domingo, 28 de abril de 2013

Um dedo de prosa com Julián Fuks


Um dedo de prosa com Julián Fuks

Julián Fuks concedeu uma entrevista ao Blog Etudes Lusophones onde ele comenta a sua última obra Procura do romance que nasce de um questionamento acerca da impossibilidade de renovação estética na contemporaneidade. Para Alcides Villaça, este texto inscreve-se na tradição agônica da ficção moderna  em que literatura se mira num desafiador espelho critico  do simulacro. Assistam ao video no link : O romance dos fracassos.

Num segundo vídeo, Julián Fucks apresenta e comenta a produção romanesca  do escritor Ricardo Lísias. Video : Ricardo Lisias

Consultem o audio da participação de Julian Fuks na jornada consagrada à literatura brasileira contemporânea organizada pelo Departamento de Português na Universidade da Sorbonne e que contou com a presença dos escritores Julian Fuks, Luciana Hidalgo e Carol Bensimon.  Link : Trois parcours Littéraires. 


Um pouco de leitura

Procura do romance

Agora está caminhando em meio àqueles lineares amontoados de papéis e capas, e é como se suas pernas se dobrassem ou encolhessem, seu tronco de chofre mirrasse, e ele voltasse a ser o menino acanhado que alguma vez seu pai levou a um desses lugares. Será lembrança, resignificação ou retorno do traumático, o caso é que consegue sentir como nunca desde então a prosternação que lhe provocavam todos aqueles volumes empilhados. É fácil entender que o garoto buscasse com mais renitência a mão do pai diante da imponência daquele espaço desconhecido, tão fácil quanto presumir e respeitar que se visse desamparado nas tantas vezes em que o outro se desvencilhava. Para alguém que acabara de aprender a possibilidade de juntar as letras e formar sílabas que ficassem registradas, que apenas começava a intuir o poder de conformidade e deformação de cada relato e de cada frase, devia ser inquietante e assustador aquele oceano de ondas que eram páginas, aquele celeiro de monstros vários, selados, imperscrutáveis. E tanto faz se nos primórdios chegara a essas imagens; a questão é como aceitar que se veja em situação de igual desamparo neste instante tão longínquo no curso do tempo? Como compreender que suas pernas se ponham a tremelicar tal como as do menino ingênuo consumido pelo medo?
Agora está caminhando em meio àqueles lineares amontoados de papéis e capas, e cada um de seus passos parece ter de ser calculado, como se o corpo de um momento para o outro desconhecesse a sucessão de automatismos tão necessária. Há algo na infinitude das páginas que o cercam, algo em sua natureza eternamente insondável, que continua a açodar seus gestos e a mantê-lo, mesmo adulto, intimidado. Como saber o que deve ser escrito, como adivinhar o que não está estampado e proscrito, se a totalidade daquelas letras será para sempre, e para todos, indevassável? Como pode o escritor liberar-se das amarras de uma tradição que jamais lhe será por inteiro revelada?
Não, o melhor é que não se proponha nenhuma dessas questões, que saiba camuflar-se entre os livros como se camuflou entre os passageiros do ônibus uns tantos minutos atrás, que releve esse mundo de frases que, no fundo, são demais, que saiba agarrar a si mesmo pelos ombros e despejar-se sempre à frente pelos corredores de uma biblioteca, pelas calçadas, pelos cafés e nos espaços abarrotados, sobretudo nos espaços abarrotados, que compreenda por fim que ninguém se importa nem um pouco com o que ele faz ou desfaz, que ignore os resquícios confusos do menino que não, não é mais, e que teimam em assediá-lo toda vez que está em vias de perder o fino trato de sua disposição racional, que vá se levando pé ante pé para fora daquele lugar, que faça um breve aceno de cabeça para o livreiro e que esse aceno tenha a aparência do normal, que esqueça, ao menos por ora, que alguma vez meteu-se em um sebo da calle Corrientes e pôs-se a imaginar uma cena em que um personagem imagina um personagem que transita em meio aos livros, nada frugal, e aos poucos se deixa acometer pela opressão e pelo mal-estar.

Alguns links....

Entrevistas

Programa Entrelinhas. Versão estendida de matéria exibida no Metrópolis, na TV Cultura, no dia 21/03/2012.

Série 'autores' do projeto Tertúlia - Encontros da Literatura, fala sobre James Joyce. Transmissão ao vivo 17/9/2009, do SESC Pinheiros.

“A literatura se faz sobre bases instáveis", por Diogo Guedes, in Jornal do Commércio, 24/01/2012.

Resenhas  e estudos

Isis Milreu , “Ficção e biografia em “Borges”, de Julián Fuks”, in : Revista Rascunhos Culturais, Coxim/MS, v.1, n.2, p. 105 – 118, jul./dez.2010,

Júlio Pimentel Pinto, “Histórias de literatura e cegueira, de Julián Fuks”, 15 abril 2008.

“A cegueira segundo Julián Fuks”, entrevista publicada no dia 24 de agosto de 2011 no Diário de Pernambuco.

“Procura do romance”, por Rodrigo Casarin, 22 de dezembro de 2011.

Busca infinda : Romance de Julián Fuks parte do microcosmo do escritor para discutir sentimentos e frustrações, por Maurício Melo Júnior, in Jornal Rascunho, Abril de 2012.

« Em seu novo livro, Julián Fuks faz paralelo entre ficção e realidade”, in Correio Braziliense, 7/02/2012.

Textos do autor
“Caro Rodrigo”, in Jornal rascunho, Julho de 2009

“Confesso que vivi”, in Bestiário.com.br ( Revista de contos)

Capítulo do romance  Procura do romance, in : Jornal rascunho.


quarta-feira, 24 de abril de 2013

A arte : uma arma carregada de futuro

LUXÚRIA SOCIAL

Entrevista com o artista português Menau

Mickaël Cordeiro de Oliveira (*)

Foi através de um vídeo viral no Youtube que conheci o artista Menau e a sua agora famosa Forca de Portugal. Ao ver num telejornal que ele tinha sido acusado de “injúrias aos símbolos nacionais”, debrucei-me sobre a sua obra e quis saber um pouco mais a respeito deste artista contemporâneo originário de Quarteira, no Algarve.

Explica-nos um pouco o teu percurso e porque é que escolheste a arte para te exprimires?

Desde que me lembro, sempre estive ligado às artes. Passava dias afim a desenhar, a criar personagens, mas o meu percurso desenvolveu-se mais a partir de 1998 por meio da Arte de rua e do Graffiti. No ano 2000, ingressei no Curso de Artes da Escola Secundária Dr.ª Laura Ayres em Quarteira e em 2001, juntamente com Nuno Viegas, fundámos o coletivo de artistas Policromia. Depois formei-me profissionalmente em Design e Comunicação em 2003. Em 2008, fui convidado a integrar o coletivo artístico internacional Vapors. Em 2009 iniciei a licenciatura em Artes Visuais na Universidade do Algarve, a qual conclui em 2012. No mesmo ano fundámos a Policromia Associação Cultural e ingressei no coletivo artístico Tira Nódoas, um projeto que junta a música com as Artes Plásticas e o coletivo Senau entre mim e o artista olhanense Sen. Basicamente, não fui eu que escolhi as artes para me exprimir, foram elas que me escolheram a mim. Agora, só tenho de a exprimir à minha maneira !

A partir de que momento é que pensaste que devias transmitir com as tuas obras uma mensagem política e social ?

Surgiu naturalmente. Ao ver e sentir muita incompetência política na minha cidade... A princípio comecei por falar diretamente com eles como deve ser, mas ano após ano, via que as minhas palavras nos ouvidos deles eram certas mas insignificantes para eles mudarem alguma coisa. Foi então que comecei a transmitir as mesmas mensagens nas paredes da cidade para toda a gente ver. Como as mensagens eram ouvidas, as pessoas identificavam-se, falavam e mais cedo ou mais tarde chegavam aos ouvidos dos nossos políticos. E como eles não gostam muito de ficar mal na fotografia, acabam por ter uma reação a uma Ação ! E a partir disso as minhas obras políticas e sociais começaram a crescer, a evoluir para outros temas e patamares.

Os destroços aparecem muito nas tuas obras, o que significam para ti ?

Os “DESTROÇOS” basicamente são desenhos no espaço, usando espaços destruídos e abandonados pela sociedade, adicionando-lhes mais alguma informação, estimulada pela imaginação. Através deles, tento também estimular o observador para que ele imagine as suas próprias imagens nos seus próprios espaços de forma a criar novos ambientes com poucos recursos.

OPRESSÃO ARTISTICA
Existe alguma ligação entre « E tudo o vento levou » e « a arte é uma arma carregada de futuro » ? A invisibilidade judiciária do homem que rouba, a invisibilidade ou a falta de reconhecimento do homem que cria, que denuncia, que é calado ?

A ligação entre essas obras existe mas só a percebe quem tenta analisar a obra por completo de um artista e reflete sobre o assunto. Porque normalmente, as obras são feitas em datas e locais diferentes, quase sempre na rua, o sítio perfeito para abordar o espetador. Mas ele poucas vezes tenta refletir na obra e no porquê daquela peça estar naquele local, muito menos se não estiverem juntas.“E TUDO O VENTO LEVOU” é uma obra que encaixa na imagem geral do País, mas foi elaborada com um prepósito muito mais pequeno e direto. https://www.youtube.com/watch?v=Rc1ASVregkE

E TUDO O VENTO LEVOU

“A ARTE É UMA ARMA CARREGADA DE FUTURO” é a mais pura das verdades, a Arte pode ser usada de muitas formas e com várias funções. Na ligação destas duas obras podemos ver como a arte pode denunciar ladrões, e por outro lado, se ninguém ligar ao que a Arte diz, qual é futuro ?!

A ARTE É UMA ARMA CARREGADA DE FUTURO
Dizes que « as pessoas têm medo da liberdade, por ela ser boa demais para todos. » Por quê?

A obra “PERCEÇÂO ACORRENTADA” explica um pouco isso.
É simples : as pessoas vivem de medos impostos pela sociedade ao longo de centenas de anos, o que faz que as pessoas nem se apercebam que estão presas...
Não conseguem ser livres não por não quererem, mas sim porque nem conhecem a liberdade dentro delas !
Mas isso é fácil de analisar : basta saires de casa, ires ao café ou dares uma volta ao quarteirão e vês logo muitos casos desses, uma imagem vale mais que muitas palavras !

PERCEÇÂO ACORRENTADA

Desse grito de injustiça que existe hoje em dia, nasceu o Supertuga, o utópico. Quais são os seus desejos (se ainda os tem…) ?

Bem, o “SUPERTUGA” é um sonhador verde cheio de esperança e o seu caminho ainda é muito longo. O seu desejo é continuar a lutar pelo Povo, pelo País, pela Arte, pela Cultura, por mais Super-heróis Portugueses na esperança que as pessoas se apercebam que todos unidos somos mais fortes.

SUPERTUGA

Como surgiu a ideia de « A Forca de Portugal », como é que isso te veio a cabeça ?

A “FORCA DE PORTUGAL” surgiu em abril de 2012 para a apresentação de final de curso de Artes Visuais da Universidade do Algarve onde tive de elaborar um projeto de Arte para o público. E claro, não havia nenhum sítio melhor que um espaço público, onde normalmente já costumava intervir.
Queria elaborar uma peça que retratasse o estado do País. Para tal, o que há de melhor que os símbolos nacionais para o retratar ? O País estava mal como ainda continua, todas as pessoas a passar sufocos e tudo mais. A inspiração veio daí. E depois “puff”; como todas as outras ideias, veio do nada e sem avisar.
E foi assim que se criou este alerta de consciências sobre o estado do País.

PORTUGAL NA FORCA” já foi o conjunto da minha instalação inserida num videoclip da banda a que me vim a juntar depois, os Tira-nódoas, onde juntamos as artes plásticas e muita mensagem política musicalmente, a forma perfeita para chegar a todas as pessoas.


A FORCA DE PORTUGAL

Diz-me qual foi o feedback… as consequências dessa obra.

O feedback de todas as pessoas tem sido excelente, todas as pessoas falam sobre, gostaram, apoiaram e muitas juntaram-se à causa.
As consequências : uma acusação de crime por parte do Estado por injúrias contra símbolos nacionais.

Achas que o facto de ela ter aparecido num videoclip de rap participou no processo de descredibilização do seu cariz artístico (por parte da comunicação social / políticos ) ?

Acho que não descredibilizou, pelo contrário, acho que ainda deu mais valor à obra e ao grupo que adaptou esse método para todas as suas músicas. A música é por si só já um elemento artístico muito grande, juntado às artes plásticas e ao multimédia, temos os condimentos perfeitos para atingir o que pretendemos, dinamizar a Cultura da melhor forma possível para o máximo de pessoas !

Hoje, qual é a tua situação judiciária ?

Atualmente à espera de um julgamento por crime de injúrias aos símbolos nacionais. Mas derivado à exposição do caso, no videoclip de Tira Nódoas, que teve milhares de visualizações no Youtube e posteriormente na televisão pública, tenho um reconhecido advogado de defesa para me defender gratuitamente no processo jurídico.

E a tua situação artística, a tua obra enquanto Menau acabou mesmo com o « último desejo » ?
Não, a minha situação Artística continua na mesma depois do “ULTIMO DESEJO.” Esse foi só mais um trabalho artístico, para uma revista online a ST.ART onde os artistas que participaram nela tinham de escolher um dos 30 temas cedidos. E eu acabei por escolher o tema "Imagine a sua própria morte".
FOTO
ULTIMO DESEJO

A fotografia onde apareces enforcado com a bandeira portuguesa fez-me pensar numa coisa : se te tivesses enforcado mesmo a sério, com a bandeira portuguesa, achas que os que chegariam ao local iam em primeiro lugar pôr a bandeira nacional como deve ser ou tentar libertar-te ?

Se falarmos no local exato onde fiz esta instalação, uma propriedade privada minha, certamente que as primeiras pessoas a chegarem ao local seriam familiares e nunca se iriam preocupar com um bocado de pano vermelho e verde feito na China. Mas se fosse noutro local, aí já não posso dizer nada ! Parece que a nação portuguesa se preocupa mais com um pano do que com uma vida humana.
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Muito obrigado!

Por fim, gostaria de agradecer pelo interesse que minha obra despertou e pela realização desta entrevista, muito obrigado ao Mickael Oliveira e toda a equipa e uma saudação a todos os lusitanos no estrangeiro. Deixo aqui o meu site e o do meu grupo artístico para quem tenha ficado com alguma curiosidade.
www.menau.com / www.policromia.org 

Também nos podem encontrar pelo Facebook em :


Menau



(*) Mickaël C. de Oliveira nasceu em 1989 nos subúrbios parisienses. Mestre em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade Paris Sorbonne (Paris-IV), sempre teve como objetivo principal a divulgação das artes portuguesas, mas, sobretudo, a promoção de artistas emergentes ou simplesmente não conhecidos. Consultem suas outras matérias na rubrica "Culturas Urbanas".

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Le toit et le violoniste

Marc Chagall, Le violoniste bleu, 1947

Le toit et le violoniste

Não há escolha: estamos presos ao livre-arbítrio
I. B. Singer

Sale juive!
Moi, qui ne m'étais jamais vraiment rendue compte de qui j'étais − parce qu'une petite fille de neuf ans n'a que neuf ans −, je suis devenue d'une minute à l'autre juive mais aussi sale − la rage qui sortait de la bouche de Paula rendait les deux mots équivalents. Je suis restée là, immobile, figée, à regarder la petite fille qui soudain avait une voix si catégorique qu'elle ressemblait à celle de la vérité. Sans le savoir, elle et moi, nous obéissions aux anciennes traditions. C'était un savoir inné chez les gens mauvais. La haine brillant au point de siffler au tréfonds de ses yeux noirs, Paula répéta l'injure, d'une voix traînante, en la scandant :
- Sa-le-jui-ve !
C'est alors, qu'au fond de moi, pour la première fois, s'ouvrit une violente blessure, saignante, une hémorragie de rage et de souffrance trop grande pour l'esprit d'une petite fille. Et l'enfant que j'étais trouva encore la force de prendre une posture insolente, les deux mains à la taille, et eut encore l'instinct de rétorquer :
- Et toi tu es une imbécile. Et une idiote.
Voilà, j'obéissais tout comme elle aux anciennes traditions - selon ma loi du talion, être imbécile et en plus de cela être bête c'était pire qu'être sale. Et la fureur avec laquelle je l'insultai inaugurait en moi un nouveau sens pour la vérité, celle dont moi aussi je pouvais être l'auteure.
Je ramassai la poupée qui était par terre, elle était décoiffée. Je peignai de mes doigts sa frange toute blonde, toute symétrique. Cela me blessait que ma Suzi soit l'innocent point de départ d'une dispute. Je tournai le dos à Paula et sa sale maison en bois peinte en bleu, puis je gravis deux par deux les marches de la résidence. Je poussai avec rage la porte de service de notre appartement qui était toujours ouverte.
C'était elle la sale. Et toute sa famille. Et ses enfants, ses petits-enfants et les arrière petits-enfants qu'elle aurait un jour.
Depuis le décès de mon grand-père et depuis qu'elle était venue habiter avec nous, sa pose était toujours la même, quoi qu’elle fît. Assise sur le bord du canapé, les pieds parallèles, le coude sur le genou, le menton posé sur la paume de la main.
Pendant ces heures-là, le regard de ma mamie se perdait au loin, ses yeux bleus ne bougeaient plus, ils étaient fixes, comme quelqu'un qui se remémore des souvenirs fossilisés depuis des lustres. L'immobilité de ces instants était toujours entrecoupée par un long, long soupir qui se finissait par un "Oi, veis is mir", la lamentation des Juifs dans tout l'univers. "Pauvre de moi" se plaignait-elle. Comme tout cela était triste.
Dans le salon, je la trouvai dans la même position, s'arrêtant dans une lamentation qui remontait à des temps anciens. Je me suis assise à côté d'elle sur le canapé. J'ai fait la moue pour lui raconter
-      Mamie on m'a traitée de sale juive.
Elle qui n’avait jamais connu la perte d’un objet précieux me regarda étonnée.
- Qui ça ?
« Qui » était une question au sens large. Elle pouvait aussi bien signifier « pourquoi ?». Je répondis, encore meurtrie, que Paula, la petite fille qui habitait au numéro 304, voulait que ma Suzie soit la bonne lorsqu’on jouait à la poupée. Grand-mère qui flairait de loin les dispositions hiérarchiques mal intentionnées, proféra une insulte en yiddish. Elle dit doucement pour que je comprenne :
- Tu es la petite fille la plus propre de la planète, c’est elle qui est mishigne. Tu as compris ?
Selon mamie Paula était folle – dit dans son ancien dialecte, l’insulte avait plus de force. Le monde venait de se réorganiser, les terribles histoires que j’avais toujours entendues prenaient tout leurs sens. Serrant ma Suzi dans les bras je posai ma tête dans le giron de ma mamie, respirant le parfum de la petite fleur de jasmin – la petite attention que la propriétaire de la maison d’à côté lui offrait tous les matins et que, coquette, elle gardait toujours dans son soutien-gorge.
Elle passait ses doigts noueux dans mes cheveux, aussi bouclés que les siens : elle faisait et défaisait une tresse à partir d’une mèche bien séparée. Je devinai à ses soupirs répétés qu’elle était angoissée – au point qu’elle raconta à nouveau cette histoire de cosaques à cheval armés de sabres. Il aurait mieux valu que je ne lui racontasse pas notre dispute : la pauvre, cela lui rappelait de douloureux souvenirs. Je ne voulais pas qu’elle souffre.
Moi aussi je faisais et défaisais une tresse dans les cheveux de Suzi. En un soupir qui interrompit la tendresse que je portais à Suzi, j’étais le reflet de ma mamie : je détestais autant Paula que mamie détestait les cosaques.

Extrait de "Le toit et le violiniste" de Cintia Moscovitch
in Arquitetura do arco-íris

Traduit du portugais du Brésil par les étudiants de la 1ème année LLCE - portugais avec l'appui de Fernando Curopos.

Lisez   la nouvelle  de Cintia Moscovich en portugais sur le website de l'écrivain :  Cintia Moscovich

Consultez  l'interview de l'écrivain pour le blog Etudes Lusophones sur le lien : Um dedo de prosa com Cintia Moscovich

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Trafiquants et terroristes littéraires


@Yara Haddad
Trafiquants et terroristes littéraires

Mickaël C. de Oliveira (*)

Le vendredi 22 mars, les écrivains de la nouvelle scène littéraire brésilienne Rodrigo Ciríaco et Ferréz étaient pour la première fois invités en France. Passés par l’Université de Poitiers, l’Université Paris-Sorbonne, et présents au salon du livre, le LusoJornal a eu la chance de les rencontrer à la Sorbonne, lors d’un atelier d’écriture organisé par le professeur Leonardo Tonus et l’éditrice Paula Anacaona. Au cours des deux premières heures, les deux auteurs ont donné quelques conseils aux étudiants avant de se lancer dans l’écriture : ne pas écrire dans l’optique de pouvoir vivre un jour de ses écrits, ne pas faire attention aux critiques venant de proches ou de la famille sur sa façon d’écrire, penser avant tout à capter le lecteur dès les premières lignes, les premières secondes et surtout, penser au rythme, à la vitesse de l’écriture


@Yara Haddad

Ils ont également beaucoup insisté sur le fait que l’Université n’est pas une nécessité lorsque l’on désire devenir écrivain… De là ont également découlé les autres thèmes de ces deux auteurs de la périphérie de São Paulo, l’un professeur, poète, slammeur (R. Ciríaco) qui ose même le sweat Sou Traficante en plein salon du livre, l’autre se disant Terroriste littéraire (Ferréz), et n’hésitant pas à dépeindre un portrait très lourd de la société brésilienne, notamment des écrivains dits « majeurs », complètement déconnectés de la réalité du pays, de leur quotidien à eux, qu’ils soient professeur ou leader communautaire d’une favela de São Paulo. Ciríaco a d’ailleurs souligné sa volonté d’utiliser l’écriture et la poésie à bon escient, comme une catharsis, comme pour faire partager les blessures qu’il a enfouies en lui, pour mieux s’en défaire, s’en éloigner. « Un livre doit être la hache qui brise la mer gelée en nous », citera l’écrivain rappelant Kafka. 


@Yara Haddad
Mais c’est véritablement dans la dernière partie de la conférence que les choses vont prendre une autre tournure. Exits les conseils d’écriture, donnés assis sur une chaise, calmement, comme si tout était rose au Brésil. Après la pause repas, en effet, une énième remarque de Ciríaco énerve pour de bon Ferréz. Il se lève, monte les escaliers de l’amphithéâtre furieux, en direction de la sortie, sous les yeux désespérés de son éditrice Paula Anacaona. Comme elle, tout le monde est tombé dedans. Avant que le masque ne tombe enfin, Ferréz prenant la parole et déversant toute sa haine dans la salle, déconnecté de la réalité, de la nôtre, obsédé par la sienne, sa réalité. Ils le mentionneront d’ailleurs plusieurs fois pendant la conférence : Paris c’est bien, mais leur tête est là-bas. Comme dans toutes les battles, Ciríaco refusera de rester de marbre et répondra « com a mesma moeda » à son adversaire d’un soir. « Eu vendo pó, pó, poesia. » Il racontera ensuite qu’il a à plusieurs reprises été embêté par la police lors de la Foire Internationale du Livre à Paraty (FLIP) après avoir récité cette poésie… 


@Yara Haddad

D’un côté comme de l’autre, rien n’est tabou : on vise les professeurs et étudiants présents dans la salle, on leur tire dessus, on reprend les gestes du trafiquant, et on les rend poétiques. Parce qu’au fond, la poésie sert aussi à dénaturer la violence du quotidien, à la déconstruire pour mieux la rebâtir. Le rythme, la tension, tout était là. La salle est conquise malgré quelques sursauts. Elle n’a qu’une hâte, courir acheter les livres de ces deux poètes modernes, disponibles en français et en portugais, sur le site internet des Editions Anacaona (http://www.anacaona.fr). A la Sorbonne en tous cas, des conférences comme ça, on en redemande…

Texte publié dans Lusojornal : 03 avril 2013

Consultez les autres articles de Mickaël C. de Oliveira sur le lien : Culturas Urbanas.

Photos réalisées par Yara Haddad - étudiante en 2ème année de portugais LLCE - Université Paris-Sorbonne.

sábado, 13 de abril de 2013

Um lugar para se perder


Rencontre avec l’écrivain

Alexandre Staut


Le jeudi 18 Avril à 16h30
Salle 223

Université Paris-Sorbonne
Centre Clignancourt
2, rue Francis de Croisset/ 75018 Paris
Métro : Porte de Clignancourt


Alexandre Staut nasceu em Espírito Santo do Pinhal (SP) em 1973. Jornalista, já trabalhou como cozinheiro na Inglaterra e na França (em Brest, Tours e Arromanches-les-Bain). Ministrou oficinas de haikai na Oficina Cultural do Estado de São Paulo (Bauru/SP). É roteirista do documentário “O anjo da guarda de Caio F.” e autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toada Edições/2010) e Um lugar para se perder (Dobra/2012). No momento, trabalha em seu terceiro romance, num livro infantil e numa peça de teatro que está sendo escrita para a atriz cubana Phedra de Córdoba.

Um lugar para se perder

O protagonista deste segundo romance do escritor e jornalista Alexandre Staut é um homem conformado à rotina do trabalho anódino, em repartição pública, e à vida numa cidade provinciana, mesquinha. Enredado no cotidiano sem perspectivas, resta-lhe a companhia dos livros que retira na biblioteca municipal e contemplar o movimento das ruas, as conversas que se perdem no cotidiano, fofocas que se multiplicam como poeira, sempre a partir de um banco de praça.
Desenhar mapas e planejar viagens imaginárias não o conforta, mas só amplia a angústia sem remédio, que aos poucos vai corroendo seu espírito, minando os gestos mecânicos e o convívio apagado com colegas de trabalho, espremidos “em relações cordiais, quase matemáticas”, tão estranhos como os passantes que cruzam aleatoriamente seu caminho.
A situação desse personagem arredio, ensimesmado, muda inesperadamente com um encontro, na mesma praça onde costuma se refugiar. O homem acabara de deixar o asilo da cidade e queria uma informação de passagem, algo sem a menor importância. A curiosidade, no entanto, os aproxima e o narrador se vê capturado pela história do outro, por seus descaminhos, o corpo macerado por experiências dolorosas, a voz entrecortada pelas tragadas no cigarro de palha.
Superado o primeiro momento de rejeição, aquela figura misteriosa, esquisita, revelará segredos da pequena cidade, ocultos sob o manto tranquilizador da hipocrisia. O que parecia um encontro fortuito, torna-se um momento intenso de descobertas e transformações para o narrador. O contato e o confronto com o outro trará uma nova maneira de ver a si próprio e à existência enraizada naquela cidade.
Muitas são as provocações do escritor Alexandre Staut com esta narrativa envolvente e inquietante. A começar pela crítica ao comportamento acomodado e passivo de um cidadão comum, incapaz de virar o jogo da mesmice e assumir seu papel de sujeito. Por outro lado, está o desnudamento de uma sociedade conservadora, típica do interior brasileiro.
Como nas cidades fictícias de grandes autores latino-americanos – Juan Rulfo, Gabriel García Márquez, Juan Carlos Onetti – também ocorre neste universo aparentemente tranquilo idealizado por Staut a representação de nossas mazelas e belezas.

Reynaldo Damazio

terça-feira, 9 de abril de 2013

Desentupindo a ordem


Desentupindo a ordem

Elvira Vigna

Tem um castigo pra quem lê/vê arte/literatura para passar o tempo, se "divertir" (sempre lembrando que só aí a pessoa já devia desconfiar de que está fazendo besteira: "divertir" na verdade quer dizer divergir, ir contra). O castigo é que você morre.
Quem fala disso melhor do que eu é o Cortázar.
Rápido resumo do conto "Continuidade dos parques"[1]:

Um cara rico quer relaxar dos negócios pegando um romance para ler. Senta em uma poltrona que tem encosto para a cabeça e é de veludo verde. Há uma vista para um lindo parque de carvalhos. A porta está longe de sua vista e é o marco entre a fruição de seu prazer e seus aborrecimentos. Tudo está ótimo. No romance que ele lê, dois amantes tramam a morte do marido da mulher.
Sim, o assassinado será ele. Será - em vez de é - porque Cortázar interrompe a narrativa antes da punhalada fatal. Mas ela é inevitável.
E é inevitável porque o cara não se reconhece no romance que lê. E que traz, no entanto, a descrição exata do parque que ele vê da janela, da casa que ele habita, da poltrona em que ele está sentado - e do seu perfil psicológico de homem ligado em dinheiro, desligado de afetos.
Ele morre porque não se reconhece no que lê. Lê, não para se desestabilizar como sujeito e, através de dúvidas, se reinventar sem parar. Não. Ele usa a literatura (podia ser a arte) para, pelo contrário, se confirmar, se assegurar dele mesmo e de suas escolhas. Morre enquanto sujeito, agente, de sua vida. Aliás, está morto antes de o conto começar. E está morto por não interagir com a criatividade - dele e a da arte a ele oferecida. Por achar que aquilo não tem nada a ver com ele.

É o problema de nossa época. Ou, como sou obscenamente otimista, de uma época que está acabando.
Há estratégias.
A principal é a do vazio. Funciona mais ou menos assim: ah, você quer se divertir (e nem sabe o que quer dizer "divertir")? Então, toma. Não tem nada aqui.
E agora, o assunto deste texto: as fotos de Natália Canto Ferreira. Ou Nati Canto, que é como ela se assina. Mas tanto faz, porque você nunca ouviu falar dela. É uma jovem fotógrafa para quem o MIS-SP abriu espaço na primeira edição de 2013 do seu programa "Nova Fotografia".
Primeiro, é tudo bem grande e branco. Então, é uma continuidade, não de um parque de carvalhos, mas de paredes brancas mesmo. Também serve. E segundo, não tem nada lá. Não tem quem fotografe, não tem quem seja fotografado. E aí você se pergunta se tem quem veja a fotografia. Depois de uma desestabilizada básica em que você muda de perna de apoio, chega-se à conclusão (ou pelo menos, eu cheguei) que, sim, tem quem veja a fotografia. Um eu, afinal. Borrado, fora de foco, precisando urgentemente arranjar algo para fazer (ninguém parece se empenhar em nada muito produtivo, nada que faça muito sentido, ali nas fotos), mas tem. É um eu desarvorado, olhando em torno para se situar, sem saber que está sendo fotografado. Aliás, não está.


As fotos são feitas com a intermediação de um desentupidor de pia entre lente e registro da impressão da luz. Não é a Natália quem fotografa. É um desentupidor de pia. Sabe a estética das câmeras de segurança de ruas e caixas eletrônicos? Aquele vazio por horas a fio, aí aparece um cara de costas irreconhecível, a imagem granulada, foco zero, e teu coração bate porque você sabe que é algo importante, que é um "você" que afinal surge, ainda que no modelito monstruoso: o assassino, o assassinado, a testemunha desaparecida, aquele que escapou por um fio do desabamento, aquele que vai morrer na explosão. Ou apunhalado daqui a um segundo.
É isso. O silêncio das câmeras de segurança e da estética do vazio de Nati Canto é um berro. Ei, é com você, a coisa, acorda.
 Câmeras de segurança fazem imagens em PB. Nati Canto e seu desentupidor de pia fazem (não fazem) em cor. Cor berrante, que aparece no meio do nada branco que dá continuidade ao nada branco em que você vive. Quase monstruosas, as cores. No sentido gótico, não realista. No sentido do maneirismo que balança (ainda bem) certezas pré/pós-renascentistas e de outros fins/inícios de épocas ou séculos. E você aparece naquele branco todo sem de fato pertencer ao ambiente. De repente, tchum, você olha em volta, você apareceu lá. É um surgimento, não um pertencimento. Tem um estremecimento ainda, do terremoto da ruptura que acaba de acontecer.


Outra coisa: a distância. É bacana isso. Depois de ficar míope de tanto olhar de perto objetos e mercadorias, você levanta a vista: o mundo é grande, tem pouca coisa, você cabe dentro dele e nada te pertence de fato. Essa sacada não é minha, é da artista. Ela diz isso num vídeo.
Veja lá:

Por falar em internet, o conto do Cortázar também está disponível. Leia lá: http://www.literatura.org/Cortazar/Continuidad.html

Voltando.
Ou melhor, dando continuidade aos espaços: o enorme, vazio e onde você cabe, que é a internet e esse aqui, de um texto onde você também cabe. Falávamos do gótico, do maneirismo que há nas mudanças de todas as épocas.
Não se engane. Todos os vampiros são um processo em andamento contra a ordem estabelecida, por mais que Hollywood os castre e os imobilize em best-sellers. Todos os vermelhos berrantes no meio do nada de Nati Canto são sangue. O teu. Realidade e mundo, aqui, são exercícios perenes de construção, seus sistemas são dinâmicos e abertos e tua presença neles é performática. Sem centro e borda, sem tempo linear a acabar num horizonte que não é mais um horizonte, mas uma ponte para outro espaço, eis você. Nesse surgimento como sujeito, a ser atuado e reatuado sem parar, você olha para a desordem com outros olhos. Desordens, e seus desentupidores ocasionais, estão aqui trocados. Desordem é parte fundamental do existir. E o desentupidor desentope a ordem, não a desordem. O lixo que precisa sumir para que a água flua é a ordem.


Não é pouca coisa. Tolerância foi a grande ausente do século que acabou. Você é intolerante quando aceita e faz parte de uma ordem estática. O gótico nas cores e nas figurinhas/cores estranhas das fotos de Nati Canto diz que você não só pode existir, ali, inútil ou esquisitíssimo, como pode conviver, em um mesmo espaço, com cores inesperadas e sem sentido, e que isso não é um problema.
É só não achar que você está aqui para se divertir com algo que nada tem a ver com você. É só não sentar na poltrona de veludo verde.

Elvira Vigna
Abril de 2013

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora :

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos. Confiram no link: Um dedo de prosa


[1] Cortázar, Julio. “Continuidad de lo Parques” in :  Final del Juego. Cuentos completos. Vol 1. México:  Argentina, 1996.