sexta-feira, 29 de março de 2013

Literatura brasileira e alteridade animal

Ana Elisa Egreja, Ritz e Cildo, 2009

Conférence avec

Maria Esther Maciel
Professeur à l’Université Fédérale de Minas Gerais

Literatura brasileira e alteridade animal

Le mercredi 03 Avril  2013
De 11h30 à 12h30
Salle 13

Université Paris-Sorbonne
Institut Hispanique
31 rue Gay-Lussac
75005 Paris



Como o animal se inscreve na literatura moderna brasileira? Como alguns escritores brasileiros lidam, a partir do séc. 19, com as relações paradoxais entre viventes humanos e não humanos, humanidade e animalidade? Pretende-se, a partir dessas questões, investigar a presença dos animais em narrativas selecionadas de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e João Alphonsus, com o propósito discutir as diferentes formas como esses autores trataram a questão da animalidade e contribuíram, cada um à sua maneira, para que se delineasse uma possível vertente “zooliterária” no âmbito das letras nacionais.

Maria Esther Maciel -  É professora de Teoria da Literatura e Literatura Comparada da UFMG, pesquisadora do CNPq e escritora. Publicou, entre outros, os livros A memória das coisas (ensaios, 2004), O livro de Zenóbia (ficção, 2004), O livro dos nomes (ficção, 2008), O animal escrito (ensaio, 2009) e As ironias da ordem (ensaios, 2010). Desenvolve, atualmente, o projeto Zooliteratura brasileira: animais, animalidade e os limites do humano”.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Calos nas mãos de diarista


Felipe Lopez, Cidade A5

Calos nas mãos de diarista

Arlindo Gonçalves (*)


            Como se fosse hoje, de uma maneira muito real, o parquinho com suas atrações simples, ela ao lado do namorado, alegre e cheio de energia, ganhando ursos de pelúcia em barracas de pescaria ou de tiro ao alvo. E ambos lá, tão felizes, moça de futuro, rapaz da sua vida. O despertador, ao lado da foto do filho débil, toca antes do sol de horário de verão surgir. Ela, imagens do passado desfeitas na mente, estica o braço e, ainda sonolenta, a contragosto de se levantar, tenta silenciar o relógio para que o barulhento não acorde o menino, que dorme no mesmo quarto.  O casal no parque, tênues lembranças de um tempo bom, de uma minguada felicidade antecessora dos períodos de fúria que viriam. Antes que o garoto acordasse, deitada ela tenta, só que, vacilante no amanhecer, não alcança o despertador; e quando o faz, não cala o aparelho, o derruba de cima do criado-mudo, produzindo mais barulho. A família orgulhava-se dela. Moça ainda, cheia de futuro, arrumando logo um partidão, marido honesto, homem de profissão, desses que um dia pagarão salários, não os receberão de outros. No desastrado alvorecer daquele dia, o despertador, quando cai de cima da mesinha de cabeceira feita de uma madeira já carcomida, toda riscada e manchada por auréolas de copos que são postos sobre sua superfície, causa um terremoto proporcional às reduzidas dimensões do móvel barato. Balança o porta-retratos com a foto do filho retardado; despenca um par de brincos lá deixado; cai no chão o boleto de aluguel. E o que os parentes dela passaram a estranhar foi a desproporção entre o que o par falava e o que se via efetivamente. Tudo faltava na casa deles. A velha pintura descascando e pedindo nova demão; as torneiras vazando, desperdiçando água e aumentando as contas a pagar a cada fim de mês; a televisão, então, mais chuvisco e fantasma do que tudo; e o carro, barulhento nas raras vezes em que circulava pelas ruas, enferrujando ao sol e à chuva enquanto muito repousava na pequena garagem, decerto pela falta de dinheiro para encherem seu tanque e consertarem suas avarias. A luz nem sequer aparecera, e ela já estava em puídos panos, com outros tantos trapos de trabalho dentro da mochila. Seu ritmo vai aumentando graças ao estímulo causado pelo cheiro de café fresco, aos poucos impregnando a cozinha, que faz par com o quarto e completa o todo do imóvel. Nas primeiras vezes, até fugia toda machucada para a casa da mãe. O cuidar das bordoadas e o minar do roxo dos olhos tão logo a recuperavam a faziam voltar para o marido, contrariando novamente a família, demais de inconformada diante da subserviência da moça para com aquele bronco e nada parecido homem das promessas do início. As crises matinais do filho têm sido raras. Só que, hoje, antes que ela saísse para o trabalho de diarista, o menino teve uma recaída, deixando os nervos dela em frangalhos. Então, coisas, objetos, parcos pertences, cacarecos por assim dizer, foram quebrados, engordando o saco de lixo que a mulher vai pôr na rua, antevendo desde a escada pessoas indo a pé para os pontos de ônibus ou de bicicleta para os seus locais de trabalho, todos eles vigiados por uma assembleia de velhas antenas de TV, poucas delas parabólicas, postas sobre uns tantos e intermináveis puxadinhos com suas paredes despeladas, expondo os blocos que as erguem; triste visão que a periferia onde moram tem a oferecer. A cada retorno para o marido violento e bêbado, a mãe lembrava-lhe a ingratidão pelo esforço que todos faziam para curar as dores físicas e as da alma, chagas produzidas pelas brigas. E a moça, parecendo pouco ou nada ligar para reprovações, buscava o marido nos bares; o barrigão dele se esparramando nos balcões, o vexame das privadas inundadas de vômito, quando, prevendo a chegada constrangedora da esposa, ele refugiava-se nos banheiros das espeluncas. Fatos omitidos da família, talvez por vergonha, talvez para não piorar ainda mais a opinião deles sobre o esposo. E assim ia. Longa descida de paralelepípedos, cruzando duas ruas no percurso, atenta a eventuais carros que pudessem irromper na neblina, ela chega ao ponto de ônibus. Bilhete-único carregado com o dinheiro que recebe dos vários patrões para quem limpa, lava e passa, ela paga a condução que a levará a mais uma jornada de trabalho. A pança dele crescia a cerveja e a cachaça; a dela, a trágicas sementes que ele colocava nela periodicamente. O primeiro nem chegou a ver a luz do dia. O segundo, o mais bem-sucedido, quando compreendeu a vastidão de fracassos que o cercava, sumiu ainda pequeno de casa. O terceiro, o que veio ao mundo no negrume de uma noite distante, o que tem tantos problemas, o que quebra as coisas durante as crises, o que é nervoso, o que não consegue anotar simples recados telefônicos, o que é, apesar de tudo isso, o motivo pelo qual sua mãe vence odisséias diárias. Os anêmicos faróis do ônibus iluminam o caminho, atravessam a pouca luz do início do dia. Encolhida em um dos bancos, ela calcula a rotina que virá, as coisas que fará para pessoas que mal encontra. Dado momento, pela janela, vê um parquinho perto da praça, mas tão distante dela. Enxerga ali uma moça, um rapaz brincalhão ganhando para ela brinquedos de pelúcia e outras bobagens em infantis competições de barracas inocentes. Relembra os planos, os sonhos não concretizados. Mas nenhum culpado pelos malogros hoje habita sua memória. E ao desviar a atenção da janela e olhar para as próprias mãos, vê nelas os calos de diarista; este é o início de mais uma jornada de trabalho. Neste momento, o coletivo chega ao terminal, lá encontrando outros ônibus. Ela nota que a luz do dia já é soberana e que o escuro já se fora completamente, inclusive, o do seu coração.

Arlindo Gonçalves, fotógrafo e escritor. Publicou Dores de perdas (2004), Desonrados (2005), Desacelerada mecânica cotidiana (2008), Corações suspensos no vazio (2010). Parceiro de Luciana, também fotógrafa e escritora. Com ela, mantém o projeto “Diálogos com a Cidade”, tendo realizado algumas exposições e publicado o livro de fotos e de poesias Carinhas(os) Urbanas(os) (2009). In vino férias (crônicas e fotografia) será o segundo título a ser lançado em 2013 pelo coletivo fotográfico.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Sou da geração do basta!

Créditos : Stéphane Almeida


Entrevista com Walid El Sayed 

por Mickaël C. de Oliveira 


Nascido em França, de pai egípcio muçulmano e de mãe portuguesa católica, Walid el Sayed invadiu há uns meses as redes sociais com o tema Geração do Basta, crítica afiada ao acanhamento dos políticos e cidadãos portugueses. Apesar do sucesso deste vídeoclip, muito pouca informação tem circulado na internet sobre ele. Para preencher essa brecha, encontrei-me com o artista para saber se as ideias expostas no videoclip ainda eram válidas, quase um ano depois.

Como te veio esta paixão pelas palavras ?
A nível de rimas, foi há mais ou menos dez anos. Sempre tive um pouco o prazer de descrever porque para mim rimar é tu conseguires, em metáforas, enfiares um mundo dentro de uma folha de papel. De alguma forma também é um exercício matemático que é um bocado estranho, só que como é lógico, tem uma nuance abstrata, cada um o define juntando a sua personalidade… Nunca tive muito dinheiro para gravar, hoje é mais fácil, há muitos estúdios. Mas para mim sempre foi muito à base de improvisos, tipo na rua a beber umas cervejas e se fosse uma miúda a passar com uma saia vermelha tinhas de encontrar uma rima com « saia vermelha. » E começou assim… Aos poucos, vais crescendo, vendo o que se passa no mundo, vais-te tornando mais adulto porque não consegues estar simplesmente alienado da realidade à procura de um sonho. Nós não estamos nos Estados Unidos, no American Dream. Eu comecei a traduzir cada vez mais a realidade, daquilo que se passava, em metáforas, em rimas, por achar que isso caberia mais facilmente e a mensagem ser uma mensagem mais clara. Por achar que estava correto e que de alguma forma fazia aquilo com alma, sempre quis partilhar isso com as pessoas e o ponto máximo disso foi o vídeo Geração do Basta se calhar…

Agora dedicas-te mais ao rap, ao slam, à música ou à escrita ?
Não espalho muita coisa. Eu nunca tive muita vontade que as pessoas conhecessem o que eu faço. As coisas aconteceram, sobre esse vídeo em particular, tinha vontade que as pessoas ouvissem mas não para que considerassem a minha opinião, só para que levassem uma chapada da realidade. Nunca foi muito aquela coisa « faço isso para atingir o meu sonho » não sei quê. Hoje em dia, o meu processo de escrita é muito simples : se eu sentir um texto, que comece a escrever duas ou três rimas, e à medida que o vou trabalhando, se ele começar a ficar mais enrodilhado, mais detalhado, e eu ver que não tem assim tanto rítmo, aquilo vai soar sempre mais como um poema. Agora se eu tiver um instrumental, que está-me a dizer qualquer coisa, e tenho que rimar ali, aí já vou fazer uma música. Mas a finalidade, tanto na música como no slam ou no rap é tentares transmitir uma mensagem. Não estou à procura de reconhecimento, a minha geração precisa de ser ouvida. Porque é que os jovens são sempre « a juventude esponja dos festivais », porque é que só servimos para os anúncios da TMN ? Só nos usam como se fôssemos uma matéria prima. Se calhar é a tal coisa do Basta, do grito.

A tua dupla-origem, as tuas viagens, também contribuiram para teres essa visão que falta a quem nunca saiu do país ?
De alguma forma sim. Nós somos fruto de tudo aquilo que juntámos. No fundo somos aquilo que o meio fez de nós. Começamos a ser nós quando percebemos o que o meio fez de nós. Parte da minha revolta também não está apenas naquilo que eu vi no exterior, mas numa insatisfação pessoal que eu tinha. Por ver que o mundo tinha feito de mim um produto que eu não gostava assim tanto quanto isso. Arrogante, um pouco aquele que diz que « o país está uma merda, se fosse eu a mandar estaria melhor », e quando te libertas da ideia do produto que o ambiente onde tu nasceste, onde tu cresceste, te fez, a partir daí tu começas a sair de ti próprio. Para mim, as pessoas sabem a partir do momento em que têm o desejo de saber. Se calhar por ter viajado em tanto sítio, por ter visto homens e mulheres em todo o lado… Uns podem falar de « camembert », os outros do Benfica ou de tremoços mas, são todos seres humanos, e se nós conseguirmos retirar as camadas… No fundo é como uma árvore : ela pode ter muitos ramos, dar muitos frutos, mas tem uma raíz comum. Todos nós queremos ser felizes. Só que depois, esse desejo que nós temos de satisfazer é abstrato. E aquilo que o sistema e a sociedade nos faz é transformá-lo em concreto.
Por exemplo, quande sentes uma vontade muito grande de obter qualquer coisa : o novo Iphone ou as novas ténis da Nike e atenção, eu tenho ténis da Nike… O que quero dizer é « que importância queres dar àquilo ? », até que ponto isso vai preencher o vazio que todos nós sentimos ? Esse vazio é um vazio de espiritualidade, é isto que as pessoas deviam procurar mais. Porque é a raíz da coisa. Se tu procurares acima de tudo a espiritualidade, saberes destacar-te de tudo aquilo que está à tua volta, a tua vida começa a ser estruturada. Mas não há uma entidade mágica que faça as coisas por ti. Se tu estiveres muito focado em ti, estás a viver tanto o momento que não te consegues distanciar. Não consegues ter uma visão abrangente. Se tu estiveres no chão tens uma visão limitada, no décimo andar consegues ter uma visão abrangente, o horizonte. As pessoas precisam de ter uma visão, e cada um tem de encontrar a sua. Distância.

Créditos : Stéphane Almeida

Até em relação aos media, ao que eles veem no dia-a-dia…
Gostava que Portugal fosse aquele país que desse uma resposta ao sistema dos países mais nórdicos ou capitalistas. Por teres o Obama a dizer « Nós não somos Portugal ! », orgulhoso, apetece-me dizer « Não és Portugal e é por isso que tu mandas no mundo e que ele está como está ! » Portugal tem coisas boas. Somos coitadinhos mas sempre que vamos lá fora fazemos as coisas bem, quando nos conseguimos libertar da nuvem negra que paira sobre o nosso rectângulo. No futebol, no Fado, eu digo isto porque é o que os media nos dão…

Porque é que escreveste naquela altura o « Geração do Basta » ?
Era uma sátira à geração à rasca. A cena do geração à rasca foi um bocado « eh pà estamos à rasca, vê se me arranjas um truque. » O meu vídeo foi um pouco diferente : « eu estou farto de dizer que estou à rasca para que as pessoas tenham dó de mim. » Daí eu ter dito « não sabemos o que somos o que fomos, não temos visão sobre o que seremos. » É mais profundo do que dizer « tou pobre, há crise, os políticos roubam » porque, desde que aterrei em Portugal em 1997, ouço isso todos os dias ! Que eles roubam, que são filhos da puta… As pessoas esquecem-se que os políticos são uma amostra do país. Uma amostra retirada de dez milhões. Quando eu digo « muda a tua faixa etária », mais do que uma manifestação que corre em rítmo de uma procissão ao domingo, é tu, no mundo que está à tua volta, no raio de ação que atinges diretamente, tu tens de fazer qualquer coisa.
Dou-te um exemplo muito pequeno : uma senhora está no autocarro, a falar com uma colega ao lado, e diz « estes políticos de merda, só me sabem roubar, como é que havemos de andar para a frente… » Ela estava a dizer isso a comer um gelado Magnum. A porta do autocarro abriu-se e, sem pudor qualquer, atira o pauzinho para o meio da rua. Como é possível estarmos a mandar vir com o governo quando tu fazes o mesmo à tua escala ?
Para mim, o que falta na política é que as pessoas não têm visão. Parece que ainda estamos em 2012 e que o mundo vai acabar a 21 de Dezembro ! E isso faz com que as pessoas pensem « vou foder tudo o que tenho » porque a 21 de Dezembro já não estou cá. Primeiro, visualiza a tua vida, não andes a poluir-te com aquilo que a MTV ou que Hollywood te dá. O mais importante na vida para mim é muito a conquista do dia-a-dia. Às vezes o conquistar as coisas é nós olharmos para elas e dizermos « obrigado por ter. » Essa gratidão é essencial. Tu vais a África as pessoas não têm água. E o português que muitas vezes está a mandar o bitaite que o país é uma merda gasta 40L de água num banho. As pessoas deviam ter outra visão. Hoje em dia, o estado deixou de ser estado, deixou de ser país, de ter uma obrigação moral para nós. Agora, é uma empresa. Uma coisa que nos fornece serviços.

Como surgiu este tema ? Em que ocasião ?
Tudo começou no Bairro Alto, onde ganhei um concurso de slam. Foi numa terça. Na semana a seguir, na segunda-feira, alguém do Musicbox mandou-me um email dizendo que tinham tido um bom feedback da minha atuação e que me convidavam para fazer parte do « Poetry Slam » do Musicbox. Fiquei em segundo lugar. Embora tenha ficado em segundo, as pessoas do Clube da Palavra, do Canal Q da Meo, vieram ter comigo e disseram que gostavam de contar comigo. E aí pensei assim : se tivesses a oportunidade de falar para o país inteiro, o que é que dirias ? Fui eu que escolhi o tema. O visão terrorífica e o geração do basta, foi mesmo aquilo que eu queria dizer às pessoas. Às pessoas que se calhar depois iam ver a bola, ou a novela, ou a Casa dos Segredos… Eu queria que as pessoas parassem e ficassem a pensar « se calhar nasci numa jaula mental que me impuseram desde que nasci. » Até porque digo-te uma coisa, se me tivessem dado um tema, eu não tinha ido.

Se tivesses escrito hoje o « Geração do basta », o que mudarias ?
Hoje, muito provavelmente pegaria no texto e tiraria uma rima punha outra, e passado um quanto provavelmente era um texto diferente. Mas a ideia geral seria a mesma. A única coisa que eu procuraria se calhar, é de alguma forma impactar mais a alma das pessoas, para que se lembrassem menos do nome do bacano que disse aquela série de coisas contra o governo porque sabe bem, parece que alguém se responsabilizou por fazer a parte que as pessoas não querem fazer, e se preocupou em pensar naquilo que as pessoas não querem pensar… As pessoas não se querem dar ao trabalho, são muito egoístas. De alguma forma, a crise é positiva porque estamos a fazer evoluir cada individualidade, e o coletivo sairá ganho no meio disto.

Quais foram as consequências desse tema ? o feedback ?
Posso-te contar um episódio engraçado com uma força política. Vejo um blogue, a representar essa força política, e vejo o meu vídeo… Eu rio-me porque chegou a ser engraçado… Só vejo uma coisa : « geração do basta, porque é altura de dizer basta. E dizer basta é votar no… » Eu comentei aquilo com o máximo de agressividade, que não partilhava as mesmas ideologias, que eles apenas tinham sido inventados para fragmentar os votos da esquerda… Sabes, numa primeira fase, a coisa tem impacto, toda a gente bate palmas, numa segunda fase, tentam inserir-te num espaço qualquer e dizer que tu querias dizer outra coisa diferente. Muitas vezes é assim que é trabalhado. Por exemplo os Homens da Luta. Tornou-se numa emissão de televisão ! Assim como a figura do Ché está em t-shirts… Conheci algumas pessoas muito bem colocadas, tive alguns convites… Mas quando eles vêem que não te queres inserir, o melhor é fecharem-te a porta. Senti as coisas a apertar.

Ninguém quis conhecer a tua história, o teu percurso, não houve contatos de jornalistas ?
(risos) Não é muito conveniente, há pessoas muito bem colocadas na sociedade que não têm qualquer interesse nisso. A verdade é bem mais sinistra do que « o geração do basta. » Porque as pessoas que mandam no mundo são diabólicas. E aqui se calhar entramos mais na questão do visão terrorífica. Os que mandam no mundo querem retirar-te tudo aquilo que tens de humanidade. Quando tu retiras isso nós não somos mais que animais ou que uma matéria prima prestes a ser usada. O Big Brother no fundo, George Orwell. O mundo e o sistema são um parque de diversões. Muitos pensam « um dia vamos ser invadidos pelas máquinas. » Não conseguem entender ! Agora existe nomofobia : não poderes sair de casa sem o teu telemóvel. Nós já somos controlados ! O mundo criou o monstro que o devorou. As máquinas ocupam tanto o nosso coração que não nos conseguimos libertar. Para nos esconder a verdade, porque ela é bem mais sinistra que o que aparenta ser.
Por exemplo, a noção do tempo que nos foi dada pela igreja católica, a do relógio das 12 horas, do passado, do presente e do futuro é errada. Passado, nostalgia. Presente, correria. Futuro, incerteza e ilusão. Para mim, passado, só te lembras de bons velhos tempos, presente, no momento que dizes presente já é passado, tens de estar sempre a correr, é o que eles querem. Futuro, segues as coisas que se calhar nunca vais vir a ter. A minha visão é mais uma questão de obra. Ou tens obras acabadas, ou tens obras inacabadas. Mesmo essa prisão faz com que nós tenhamos uma visão limitada. O tempo não existe. Aquilo que era o passado, por exemplo se eu te disser : « eu construí a minha casa. » É passado. Mas eu vivo aonde ? Na minha casa !

Créditos : Stéphane Almeida 

A questão do eurocentrismo entra se calhar aqui também um pouco…
Isso resume-se a uma palavra : egoísmo. Nós amarmos a nossa família não é uma prova de amor. Porque muitas vezes nós amamos e sentimos a nossa família como se fosse uma extensão de nós. E como nós nos amamos tanto… Em relação ao mundo, eu aqui há uns tempos estava com uma amiga minha e lembro-me de ela estar a falar de uma guerra não sei se era no Congo ou na Nigéria, e ela virar-se para mim e dizer « ai que tristeza meu deus, matarem-se irmão contra irmão. » E eu fiquei a pensar « e um branco matar um preto não é irmão contra irmão ? » Nós concentramo-nos mais na divisão, nos fatores de diferença que nos fatores de união. Mais lá para a frente, à medida que formos precisando mais uns dos outros, acredita que nós julgaremos menos as pessoas pela cor, mas mais pelo carater, e haverá um momento em que nem sequer julgaremos. E entenderemos que já há um juíz natural. E sabes qual é o instrumento desse juíz natural ? A arma. Ninguém foge disso. As pessoas têm uma sensação de impunidade neste país… Em vez de lançarmos modas estúpidas, com chapéus ao contrário ou como andar com as calças ao fundo do cu como o Lil’ Wayne, porque não pomos a bondade gratuita e genuína na moda ? Há uma parte do mundo que podemos mudar. Essa parte somos nós.

Com essas ideias todas, consegues passar tudo para a música ou precisavas de outros palcos ?
Eu não estou a fazer planos de ir para a música ou para a política para mudar o mundo. Para mim se queres mudar o mundo, começa por mudar o que te rodeia, deixar passar a senhora primeiro, tentares sacar uma moeda para dar a um pedinte e não teres tempo, ires atrás dele e as pessoas olharem para isso, para que se mudem as mentalidades. Claro, gostava de partilhar estas ideias por outros lados, mas acho que as pessoas têm de ser constantes.
Uma das medidas que devia ser aplicada aos deputados é esta : serviço comunitário. Hoje, isto é visto como um castigo. Mas diz-me uma coisa, qual é o máximo do serviço comunitário ? É o deputado, aquele que vai servir os interesses da nação. Como é que vais pôr alguém sem qualquer sensibilidade social num cargo político ? Eles não têm noção da realidade, da tia que não tem almoço… Só vêem números… 500 000, 900 000 desempregados. Se conhecessem as pessoas, não iam dizer a um casal de idosos para abandonar a sua casa para se construir um novo troço de uma autoestrada. Somos um pouco o jardim zoológico deles… uma massa neutra, eles numa jaula mental, nós noutra. O tal distanciamento entre eles e nós. Eles vão para a política para serem servidos, e não para servir, e isto não deveria ser assim.

Mas isto de ser bondoso também poderia ser encarado como uma pressão…
Mais do que uma pressão, é um prazer. Mas sim, não há espaço para o desleixo porque sabes que ele vai ter fazer mal mais cedo ou mais tarde. O ser humano tem na sua essência a vontade de receber. Energia, afetos, vitamina, a comida… Se não recebermos estas coisas morremos. Mas tens sempre essa vontade de receber. O que o sistema tenta fazer é traduzir o abstrato em concreto : um iphone, um carro Citroën. Só que quando tens frio o que é que tu fazes ? Vais procurar calor ! Mas essa pressão de que tu falas também é a mesma que me coloco quando me levanto todos os dias para ir trabalhar…

Estás portanto a favor do BNB, « Bonheur National Brut », índice que define o nível de vida dos homens no Bhoutan.
Sou totalmente a favor (risos). Embora ache que não temos maturidade para isso. É talvez um bocado surreal, utópico.

Alguns links :


(*) Mickaël C. de Oliveira nasceu em 1989 nos subúrbios parisienses. Mestre em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade Paris Sorbonne (Paris-IV), sempre teve como objetivo principal a divulgação das artes portuguesas, mas, sobretudo, a promoção de artistas emergentes ou simplesmente não conhecidos. Consultem suas outras matérias na rubrica "Culturas Urbanas". 


sexta-feira, 22 de março de 2013

Littérature et Immigration



Autour du Salon du Livre

Littérature et Immigration


Rencontre avec les écrivains
Suzana Montoro, Adriana Armony et Ronaldo Wrobel

  
Le mercredi 27 mars 2013
De 11h00 à 12h30
Salle 13

  
Université Paris-Sorbonne
Institut Hispanique
31 rue Gay-Lussac
75005 Paris
RER B – Luxembourg

quinta-feira, 14 de março de 2013

Juntar seus tempos diferentes

Sra. Weiwei levantando a saia na frente da praça Tiananmen


Juntar seus tempos diferentes

Elvira Vigna

Fui ver o Weiwei no MIS-SP meio assim porque já sabia que não ia ver obra alguma, só registros. E também porque acho o Weiwei meio assim. Bom paca. Mas com umas dificuldades. Uma é o fato de ser chinês e carregar aqueles milênios todos nas costas (num momento em que a arte não carrega mais nada nas costas). Outra é que, além de ser chinês, ele é dissidente e o Ocidente adora dissidentes que não estejam no Ocidente. E disso estou consciente.
(Da próxima vez, em dodecassílabos, prometo.)
Outra dificuldade é a da arte contemporânea. Porque não dá para entrar direto no assunto. Primeiro tem de falar no geral e só então falar como o Weiwei se encaixa nesse geral.
O geral. Teve aí uma fusão da arte com o teatro. Ou as duas coisas - e mais a música e menos a literatura, mas isso eu deixo pro fim - ficaram muito parecidas. Não estou falando do teatrão, o drama encenado, você ali assistindo, chorando pitangas e dizendo, nossa, que bonito. Não. O teatro pós-dramático. Você ali como parte constituinte de uma arte (arte = ação que aponta para um significado usando a estética e não a lógica e digo "aponta" e não "contém", porque é só isso mesmo: aponta) que acontece naquele exato momento. Digo fusão da arte com teatro, e não da arte com a vida, como quis Duchamp, porque é mais preciso. Há um verbo no gerúndio, tipo algo acontecendo, mais do que transposição de substantivos: sai urinol, entra fonte.
(Como quis Duchamp e como quis, aliás, a curadoria da exposição. O título "Interlacing", do curador Urs Stahel, se justificaria, segundo o folhetinho, por "redes que entrelaçam arte e vida". Acho pouco.)
Essa fusão com o teatro faz com o que a ação artística não tenha uma totalidade, limites claros (não começa aqui, termina ali), ou mesmo estrutura organizada e fechada. Está mais para tentativa, sempre repetida, e tem um quê de desprotegido, de aberto ao inesperado, de não determinístico. E tem, não há como ser diferente, seus processos aparentes dos quais os sócios do artista, que somos você e eu, participam.
Em qual espaço se dá essa arte/teatro. Num espaço não hierarquizado, em parataxe. O "artista" ou o "ator" ali no meio da foto (ou da performance que lhe deu origem) vale tanto quanto a graminha que está no canto ou o barulho da britadeira ao fundo. Se fosse texto, seriam frases coordenadas e não subordinadas. E numa sintaxe de semelhanças, aliterações, analogias, com direito a repetições, "falhas", banalidades e inconclusões. O espaço da arte contemporânea, puxando um pouco, será sempre site-specific. Ou o local da ação artística já "dizia" alguma coisa que é incorporada à ação estética (por exemplo, lugares carregados de textos como a praça Tiananmen). Ou a ação estética, feita em local mudo, faz com que esse local "fale" por causa dela (por exemplo, não-lugares como megaconstruções ou o terminal 3 do aeroporto de Pequim).
Qual o tempo dessa arte/teatro. O presente, claro. Mas um presente espacializado em que convivem, sem distinção e hierarquias, passados e, eis uma novidade que reaparece depois de muito tempo, um futuro. Futuro na medida em que as ações são abertas, frágeis ao extremo e, por isso mesmo, muito fortes, pois dependem, sempre, do que vai acontecer no momento seguinte. Momento que não obedece à intencionalidade do autor/ator, mas que será formado por todo mundo que estiver no espaço em questão. Então, não só futuro, mas futuro compartilhado. Novidade e tanto. A arte dos séculos imediatamente anteriores ia dormir de noite e acordava igualzinha no dia seguinte, quando o museu abria.
(Separei espaço e tempo, mas fazem na verdade uma coisa só.)
Ainda no quesito tempo: a velha lógica de um velho pensamento linear a respeito do novo e do velho. Diz essa lógica que cada vez que surge um novo, o velho deve ser considerado não mais válido. Diz também que o novo vem da desagregação, decomposição do velho.
É aqui que entra o Weiwei.
Performance Dropping a Han Dynasty urn, de 1995
"China" e o aposto já vêm pronto: cultura milenar. E não só. Fechada. É só lembrar da muralha a impedir convívios espúrios. E não só. Com modernização imposta, aos trancos.
Rola uma empatia. Por aqui também, mesmo sem tanto milênio nas costas, mesmo dentro de uma tordesilha calculada a ponta do lápis na boca, a modernização também foi aos trancos. O assunto a seguir é delicado e diz respeito tanto a indivíduos quanto a culturas. Ou seja, estou falando aqui da China e do Weiwei, e de mim e de você. Sínteses - intrapsíquicas ou nacionais - para serem sínteses e receberem o reconhecimento de sua especificidade, excluem pulsões que a ameacem. Indeterminações, alternativas à normatividade em vigor, desconhecimentos. Numa palavra: mudanças. A síntese - mantida através do superego ou do ditador de momento - se considera uma totalidade autônoma e autêntica. Ou seja, não se abre trocas, tem atuação autoritária e se acha com contornos definidos. Se muralhas de pedra hoje são coisa de turista, outras se põem em seu lugar, mais inconsúteis. Quanto mais rígido for esse mecanismo de exclusão do diferente - diferenças, aliás, vistas não como diferenças mas como oposições -, mais forte a totalidade parecerá. E mais fraca será.
Weiwei entende isso. É um contemporâneo de fato, ao contrário de outros seus conterrâneos que vou citar daqui a pouco. Ele aponta, na sua ação estética, para o que a síntese não absorve. Traz do passado, do Ocidente onde morou, da internet. E do seu senso de humor. Traz o que era para ser jogado fora, a foto do blog, o edifício velho derrubado pela autopista, o trabalho agora inútil do artesão morto de fome.
Vou dar mais uma pichada na curadoria. Weiwei faz isso, mas não me parece que considere o passado lugar privilegiado de origem ou pureza. No entanto, vesti pantufas para ver a exposição, deixando "impurezas para trás" (segundo o mesmo folhetinho). Não acho sequer que Weiwei considere o passado passado. À la Hegel, ele considera, na sua ação estética, que a história não é o que foi, mas o que se mantém. Presentifica o que, aliás, presentificado está. Porque se você não absorve, não faz troca, aquilo volta. Eu e você sabemos disso.
Making of do "Jointed Stool", de 1997 (as cadeiras)
As fotos que fiz. Reproduzi uma foto do making of do "Jointed Stool", de 1997. Weiwei tem várias ações estéticas com essas cadeiras feitas numa técnica tradicional da China, de encaixe, sem pregos. Usa em geral cadeiras já quebradas, em pilhas mambembes, quase caindo. Essas cadeiras, artesanais ou de pequenos produtores fora dos grandes centros, não têm mais valor algum para a sociedade chinesa. Eu trouxe também o registro do registro de uma de suas performances mais conhecidas, em que ele quebra um vaso da dinastia Han. Quebra olhando para quem o olha. Quebra contando com a participação do ocidental ali na frente dele, e com o valor que uma relíquia dessas tem no mercado internacional de arte. Quebra o que é considerado de valor para falar daquilo que é considerado sem valor. Peguei também a foto da sra. Weiwei levantando a saia e mostrando a calcinha em frente à praça Tiananmen como um contraponto. Se Weiwei critica o momento atual de sua geografia (porque ela não consegue absorver grandes lapas que vêm do passado), ele também critica o passado "aceito" por não absorver grandes lapas do momento atual. A praça Tiananmen e sua arquitetura "tradicional" - de um passado "aceito" - não conseguem absorver uma mulher moderna. Essa foto também me atraiu por apontar para uma coisa engraçada em relação a um vocabulário adotado inclusive por esta que vos fala. A arte lá pelas tantas virou plural. Não se falava mais "arte" pois a palavra tinha colado na "grande arte", então já relativizada. Passamos para artes plásticas. Depois esse nome caiu no opróbrio e nós, os bem-pensantes, fomos para as artes visuais. Pois agora virou artes plásticas outra vez. O visual não dá mais conta. A arte é visual, tátil-erótica, corporal, e pode ser sonora e até olfativa. A sra. Weiwei - assim como seus jovens colegas da série em que posam, ocidentalizados, frente a monumentos chineses - é tão banal quanto bonita, e bonita por ser banal.
Weiwei junta seus tempos diferentes - de lá para cá ou vice-versa - com um quê de, ué, não pode? Não é um ir contra a lei, é expô-la ao ridículo. Um exemplo (além da levantada de saia de sua mulher). Nada impede alguém de encomendar a artesãos-oleiros tradicionais - e desempregados - alguns objetos de cerâmica. Mas quando Weiwei encomenda 100 milhões de sementes de girassol, iguaizinhas a sementes de girassol de verdade, mesmo tamanho, e manda pintá-las à mão uma a uma, em listinhas de branco e preto, para jogar tudo no chão da Tate de Londres e dizer que quem quiser pode pisar em cima, aí começa a incomodar.
Como comparação - aliás, nem minha, mas da mídia, embora involuntária - tem o Cai-Guo-Qiang. Ao mesmo tempo em que Weiwei dava as caras, ou pelo menos as fotos, por aqui, Cai-Guo-Qiang aportava em Brasília. Espetaculoso, desenhou com pólvora "especialmente para o público brasileiro" uma Iemanjá. Eu sei lá o que ele quis dizer com isso. Ao contrário de Weiwei - que mora na prisão e, quando pode, na casa dele em Pequim -, Cai-Guo-Qiang mora em Nova York e faz trabalhos para grandes eventos mundiais como as Olimpíadas, patrocinado pelo governo chinês. Esse segue nas normas, mesmo que use pólvora.
Outro exemplo comparativo. Em maio de 2007, cobri para o saudoso Aguarrás a Coleção Uli Sigg, de chineses contemporâneos, exposta no CCBB do Rio de Janeiro. A diferença é que Weiwei vive a dificuldade de lidar com o que ficou para trás na cultura chinesa através de uma compreensão do que sejam ações estéticas, seu espaço e tempo contemporâneos. Seus colegas no CCBB-RJ levavam o que é contemporâneo de volta para o passado. Não presentificavam, pelo contrário, iam para trás, imersos em uma nostalgia que me espantou. A peça principal dessa exposição era um grão de areia onde havia uma fábula escrita na velha arte da caligrafia. Autoria de Lu Hao. Não acho que escrever em grão de areia dê conta dos tempos em paralelo que se vive hoje. Seus colegas de exposição pintavam cenas da Revolução Cultural. Soldados, salas de reunião, urbanização rígida de edifícios quadrados, tudo em óleo sobre tela, na melhor técnica ilusionista europeia.
E agora chego na literatura e no que me parece ser um empacamento, espero que momentâneo. Arte contemporânea é coisa bem específica, não é definida por ninguém como sendo "arte feita nos dias de hoje". Literatura contemporânea é vista como sendo a que é publicada hoje. Tenha ou não algumas das características que pensadores e críticos detectam nas ações estéticas que usam outros instrumentos, além da palavra. A arte contemporânea pode existir porque tem instituições atuantes voltadas para ela. Se tal atividade tem riscos? Acredito que sim. Já a literatura está presa num esquema de produção/distribuição que vê, como ameaça de sobrevivência, os óbvios riscos de se trabalhar com o frágil contemporâneo.

Elvira Vigna
Março de 2013

Pantufas para entrar na exposição


Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora :Rubrica Artes e http://vigna.com.br/

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos. Confira no link: Umdedo de prosa

domingo, 10 de março de 2013

Luiz Bras entra em cena


Luiz Bras entra em cena

Alexandre Staut

Antes de fazer a entrevista que segue, perguntei para o autor em questão como ele gostaria de ser tratado: Nelson de Oliveira ou Luiz Brasil. A resposta veio rápida: “O Nelson aposentou-se definitivamente da literatura. Faz mais de um ano que viajou para o Caribe e não deu mais notícias”.

A troca de persona literária começou a ocorrer em 2006, num momento em que o paulista Nelson de Oliveira contava com mais de dez anos de carreira e diversos prêmios literários no currículo. No entanto, Luiz diz, Nelson não tinha mais nada a dizer.

Luiz Bras, natural de Cobra Norato, no Mato Grosso do Sul, tomou força no ano passado, quando lançou seu primeiro romance para adultos: “Sozinho no Deserto Extremo”. Nesta época, passou a assinar com este nome os e-mails, um blog e até mesmo a caixa postal do celular.

Leia a seguir a entrevista que o autor concedeu ao blog Estudos Lusófonos:  

Há algum motivo especial para o Nelson de Oliveira ter fugido para o Caribe?
Há um motivo muito especial: merecidas férias criativas. Creio que a melhor explicação possível é a carta de despedida publicada em janeiro de 2012, no blogue do próprio Nelson: http://urbanalenda.blogspot.com.br

Segue a íntegra da carta:

“Amigo, amiga, o aparato corporal do proprietário deste blogue foi confiscado, agora ele pertence a outra consciência. Agora ele é outra pessoa. Forças poéticas incontroláveis operaram essa transferência. Forças do Bem, não se preocupe.

O círculo mágico iniciado em 1989, numa oficina de criação literária, está se fechando hoje. Na oficina coordenada por João Silvério Trevisan, nas antigas Oficinas Culturais Três Rios, troquei as artes plásticas pela literatura. Mais de vinte anos depois, mais de vinte livros publicados, chegou a hora da aposentadoria.

Foi por volta de 2005, 2006, que baixou o cansaço, a preguiça. Sempre que eu começava a escrever, vinha a impressão de estar repetindo certos procedimentos. Não existe nada pior pra um ficcionista do que escrever o mesmo texto ano após ano. Foi nessa época que tomei a decisão: está na hora de parar (como tantos escritores que pararam). Ou de mudar (como tantos escritores que mudaram). Ou as duas coisas. Hora de comemorar o final de um ciclo criativo e o início de outro. De mochila pronta para as merecidas férias, chegou a hora da metáfora dramática: hoje eu deixo o palco, tomo distância da vida literária. Entra em cena Luiz Bras.

É claro que a transição não foi abrupta, foi até bastante pacífica. O círculo começou a se fechar há muito tempo. O último texto ficcional que escrevi já fez cinco anos, acho que ontem ou anteontem. Os primeiros escritos do Luiz já fizeram uma década. Faltava apenas completar o processo, dar o salto. Definitivamente.

Sai este autor, ficam os livros, e apenas os livros: sua melhor parte. Afinal essa é a ordem natural das coisas. A vantagem, no meu caso, está em sair ainda respirando, vivinho da silva, diferente do que acontece com a grande maioria.”

Mesmo na intimidade, com seus amigos e familiares, você assumiu a identidade de Luiz ou foi apenas o Nelson de Oliveira “homem das letras” que desapareceu?
Como você percebeu, lendo a carta de despedida, não se trata de um exercício de heteronímia, como no caso clássico de Fernando Pessoa. Foi apenas uma mudança de nome literário e de temática. Com meus amigos e familiares eu continuo sendo o antigo Nelson. Mas na vida social literária, em nome da coerência eu gosto que me chamem de Luiz Bras, pois esse é o autor que está assinando os artigos pra imprensa, os contos e romances.

Trata-se de um exercício para se livrar do ego, pensando que o nome Nelson de Oliveira é bastante respeitado no meio literário?
Diria que está sendo um exercício de renovação do ego. Depois de mais de vinte livros publicados, Nelson andava cansado de sua literatura, com medo de cair na repetição, no moto contínuo, como vejo acontecer com tantos escritores. Então ele decidiu desligar o piloto automático, sair da zona de conforto e iniciar uma nova carreira. Foi, antes de tudo, uma estratégia existencial. A mudança de nome, algo aparentemente tão simples, renovou minha vida e minha literatura.

E o Luiz? Quando começou a aparecer esta persona literária? Qual foi a sua primeira aparição?
Nelson de Oliveira estreou na literatura em 1995, com a coletânea de contos Fábulas, publicada não em português, mas em espanhol. Esse livro venceu o Prêmio Casa de las Américas, responsável por sua publicação. O último livro lançado com meu nome verdadeiro foi Poeira: demônios e maldições, em 2010. Foram, então, quinze anos. Já o primeiro livro publicado por Luiz Bras foi o romance juvenil Bia Olhos Azuis, em 2004, em parceria com Tereza Yamashita. Sendo assim, durante seis anos os dois autores conviveram pacificamente em minha mente. A mudança foi acontecendo aos poucos, nos seis anos em que os dois autores conviveram sem qualquer conflito. Desconfio que nesse período Luiz Bras foi ocupando devagar, na malandragem, o espaço de Nelson de Oliveira.

Luiz escreve somente narrativas de ficção científica? Poderia falar sobre a produção desta sua persona literária?
Minha produção ficcional trata basicamente da maneira como o ser humano, por meio da ciência e da tecnologia, está modificando fisicamente o próprio ser humano. Todos nós nascemos num mundo profundamente tecnológico. Estamos mergulhados na tecnologia. Mas poucas pessoas prestam atenção nisso. A literatura brasileira contemporânea, em minha opinião, lida muito mal com essa verdade inquestionável: somos seres absolutamente tecnológicos. Os poetas e os ficcionistas tupiniquins acostumaram-se a fingir que a tecnologia não existe, ou não é relevante. Em seus textos raramente aparece a tecnologia que nos cerca, que está colada em nós. Menos ainda a tecnologia mais sofisticada, que está dentro de nós, modificando nossos genes, defendendo nosso organismo contra vírus e bactérias, potencializando nossa inteligência.

Quais são as impressões do Luiz sobre o trabalho do Nelson?
Na verdade, Luiz Bras ainda não leu Nelson de Oliveira, rs. Nem planeja ler.

Nelson sempre foi muito atento à produção literária nacional contemporânea. Luiz também traz esta característica?
Certamente. Gosto bastante da literatura brasileira contemporânea. Não apenas da prosa, mas principalmente da poesia. Creio que essa é uma característica comum em todos os escritores, de todas as épocas: a curiosidade pelo que seus pares estão produzindo.

Quais são os autores de ficção científica que rondam o mundo do Luiz?
Atualmente são os escritores do movimento cyberpunk, como William Gibson e Bruce Sterling, e os do movimento new weird, como China Miéville e Jeff VanderMeer. Também tenho lido com certa freqüência os romances de Orson Scott Card e os de Ursula K. le Guin.

Quando é que no seu dia a dia o Nelson insiste em dar as caras?
Raramente. Apenas na hora de pagar uma conta ou apresentar a cédula de identidade.

Quando você, como Luiz, pega um dos livros do Nelson, qual a primeira ideia que vem à sua cabeça?
Eu jamais peguei um livro do Nelson, juro.

E o Nelson, o que achava da produção literária do Luiz?
Duvido que o Nelson conheça os livros do Luiz. Os dois autores jamais se encontraram sequer pra tomar um cafezinho e falar de futebol.

O Nelson interfere, de alguma forma, na produção do Luiz, nos dias de hoje, mesmo depois de ter desaparecido?
No plano mais profundo, do inconsciente, da fantasia literária, com certeza há interferência. Afinal existem certas semelhanças entre os dois autores. Ambos têm um grande apreço, por exemplo, pela realidade expandida, ou seja, por essa realidade de segunda ordem, ampliada de mil maneiras pela invenção da linguagem.

Quais são os momentos em que você diz “agora quero ser Nelson” ou “agora quero ser Luiz”? Aliás, existem momentos assim?
Confesso que esses momentos não existem mais. A mudança foi mesmo radical.

Quais são os autores brasileiros de ficção cientifica que merecem a atenção dos leitores?
São muitos, mas você não irá encontrá-los facilmente. Eles não são convidados para os eventos oficiais do mainstream literário. A maioria das livrarias do país não tem seus livros. A ficção científica brasileira sofre um grande preconceito principalmente por parte da crítica jornalística e acadêmica. Alguns títulos e autores importantes, que merecem ser lidos, são A espinha dorsal da memória de Braulio Tavares, Confissões do inexplicável de André Carneiro, Fábulas do tempo e da eternidade de Cristina Lasaitis, Selva Brasil de Roberto de Sousa Causo, Os dias da peste de Fabio Fernandes, Piritas siderais de Guilherme Kujawski e Santa Clara Poltergeist de Fausto Fawcett.

Quais são os temas literários do Luiz?
São os temas filosóficos tradicionais, potencializados pela pesquisa científica e pelo avanço tecnológico. Nós, humanos, somos seres mutantes. Somos “a work in progress”. Graças à atual explosão tecnológica, estamos vivendo mais um momento de transição evolucionária. Estamos no limiar do que se convencionou chamar de pós-humanismo. Hoje, por meio dos avanços da ciência e da tecnologia, nós temos o poder de alterar fisicamente nossa própria espécie. As próximas gerações viverão mais e melhor, graças à manipulação genética, aos implantes eletrônicos e às drogas da longevidade e da inteligência. É sobre isso tudo que eu gosto de escrever.

E como é a sua relação com os leitores?
No início metade de meus leitores estranhou um pouco a mudança de nome, mas esses logo aceitaram a mudança. A outra metade estranhou bastante e demorou pra se acostumar. Ainda hoje há uns poucos leitores que se recusam a reconhecer o novo nome. Mas o tempo está a meu favor. O antigo nome, quer eu queira ou não, irá desaparecer lentamente nas brumas no passado.

Se tivesse que escrever um perfil literário para o Luiz em até 140 caracteres, qual seria?
“Luiz Bras sempre morou no terceiro planeta do sistema solar. Com os gatos aprendeu a acreditar em telepatia e universos paralelos.”

E se tivesse mais espaço para descrever as características da literatura do Luiz?
Acredito firmemente que o autor não é a pessoa mais capacitada pra falar da própria literatura. Sinto-me mais à vontade escrevendo sobre os livros dos outros escritores do que sobre meus próprios livros. Deixarei esse trabalho para os leitores e pra crítica especializada.

Em sua última coluna do jornal Rascunho, fez uma brincadeira com alguns romances nacionais bastante celebrados (de Clarice, Machado, Graciliano, entre outros) e o mundo da ficção científica. Quais livros nacionais, destes famosos, você considera de fato exemplos de ficção científica?
Esse artigo irreverente, intitulado Dez romances essenciais da ficção científica brasileira, fez bastante sucesso entre os leitores do Rascunho. Mas é claro que nenhum dos romances parodiados pertence realmente à ficção científica brasileira. Diferente do célebre poema A máquina do mundo, de Drummond. É bom lembrar que esse poema já foi escolhido pela crítica como o melhor poema brasileiro de todos os tempos. Eu considero A máquina do mundo um excelente poema sobre o encontro de um ser humano e uma criatura alienígena.

Para finalizar, queria que você falasse mais um pouco da literatura de ficção científica no Brasil atual. Você comentou que há preconceito por parte da crítica jornalística e acadêmica. Parece que entre os literatos também. Em outros países parece que este eixo temático é bem aceito. Para citar um exemplo, temos a Doris Lessing, que tem livros belíssimos de ficção científica, todos celebrados da mesma forma que os seus romances mais tradicionais.
Isso é sinal de vitalidade cultural. Na literatura de língua inglesa você irá encontrar um número muito grande de ótimos escritores do mainstream literário que também escrevem ou flertam com a ficção científica. Ao lado de Doris Lessing está, por exemplo, Margaret Atwood, Thomas Pynchon, Kazuo Ishiguro, Cormac McCarthy… Citei apenas os que eu já li. Neste exato momento há muitos outros jogando criativamente com as várias vertentes da ficção científica: clonagem humana, viagem no tempo, universos paralelos, pós-apocalipse, história alternativa, distopia etc.

Alexandre Staut
Março de 2013


Alexandre Alexandre Staut é escritor e jornalista, é autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toda edições, SP, 2010)  e Um lugar para se perder (Dobra, SP, 2012). Leiam suas outras entrevistas para o blog Estudos Lusofonos  no link: AlexandreStaut