terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Um mistério na Rue de la Huchette

UM MISTÉRIO NA RUE DE LA HUCHETTE

                                       Tailor Diniz


Assim que entramos no apartamento, percebemos que as luzes estavam apagadas e havia uma televisão ligada diante de um sofá vermelho. Sobre a mesa de jantar avistei uma garrafa de uísque quase vazia, dois copos baixos com restos de bebida, dois guardanapos brancos, um deles manchado de batom, e, embaixo da garrafa, um manuscrito de cinco páginas. As letras eram perfeitas, o alinhamento impecável, um trabalho de precisão e beleza que só um calígrafo profissional saberia produzir. À primeira vista, me pareceu um conto escrito por alguém com uma visão de fora para dentro, através da janela, do lado oposto. Comecei a ler enquanto meus colegas revistavam os quartos, a cozinha e demais peças do apartamento:

                                              ***********


Dali é possível ver apenas vestígios de sombras e imagens desenhadas nas paredes, como se alguém, em algum lugar oculto, caminhasse contra uma lâmpada também oculta. Às vezes, percebe-se uma leve mudança na tonalidade da luz, de acordo com a troca de cores projetadas pelo vídeo de uma televisão que passa a noite inteira ligada. Sobre a mesa de jantar, é visível apenas uma garrafa de uísque cheia e dois copos vazios ao lado. Não se vê nenhum outro movimento lá dentro.
           
O interior do apartamento logo abaixo pode ser visto através de duas janelas abertas. Há objetos amontoados no chão, discos de vinil, um velho toca-discos, um par de botas, roupas, tapetes enrolados, uma roda de bicicleta junto à parede, um criado-mudo com uma sopeira de porcelana em cima, uma mesa de madeira rústica coberta de livros. Na cabeceira dessa mesa, destaca-se uma caixa de vidro, sem tampa, abarrotada de velhos relógios de todos os tipos, de pulso, de parede, despertadores, grandes e pequenos.

É difícil imaginar que alguém consiga viver ali, em meio àquele caos de sobressaltos, onde a renúncia à vida parece ter tirado espaço até para se pousar um pé. O homem que escreve pensa nisso, até que a verdade, com surpresa, vem contrariar a ficção que ele tenta criar sobre a impossibilidade de alguém habitar aquele lugar absurdo. Aparece ali um casal; ela na frente, ele a uma distância pequena, mas prudente, dada a dificuldade para se manterem em pé ou com equilíbrio. Ele retira alguns livros de cima da mesa, larga-os no chão entre dois tapetes enrolados, e ela acomoda uma terrina de sopa sobre um guardanapo, no lugar onde ele abrira espaço entre os livros. Em seguida, aparece um homem velho, que caminha com dificuldade, e senta-se à mesa. Traz consigo os talheres e um pequeno prato com comida. Assim que se senta, um gato pula para cima da mesa e começa a comer do pequeno prato.

Sobre a mesa do homem que escreve há um relógio, e ele se dá conta de que está há quase vinte e quatro horas do episódio com a moça da água-furtada que mora em cima do apartamento onde a televisão passa a noite inteira ligada. Ele escreve com vagar, como o artista que cinzela um objeto de arte:

"Pode-se dizer que o caso teve início quando ouvi o barulho estridente de algo caindo lá embaixo, de uma garrafa que se espatifa no chão, e saí à janela. Não pude descobrir o que era, mas me chamou a atenção, também olhando para baixo, no apartamento lateral direito, uma mulher de cabelos soltos, muito brancos e ralos, quase careca, as poucas pontas tocando-lhe os ombros. Trazia uma caneca de chá na mão — e, posicionado às suas costas, um homem mais jovem, de camiseta e abrigo, não escondia uma expressão de desagrado com o fato de ela ter aberto o vidro e por ali estar entrando frio. Tenho muito claro que foi nesse instante, ao ver o rosto irritado dele, que olhei para cima, na direção de uma porta-janela, atrás de uma minúscula sacada gradeada de ferro. Ali ficava uma água-furtada adaptada com uma porta-janela, através da qual eu podia ver uma pia com um espelho em cima, parte de um aquecedor de água, a metade da porta de saída, meio forno de micro-ondas, um pequeno armário de parede sem portas com garrafas de água e uma caixa de suco dentro. Diante do espelho, estava ela, uma moça elegante que não devia ter mais de vinte e cinco anos. Esfregava um algodão embebido na face, nas pálpebras e abaixo do queixo. Demorou-se uns quinze minutos nesse trabalho e sumiu. Como demorasse muito, eu pressentindo que alguma coisa estava para acontecer, apaguei a luz e coloquei uma cadeira diante da janela. Embaixo, o homem e o gato terminaram de comer, levantaram-se e não mais pude vê-los. A mulher quase careca e o rapaz de abrigo falavam alto, como se discutissem por alguma contrariedade. Na água-furtada da moça, a luz se mantinha acesa, nada de movimentos ou sombras, apenas os objetos antes inventariados em seus respectivos lugares. Ao desviar os olhos para baixo, tive a impressão de que um outro gato pulava para cima de uma caixa de roupas, ao mesmo tempo em que alguém ligava um aparelho de som. A moça reapareceu diante do espelho acima da pia. Usava uma camiseta branca, e o cinto da calça jeans desafivelado e caído sobre as coxas. Dançava, os braços erguidos, em arco, o que me fez acreditar que a música do aparelho de som vinha de lá. Abriu as partes envidraçadas da porta-janela, olhou para baixo e sumiu outra vez. Em questão de segundos, vi um retângulo de luz se produzir na parede, seguido de uma sombra projetada no armário sem portas, onde estava a caixa de suco. Uma outra lâmpada havia sido acesa, dentro de outra peça, daí a sombra na parede. O rapaz e a mulher quase careca haviam parado de discutir, e sinal de vida no entorno, apenas da música e dos hóspedes do hotel que subiam as escadas até o último andar, onde o elevador não chegava."
 
 Jean-Luc Vilmouth, Local Time


Ao cabo dos vinte minutos que o homem que escreve contou no relógio, filtrada pela luz direta de uma lâmpada oculta, avançou no ar uma frágil nuvem de vapor, vinda da parte oposta à parede da pia. A nuvem cresceu e logo se dissipou em função do ar entrando pela porta-janela que ela deixara aberta. Ele abriu um vão da sua janela e olhou em volta, até onde seu ângulo de visão permitia. Queria ver se mais alguém poderia estar ali a saciar a curiosidade sobre o ambiente e os futuros movimentos dela. Foi nesse momento que, conforme ficou registrado em seu texto, ele sentiu um leve aroma de lavanda, de perfume, de xampu combinando com o vapor de uma ducha aquecida, “um cheiro que vinha a se misturar ao aroma abaunilhado de croissants ao forno que inunda a cidade a partir de todas as madrugas.”
Ela retornou sem demora, os cabelos molhados, um secador branco na mão, que plugou numa tomada ao lado do espelho. Enxugou os cabelos, admirou-os, movimentou-os para um lado e outro, aproximou várias vezes o rosto do espelho, de frente, de lado, mexeu os lábios, desplugou o secador da tomada e sumiu. A partir dali, o homem que escreve poderia ter ido dormir, mas a inquietação o fez esperar. Enquanto esperava, ficou a imaginar de que nacionalidade seria ela, e desenvolveu uma tese: devia ser nórdica, pelo tom da pele, sem marcas de sol, e a cor dos cabelos. E era outono, fazia frio na cidade, ele estava agasalhado dentro do quarto, mas ela fazia tudo aquilo com a porta-janela aberta.

Depois de alguns minutos, que agora ele não marcou no relógio, ela voltou para frente do espelho. Vinha vestida, usava uma blusa de lã vermelha, gola alta, calça jeans muito justa e botas de salto alto. Maquiou-se com esmero, observando todos os detalhes que uma mulher conhece quando quer ficar mais atraente do que já é. Ele acompanhou-a até vê-la abrir a porta — e voltou a escrever:

Terminada a maquiagem, ela pegou um casaco preto, apagou a luz, abriu a porta e saiu. Lembrei-me, então, de um dos tantos episódios de bar relatados por Hemingway em seus escritos em primeira pessoa. Ele escrevia um conto, por sinal num café quase aqui ao lado, quando lhe chamou atenção a presença de uma moça sentada a uma mesa próxima. Ficou alguns minutos a observá-la. Mas como a escrita do conto fluía bem, ele se distraiu e não a viu ir embora: “Reli o último parágrafo e, quando levantei os olhos à procura da moça, não a encontrei mais. Tomara que tenha ido com um homem decente, pensei. Mas me sentia triste.”

Sobre a pequena mesa do homem que escrevia, o relógio marca oito e quinze da noite: pelas suas contas, a hora em que, no dia anterior, ela teria chegado em casa. Apaga a luz e abre as cortinas. No apartamento da frente, as luzes e sombras da televisão que passa a noite inteira ligada se projetam na parede como se fossem as únicas criaturas a habitar a solidão daquele espaço deserto no coração da cidade. É quando a luz da porta-janela da água-furtada dela se acende. Oculto atrás das cortinas, ele ainda tem tempo de ouvir o miado do gato faminto à espera do velho que não demorará a chegar à mesa para lhe fazer companhia. Às suas costas, algo como o movimento de duas folhas secas desgovernadas pelo vento finca as garras pontiagudas na parede e também espera, talvez um morcego que tenha entrado pela janela sem ele perceber. Nesse momento, alguém chega ao apartamento onde a televisão passa a noite inteira ligada, mas ele só vai perceber momentos depois, num sobressalto, quando as luzes forem acesas".



                                   ***********

Terminei a leitura do manuscrito com a sensação de que a escrita fora interrompida de forma extemporânea ou alheia às intenções de quem escrevia. Recoloquei-o embaixo da garrafa e fui até a janela conferir o quarto do lado oposto, no hotel, de onde suponho que o conto fora escrito. As cortinas estavam abertas, e não havia ali qualquer movimento, pelo menos aparente. Pensei em reler o texto, entender o objetivo daquela alternância de narradores que sugeria um exercício de metalinguagem, mas um dos meus colegas que revistavam o apartamento veio me dizer que a porta do banheiro estava trancada com tijolos e cimento. Tomamos as providências, e em pouco tempo tudo foi colocado ao chão. Emparedado no pequeno box, foi encontrado o corpo de uma stripper andaluza que trabalhava em uma casa de shows eróticos da Rue Saint-André-des-Arts e estava desaparecida havia sete dias.
Houve muitas dúvidas e contradições sobre os fatos ocorridos a partir da hora em que o conto supostamente termina, quando retoma a palavra o narrador em terceira pessoa. Ao serem interrogados, o rapaz de camiseta e a mulher quase careca entraram em divergência tão logo começaram a falar. Ela disse que ouviu um barulho ensurdecedor, de um avião ao quebrar a barreira do som, que quase a deixou surda. Ele contestou de imediato. Teria ouvido também um som, mas o grito terrível de uma besta que teria durado mais de um minuto. No entanto, não soube sugerir se esse grito tinha equivalência ao grito de algum animal conhecido. O casal do quarto revirado, por sua vez, se referiu apenas a uma poderosa luz atravessando a janela. Mas, até quando lhes foi permitido falar, divergiram quanto à cor da luz. Ela viu um vermelho alaranjado muito forte. Ele, algo como um azul mortal, embora lhe tenham faltado palavras para esclarecer o que seria em realidade uma cor azul mortal. O homem que comia com o gato era alienado, e dele nada se conseguiu ouvir, a não ser resmungos de quem imita um animal. A moça da água-furtada, uma croata de francês imperfeito, foi a que menos incoerência apresentou. Admitiu que no momento citado sentiu um breve sobressalto, como se estivesse sendo observada por alguém. Mas isso, revelou, era comum quando aquele quarto do hotel era ocupado por homens. Fato com o qual, aliás, ela não se importava. No hotel, porém, não havia registro de que o quarto tivesse sido ocupado nos últimos sete dias. Reli o manuscrito uma dezena de vezes para só então perceber que havia ali, na parte submersa do iceberg, uma pista concreta e objetiva. Mas, daquela noite, para todos os que dela tomaram conhecimento, ficou uma única e irrefutável certeza: o que se ficou sabendo não foi tudo o que de verdade aconteceu.
                                                         
                                                                             Paris, outubro de 2013


Tailor Diniz é escritor e roteirista de cinema e TV. Tem doze livros publicados, entre eles Transversais do Tempo, Bertrand Brasil, Prêmio Açorianos de Literatura 2007 — Melhor Livro de Contos, e Prêmio Associação Gaúcha de Escritores 2007 — também Melhor Livro de Contos. Crime na Feira do Livro, lançado em alemão na Feira do Livro de Frankfurt/2013, foi finalista do Prêmio Açorianos de Literatura, edição 2011, categoria Narrativa Longa. Seu último livro, A superfície da sombra, está sendo adaptado para o cinema.


Nenhum comentário:

Postar um comentário