quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Meninas, moças e a identitade nacional



Conférence avec les professeurs

Mirian Hisae Yaegashi Zappone
(Universidade Estadual de Maringá)
et
Ricardo Araújo Barberena
(Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul)

le mercredi 06 mars 2013
Salle 13
de 10h00 à 12h00

Institut Hispanique
31, rue Gay-Lussac   
75 005 Paris


Leituras para moças no Brasil nas décadas 1940-1960  : o caso da Coleção “Menina e Moça”

Mirian Hisae Yaegashi Zappone
Universidade Estadual de Maringá

Os decênios de 1940-50 configuraram, segundo Micelli (2011), períodos de grandes vendas no mercado editorial brasileiro, sendo que cerca de 38% das publicações realizadas no país eram compostas de narrativas de ficção, das quais um terço diziam respeito aos romances de amor, as histórias policiais e os livros de aventura. Esses textos não foram produzidos no cenário literário brasileiro, sendo traduções de outras línguas, mas circularam efetivamente e foram, acima de tudo, lidos, configurando-se como concorrentes às obras consideradas de valor, embora tenham sido historicamente apagadas no cenário dos bens simbólicos no Brasil. Entretanto, como formas ficcionais que tiveram relevância junto aos públicos e, acima de tudo, considerando uma perspectiva sociológica, como propõe Escarpit (1969), o âmbito do qual se acerca o literário também envolve questões da produção material do livro e da sua leitura, ambas atreladas, inexoravelmente, ao desenvolvimento da burguesia e das sucessivas classes intermediárias nas quais ela vai se estratificando, produzindo o que se convencionou chamar de massas. Tendo como partida este cenário de leitura no Brasil, esta palestra objetiva apresentar dados sobre a Coleção Menina e Moça, editada pela livraria José Olympio e que consistiu na tradução e publicação de textos da conhecida Bibliotèque de Suzette (edita na França entre os anos de 1919 e 1965). A palestra focalizará dados sobre os aparatos editoriais utilizados na divulgação da coleção no Brasil, bem como alguns aspectos sobre representações de grupos sociais e dados sobre a composição narrativa de corpus desta coleção.

Brasil, um personagem à venda: a literatura brasileira contemporânea e a representação da identidade nacional

Ricardo Barberena
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

As narrativas contemporâneas da literatura brasileira, recolhidas nas duas últimas décadas do século XX e na primeira década do século XXI, tecem uma gama imagética que comprovam como as identidades nacionais não são estáveis e ontológicas, mas são formadas e transformadas no interior da representação. Como a unidirecionalidade das concepções fixas e sedentárias despertam sérias desconfianças, a ênfase do debate teórico passa a ser situada numa identidade heterogênea submetida às clivagens de toda ordem. As identidades nacionais, portanto, são incapazes de subjugar e apagar a complexa rede de diferenças manifestada por inúmeros discursos que se situam em uma relativa posição de “marginalidade”. Apesar de todo um passado crítico de silenciamento das diferenças culturais, os “outros” significados, que não são os institucionalizados, sempre estão presentes no interior da cultura nacional através de suas representações perturbadoras da identidade nacional. Desta forma, as identidades nacionais talvez não sejam tão imutáveis e estáveis como tradicionalmente se propunha, mas, sim, resultado das transitórias negociações de sentido que constituem um processo de identificação pautado por uma pluralidade de diferenças. Dentro dessa releitura dos significados culturais, as identidades nacionais podem ser estudadas como produto de um espaço de fronteira onde se discutem as diferenças através de uma relação híbrida de sentidos, pautada por um entre-lugar discursivo. Pensar a identidade em terras brasileiras, num momento pós-colonial, nos leva a refletir sobre a possibilidade de uma diferença que não seja compatível com as ideias da universalidade humana concreta e da sociedade igualitária secular, pois aquele evolucionismo primitivista de resgate do “selvagem” da natureza e de exaltação do outro “civilizado” está abalado por uma nova conjuntura social diferenciada daquela da Metrópole-Colônia. Na efetivação desse projeto, que não se restringe ao aporte pós-colonial, recorro ao suporte teórico de um discurso antropológico pautado pela relativização dos sujeitos sociais e pela construção de uma crítica contundente a uma ideologia universalizante. O exercício de tal relativismo antropológico representa a implantação de um poderoso instrumento de crítica cultural que avalia as desigualdades socioeconômicas e problematiza os tradicionais padrões de normalidade aceitos pela comunidade. Este viés crítico introduz uma reflexão política sobre o modo de relativizar as identidades nacionais, demonstra a impossibilidade da formação de uma análise da diversidade nacional alienada de uma perspectiva antropológica, pois tal teoria está organizada através de uma leitura das representações simbólicas como uma relação entre o símbolo e o que ele simboliza – uma função significante aberta e contingente constituída por traços de indeterminação e pluralidade.


Mirian Hisae Yaegashi Zappone é professora do departamento de Letras e do Programa de Pós-graduação em Letras  da Universidade Estadual de Maringá - Paraná. Pesquisa temas relacionados à leitura de textos literários, literatura infantojuvenil brasileira e letramento. Desenvolve projetos de ensino de leitura junto a professores da rede pública de ensino. Publicou, entre outros, os ensaios “A cor e a raça da personagem na narrativa juvenil contemporânea”( 2011) “Fanfics: uma caso de letramento literário na cibercultura?” (2008) e “Modelos de letramento literário e ensino da literatura: problemas e perspectivas. Teoria e Prática da Educação (2007). Organizou a antologia Leitura do texto literário: práticas e letramentos (Maringá: Eduem, 2010 ).

Ricardo Araújo Barberena possui Graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2000), Doutorado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2005) e Pós-Doutorado (2009), intitulado "Paisagens limiares na contemporaneidade brasileira: representações da identidade no Cinema e na Literatura", pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários (PUCRS). Atuação docente na área de Letras (Teoria Literária), com ênfase em Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: identidade, diferença, literatura, nação, identidade, cinema, literatura e cultura. É coordenador do Grupo de Pesquisa Limiares Comparistas e Diásporas Disciplinares: Estudo de Paisagens Identitárias na Contemporaneidade, do Acervo do Escritor Pedro Geraldo Escosteguy/ DELFOS – PUCRS e da Especialização em Literatura Brasileira na PUCRS

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Littérature brésilienne contemporaine

Elvira Vigna, Sem titulo, 2012
Espaces, traductions et médiations culturelles
 Colloque international
Brésil-France-Allemagne

Les 7 et 8 Mars 2013
Université Paris-Sorbonne ● Maison de la Recherche
28, rue Serpente 75006 Paris (M° Odéon)

Les 11 et 12 Mars 2013
Ibero-Amerikanisches Institut Berlin  ● Simón Bolívar-Saal
Potsdamerstr. 37, 10785 Berlin



Organisateurs : José Leonardo Tonus (Université Paris-Sorbonne) - Maria Graciete Besse (Université Paris-Sorbonne) - Susanne Klengel (Lateinamerika-Institut, Freie Universität Berlin) - Georg Wink (Lateinamerika-Institut, Freie Universität Berlin) - Regina Dalcastagnè (Universidade de Brasília)

A literatura brasileira contemporânea é heterogênea e de difícil delimitação. Ela não se prende a definições unívocas, muito menos se submete com facilidade a generalizações. Se, por um lado, busca acompanhar as transformações sociais e políticas ocorridas no Brasil a partir do final da ditadura militar, por outro, tem de dar conta de novos modos de se constituir como forma de expressão artística. Daí os inúmeros deslocamentos e diálogos efetuados em seu interior, seja refletindo sobre a inclusão de novas vozes sociais, seja incorporando recursos e estratégias provenientes de outras   linguagens artísticas, seja, finalmente, discutindo sua relação com os meios comunicação de massa .
Este colóquio – que reunirá pesquisadores de diversas instituições acadêmicas do Brasil, França, Alemanha, Portugal, Espanha, Inglaterra, Áustria, Estados Unidos e Dinamarca – pretende abordar alguns destes movimentos, e suas intermediações, tentando captar suas consequências no campo literário brasileiro e no interior das obras literárias. Ele surge dos diálogos estabelecidos entre estudiosos de literatura brasileira contemporânea de três grupos de pesquisa  e marca a consolidação da cooperação entre três instituições de ensino superior: a Universidade de Brasília, a Universidade Paris-Sorbonne e a Freie Universität Berlin.
As diferentes procedências dos participantes apontam também as diferentes perspectivas teóricas e metodológicas que estarão em debate no encontro. E nem poderia ser de outra forma, tendo em vista a multiplicidade de problemas colocados por essa literatura. Estarão em discussão, portanto, desde questões mais teóricas, necessárias para a análise das obras literárias em seu conjunto, até estudos  pontuais sobre livros e autores específicos, incluindo ainda interpretações sobre o campo literário brasileiro atual. Todos os trabalhos trarão como preocupação central o fazer literário na contemporaneidade. 

Plus d’informations: coloquio2013@hotmail.fr
Consultez le programme  : Programme


PROGRAMME

Jeudi 7 mars – Université Paris-Sorbonne
Maison de la Recherche
 (salle des conférences - D035)
28, rue Serpente
75006

           
9h30
Accueil des participants en présence des organisateurs du Colloque

10h00-11h30
Modérateur : Friedrich Frosch (Universität Wien)

Carmen Villarino Pardo (Universidad de Santiago de Compostela)
Processos de internacionalização da literatura brasileira contemporânea e diplomacia cultural

Igor Ximenes Graciano (Universidade Federal Fluminense)
O sujeito-escritor e as transformações no campo literário: o caso Cristovão Tezza

Georg Wink (Freie Universität Berlin)
Sertão revisitado: dialogando com os clássicos em Nhô Guimarães e O pêndulo de Euclides, de Aleilton Fonseca

14h30-16h00
Modérateur:  Lúcia Osana Zolin (Universidade Estadual de Maringá)

Susanne Klengel (Freie Universität Berlin)
Encenação de não-lugares na literatura: o cronotopo da ilha em Carola Saavedra

Friedrich Frosch (Universität Wien)
A memória e os narradores na obra de Beatriz Bracher

Sandra Regina Goulart Almeida (Universidade Federal de Minas Gerais)
Cartografias de gênero: espaço, corpo e escrita



Vendredi 8 mars – Université  Paris-Sorbonne
Maison de la Recherche
(salle des conférences - D035)
28, rue Serpente
75006

                       
9h30-10h30
Modérateur: Clémentine Lucien (Université Paris-Sorbonne)

Maria Araujo da Silva (Université Paris-Sorbonne)
Cartographie du féminin dans Sinfonia em branco, d’Adriana Lisboa

Maria Graciete Besse (Université Paris-Sorbonne)
Généalogies et détours mélancoliques dans l'œuvre d'Adriana Lunardi

11h00-12h30
Modérateur: Maria Graciete Besse (Université Paris-Sorbonne)

Alberto da Silva (Université Paris-Sorbonne)
Transgressions et représentations du genre dans l’adaptation cinématographique Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu

Joaquín Manzi (Université Paris-Sorbonne)
Diários de motocicleta, de Walter Salles: du texte aux images

Clémentine Lucien (Université Paris-Sorbonne)
Nesta terra, neste instante, de Marília Guimarães: de l'enfer brésilien à l'utopie vert olive, ou comment mettre "en intrigue" un fait divers

14h30 – 16h00
Réunion de travail (réservée aux participants du Colloque)


                                              
Lundi  11 mars - Ibero-Amerikanisches Institut
Simón Bolívar-Saal
Potsdamer Str. 37, 10785 Berlin

9h30: Accueil  des participants en présence de Mme Barbara Göbel, directrice de l’Ibero-Amerikanisches Institut.


10h00 – 11H15
Modérateur: Henry Thorau (Universität Trier)

Regina Dalcastagnè (Universidade de Brasília)
No supermercado: o pobre e seus espaços possíveis na literatura brasileira contemporânea

Claire Williams (St Peter’s College, University of Oxford)
Transportes públicos literários: perspectivas cotidianas da cidade na literatura contemporânea brasileira

11h45 – 13h00
Modérateur: Jaime Ginzburg (Universidade de São Paulo) 

Vinicius de Carvalho (Universität Aarhus)
Ficções memorialísticas ou memórias ficcionais: a insistência da memória histórica na nova literatura brasileira

Markus Klaus Schäffauer (Universität Hamburg)
O defeito em Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves

15h00 – 16h15
Modérateur: Dania Schüürmann (Freie Universität Berlin)

Lúcia Osana Zolin (Universidade Estadual de Maringá)
Identidades deslocadas: representações femininas na ficção brasileira contemporânea escrita por mulheres

Virgínia Maria Vasconcelos Leal (Universidade de Brasília)
Marcas de gênero ausentes em narrativas literárias contemporâneas: desafios à ordem binária da identidade

16h45 – 18h00
Modérateur: Kaciano Gadelha (Freie Universität Berlin)

Camila Gonzatto (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul/FU Berlin)
Reflexões sobre o amor em Até o dia em que o cão morreu, de Daniel Galera

Jaime Ginzburg (Universidade de São Paulo) 
A sexualidade na ficção brasileira contemporânea


                                              
Mardi 12 mars - Ibero-Amerikanisches Institut
Simón Bolívar-Saal
Potsdamer Str. 37, 10785 Berlin


10h – 11h15
Modérateur: Vinicius de Carvalho (Universität Aarhus)

Leonardo Tonus (Université de Paris-Sorbonne)
Fora do Brasil: alteridades subversivas e consensuais na literatura contemporânea brasileira

Maria Isabel Edom Pires (Universidade de Brasília)
Os livros como herança: a biblioteca da imigração na literatura brasileira

11h45 – 13h00
Modérateur: Ligia Chiappini (Freie Universität Berlin)

Marcel Vejmelka (Universität Mainz)
O Japão na literatura brasileira mais recente

Henry Thorau (Universität Trier)
Uma “comédia negra”: Namíbia, não!, de Aldri Anunciação

14h30 – 15h45
Modérateur: Georg Wink (Freie Universität Berlin)

Ricardo Barberena (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul)
A linguagem-estrelada de Ó, de Nuno Ramos: limiares desassossegados entre escritura e figura

Carlos Mendes de Sousa (Universidade do Minho) 
Clarice e seus quadros

16h00 – 17h00
Réunion de travail (réservée aux participants du Colloque)



sábado, 23 de fevereiro de 2013

Brasilianische Literatur der Gegenwart

Himmelsstürmer: documenta-Skulptur des US Künstlers Jonathan Borofsky(© Kassel Marketing GmbH)
Brasilianische Literatur der Gegenwart: ein Thema in Europa

Camila Gonzatto

In Berlin und Paris kommen Forscher aus mehreren Ländern zusammen, um über Räume kultureller Übersetzungen und medialer Vermittlungen in Hinblick auf die brasilianische Literatur zu diskutieren. Der Auftritt Brasiliens als Gastland der nächsten Frankfurter Buchmesse stärkt die Bedeutung der literarischen Produktion Brasiliens im internationalen Kontext.

Texten auf deustch:  

Goethe-Institut/ Brasilien


Elvira Vigna, sem titulo, 2012
Literatura brasileira contemporânea na Europa: tema em debate
  
por Camila Gonzatto

Pesquisadores de diversos países reúnem-se em dois encontros, em Berlim e Paris, para discutir sobre espaços, traduções e intermediações culturais envolvendo a literatura brasileira. Presença do Brasil na próxima Feira do Livro de Frankfurt, na condição de país convidado, reforça relevância da produção literária brasileira no cenário internacional.

Textos em português : 


Goethe-Institut/ Brasil

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O amigo retornado


Tour Eiffel Robert Delaunay 1910-1911
O amigo retornado
 Mário Araújo


Na mesa do restaurante, em Brasília, os três amigos se reencontram. Dois deles são marido e mulher e se veem, salvo viagens esporádicas, todos os dias. O terceiro é Alfredo, que acaba de voltar de Paris e tem diante de si a tarefa de se readaptar à vida brasileira (e brasiliense!) após vários anos morando fora.
Nada mais natural, portanto, que o recém-chegado fale e o casal escute, com toda atenção. Afinal, estes saberão sempre menos sobre as coisas de lá do que Alfredo, na sua condição de funcionário do governo, saberá sobre as coisas de cá. Ajustados à vida local e suficientemente sintonizado com o mundo grande, o casal se satisfaz em saber que a França tem um novo primeiro-ministro, que nevou muito no inverno passado e que o Paris Saint-Germain, agora patrocinado por um milionário russo, é o mais novo novo-rico do futebol europeu.
Alfredo narra então a cena, testemunhada e vivida por ele num vagão de metrô. O protagonista é um jovem pai francês que, sem maiores avisos e sem que nenhuma palavra tenha sido ouvida antes, aplica no filho pequeno que viajava com ele uma sonora, indecorosa bofetada. Verdadeiro espancamento de uma pancada só. E nem precisava mais: o menino, que aparenta não ter mais que seis anos, rodopia e cai de bunda no chão, posição nem tão vexatória nessa idade, mas que dói igual. No levantar silencioso da criança (só o rosto em brasa registra o medo que é invisível nos outros lugares), vê-se o conformismo, possivelmente construído pelo hábito.
            Alfredo, que tem em casa um belo cocker spaniel mas que gosta mesmo é dos seus meninos, sente ferver o sangue e o logo o dedo em riste está na cara do agressor, um palmo mais alto que ele. O outro demora a reagir, tão perplexo está com a insolência do estrangeiro. Os demais passageiros leem o jornal: a coisa está feia na Síria e o desemprego na Europa bate recordes.
            Alfredo berra: “Se você encostar a mão nele de novo, eu quebro a sua cara!”. “Meta-se com os seus!”, é a resposta que vem lá de cima.
            Na primeira estação, o francês salta levando a criança de arrasto e Alfredo, desesperado, enlouquecido, entorpecido (pela torpeza alheia), desce atrás. Esqueceu que para ele ainda faltam cinco paradas.
            O francês avança, Alfredo avança e ousa tocar seu ombro. Colocam-se frente a frente e a discussão recomeça. A iniciativa é sempre do brasileiro, cuja raiva transgride qualquer argumento: “Você não pode fazer isso!”. “Eu faço o que quiser!”, retruca. “Então bata em mim e não nele!”
            Em meio a trens e pessoas fluindo indiferentes, a algazarra acaba atraindo, enfim, a atenção de um homem, um só, negro, que se aproxima e tenta abortar a briga, mostrando, no gesto mais firme para o lado do europeu, que o que ouviu do diálogo acabou por influenciá-lo a favor de Alfredo. Contudo, depois de um breve momento em que este, quem sabe tocado por sentimentos terceiro-mundistas, imagina o africano unindo-se a ele para juntos darem uma lição no vilão da história (de que lado ficaria o menino?), cada um toma seu rumo.
            Fim da narrativa e pausa até que os pontos de exclamação tomem assento.
            As taças são esvaziadas e novamente cheias, o garçom anota os pedidos. O vinho é chileno, mas um certo orgulho nacional se insinua entre os comensais: uma cena dessas jamais aconteceria aqui. Aqui, o mocinho e o moço-do-deixa-disso teriam de fato se unido para derrotar o pai malfeitor. E a polícia teria sido chamada para garantir a proteção ao pequeno cidadão. Que bom estarmos aqui, juntos - é o pensamento comum, o grito latente.
            E segue então a conversa, norteada pelo desejo de matar saudades, narrar histórias, compartilhar pontos de vista. É a hora de o casal contar as melhores dos últimos meses por estas bandas, enquanto Alfredo irá discorrer sobre as melhores dos últimos dias, desde que retornou de seu exílio institucional.
            O ainda forasteiro começa contando suas aventuras de fim de semana, quando decide pegar o carro recém-adquirido (custou caro mas tem air-bag, um luxo) e sair por aí como um Kerouac do cerrado, explorando os muitos paraísos naturais que irrigam o planalto. Percebe, logo nos primeiros quilômetros, que o caminho piorou muito em comparação ao que considera, nostálgica e possessivamente, a sua época –trata-se, é claro, da mesma estrada, só que surrada pelo tempo e jamais acudida pelas autoridades. Houve momentos em que pensou, por improvável que fosse, ter chegado precocemente às cachoeiras e belos penhascos do cerrado, mas era a estrada ainda, com seus buracos criminosos acobertados pela água da chuva.  
            Talvez distraída pelo relato, a mulher faz um gesto que quase derruba o iPhone que estava sobre a mesa. “Ops”, ela diz, “não posso me dar ao luxo de perdê-lo”. E esclarece que o aparelho pertence à repartição onde trabalha. Se quebrar, terá que pagá-lo, e isso certamente custará “no mínimo o dobro do preço de mercado”. Embora ninguém pareça estranhar o contrassenso da frase, ela vai em frente e explica que o preço pelo qual o aparelho foi comprado pelo órgão público, após licitação, provavelmente foi superfaturado.  
            Resolvem então falar sobre o grande acontecimento dos próximos anos, que está deixando o país em polvorosa: a Copa do Mundo. Todos na mesa são furiosos amantes do futebol. “Está aí!”, empolga-se Alfredo, quase completando com um “E nós aqui!”. É imensa a animação por poderem participar juntos do momento histórico que se aproxima. Como será divertido esperar pelo sorteio das chaves, escolher os melhores lugares no estádio, comprar os ingressos. E os estádios? O casal oferece informações detalhadas sobre a reforma das antigas praças esportivas e a construção das novas e modernas arenas, sobre as quais Alfredo lera apenas superficialmente na mídia. Sim, os custos quadruplicaram; sim, as licitações foram simplificadas para atender ao caráter urgente das obras; sim, Ronaldo, aquele menino que até há pouco fazia a alegria da torcida com seus gols fenomenais é agora membro do comitê organizador e emula o discurso dos cartolas mais rançosos. Os pormenores não desmentem a tenebrosidade das manchetes; muito pelo contrário, enquanto mais se mete a pá na terra, maior a chance de se encontrar esqueletos.
            Como que para se purificar, os três entabulam a conversa clássica sobre a chuva - que finalmente chegou –, conversa essa que desemboca nas enchentes do Rio e de Minas, tradicionais e pontuais como o show do Rei na Rede Globo. Parecem sem solução, mas um dos amigos recorda que, durante a calamidade que assolou o litoral fluminense em 2011, um e outro comentarista de TV ao menos fez um esforço para frisar que a culpa não era da chuva, não era da natureza, mas sim do homem. E não do homem que ergue seu barraco na beira do precipício, mas do poder público - ou, para não trocar uma abstração por outra, dos homens que exercem o poder público. O noticiário enfim rompeu o velhíssimo hábito de se atribuir à natureza, essa teimosa, a culpa pelo desastre. Estamos melhorando, é a conclusão a que todos querem chegar – a passo de quelônio, para alguns ditos pessimistas, mas ainda assim estamos.
            E os assuntos continuam se emendando uns nos outros, brotando das coisas. Nada deve ser premeditado na prosa de velhos companheiros.
            É quando, lá pela metade da segunda garrafa de vinho e com o restaurante já meio vazio, surge diante da mesa um vulto esquálido. A mão espalmada traduz o pedido, em princípio silencioso, de ajuda. Mas logo a pessoa (há dúvidas quanto ao gênero, tal o nível de deterioração física) faz uso da palavra, com o objetivo claro de potencializar seu arsenal persuasivo. Informa que luta contra a AIDS e que toma, sem falhas ou omissões, o coquetel retirado em algum lugar (hospital ou posto de saúde) que a má dicção não permite entender – e para provar mostra um pedaço de papel que, à distância e sob a luz fraca, nada esclarece. Diz também que tem irmãos menores sob sua responsabilidade. Parece, enfim, disposta a lançar mão de todos os argumentos, mas os três resistem, amparados pela justificativa de que quem não dá a ninguém trata todos como iguais.
            Quando a pessoa se retira, o casal tenta adivinhar se quem está por trás daqueles gestos femininos, negados pela completa ausência de formas, é um rapaz gay ou uma moça cuja miséria levou embora seios e nádegas como num arrastão. Enquanto isso, Alfredo medita, como quem toma fôlego após percorrer parte de um longo caminho – o caminho da adaptação e da compreensão do ambiente que o cerca. E então observa: “Vocês viram? As pontas dos dedos queimadas? Queimadas de acender crack. Hoje em dia todos são assim”.

Mário Araújo nasceu em Curitiba, Brasil.Em 2005 publicou seu primeiro livro de contos A Hora Extrema  vencedor do Prêmio Jabuti em 2006. Seu segundo livro Restos foi publicado em 2008. Além disso, participou deantologias no Brasil, Espanha e México e tem publicado textos nem jornais e revistas literários e na internet. Atualmente, prepara seu primero romance.

Consultem a entrevista de Mario Araújo para o blog Estudos Lusofonos  no link :  Um dedo de prosa com Mario Araujo

Vejam o site do autor no link : Mario Araujo


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Escritoras portuguesas lidas no Brasil



Conférence avec les professeurs Monica Figueiredo et
Teresa Cristina Cerdeira
( Universidade Federal do Rio de Janeiro)

le mardi  19 février 2013
à 10h, salle 13

Institut Hispanique
31, rue Gay-Lussac    75 005 Paris

Lídia Jorge: a trapaça no feminino
Mônica Figueiredo
Universidade Federal do Rio de Janeiro

A partir da leitura do conto “Marido” de Lídia Jorge (1997), este trabalho pretende investigar as formas de inscrição da subjetividade feminina na narrativa portuguesa contemporânea. Longe de querer problematizar a possível existência de um “sexo” para os textos, o que aqui se deseja é antes recuperar uma certa tradição responsável pela fixação da imagem da mulher na literatura ocidental. Contrapondo tradição e ruptura, o conto de Lídia Jorge parece corroborar a assertiva de Kristeva quando esta afirma que “o divino nas mulheres corresponde ao seu masoquismo”.



Do erotismo e da morte em Nas tuas mãos de Inês Pedrosa
Teresa Cristina Cerdeira
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Três discursos da intimidade feminina que teriam pertencido, em três gerações distintas, a três mulheres – Jenny, Camila e Natália – , unidas por um heterodoxo laço familiar, situam-se num tempo que vai de 1935 a 1994 e são dados à luz numa suposta organização de materiais discursivos de gêneros diversos – um diário, um álbum comentado de fotografias pessoais, um conjunto de cartas – cujo elemento comum seria a escrita em primeira pessoa, de cunho mais ou menos autobiográfico. Nas tuas mãos  é um romance que se constrói sob o signo do testemunho pessoal e histórico, num percurso de cerca de 60 anos de história portuguesa. Constituindo uma aventura pelo amor e pela morte, essas três histórias funcionam como microssistemas dos tempos diversos que atravessam e que encarnam.



Mônica Figueiredo. Professora de Literatura Portuguesa nos cursos de licenciatura, Mestrado e Doutorado da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.  Sua pesquisa de doutoramento privilegiou a narrativa contemporânea (Helder Macedo, Lídia Jorge e José Saramago) e as relações mantidas pelo feminino com o espaço. Sua tese foi publicada em livro em 2012 com o título No corpo, na casa e na cidade: as moradas da ficção. Desenvolveu uma pesquisa de Pós-doutoramento na Universidade de Coimbra.  É especialista na narrativa oitocentista, com destaque para a obra de Eça de Queirós. 

Teresa Cristina Cerdeira. Professora de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.  Doutorou-se em 1987 com uma tese sobre José Saramago, publicada em 1989 pela Dom Quixote (Lisboa): José Saramago - Entre a História e a ficção, uma saga de portugueses. De sua pesquisa de pós-doutoramento em Lisboa e em Paris (no Collège de France com o professor Georges DUBY) nasceu o conjunto de ensaios publicado em 2000 - O Avesso do Bordado. Especialista da literatura contemporânea portuguesa, organizou o livro de ensaios sobre a obra de Helder Macedo - incluindo poesia e ficção - , sob o título de A Experiência das fronteiras. Em 2004 organizou com Matgarida Calafate Ribeiro , Juliet Perkins e Philipp Rothwell o livro A Primavera toda para ti, em homenagem a Helder Macedo.