpósio Internacional reúne investigações sobre espacialidades na literatura brasileira contemporânea

Por Edma Cristina de Góis


O V Simpósio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea colocou o “espaço” como o eixo central de discussões de pesquisadores e estudantes na Universidade de Brasília (UnB), de 17 a 19 de junho. O evento, organizado pelas professoras Regina Dalcastagnè, da UnB, e Luciene Azevedo, da UFBA, já está consolidado na agenda anual do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea (Gelbc), e reuniu mais uma vez investigadores de todo o país e do exterior com o intuito de promover a troca de conhecimentos e a socialização das pesquisas em andamento.

A escolha de um tema comum, “o espaço na literatura brasileira contemporânea”,  integra diversos projetos de pesquisa individuais, muitos deles contando com financiamento público, em um projeto coletivo, intitulado “Configurações do espaço na literatura brasileira contemporânea”.

As investigações de pesquisadores de universidades brasileiras e do exterior mostram a sintonia fina do grupo em relação à produção literária atual, quando são analisados condicionantes externos que repercutem na produção e recepção da literatura brasileira – como as feiras de livros, as traduções, o mercado editorial, o estatuto leitor e mesmo a construção da trajetória do autor. “A leitura de problemas mais internos na construção da espacialidade nas obras literárias, como as experiências de migração, do corpo e das sexualidades, a disputa pelos espaços urbanos e pelos espaços de enunciação, além das cartografias literárias também aparecem nas discussões”, explica o professor da Université Paris-Sorbonne José Leonardo Tonus. A moldura teórica das pesquisas também teve destaque entre os trabalhos apresentados.

Como na edição anterior, o simpósio dedicou um dia às apresentações de estudantes de pós-graduação e graduação que também investigam no âmbito de estudos do Gelbc. Em 2014, o grupo voltará a se reunir, em Washington, no mês de abril, e em novembro, em Brasília, em datas a serem confirmadas.

Para além de fortalecer os laços entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros, os encontros incrementaram uma nova dinâmica à pesquisa e  à formação de doutores especialistas em literatura brasileira contemporânea.  A publicação de livros e dossiês temáticos em revistas especializadas, o intercâmbio de doutorandos entre as instituições envolvidas,  bem como a realização de eventos regionais  com a presença de membros do grupo e de convidados externos de renome constituem  uma prova  significativa desta nova dinâmica que busca sobretudo intensificar o diálogo  entre  perspectivas teóricas e metodológicas diferenciadas

Publicações produzidas por investigadores do Gelbc
·      Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea (da Universidade de Brasília)
·      Revista Iberic@l (da Universidade de Paris-Sorbonne).  
·      Histórias em quadrinhos: diante da experiência dos outros. Vinhedo: Horizonte, 2012. (org. por Regina Dalcastagnè)
·      Fora do retrato: estudos de literatura brasileira contemporânea. Vinhedo: Horizonte, 2012 (org. por Regina Dalcastagnè e Anderson Luís Nunes da Mata)
·     Pelas margens: representação na narrativa brasileira contemporânea. Vinhedo: Horizonte, 2011. (org. por Regina Dalcastagnè e Paulo C. Thomaz)
·      Deslocamentos de gênero na narrativa brasileira contemporânea. Vinhedo: Horizonte, 2010. (org. por Regina Dalcastagnè  e Virgínia Maria Vasconcelos Leal)



quinta-feira, 27 de junho de 2013

O Futuro pelo retrovisor




Novos olhares sobre o contemporâneo

Ao refletir sobre o contemporâneo, costumamos sentir falta de um recuo que nos permita uma visão do que supostamente está perto demais de nós, como se o contemporâneo estivesse colado ao presente, daí a dificuldade de captar aquilo de que não conseguimos tomar distância. Um anacronismo tem sido por isso reivindicado: não seria contemporâneo justamente aquele capaz de se deslocar do presente e não tanto quem se identifica de maneira imediata com o novo ou a novidade? Nesse sentido, refletir sobre essa condição não implicaria também, necessariamente, uma tomada de distância?

Partimos aqui dessas interrogações bem como da hipótese de que é na superposição de temporalidades, numa tensão entre presente, passado e futuro, que se constitui a literatura atual. John Barth, em seu artigo “A literatura de exaustão”, de 1967, já apontava para o fim das possibilidades estéticas como ditadas pelas vanguardas modernistas; mas o ensaísta vislumbrava igualmente a possibilidade infinita de acessar a tradição e assim recombinar a partir do presente esse inventário interminável. De maneira semelhante, poderíamos nos perguntar se diversos autores brasileiros contemporâneos não estariam operando reapropriações de questões fundamentais dos séculos XIX e XX – no plano estético, ideológico, temático, formal etc. –, reelaboradas a partir do presente.

A nossa aposta é que parte expressiva da atual literatura brasileira está caminhando neste momento para uma releitura das tradições da modernidade, saqueando ou revisitando o passado, como sugere a expressão de Marshall McLuhan, reapropriada por nós, que serve de título a esta publicação. Em seu sentido original, a expressão dizia respeito a um olhar fixo sobre o passado, que tendia a recuperá-lo sempre da mesma maneira. Gostaríamos de retomá-la aqui para tratar de uma relação com o passado que pode se dar de múltiplas formas, de modo que não se estabeleça uma relação linear de causalidade entre passado, presente e futuro.

À indagação do que ainda é possível resgatar quando se lança esse olhar para o passado, os textos deste livro respondem de várias maneiras, formando núcleos de questões que denominamos “Experiência, transmissão, alteridade”, “Literatura, vida, cena literária”, “Releituras da tradição, reescrituras do moderno”, “Profanação, citação, encenação” e “Redefinições do cânone, dobras do nacional”.

No primeiro caso, trata-se de uma recuperação da experiência – palavra tão usada, questionada, por momentos banida, que retorna quando já parecia ter se esgotado, com um sentido menos idealizado, menos uno, menos onipotente. Assim, no seu texto, Stefania Chiarelli aborda, via Samuel Rawet, o romance Diário da queda, de Michel Laub, indicando que ambos interpe- lam a tradição no que ela tem de petrificada e põem a própria transmissão da experiência em questão, explorando a dimensão ética e política da memória: “O conflito com a ascendência e a inviabilidade de negar completamente as raízes culturais judaicas ocupam importante lugar tanto na obra de Rawet quanto no romance de Michel Laub”, afirma Stefania, que busca entender esse passado que volta insistentemente como leitura do presente.


Já no texto de Claudete Daflon, experiência e alteridade são retomadas no sentido de se pensar, também aqui num contra- ponto, agora entre o diário de viagem de Mário de Andrade e o romance Nove noites, de Bernardo Carvalho, o complexo processo de apreensão do outro. “A procura pela verdade mostrou-se inútil e, diante disso, a subjetividade do narrador confronta-nos com a impossibilidade de qualquer revelação. Bernardo Carvalho não só põe sob suspeita a verdade etnográfica, mas também a verdade do romance”, afirma Claudete.

Também a possibilidade, ou impossibilidade, de estar em relação com o outro é central no texto de Diana Klinger sobre o que ela chama de “trilogia da separação”, referindo-se aos três romances publicados por Carola Saavedra. Endereçados a outros personagens, e também aos leitores, seja por meio de cartas, de uma gravação ou de uma conversa com o psicanalista, estes textos, sugere Diana, fazem ver que “a literatura mesma é a evidência de uma falha na comunicação”, mas também uma “tentativa de lidar com a impossibilidade de comunicação com o outro, com o desconforto que há nos afetos”.

Em clave semelhante, enquanto resgate da possibilidade de narrar, é lido por Alexandre Faria o “desencaixe do tempo na ordem narrativa” em Leite derramado, de Chico Buarque. Ao que parece, num tempo em que a literatura é chamada a se abrir para um campo de práticas culturais em que não tem mais um lugar privilegiado, é possível também pensar sua especificidade em termos desse modo singular de lidar com o tempo que pode nos fazer compreender algo sobre a excludente história do Brasil, em comparação com outras linguagens, como o rap.

Na segunda parte, “Literatura, vida, cena literária”, alguns textos questionam – e dialogam com – o paradigma que excluiu o autor da pauta de discussão da crítica, ao abordarem os modos como a tensão entre ficção e escrita de si encontrada em escritores modernos é retomada em muitas das criações de autores contemporâneos. Pode-se perceber tal retomada nos contos de Vésperas, de Adriana Lunardi. Segundo Ana Cláudia Viegas, “em vez de fruto de uma originalidade absoluta, a criação literária se apresenta, nessa obra, como resultado de diversas leituras e reescrituras, embaralhando-se na trama final dados biográficos das autoras, personagens, frases, referências das mais diversas ordens”.

A criação de figuras autorais ambíguas aparece de forma semelhante na escrita de Ricardo Lísias, como destaca Luciene Azevedo, que reflete em seu texto sobre as marcas da assinatura de Lísias no contexto da literatura contemporânea e a criação de um nome-figura de autor, formando “um autorretrato como autor que lança mão de dados autobiográficos, empregando, inclusive, o nome próprio, para transformá-los em uma engenhosa arquitetura textual”.

Finalmente, o texto de Gabriel Giorgi sobre João Gilberto Noll faz uma distinção entre duas ênfases na abordagem contemporânea da interseção entre literatura e vida: a primeira está relacionada às escritas do eu, marcada por uma dissimetria ou uma defasagem entre o vivido e sua elaboração pela memória, entre literatura e vida; já a segunda, a que interessa ao autor, “pensa a vida em termos de corpos, de materialidade biológica, de organismos e forças e intensidades vivas; põe em cena a relação entre um ‘vivente’ e a escrita”.

De modo geral, a experiência, enquanto aquilo que nos vincula ao mundo e aos outros seres, está sob suspeita na literatura abordada aqui; há nela uma falha, uma desilusão, um desconforto. Daí talvez que se complexifiquem as estratégias narrativas, justamente por meio da releitura e da reescrita dos gêneros surgidos na modernidade, como se propõe na parte “Releituras da tradição, reescrituras do moderno”.

No texto sobre João Almino, Graça Ramos explora as diversas concepções temporais no romance Cidade Livre, em tensão com a herança dos romances de formação, em uma jornada que aqui surge duplicada: a de João, nome que se desdobra do escritor ao narrador-personagem e também ao revisor fictício, e a da cidade que nomeia o livro. Ao acompanhar os últimos cinquenta anos da história de Brasília, Almino apresenta uma “tensão aglutinadora entre tempo e espaço”, própria do contemporâneo e de uma cidade erigida sem pausas.

Um diálogo com o Bildunsgroman é também proposto por Leila Lehnen, ao abordar três romances de Daniel Galera que se centram “em personagens que passam por processos, ainda que distintos, de trans(formação) após eventos impactantes”. Assim ela observa que a obra ficcional de Galera segue os parâmetros do gênero, recuperando-o e adaptando-o ao século XXI, de modo que suas personagens ecoem problemáticas contemporâneas.

Uma tensão entre os gêneros e suas potencialidades guia igualmente a abordagem de Catia Valério da obra de Luiz Ruffato, em que, por intermédio do diálogo com obras da modernidade, o romance sofre mutações. A fragmentação, a colagem, a polifonia são alguns dos procedimentos que Ruffato recria para efetuar um painel móvel da cidade de São Paulo nos dias de hoje que aproxima a literatura do cinema. Sobre Eles eram muitos cavalos, Catia afirma: “Seu romance-mosaico liberta o texto dos significados preestabelecidos para problematizar as fronteiras entre a ficção e a realidade e, desse modo, convidar o leitor a um repensar de seu papel em meio ao caos urbano.”

A literatura ainda teria assim algo a oferecer a seus leitores, como propõe Sérgio de Sá ao refletir sobre o fértil diálogo entre a obra de Eça de Queirós e Rodrigo Lacerda, em que se torna possível a recuperação de uma linhagem que, ao abrir diálogos literariamente requintados, encontra “também uma forma de dialogar com o leitor contemporâneo, muito pouco inocente”. Essa “generosidade” é uma maneira de se posicionar em relação ao campo cultural contemporâneo, entre o experimentalismo e a comunicação.

Criar procedimentos que lhe deem sentido num mundo veloz, imagético, hipercomplexo – essa parece uma das tarefas da atual literatura. Na parte “Profanação, citação, encenação”, Lourenço Mutarelli, Valêncio Xavier e Sérgio Sant’Anna surgem como criadores que problematizam essa trama de referências. De acordo com Pascoal Farinaccio, a fabricação de identidades em O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli, se dá a partir da pilhagem, citação e posterior ressignificação. Evidencia-se assim o procedimento de citação sem culto reverencial ao passado, livre do peso que inibe, mas como um processo que se retroalimenta.

Numa sintonia parecida, para Jorge Wolff, Valêncio Xavier se coloca como “explorador do baixo materialismo, perverso voyeur e bricoleur de vozes e imagens alheias”, propondo “de no- vela em novela, de raconto em raconto, a dissecção de corpos textuais os mais variados”. Ao lançar um olhar impiedoso sobre os modos de ver e de fazer modernos, próprios da sociedade de consumo, o escritor está ele mesmo em busca de “formas ainda eficazes de profanação” no ápice do capitalismo, afirma Joca.

Giovanna Dealtry investiga nas narrativas de Sérgio Sant’Anna modos de apropriação operados pelo escritor na constante interseção que promove entre literatura e artes plásticas. A autora enfatiza que se coloca em jogo na prosa do escritor carioca “a saturação do discurso e do olhar realista, a partir do encontro com obras ou artistas que também desafiaram as categorizações e os parâmetros convencionais das artes”. Nessa chave, indaga em seu texto qual seria o sentido de resgatar a contemplação na contemporaneidade.

A última parte, “Redefinições do cânone, dobras do nacional”, coloca em tensão as produções literárias e críticas. Se o lugar do autor e da literatura se mostra instável, sujeito a recriações, também o da crítica. Haveria diferentes modos de ser crítico na contemporaneidade?

O texto de Susana Scramim sugere a possibilidade de su- portar um fracasso da obra em relação a certas expectativas de leitura pautadas em modelos genéricos tradicionais. Assim ocorre com os contos de A cidade ilhada, de Milton Hatoum. “Todas essas passagens, mínimas e lacunares, produzidas por esses relatos”, sugere Susana, “não poderiam ser compreendi- das dentro de um controle do gênero; ao contrário, elas só podem ser compartilhadas num movimento entre subjetividades passantes, lacunares e inconclusas.”

A pergunta sobre como a crítica constrói suas leituras está também no texto de Paloma Vidal. O que gera conexões e desconexões em relação a isso que chamamos “literatura brasileira”? Como se constrói a leitura de uma obra no âmbito de um paradigma de literatura nacional? Paloma lê na obra de Adriana Lisboa um “recuo do épico”, que estaria vinculado a “um distanciamento em relação à função agregadora e compensa- tória da literatura, tal como foi pensada desde o romantismo; em outras palavras, em relação a uma literatura que une em torno de uma identidade nacional e que, por sua vez, redime das mazelas da nação”.


Para Paulo Roberto Tonani do Patrocínio, nessa mesma linha de questionamento, seria possível ler o romance Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo, como um diálogo com o naturalismo cientificista do século XIX, pensando na tensão criada a partir da permanência do modelo e sua própria recusa: “É neste espaço intersticial, no limite entre o uso da tradição naturalista e a inserção de um novo referente, que o autor narra o trajeto do personagem”, sustenta Paulo, ao destacar em sua leitura o fato de que o realismo descritivo é apaziguado pelos traços de subjetividade do olhar do protagonista Pedro.


A produção deste livro significa o desafio e a provocação de pensar o lugar da literatura hoje, inseparável do lugar da própria crítica. A motivação principal é interferir em um debate que, por vezes, aparece polarizado em nosso cenário cultural. De um lado, a valorização do novo limita-se a constatar a impossibilidade de circunscrever esses escritos marcados pelo signo da multiplicidade. De outro, encontramos abordagens que operam a partir da comparação com os modelos canonizados pela história literária, eximindo-se de compreender o que há de específico na literatura atual. Diante disso, estar no presente deslocados dele talvez seja o lugar paradoxal que os ensaístas aqui reunidos buscam para propor outros olhares sobre o contemporâneo, sem perder de vista as reapropriações, releituras e diálogos com a modernidade.
as organizadoras

Paloma Vidal, Stefania Chiarelli Techima e Giovanna Dealtry

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Clandestinos, errantes e andarilhos

Photo : Alexandra Novosseloff
Ação entre Livros

Palestra com o professor Leonardo Tonus
( Université Paris-Sorbonne)

27 de Junho às 19 horas

Biblioteca de Arte Ilva Aceto Maranesi
Rua Kara, 105 Jardim do Mar
São Bernardo do Campo

(entrada gratuita)






Leonardo Tonus é Professor Associado na Universidade da Sorbonne (Paris IV) e especialista da questão da imigração na literatura brasileira contemporânea. Publicou diversos artigos sobre a obra de Graça Aranha, Plínio Salgado, Samuel Rawet, Lya Luft, Adoldo Boos Júnior, Milton Hatoum, Nélida Piñon, Adriana Lisboa e Luiz Ruffato. Membro do conselho editorial e do comitê de leitura das revistas Estudos de literatura brasileira contemporânea (Universidade de Brasília) e Webmocaisa (Instituto Cultural Judaico Marc Chagall/ Universidade  Federal do Rio Grande do Sul), coordenou, em colaboração com Rosana Khol Bines, a publicação dos ensaios do escritor Samuel Rawet (Samuel Rawet ensaios reunidos, 2008).


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Configurações do espaço


Wim Wenders, Street Corner Butte, Montana 2003
V SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

CONFIGURAÇÕES DO ESPAÇO

Brasília – Universidade de Brasília – 17 a 19 de junho de 2013
Local: Auditório 1 do Instituto de Ciências Biológicas

Coordenação geral: Regina Dalcastagnè (UnB) e Luciene Azevedo (UFBA)
Coordenação do Fórum dos Estudantes: Gabriel Estides Delgado e Bruna Paiva de Lucena

Comissão científica: Carmen Villarino Pardo (Universidade de Santiago de Compostela), José Leonardo Tonus (Universidade de Paris-Sorbonne), Lúcia Osana Zolim (UEM), Maria Isabel Edom Pires (UnB), Ricardo Barberena (PUC-RS)
Secretaria: Adelaide Calhman de Miranda e Adélia Mathias

Monitoras: Fernanda Serafim Alves, Livia Martins Ribeiro de Limoges Viganó, Nara Andejara Gomes do Vale, Priscila Cristina Cavalcante Oliveira, Sofia Salustiano Botelho

Organização: Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea
Apoio: Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB, Finatec

O V Simpósio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea dá continuidade aos trabalhos de pesquisa realizados pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea acerca das relações entre literatura e sociedade, os procedimentos de representação e autorrepresentação de grupos marginalizados e a emergência de novos parâmetros críticos. Ao reunir professores/as e estudantes de diferentes instituições nacionais e internacionais, o encontro se constitui em um espaço propício para discutir aspectos relevantes do cenário literário nacional contemporâneo, especialmente no que diz respeito às configurações do espaço.
Os trabalhos apresentados trarão tanto uma análise do campo literário no país, observando-se a movimentação e as disputas de seus/suas agentes – autores/as, leitores/as, editores/as, críticos/as, tradutores/as, livreiros/as etc. – por um espaço que é, sobretudo, simbólico, mas que marca o lugar e a produção de cada um/a deles/as no contexto cultural brasileiro; quanto uma discussão mais pormenorizada sobre as tensões estabelecidas a partir de relações conflituosas com o espaço vivenciadas no interior das obras. Incorpora-se, portanto, o entendimento de que os espaços físicos refletem as hierarquias sociais e que pobres e ricos ou mulheres e homens, por exemplo, têm acesso diferenciado a diferentes locais. As implicações dessas relações com as múltiplas espacialidades contemporâneas na construção da subjetividade das personagens e as possibilidades estéticas da movimentação desses problemas serão um dos focos da análise abordados pelos/as participantes do evento.

Daniel Senise, Galician Center for Contemporary Art


PROGRAMA

SEGUNDA-FEIRA, 17 DE JUNHO
8h30 - Abertura
9h às 10h30   Mesa 1
Topografias literárias e mapas mentais: a sugestão de espaços geográficos e sociais pela literatura brasileira contemporânea, Georg Wink (Freie Universität Berlin)
Neurofisiologia & literatura brasileira contemporânea: os espaços de ativação das off-cells nas nossas retinas, Ricardo Barberena (PUC-RS)
Mediação: Anderson Luís Nunes da Mata
10h30 – Coffee break
10h45 às 12h15   Mesa 2
O espaço do sistema literário brasileiro contemporâneo nos “intercâmbios culturais transnacionais”, M. Carmen Villarino Pardo (Universidade de Santiago de Compostela)
Literatura em trânsito: edições, coleções e antologias entre o Brasil e a América Hispânica, Paloma Vidal (Unifesp)
Mediação: Luciene Azevedo
14h às 15h30   Mesa 3
No asfalto: trânsitos possíveis na narrativa brasileira contemporânea, Regina Dalcastagnè (UnB)
Superfícies impróprias: Ferréz e a figuração da paisagem metropolitana, Paulo Thomaz (UnB)
Mediação: Virgínia Maria Vasconcelos Leal
15h30 – Coffee break
15h45 às 18h15   Mesa 4
Espaço lilás: uma leitura queer da cidade literária em Elvis & Madona, de Luiz Biajoni, Adelaide Calhman de Miranda (UnB)
Homofobia em quatro recortes: experiência lésbica e violência em contos de autoria feminina, Virgínia Maria Vasconcelos Leal (UnB)
Mediação: Edma Cristina de Góis
18h15 – Lançamento do livro O futuro pelo retrovisor, organizado por Stefania Chiarelli, Paloma Vidal e Giovanna Ferreira Dealtry
TERÇA-FEIRA, 18 DE JUNHO
9h às 10h30   Mesa 5
Espaços (des)interditados: o lugar da mulher na narrativa de autoria feminina paranaense contemporânea, Lúcia Osana Zolin (UEM)
Itinerários de violência em A chave de casa, de Tatiana Salem Levy, Edma Cristina de Góis (UnB)
Mediação: Adelaide Calhman de Miranda
10h30 – Coffee break
10h45 às 12h15   Mesa 6
Sobre geografias literárias e mapas linguísticos na literatura contemporânea, Maria Isabel Edom Pires (UnB)
Espaços da clandestinidade na narrativa brasileira contemporânea, José Leonardo Tonus (Université Paris-Sorbonne)
Mediação: Stefania Chiarelli
14h às 16h   Mesa 7
Entre o livro e o corpo: Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo, Stefania Chiarelli (UFF)
O lugar da leitura e do leitor na narrativa brasileira contemporânea: expansão e delimitação do espaço, Anderson Luís Nunes da Mata (UnB)
Daniel Galera. Profissão: escritor, Luciene Azevedo (UFBA)
Mediação: Paulo C. Thomaz
16h – Coffee break
16h30 às 18h – Reunião de trabalho (restrita aos pesquisadores do grupo)
Leandro Erlich , Monte-meubles. L’ultime déménagement, 2012 .

QUARTA-FEIRA, 19 DE JUNHO – FORUM DOS ESTUDANTES
8h30 às 9h   Mesa 1                   
Crítica literária de gabinetes e literaturas a céu aberto, Bruna Paiva de Lucena (UnB)
O lugar da pulp fiction no campo literário brasileiro, Charles Dall’Agnol (PUC-RS)
9h às 9h30   Mesa 2
Literatura brasileira contemporânea no Rio Grande do Sul e incubadoras literárias, Milton Colonetti (PUC-RS)
Literatura brasileira em tradução: a trajetória de livros brasileiros traduzidos ao castelhano, Luciana Guedes (Universidade de Santiago de Compostela)
9h30 às 10h   Mesa 3
Márcia Denser revisitada, Igor Azevedo de Albuquerque (UnB)
A construção de um nome de autor: André Sant’Anna, Débora Molina (UFBA)
10h – Coffee break
10h20 às 11h10   Mesa 4
Quem fala no romance? Biografia e responsabilidade na prosa contemporânea, Igor Ximenes Graciano (UFF)
O depoimento como forma: biografia em Estive em Lisboa e lembrei de você, de Luiz Ruffato, Gabriel Estides Delgado (UnB)
Encontros e desencontros: a representação do outro na coleção “Amores Expressos”, David Raposo (UnB)
Narrativas híbridas em paralelo: um diálogo entre as obras de Valêncio Xavier e Jonathan Safran Foer, Fernanda Borges (PUC-RS)
11h10 às 11h50   Mesa 5
Os laços fantásticos da ficção contemporânea em autoras francesas e brasileiras: um estudo das obras Era meu esse rosto, de Marcia Tiburi, e Coração apertado, de Marie Ndiaye, Alessandra Pajolla (UEM)
Quem são essas mulheres? Distanciamentos e aproximações entre a representação das personagens femininas nas narrativas de Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, Pollianna de Fátima Santos Freire (UnB)
Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira: perspectivas e continuidades, Lígia Amorim Neves (UEM)
14h às 15h   Mesa 6: pesquisas do grupo em andamento
A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 2005-2014, Daniela Alves de Morais, Fernanda Serafim Alves, Nara Andejara Gomes do Vale, Vanessa Pereira Cajá Alves (UnB)
Mapeamento da personagem no romance sul rio-grandense contemporâneo: 1990-2014, Milton Colonetti (PUC-RS)
A personagem na literatura de autoria feminina paranaense contemporânea, Lígia de Amorim Neves (UEM)
Artefatos e experiência da exogenia, José Leonardo Tonus (Université Paris-Sorbonne)
15h às 15h30   Mesa 7
A estética da violência transnacional: tempo, espaço e velocidade em 2666, de Roberto Bolaño, Cecily Raynor (Georgetown University/UnB)
Para o bem da pátria: a representação da violência política em A novela de Perón e Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez, Luciana Medeiros Teixeira (UnB)
15h30 – Coffee break
15h50 às 17h10   Mesa 8
Diáspora, migração e movimento em Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo; e Lucy, de Jamaica Kincaid, Lorena Santos (UnB)
Representação da infância no romance afrobrasileiro: Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, Maria Aparecida Cruz de Oliveira (UnB)
Tranças, birotes e miçangas: a representação da menina negra na literatura infantil contemporânea, uma proposta de visibilidade e de letramento, Dalva Martins (UnB)
Por uma promessa de vida mais viva: relações afetivas das jovens negras no rap brasiliense, Andressa Marques (UnB)
I love quebrada: hip-hop e representação literária, Laeticia Jensen Eble (UnB)




domingo, 9 de junho de 2013

A babalaze de Amin Nordine

A poesia epigramática do Amin Nordine ou a Babalaze de Atirador das verdades.

Um poema assim é arduo
sem cola e na vertical
pode levar uma eternidade.
Armenio Vieira


                                                          Amosse Mucavele *

Amin Nordine nasceu em Maputo em 17 de fevereiro de 1969 e perdeu a vida em 5 de fevereiro de 2011. Autor de apenas 3 livros, o que não tem importância porque a literatura não se assemelha a uma competição onde quem publica muitas obras sai vencedor. Publicou Vagabundo Desgraçado (1996), Duas Quadras para Rosa Xicuachula (1997) e Do lado da ala-B.

Amin Nordine é militante de uma escrita sólida em todos os lados, seja o da ala-A ou da ala-B. Isenta de qualquer submissão política, caracterizada pelo inconformismo da realidade que o circunda e pela revolta social, esta poesia epigramática é a revelação de um fatalismo que voa em voo rasante sobre as angústias de um passado melancólico e de um presente envenenado. Como diz o poeta :

“E do futuro o que se espera? O futuro não será isto!… superlotada receita galgando o vento
com as mãos no coração do destino.”

O que é do lado da ala-B? O leitor descobrirá que está no lado mas vil de um jovem país com os seus problemas, e é neste lado em que reside o poeta solitário nas suas abordagens anti-heróicas, mas um poeta das multidões na sua mordacidade social, um verdadeiro maquinista do comboio dos duros, um autêntico vômito da babalaze de um poeta bebȇdo do seu dia-a-dia. Detentor de uma caligrafia rebelde com versos quentes como o fogo e cortantes como a espada afiada, onde eclodem temáticas de afrontamento de um certo tempo histórico (ex: carta ao meu amigo Xanana, banqueiros de banquetes, bandeira galgada aos 25, (c)anibalizinhos…)



Talvez o outro lado da ala destes poemas, não! Isto ultrapassa a dimensão poética, ou por outra destes melancólicos dissabores que despertam os filhos desta pátria que nos pariu, deste manancial de barbaridades versus mentiras que transformam o sonho de estar livre da opressão em um pesadelo. Não será esta a voz do povo?

Estes melancólicos dissabores são a polvóra contida na “Bala” (ala-B) desta poesia que o autor preferiu chamar de “arma da victória” que dispara a(s) bala(s) certeira(s) onde a cada estrofe vai abatendo o seu alvo. Daí nasceu este livro embrulhado de crítica social.

A título de exemplo, o poema “Barbearia dos cabrões”

queixo barbudos engravatados
barbearia dos cabrões
que deixa todo chão careca
e ao alto mastro hasteiam bandeira
para desfraldarem o corpo nu do povo…’’


A brevidade é um estilo que contém o necessário para manifestar a realidade (Segundo Zenão). Esta brevidade encaixa-se na poesia do A.Nordine na qual se nota uma presença massiva de traços intertextuais da obra do poeta Celso Manguana, cidadãos da mesma esquina (ambos foram jornalistas culturais do Semanário Zambeze), guerreiros da poesia epigramática e soldados da mesma trincheira. O Amin Nordine exilou-se na morte, o Celso Manguana exilou-se na loucura das ruas desta cidade, e eu procurarei exilar-me na memória destes dois poemas:

Sonâmbula esta pátria
cresce nas estatísticas
e acorda com fome
custa amar uma bandeira assim?
tem o amargo do asilo
almoço de pão com badjias
sabem bem todos dias.
(“Aos meus pais”, Celso Manguana in Pátria que me pariu, 2006, p.14)

Se por tanto tivesse ser capaz
moça-pátria deste amor que refrega
seja o meu coração a minha entrega
escrever-te a cerca duma paz
e alto levante-se da vez que nega
não é para o povo o discurso assaz
nenhum político, milagroso ás
é tamanho o sofrimento que chega!
para o povo aumentem um quinhão
venha do vosso governo mais pão
burilada a página da história
apagar a sua triste memória
fazemos o país livre da escória!!!”
(A.Nordine. “Soneto da paz”, in Do lado da ala-B, 2003, p. 50)





Amosse Mucavele nasceu em  Maputo aos 8 de julho de 1987,vive em Maputo. É membro fundador do Movimento LiterárioKuphaluxa e um dos editores da revista Literatas;É colaborador do Pavilhão Literário singrando horizontes - Academia de Letras do Paraná e outros blogs e jornais.