quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Um dedo de prosa com João Almino



Um dedo de prosa com João Almino

Este mês o Blog Estudos Lusófonos publica uma entrevista realizada com o escritor João Almino durante sua passagem por Paris. Consultem os vídeos abaixo em que o escritor comenta  a importância da cidade de Brasília em sua obra, nomeadamente, em seu último romance Cidade Livre. Nesta entrevista, João Almino fala, igualmente, de suas inquietações  filosóficas e evoca sua relação com o universo  machadiano.


Um pouco de leitura

Cidade Livre

Elaborada a partir  de um suporte narrativo virtual em rede (o blog), a estrutura  romanesca de Cidade Livre refuta as noções clássicas da autoria textual. Com efeito, ao acentuar os efeitos de dissimulação, o autor assegura ao texto uma configuração caleidoscópica capaz de neutralizar a articulação linear e unívoca das informações veiculadas. Em Cidade Livre, estas apresentam-se, antes, sob a forma de sequências associativas, convergentes e/ou divergentes, que reavaliam, constantemente, o conjunto dos dispositivos escriturais : instâncias narrativas, focalização, temporalidade e espacialidade. Ao olhar irônico e desabusado de J.A., justapõem-se, ao longo do texto, as lembranças fragmentadas de seu pai adotivo registradas num diário lacunar, o testemunho de personagens históricas ficcionalizadas, os comentários dos leitores virtuais do blog que destilam, completam ou alteram as informações diegéticas e, finalmente, o olhar  admirativo da população anônima de candangos que, em Brasília, acreditava ver o raiar de uma nova era para o país. A intriga  articula-se em torno do relato de sete noites de vigília durante as quais  J.A acompanha a agonia do pai  até a sua morte. O corte temporal aqui escolhido pelo autor confere ao texto uma dimensão mítico-simbólica inscrevendo-o na tradição dos mitos de restauração cíclica.  Romance de fundação, ou de anti-fundação, Cidade Livre conduz o leitor pelos abismos labirínticos de uma memória individual e coletiva estilhaçada que, através das brechas, frestas, insterstícios e  desvãos da história não-oficial do país, recompõe o momento inaugural do Brasil moderno. A euforia e o otimismo da construção de Brasília contrastam, ao longo do romance, com as desilusões familiares e o desencanto dos trabalhadores locais, dentre os quais, Valdivino, assassinado no dia da inauguração da capital brasileira. Sua morte misteriosa constitui o motor dramático e interpretativo desta narrativa que concentra no candango todas as contradições do devir da nação brasileira, dividida entre sua ancoragem rural e urbana, seu ímpeto modernista e tradicional, sua racionalidade e irracionalidade profundas. A localização do romance no universo brasiliense é neste sentido significativa.  Espaço movediço e desprovido de história,  Brasilia é em Cidade Livre um território sem raízes povoado de identidades precárias, órfãs e bastardas, em suma : o espaço das utopias e distopias de um Brasil que, em construção,  ja é ruína.
Leonardo Tonus

[...] No dia da morte de Valdivino, se é que de fato morreu, tive de ficar em casa durante toda a manhã e grande parte da tarde.  Sequer saí às avenidas, que eu supunha desertas. Acho que foi naquela tarde — quando papai chegou inquieto e me mostrou o buraco onde enterrava seus papéis — que pela primeira vez pensei em ser jornalista e em escrever sobre os tempos da Cidade Livre, e foi de uma vontade como a de Sayão, de um vento e de uma força, que as palavras com as quais pude rememorar aqueles tempos foram surgindo, uma a uma, arrancadas do silêncio e de um vazio profundo, como criação que brota do zero, da incerteza, da ignorância, da dívida, da culpa, daquilo que nos falta. Eu não queria dizer nada, pois a memória nada quer dizer, apenas diz em meio ao esquecimento e ao que procura ocultar, e por isso não há o que interpretar — as palavras, como as lembranças, são o que são e nada mais. Olhando-me no espelho do passado, onde às vezes não me reconheço,  nada invento, apenas escrevo o relato do que vivi, que fica como um testemunho, entre muitos que podem existir, para compor o quadro de uma época.
Depois de meses de aprendizado com tia Francisca, naquela tarde longínqua de 1960 consegui finalmente tocar acordeom. Levei-o à Avenida Central quando o sol grande e vermelho já beijava o horizonte, sentei-me num banquinho ao ar livre, Tufão foi comigo e deitou-se a meus pés, comecei a tocar, e algumas pessoas se juntaram ao meu redor. Houve até um arrasta-pé. Todos estavam alegres, dançando, menos papai e tia Francisca. Tia Matilde apareceu, riu para mim e disse, Esse menino vai dar muito trabalho! Havia um vento forte, que vibrava na saia de tia Matilde, e uma transparência cor de laranja no ar. Ainda era a estação das chuvas, e por isso os ventos vinham do norte, e não do leste e sudeste como no verão, e uma liga de barro vermelho encardia nossas botas e sapatos naquelas extensões que um dia, quem sabe, seriam verdes. [...]
(*)Cidade Livre, editora Record, 2010.


Un peu de lecture

Hôtel Brasilia

Ce récit de la construction de Brasilia entre 1956 et 1960 mêle les espoirs et les exploits, les constructeurs de la ville, les visiteurs célèbres ou non, les bâtisseurs de société et les rêveurs des sectes qui s’assemblent dans le désert du planalto brésilien. Au moment où il croit lire un reportage sur une utopie réalisée le lecteur tombe dans les rets du romancier et dans ce tourbillon vertigineux qu’est la subjectivité. Il se perd sur les traces de Valdivino, le paysan du Nordest, et de son mystérieux grand amour, la prophétesse Iris Quelemém qui règne sur le jardin du Salut. Il suit les courses du jeune garçon fasciné par la cycliste aux tresses brunes, l’épopée de l’ouverture de la route Brasilia Belem, les amours clandestines du père, les spéculations financières et les dettes qui le jetteront dans la prison où va le voir son fils adulte pour comprendre ses secrets. João Almino capte les voix qui affluent vers cette ville mythique et les restitue dans un incomparable style transparent à l’image de la lumière de Brasilia.
Source : Editions Métailié -  http://www.editions-metailie.com/

Le jour de la mort de Valdivino, si tant est qu’il soit effectivement mort, je dus rester à la maison toute la matinée et une grande partie de l’après-midi. Je n’allai même pas sur les avenues, que je supposais désertes. Je crois que ce fut cet après-midi-là – quand papa arriva inquiet et me montra le trou où il enterrait ses papiers – que pour la première fois j’envisageai d’être journaliste et d’écrire sur l’époque de la Cidade Livre, et ce fut d’une volonté comme celle de Sayão, d’un vent et d’une force, que les mots avec lesquels je pus me souvenir de ce temps-là surgirent, l’un après l’autre, arrachés au silence et à un vide profond, comme une création sortie du néant, de l’incertitude, de l’ignorance, de la dette, de la culpabilité, d’un manque. Je ne voulais rien dire, car la mémoire ne veut rien dire, elle se borne à dire au milieu de l’oubli et de ce qu’elle s’efforce d’occulter, et donc il n’y a rien à interpréter – les mots, comme les souvenirs, sont ce qu’ils sont et rien de plus. En me regardant dans le miroir du passé où parfois je ne me reconnais pas, je n’invente rien, j’écris simplement le récit de ce que j’ai vécu, qui reste comme un témoignage, parmi les nombreux qui peuvent exister, pour composer le tableau d’une époque.
Après des mois d’apprentissage avec tante Francisca, j’avais enfin réussi à jouer de l’accordéon en ce lointain après-midi de 1960. Je l’ai emporté sur l’Avenue Centrale à l’heure où un grand soleil rouge effleurait déjà l’horizon, je me suis assis sur un petit banc en plein air, Typhon qui m’a suivi s’est couché à mes pieds, j’ai commencé à jouer. Plusieurs personnes se sont assemblées autour de moi et se sont même mises à danser. Tous étaient joyeux et dansaient, sauf papa et tante Francisca. Tante Matilde est arrivée, elle m’a souri et a dit, Ce garçon nous donnera beaucoup de soucis ! Un vent fort soufflait, enflant la jupe de tante Matilde, et l’air prenait une transparence orangée. C’était encore la saison des pluies, les vents venaient donc du nord et pas de l’est et du sud-est comme en été et un liséré de boue rouge maculait nos bottes et nos souliers sur ces vastes étendues qui un jour seraient peut-être vertes.

( *) Hôtel Brasília, Traduit du portugais (Brésil) par Geneviève Leibrich, Editions Métailié, 2012.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Literatura brasileira na Sorbonne


Já está disponível o áudio do encontro realizado na Universidade da Sorbonne com os escritores Julián Fuks, Luciana Hidaldo e Carol Bensimon.

Para ouvir o áudio clique no link abaixo  
Troisparcours littéraires brésiliens.
( Basta baixar o arquivo mp3)

Este encontro contou com o apoio da Embaixada do Brasil na França e da TAM linhas aéreas. 



Trois parcours littéraires brésiliens

Organisateurs :
José Leonardo Tonus
Maria Araújo da Silva
Maria Graciete Besse

Luciana Hidalgo
Luciana Hidalgo est écrivain et docteur en littérature comparée  par l’Université de l’Etat de Rio de Janeiro (Brésil). Spécialiste de l’autofiction et des rapports entre la  littérature et la folie, elle réalise actuellement un stage postdoctoral à l’Université de la Sorbonne-Nouvelle (Paris III). Elle est l’auteure de l’essai Literatura da urgência – Lima Barreto no domínio da loucura (2008) et de la biographie de l’artiste Arthur Bispo intitulée Arthur Bispo do Rosário – O senhor do labirinto » ( 1997),  prix Jabuti  en 1997 et en 2009. En 2011, Luciana Hidalgo a publié le roman O passeador qui a été finaliste des prix  Jabuti, Portugal Telecom et São Paulo de Literatura.

Carol Bensimon
Née en 1982 à  Porto Alegre, Carol Bensimon a présenté un mémoire de Master en écriture créative à l’Université Pontifícia Católica du Rio Grande do Sul (Brésil).  Elle a publié plusieurs nouvelles dans des anthologies brésiliennes et, en 2008, le recueil  Pó de parede (Não Editora, 2008) qui a été finaliste du prix Açorianos. Elle est l’auteure  du romanSinuca embaixo d’água (2009), finaliste des prix São Paulo de Literatura, Jabuti et Bravo!.  Elle  travaille actuellement à son nouveau roman (Faíscas) dont le premier chapitre vient de paraître dans le dossier organisé par la revue Granta consacré aux meilleurs jeunes écrivains brésiliens.

Julián Fuks
Julián Fuks est écrivain, traducteur et critique littéraire. Né à  São Paulo en 1981, il a publié, en 2004, le recueil de nouvelles Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu. Il est l’auteur des romans Histórias de literatura e cegueira (2007- finaliste des prix Jabuti et Portugal Telecom) et Procura do romance (2011 - finaliste des prix Jabuti, São Paulo Literatura et Portugal Telecom). En 2012, il a participé au dossier « les meilleurs jeunes écrivains brésiliens » organisé par Revue Granta et a été sélectionné par la maison d’édition « Lettrétage » pour une anthologie sur la littérature brésilienne contemporaine (2013). Spécialiste des théories de l’art, Julián Fuks a soutenu un mémoire de Master sur la littérature hispano-américaine et un doctorat en théorie littéraire à l’Université de São Paulo. Il a travaillé, également, comme journaliste et critique littéraire pour l’hebdomadaire Folha de S. Paulo et pour les revues Entrelivros etCult.


Avec le soutien de




domingo, 20 de janeiro de 2013

O Rap na encruzilhada



http://www.streetartutopia.com


Como o Rap português tem-se posicionado face à crise econômica?
Leiam a entrevista que Mickaël Cordeiro de Oliveira (*) realizou com  os rappers Reflect, diretor da editora algarvia Kimahera, e Capicua, MC do Porto cujo último último álbum foi considerado pela imprensa como um dos melhores de 2012.


Mickaël : Diz-me o que sentes ao ouvir Xoro, do Celso OPP?
Reflect : Impotência. Numa primeira instância, o sentimento é esse… transforma-se em revolta, mas quando a emoção cruza a linha da racionalidade, fecho-me no meu pensar e cultivo uma grande vontade de fazer algo para mudar este panorama. Já todos percebemos o que se passa, já muitos dedos foram apontados… a questão é: o que é que tu fazes para contrariar isso? Qual é o teu papel na mudança que tanto anseias? Nós, artistas, temos o privilégio de chegar às pessoas e influenciá-las com a nossa arte. Há que saber tirar partido dessa posição para rasgar um pouco do negro que se vangloria no dia-a-dia de cada um de nós.

Mickaël : Não acham que a “crise” invadiu as letras do rap como ela invade o quotidiano dos portugueses deixando-os sem fôlego ?
Reflect : Inevitavelmente. Por muito que queiramos seguir a nossa vida e manter-nos à parte de todo este negativismo (não falo de ignorar o problema, mas sim do simples facto de ter esperança e acreditar em algo melhor), ele é ensurdecedor e não pede licença para nos rasteirar. Quando nos toca ou mexe com aqueles que amamos, o problema ganha outra dimensão e é impossível ficar indiferente.

Capicua : Acho que, de facto, a “crise” é um tema omnipresente na sociedade portuguesa da atualidade e, como cidadãos, artistas, observadores e comentadores da realidade, os Mc’s espelham a importância e a recorrência do tema. Até porque é um tema que deriva em infinitas perspectivas e abordagens, dando aso a muita polémica e a muito conteúdo, sendo por isso um “combustível” muito interessante para o nosso trabalho criativo. Ou seja, quer enquanto matéria para denúncia, quer como estímulo criativo, a “crise” tem alimentado muitas letras de rap nos últimos anos e essa tendência tem vindo a intensificar-se.

Capicua por Miguel Refresco

Mickaël : Perde-se a poesia quando se retrata demasiado a realidade ?
Reflect : Não, pelo contrário. A poesia tem esse grande poder, de contar histórias e gente na beleza de poucas palavras, num encarrilar mágico que nos atira mundos à cara. Vejo no Fado um grande exemplo disso; a carga emocional que o caracteriza resulta de realidades tão nossas, pintadas em linhas de poetas geniais. Não é na beleza da poesia que a realidade é deturpada, da mesma forma que não é com palavras simples e directas que a realidade é retratada de forma menos digna.

Capicua : Não. Acho até que o desafio é tornar poética a realidade, mantendo a sua crueza e o seu realismo intactos na mensagem, porque é nesse limbo que a forma e o conteúdo se nivelam e a minha missão (política e artística) se cumpre.

Mickaël : Acham normal condenarem-se os rappers (ou outros músicos) que não falam da crise ?
Reflect : Nunca poderá ser normal condenar alguém que exerce a liberdade a que tem direito.

Capicua : Para mim não faz qualquer sentido, até porque considero a liberdade como a condição essencial para a criação artística e se há coisa que no Rap me apaixona é a possibilidade de servir de suporte para qualquer tema (do mais fútil, ao mais politizado). Assim sendo, no meu ponto de vista, cada Mc (tal como qualquer outro artista) deve ser livre de escolher sobre o que quer escrever, inspirando-se naquilo que achar mais conveniente ou estimulante.

Mickaël : Mas a liberdade no rap, na escolha das temáticas e das letras é mesmo total ?
Reflect : No meu caso, sem dúvida. É assim desde o primeiro poema que escrevi. O RAP é o meu espaço de liberdade. É o mundo onde posso ser eu, simplesmente.

Capicua : Só posso falar pela minha experiência pessoal, mas até hoje sempre me senti livre para escrever sobre o que me apetece em cada momento. Às vezes quero abordar um tema pela sua importância e porque tenho vontade de passar uma determinada mensagem, mas outras vezes escrevo apenas para me divertir. Posso explorar um Rap menos “interessante” do ponto de vista temático, mas mais arrojado estilisticamente, ou dedicar-me simplesmente a temas mais pessoais e autobiográficos. Não acho que uns sejam mais importantes que outros, as motivações é que são diferentes (passar a mensagem, exercitar-me tecnicamente, escrever por pura catarse emocional, etc.). Se não sentisse essa liberdade não tinha prazer em escrever e, muito provavelmente não faria o sentido continuar a fazê-lo.
Reflect por Carolina Tendon
Mickaël : Dizes “Licenciado não sou por opção, inteligência não é memorização.” Que achas do tratamento dos media que preferem abrir o telejornal com enfermeiros a chorarem por “serem obrigados a emigrar” do que falarem, por exemplo,  dos despejados  do bairro de Santa Filomena ?
Reflect : A Comunicação Social tornou-se um enviado especial da desgraça. Diz-se que é o que o povo gosta… Eu, estou farto. Ainda há pouco tempo estive uma semana sem computador nem televisão e, quando “voltei ao mundo”, tive uma perspectiva fresca sobre tudo isto… as notícias são “exactamente” as mesmas, dia após dia. É uma propaganda brutal a esta coisa da “crise”. Uma pessoa que veja o telejornal de início ao fim, fica com vontade de cortar os pulsos, literalmente. Sejam os que partem, os que cá ficam, os mais ou menos miseráveis, todos fazem parte do Portugal que somos e o Portugal que somos também tem gente com boas iniciativas, também há bons exemplos, também há energia por aí que contraria tudo isto. Essa energia deve ser mais divulgada para que inspire. Seria injusto dizer que a Comunicação Social não o mostra, porque mostra, mas precisamos de mais.
E não, não devemos esconder a miséria porque ela existe, cada vez mais, infelizmente. Simplesmente penso que lamentarmo-nos sem agir, não resolve nada. À parte de tudo isso e pegando no meu verso citado, acredito que a mudança começa na educação, na cultura, na consciência… no acordar que podemos conseguir ao termos as ferramentas necessárias para pensarmos por nós e não, não precisamos de ser todos “iluminados”. Estou farto de “iluminados”.

 Mickaël : Em “Medo do medo” afirmas que “é muito lucrativo” o mundo ter medo.
Capicua : Essa frase refere-se ao potencial lucrativo do medo para as grandes corporações, no sentido em que o medo alimenta necessidades de consumo, de proteção, de segregação, etc., o que vai enriquecendo, por exemplo, a industria farmacêutica (com vacinas e medicamentos), o mercado imobiliário (com os condomínios fechados), as empresas de tecnologia (que desenvolvem formas de vigilância cada vez mais arrojadas), etc., etc., etc. Era a isso que me referia.

Mickaël : Para vocês, qual é a melhor música do hip-hop nacional ? e a que melhor fala da “crise” ?
Reflect : Ace – Admirável Mundo Novo (Intensamente, 2003). No seguimento do que defendi, para mim esta é A música. Ouçam a letra com atenção e vão perceber.

Capicua : É impossível dizer qual a  “melhor música do hip hop nacional” porque felizmente temos muito por onde escolher e seria injusto estar a destacar apenas uma. Obviamente, sobre a "crise” acontece o mesmo. Felizmente temos muito bons Mc’s em Portugal e, muitos deles, praticam a chamada “crítica social”, comentando a realidade política e económica do país. Essa tendência intensificou-se e nos últimos meses saiu muita coisa boa. Por isso em vez de destacar uma música, destaco o álbum que mais se centra nessa temática – o  “Rapressão” do Chullage (de Abril de 2012), porque acho que globalmente é um trabalho muito marcado pela “crise” e que conceptualmente se constrói no comentário social, político e económico, com uma orientação claramente subversiva e contra-cultural.
http://www.streetartutopia.com


Citações e sugestões musicais :

Xoro Part I de Celso OPP : http://www.youtube.com/watch?v=yeB2u5oYbDI

Video Medo do Medo:

AceAdmirável Mundo Novo http://www.youtube.com/watch?v=kQyWjYmhWO8

ChullageJá não dá : http://www.youtube.com/watch?v=Q3T-kbk2zDo

Ouçam Reflect aqui

Ouçam Capicua aqui:

(*) Mickaël C. de Oliveira nasceu em 1989 nos subúrbios parisienses. Mestre em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade Paris Sorbonne (Paris-IV), sempre teve como objetivo principal a divulgação das artes portuguesas, mas, sobretudo, a promoção de artistas emergentes ou simplesmente não conhecidos. Colaborador do LusoJornal em Paris, do blogue BandCom, consagrado à nova música portuguesa em Lisboa, e também do website francês Chronofoot, pretende estimular e criar laços entre mundo lusófono e francófono. Neste espaço, consagrado às culturas urbanas, o Mickaël pretende mais dar voz aos que não têm uma projeção mediática ao nível do seu talento. Mickaël C. de Oliveira é também escritor e colabora para o Blog Estudos Lusófonos. Para outras informações e contatos, consultem os links :


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Os adágios de Erasmo


Um autor entre a vida da palavra e a morte do homem

Alexandre Staut*

Com suas duas últimas narrativas, Minha mãe de matou sem dizer adeus (2010) e O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam (2012), o mineiro radicado em São Paulo Evandro Affonso Ferreira parece ter encontrado sua dicção literária, que é econômica e elegante, em frases de humor tragicômico, muitas delas, citadas como se fossem mantras. O romance de 2010 acompanha a vida de um escritor que faz do café de um shopping center de São Paulo o seu escritório. Deste posto, observa a vida no templo pós-moderno, como o personagem diz, num texto entremeado de memórias familiares e frases filosóficas de uma amiga, que o narrador cita vez em quando. A obra ficou entre as finalistas dos principais prêmios literários brasileiros de 2011. No livro lançado este ano, Ferreira retrata a vida de um homem abandonado à própria sorte, que, em meio ao caos urbano, faz observações sobre a cidade e seus moradores invisíveis, usando um looping de palavras. Trata-se de um mendigo que se aproxima dos personagens de Samuel Beckett ao confrontar-se com o vazio e o assombro da existência. Como sua literatura atual, o autor concedeu uma entrevista telegráfica, em que fala sobre o dicionário que já criou, como forma de encontrar palavras para sua escrita, fala também da sua obra e das suas leituras atuais.


Tenho a impressão de que com seus dois últimos livros, você encontra uma linguagem própria.
Não sei. O que os críticos-leitores mais elogiavam na minha obra anterior à “Minha mãe se matou sem dizer adeus” era justamente a originalidade. Acho que nesta nova fase encontrei a amargura necessária.

Como você se aproximou desta forma de escrever suas narrativas?
Apenas retirei da obra anterior a obsessão com a palavra sonora. Cheguei ao longo dos anos compilar um dicionário de mais de três mil palavras sonoras. Parei com essa obstinação musical.

Quem lhe inspira?
Gosto de Bruno Schulz, de Samuel Rawet, de Robert Musil, de Hermann Broch,
de Cornelio Penna, assim por diante.

Certa vez, disse que ia procurar seus livros anteriores e você comentou que deveria ler sua obra a partir de “Minha mãe se matou...”. Por quê?
Gosto desta nova fase, coisa íntima, nada que se possa explicar. Possivelmente muitos leitores ainda prefiram a fase anterior.

O que gostaria de falar sobre sua narrativa anterior a “Minha mãe se matou...”?
Já disse: obsessão pela palavra sonoro, pelo ritmo.

Demorou a perceber qual era o seu estilo?
Escrevendo, rasgando, escrevendo - como faço ainda hoje.

A impressão que tenho ao ler seus dois últimos livros é de que existe uma  preocupação em criar a frase certa. É isso mesmo?
Antes, preocupava-me com a vida da palavra; agora, com a morte do homem.

Como foi a experiência de escrever um livro – “Minha mãe se matou...” - num café num shopping center movimentado?
Interessante. Não saberia explicar direito não. Toda manhã ficava
duas horas sentado num café falando telepaticamente com todo mundo que
eu via.

Onde você está escrevendo, ultimamente?
Ah essa coisa de lugar tem importância nenhuma. O resultado final é o
que importa. Nunca quis saber em que lugar exatamente Kafka escreveu “A
metamorfose”, por exemplo.

O que está escrevendo? Poderia entregar um pouco?
A história de um homem octogenário que perdeu todos os amigos.

Certo dia, no café da Livraria Cultura, em São Paulo, você lia “História da literatura ocidental”, do austro-brasileiro Otto Maria Carpeaux, e disse que não tem lido prosa. Por quê?
Nada de excepcional: resolvi ler um pouco de filosofia. Se bem que estou relendo “A morte de Virgílio”, de Broch.

O que gostaria de dizer sobre a literatura contemporânea nacional?
A literatura contemporânea nacional da qual faço parte não pode ser analisada contemporaneamente.

Ainda acredita que o melhor crítico de uma obra é o próprio autor?
Não acredito que ele seja o grande crítico, pelo contrário, acredito sim que o autor é o seu grande e verdadeiro adversário. Precisa se superar sempre.

Quais os clássicos nacionais que indicaria para autores que estão começando a escrever?
“A menina morta”, de Cornelio Penna e “Crônica da casa assassinada”, de Lúcio Cardoso.

Quais os clássicos que nunca leu e que, possivelmente, não vai ler?
“Guerra e paz”, do Tolstoi. Não tenho mais idade para ler obra tão gigantesca, em todos os sentidos.

**Alexandre Staut é escritor e jornalista, é autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toda edições, SP, 2010)  e Um lugar para se perder (Dobra, SP, 2012)



O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam.

Evandro Affonso Ferreira

A-hã: estou falando dele, Erasmo de Rotterdam. Dizia que cada momento da vida seria triste, fastidioso, insípido, aborrecido, se não houvesse prazer, se não fosse animado pelo tempero da Loucura. Veja: chovendo. Também ela, a chuva, chama-me à memória minha amada. Nas noites chuvosas, sem trovões e relâmpagos, não ficávamos debaixo, mas sobre a cama. Este som pluviométrico nos excitava. Nossos corpos, nus, juntos, um pedindo silencioso carinho ao outro, fazíamos acreditar, ingênuos, na injustiça da não-imortalidade humana. Hoje sei que a natureza é sábia providenciando infalível nosso desfazimento in totum. Sábia em desfazer. Menino-borboleta, mulher-molusco, por exemplo, não deveriam ter sido feitos. Uma vez, sentado num banco de praça, ouvi de repente barulho seco. Virei-me, vi, na esquina ao lado, corpo de homem dando três piruetas no ar: atropelamento. Tarde toda fiquei pensando nela nossa vulnerabilidade, e nos tais acontecimentos desagradavelmente imprevisíveis – além de tudo. Ambulância não chegou a tempo para vê-lo respirando pela última vez. Sim: vi-vivi cenas muito desagradáveis. Algumas comoventes. Foi bonito ver aquele saxofonista, dois anos atrás, tocando numa esquina My funny valentine para senhora elegante, octogenária, cujas lágrimas escorriam numa tentativa inútil de desenhar no rosto o s de saudade – ou de solidão. Perdi aos poucos o juízo sem perder a esperança. Sempre sonho em encontrar-me com ela num canto qualquer da cidade. Às vezes deliro. Semana passada fui empurrado bruscamente por brutamontes que acompanhava moça parecida com minha amada imortal. Reconheço a precipitação tentando beijar de súbito seu rosto. Sei que criei num átimo situação insólita motivando reação de igual natureza. Veja: hematomas no braço. Mas não desisto: vou encontrá-la um dia. Possivelmente, dirá: Insólito; você é insólito. Depois riremos. Sempre foi assim: em seguida à repreensão, risos. Eu, desajeitado para quase tudo; deslocado também. Ela, ao contrário, prática, pragmática, partícipe. Muito bonita. Lábios sensuais. Desisto; você vai aprender jamais a beijar – ela dizia-me, inconformada. Desajeitado para quase tudo – sou sim. Vida toda se entregou aos livros. A-hã: Erasmo de Rotterdam. Atualizou versão grega do Novo Testamento, traduzindo-o para o latim. Vou abrir ao acaso este livrinho de adágios; ouça: Sero molunt dorum molae – As mós dos deuses moem devagar. Não é por obra dos caprichos que sou paciente com ela deusa do reencontro – esta que, mais cedo, mais tarde, colocará minha amada outra vez no meu caminho. Às vezes acordo de madrugada, delirando, vendo o rosto dela, cujas narinas sopram suaves o lado extremo do N desenhado no tatame. Depois, desiludido não durmo mais. Fico ouvindo a própria tosse intermitente que se sobressai diante da quietude noturna. Vez em quando, nessas noites insones, cantarolo alguma canção de Billie Holiday. Gostávamos de ouvir Billie.


Nascido em Minas Gerais, em 1945, e radicado em São Paulo há 40 anos, Evandro Affonso Ferreira surgiu na literatura em 2000 – apresentado por José Paulo Paes. Participou de uma coletânea de contos em Portugal (Editora Cotovia) ao lado de Osman Lins, Dalton Trevisan, Samuel Rawet, Hilda Hilst, José J. Veiga, João Antonio e Sérgio Santana – organizada por Alcir Pécora. Tem cinco livros publicados: Grogotó! (Topbooks), Araã! (Hedra), Erefuê, Zaratempô! e Catrâmbias! (Editora 34).    

A obsessão com a originalidade da linguagem sempre foi uma marca registrada de Evandro Affonso Ferreira, cuja literatura, iniciada em 2000 com o elogiado Grogotó, chegou a ser comparada à de Guimarães Rosa. Mas agora, aos 66 anos e em seu sexto livro, o escritor está mais reflexivo. Deixou de lado o cuidado excessivo com a forma, mas sem abrir mão da musicalidade, do cuidado com as palavras, da concisão — o que já vinha fazendo desde seu romance anterior, Minha mãe se matou sem dizer adeus, vencedor do Prêmio APCA de melhor romance de 2010 e finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti de 2011.
Neste belo e devastador O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, o autor volta a abordar temas “tenebrosos”, como solidão, loucura, decrepitude, morte. Por trás do longo título está a história de um homem culto, profundo conhecedor da obra do filósofo holandês, que, depois de ser abandonado por sua amada, perdeu a razão e transformou-se em um morador de rua. Um romance “niilista-lírico”, como define o próprio autor, em que ele abre mão do parágrafo, apresentando-o de um fôlego, valendo-se com habilidade do fluxo de consciência.
Há dez anos vagueando pelas ruas do centro de uma metrópole à procura de coincidências poéticas que lhe aplaquem tristeza, dor e solidão, um homem atormentado experimenta a proximidade dolorosa do mundo enquanto espera o retorno de sua amada — a que lhe deixou bilhete dizendo “ACABOU-SE; ADEUS”.
Seu mantra, ladainha ou refrão, repetido incansavelmente, “ELA VIRÁ— EU SEI”, impulsiona-o a seguir adiante mesmo que não haja um rumo certo. Sem poder nomeá-la ou mesmo ancorá-la em algum porto seguro nos seus pensamentos, escreve a lápis em todos os espaços vazios da cidade a letra N, inicial do nome da amada, e lança desafio aos deuses do esquecimento trazendo o tempo todo à memória os momentos de intimidade afetiva e intelectual vividos ao lado dela.
Levando consigo os Adágios de Erasmo de Rotterdam, esse mendigo erudito conhece tudo sobre vida e obra do humanista holandês — sim, o mesmo do Elogio da loucura. E narra o tempo todo sua história a um interlocutor-escritor imaginário, a quem chama de “senhor”. Ambos, narrador e interlocutor, estão debaixo de um viaduto entre tantos outros personagens-mendigos, que de miseráveis anônimos e insólitos se transformam em criaturas extraordinárias na imaginação do mendigo-poeta, como a “mulher-molusco” e o “menino borboleta”.

Source : Editora Record.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

On ne se taira pas!

© Sandra Bernardo

Santa Filomena, le quartier de la honte !

Morgane Masterman*


Cet article a été rédigé le 10 janvier.
Des démolitions sont susceptibles d’avoir lieu demain ou dans les prochains jours, j’essaierai de faire suivre des actualisations régulières.


Ils vont arriver d’un jour à l’autre. Tous les jours, depuis mon petit coin de Bretagne, j’attends les nouvelles. Jusqu’ici, pas de nouvelle. Bonne nouvelle ! Mais jusqu’à quand ? La mairie d’Amadora a promis de revenir début janvier poursuivre les expulsions forcées, suivies de la démolition immédiate des maisons du quartier de Santa Filomena. Une bonne partie du quartier n’est déjà plus que gravats et, d’après les sources officielles, ce n’est qu’une question de semaines avant que le reste ne produise.
Je reprends depuis le début pour ceux qui n’ont pas suivi.
© Sandra Bernardo
La deuxième moitié du XXe siècle, au Portugal, est déterminante pour comprendre la situation du logement dans ce petit pays du bout de l’Europe. Après presque un demi-siècle d’une dictature, savamment, ruralisante (mais ne me lancez pas là-dessus sinon on en a pour des heures !), on assiste à un exode rural massif après la double chute : Salazar de sa chaise puis Caetano du pouvoir. Les populations rurales affluent vers les villes, en particulier vers Lisbonne et Porto, en quête de travail et d’une vie meilleure. Seulement voilà, un tel afflux est difficilement résorbable en peu de temps et malgré les efforts de construction et d’organisation d’alternatives, de nombreux Portugais se retrouvent en situation de mal-logement, dans le meilleur des cas. Bon nombre de ces nouveaux urbains se voient donc obligés de trouver eux-mêmes une solution à leur problème et ont recours à la construction illégale. Au cours des années 1970 au Portugal, 30% des logements construits le sont sans autorisation et ne sont pas inscrits au cadastre. Les bidonvilles sortent de terre comme des champignons.
© Sandra Bernardo
Jusqu’à la seconde moitié des années 1990, la forte croissance du Portugal attire un grand nombre de travailleurs issus des PALOP (Pays Africains de Langue Portugaise), qui se concentrent en particulier dans les zones métropolitaines de Lisbonne et de Porto et répondent à la forte demande en main d’œuvre à bas prix. Les faibles revenus de ces travailleurs étrangers, alliés à une difficulté d’accession à la propriété et aux limitations de l’offre publique, les maintiennent dans les marchés de location et sous-location privée, voire la cohabitation avec des proches ou moins proches, les bidonvilles et autres logements précaires.
Santa Filomena est l’un de ces bidonvilles, construit dans les années 1970 et au sein duquel les travailleurs africains ont peu à peu remplacés les familles portugaises qui ont pu accéder au marché du logement (social ou classique) et quitter le quartier. Une habitante de Santa Filomena m’a raconté que lorsqu’elle est arrivée dans les années 1970, les maisons étaient encore des cabanes en bois. Petit à petit, les planches ont été remplacées par des briques, et aujourd’hui ce sont des maisons, avec l’eau, l’électricité et parfois Internet, que la mairie d’Amadora veut raser. La plupart des hommes travaillent ou ont travaillé dans le bâtiment, les femmes font des ménages. Enfin, pour ceux et celles qui ont un emploi. A l’époque d’abondance où le travail dans ces secteurs ne manquait pas, le savoir-faire appris sur les chantiers a permis de troquer le bois pour les briques grâce à l’entre-aide  des uns et des autres. Les habitants et habitantes les plus anciens aiment raconter comment ils ont construits leur maison avec leurs propres mains, portant sacs de sables et tas de brique sur la tête, allant chercher l’eau à la fontaine de l’autre côté du quartier.
Face à l’ampleur de ces situations de mal-logement, l’état portugais a fini par passer à l’action. En 1993, le Programme Spécial de Relogement (PER) est mis en place pour éradiquer les bidonvilles. Un grand recensement est effectué et des quartiers illégaux entiers sont rasés, leurs habitants relogés. Les divers problèmes liés à ces relogements plus ou moins bien ficelés mériteraient eux aussi un article mais pour l’instant on n’est pas là pour chipoter. Enfin si, mais pas en détail alors j’y vais par mots-clés : situations d’exclusion dues à la création de ghetto, éclatement des réseaux de solidarité créés au sein des quartiers, relogement à plusieurs heures du lieu de travail, logements sociaux pas toujours folichons… Vous voyez le tableau. Mais tout de même, entre 1994 et 2005, 31000 logements sont construits sur les 35000 prévus et 35000 logements précaires sont détruits en l’espace d’une douzaine d’années. En 2009, le taux d’exécution global du PER était de 70%. La réalisation concrète du programme étant de la responsabilité des municipalités, Amadora pose problème, puisqu’en 2008, son taux d’exécution n’était que de 38%. D’autres programmes sont mis en place pour résoudre le problème des bidonvilles, comme le PER-Familias (PER familles) ou le Programa de Retorno (programme de retour) mais de nombreux quartiers aux conditions de vies indécentes subsistent.
© Sandra Bernardo
Santa Filomena est l’un de ces quartiers, encore nombreux, auxquels le PER a pris son temps avant d’arriver. En effet, c’est en 2012 que la mairie d’Amadora commence à s’y intéresser de manière intensive. Réunions avec les habitants, relogements, promesses de relogement, démolitions… Seulement, un gros problème se pose : la mairie s’acharne à s’appuyer sur les données du recensement de 1993. Ceux qui n’étaient pas là au moment du recensement ou qui, pour quelque motif que ce soit, se sont vus radier de la liste, n’ont droit à rien.
Au printemps de 2012, les premières maisons de « non-relogeables » ont commencé à tomber. Quelques-uns sont expulsés par la force, d’autres cèdent à la pression psychologique effectuée par les travailleurs sociaux municipaux et quittent leur maison, bon gré mal gré. Après maintes stratégies d’intimidation, de persuasion, de manipulation, etc, la municipalité passe finalement aux choses sérieuses le 26 juillet 2012. En l’espace de deux jours, les habitants d’une dizaine de maisons, soit plus d’une vingtaine de personnes dont des enfants et des personnes invalides ou souffrant de maladies chroniques, sont jetés dehors par des dizaines de policiers armés jusqu’aux dents et pas franchement compatissants. A certain(e)s de ces délogé(e)s, il sera promis un relogement sous trois semaines. A ce jour, aucun n’a été relogé. Leurs affaires ont été stockées dans des hangars de la mairie, ayant, au passage, été endommagées, jetées sur le trottoir ou tout simplement volées.
Après un petit temps d’accalmie et malgré la condamnation des expulsions par le Haut-Commissariat pour les Droits de l’Homme de l’ONU, le Conseil de l’Europe, Amnesty International et un certain nombre d’individus et d’organisations à l’échelle nationale et internationale contactés par le collectif Habita, la municipalité d’Amadora a décidé de poursuivre son programme comme si de rien était. Secondées, cette fois-ci, par des représentants de l’ACIDI (Haut-Commissariat pour l’Immigration et le Dialogue Interculturel) et l’Ambassade du Cap-Vert, les assistantes sociales d’Amadora ont repris le rythme des réunions individuelles avec les habitant(e)s dans le but de les faire abandonner leurs maisons. A noter que jamais un ou une habitant(e) n’a pu obtenir une proposition écrite ni même entrer accompagné(e). La résolution doit apparemment se faire au cas par cas et tant l’ACIDI comme la mairie et l’IHRU (Institut du Logement et des Réformes Urbaines) restent muets face aux demandes de rendez-vous de la Commissions des Habitants et Habitantes ou n’importe quelle association.
© Sandra Bernardo
Le 19 novembre, tôt le matin, 22 personnes ont été délogées dans une grande violence. Une personne a dû être hospitalisée. Ce sont une majorité d’enfants et de personnes âgées qui ont perdu leur toit sans même pouvoir récupérer quelques affaires avant qu’elles ne soient emportées. A certaines familles, on a proposé deux semaines dans une pension. Une habitante, mère célibataire de quatre enfants, a préféré la rue quand elle a vu l’état d’insalubrité de ladite pension. Une mère de deux enfants, délogée le 27 juillet, avait eu la même réaction. Ces habitants et habitantes récemment délogé(e)s sont allé(e)s faire une visite à l’IHRU, qui n’avait jamais daigné répondre à leurs sollicitations. Désespérés, ils sont restés à l’intérieur ou devant le bâtiment jusque dans la soirée avec des membres du collectif Habita et de la Plataforma Gueto. Personne ne les a reçus, hormis la police qui a fini par les faire partir.
La Commission d’Habitant(e)s et le collectif Habita ne baissent pas les bras. Une cellule psychologique a été mise en place pour les personnes ayant perdu leur maison ou risquant de la perdre. En décembre, une soirée dîner-film-débat sur les thèmes de logement a été organisé, ainsi qu’un repas de Noël qui a rassemblé les délogés, les délogeables et des personnes de l’extérieur, afin de rendre une peu de joie au quartier, montrer et renforcer la solidarité. D’autres initiatives devraient suivre, les actions en justice se poursuivent et le contact avec les instances internationales reste fort… La mairie d’Amadora n’a qu’à bien se tenir, mais c’est avec une certaine appréhension que le mois de janvier débute, puisque la municipalité a promis de revenir finir le travail dans les prochains jours.
© Sandra Bernardo
Les visages sur les murs de Santa Filomena ne sont plus. Le street-art est éphémère, mais quand même... Je repense aux paroles d’Ana, une habitante peu épargnée par la vie, qui m’avait ouvert sa porte un après-midi d’octobre : « La mairie dit qu’on a les moyens d’aller ailleurs, ils sont fous ! T’as vu comment ils nous traitent, tu crois que c’est agréable de vivre au milieu des décombres ? Regarde autour de toi : tous ceux qui avaient les moyens de partir, ils sont partis. Ceux qui restent, c’est ceux qui n’ont vraiment rien, nulle part où aller. On n’a rien à perdre, alors, il faut pas qu’ils s’attendent à ce qu’on parte de nous-mêmes ! » On en a perdu des batailles, c’est vrai et la guerre n’est pas finie, ça c’est sûr. Mais on se tient droits, on ne se taira pas, parce que le logement est un droit fondamental et qu’on n’a pas d’autre choix.
Cela dit, Santa Filomena n’est qu’un quartier parmi tant d’autres, ses habitant(e)s une poignée parmi des centaines, des milliers de personnes concernées. Chaque jour sans pelleteuse à Santa Filomena est un jour avec pelleteuses dans un autre quartier d’Amadora, Loures ou Cascais… Et pendant tout ce temps, pendant que les municipalités s’acharnent à essayer de cacher la poussière sous le tapis, des milliers de personnes vivant dans des conditions indécentes, des logements insalubres, sont en attente de solutions.
            Mardi 10 janvier : ça y est, la nouvelle vient de tomber : des expulsions sont prévues pour demain, dont potentiellement trois familles n’ayant pas le droit au relogement. Chacune de ces familles comporte au moins une personne sans emploi et au moins un enfant. Aucune n’a d’alternative de logement. A suivre…


Pour plus d’informations :
Une belle vidéo réalisée par SMOH pour Echanges et Partenariats : http://vimeo.com/54569104
Un excellent article par Mickaël Cordeiro de Oliveira : http://etudeslusophonesparis4.blogspot.fr/2012/11/a-arte-nunca-e-inutil.html
Mes articles précédents sur le site des volontaires Echanges et Partenariats : http://emi-cfd.com/echanges-partenariats/?author=16
Le site du Collectif Habita : http://www.habita.info/
La page de la Plataforma Gueto, où vous trouverez un album regroupant les photos des démolitions : https://www.facebook.com/media/set/?set=a.317489761698853.73237.276796509101512&type=3


*Après l'obtention d'une licence en traduction anglais et allemand, Morgane Masterman s'est tournée vers les pays de langues portugaise avec un master en LLCE Études Romanes qu'elle a consacré à l'étude de l'auteur lisboète Mário Dionísio. Juste après la validation de ce master, elle est partie pour Lisbonne envoyée par l'AITEC (Association Internationale de Techniciens, Experts et Chercheurs) en tant que volontaire au sein de l'UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) et du collectif Habita (collectif pour le droit au logement et le droit à la ville).