terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Um dedo de prosa com Carola Saavedra

crédito : Andréa Marques
Um dedo de prosa com Carola Saavedra

Assistam à entrevista que a escritora brasileira Carola Saavedra concedeu ao Blog Estudos Lusófonos durante um encontro realizado em Setembro de 2013 na Universidade da Aarhaus.  Num primeiro vídeo, Carola Saavreda relata o seu percurso literário e evoca suas inquietações acerca do seu processo de escrita. Num segundo momento, ela fala da escritora Tatiana Salem Levy e do seu romance Dois Rios.
Para assistir aos vídeos, clique nos links abaixo :



Paisagem com Dromedário ( trecho)

GRAVAÇÃO 1
Barulho de vento e de ondas batendo num rochedo. Pequenas pedras caindo na água. Passos. Interrupção. Voz.

Estou no extremo sul da ilha. Se eu nadasse numa linha reta, imagino que em algum momento chegaria ao Antártico. Terras austrais. De qualquer forma, o extremo sul não significa muita coisa, quando o extremo norte fica a pouco mais de duas horas de carro. Poucas horas de carro, e pronto, terminou a ilha. O mar, em compensação, parece inesgotável. Assustador. O mar aqui é um mar que ainda não foi domesticado. Nunca lhe foi imposto limite algum. Até mesmo as cores, o cheiro, as algas, tudo nele parece que acaba de surgir. E me vem sempre a sensação de estranhamento quando olho em volta e vejo estradas, casas, pessoas, como em qualquer outro lugar.

Faz uma ou duas semanas que estou aqui. Talvez sejam apenas alguns dias, não sei. Alex, os dias passam de modo incomum neste lugar. Mas eu não queria começar falando da ilha, também não queria começar reclamando de que o tempo passa rápido ou devagar. Queria começar falando de uma imagem. Não sei se era uma fotografia ou se fui eu que guardei aquele momento como algo estático na memória. Antes que as coisas com Karen tomassem o rumo que tomaram. Nós três. A imagem era assim: Karen abrindo uma garrafa de vinho, você a abraçava pelas costas, dizia alguma coisa em seu ouvido. Karen ria, envergonhada. Karen sempre ria assim, como se o riso fosse algo obsceno. Ela abaixava a cabeça, desviava o olhar, e ria. Eu, sentada naquela tua poltrona, o couro gasto, desbotado, eu ria também, mas meu riso, como sempre, era quase uma gargalhada. Eu segurava uma taça ainda cheia. Não sei mais qual era o motivo, mas lembro que naquele instante tudo me parecia tão suave, tão perfeito, como se fosse impossível qualquer incompreensão, qualquer desentendimento.

Silêncio. O barulho das ondas batendo no rochedo torna?se cada vez mais alto. Voz muito baixa, inaudível. Pausa. A voz continua, agora num tom mais alto.

Curioso, sabe que eu me lembro das pessoas e das fases da minha vida de acordo com as imagens que as acompanhavam. Não necessariamente relacionadas com o acontecimento em si, aliás quase nunca. Em geral, algo arbitrário, mas que, por algum motivo, ficou ali associado. Qualquer imagem, um filme, uma peça, uma fotografia. Ou simplesmente algo que acompanhou por acaso aquele instante, alguém passando, uma janela, um movimento, qualquer coisa que ficou. Penso, talvez no futuro, quando as lembranças começarem a se desvanecer, toda a minha memória passará a se guiar por isso. Ao evocar a imagem tal, surgirá imediatamente o lugar, a época e a pessoa ao meu lado, e, junto com isso, a lembrança de quem eu era, de como estava vestida, de como me sentia, do que eu pensava. E, ao recuperar de novo aquela memória, a sensação de confrontar dois momentos inconciliáveis, a Érika atual e a Érika daquele instante. Desse confronto impossível, um certo espanto, como se numa viagem no tempo eu me encontrasse comigo mesma. Nós duas, lado a lado, por fim unidas e totalmente estranhas. Penso agora, as imagens poderiam ser isso, um ponto de interseção do tempo, para o qual tudo conflui. O presente, o passado, o futuro, a criança que fui um dia, a velha que vou ser, a pessoa que sou agora. Todas essas possibilidades.

Mas, como te disse, não quero falar sobre o tempo. Tampouco sobre imagens. Na realidade, queria falar sobre sons. Te explicar por que, em vez de atender os teus telefonemas, eu me decidi por este gravador. Tem aquele filme, não lembro o nome agora. Mas era algo assim, um homem passeando por Lisboa. Em vez de uma câmera, ele tinha um gravador. E ele gravava tudo, feito um turista. Acho que trabalhava com isso, era sonoplasta, engenheiro de som, sei lá. Lembro de uma cena, ele andando por Lisboa com um microfone. Era uma imagem bonita. Talvez cada cidade tenha mesmo os seus próprios sons, o barulho do vento e do mar, ou da ausência do mar, o barulho das ladeiras, das crianças brincando, pulando corda. E há também o barulho do idioma, a musicalidade do idioma, das pessoas conversando nos cafés, nos bares, o barulho dos carros, dos trens ou dos cachorros vagando pelos cantos, ou da respiração de um cachorro que dorme debaixo de uma marquise e da sua reação quando alguém o chuta ou lhe faz um afago. Tudo isso contribuindo para os sons da cidade. Talvez cada cidade tenha a sua história sonora. E de uma forma imaginária seja possível fazer uma reconstituição de todos os ruídos que passaram por ela, feito uma sinfonia. Então cada cidade, cada lugar teria a sua própria sinfonia, sua própria partitura. Tudo o que se ouviu naquele espaço, desde seus primórdios, quando nem sequer havia cidade, nem mesmo gente, passando pelos seus primeiros habitantes, nômades que por algum motivo resolveram ficar, os passos dos primeiros habitantes, as primeiras casas sendo construídas, os primeiros amores, as primeiras brigas, depois as lutas e as guerras. Tudo surgindo e sendo derrubado, sucessivamente. A sinfonia."



Franz Erhard Walther, Photographie de l'activation du Werksatz, 1963-1969.
A volta dos que  foram
Carola Saavedra (*)

Todo relato narra uma viagem ou um crime, diz o escritor e ensaísta Ricardo Piglia, toda história seria Ulisses ou Édipo. A partir dessa afirmação de Piglia, é possível construir diversas hipóteses sobre a trajetória geográfica ou investigativa do escritor. Mas deixemos momentaneamente o crime de lado e voltemos nosso foco para a questão da viagem — o escritor como aquele que foi e depois voltou para contar a história. Podemos pensar o escritor como um aventureiro, talvez como uma espécie de Hans Staden contemporâneo. Mas o que seria isso? Comecemos então com uma breve biografia do personagem: Hans Staden foi um mercenário alemão que viveu no século 16, e, entre outras coisas, fez duas viagens ao Brasil, lutou contra índios e franceses ao lado dos portugueses, naufragou na costa de Santa Catarina, foi capturado pelos Tupinambás, e por muito pouco não foi devorado por eles. Ao voltar para a Alemanha, publicou o relato originalmente intitulado História verdadeira e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, no qual conta sua experiência durante os nove meses em que permaneceu prisioneiro.
Independentemente da qualidade do relato (não se trata aqui de crítica literária), vale a pena tomar esse acontecimento como base inicial para pensar a forma como o escritor lida com seus personagens. Assim como Hans Staden, o escritor faz uma viagem, que pode consistir em atravessar o Atlântico ou até mesmo uma viagem interior (na realidade, mesmo atravessando o Atlântico trata-se sempre de uma viagem interior). Ele vai, cruza a fronteira, tem sua experiência, volta e depois senta diante da folha em branco, ou do computador, pronto para narrar o que vivenciou. A partir desse momento há duas formas básicas de lidar com a alteridade: 1) Convivemos durante vários meses com uma tribo de índios canibais, voltamos para casa felizes de termos escapado ilesos, e escrevemos a partir daí um relato sobre os cruéis e nus comedores de seres humanos. 2) Convivemos durante vários meses com uma tribo de índios canibais, voltamos para casa felizes de termos escapado ilesos, e escrevemos a partir daí um relato sobre um estranho prisioneiro que conviveu conosco durante um longo período de tempo. A diferença entre esses dois relatos? O lugar a partir do qual narramos. Na primeira opção, trata-se do relato ao estilo Hans Staden, narramos a partir do nosso próprio ponto de vista, ou seja, o outro é alguém de quem mantemos certa distância, que temos dificuldade de compreender. Na segunda hipótese, há uma aproximação, talvez mais do que isso, há um exercício de colocar-se no lugar do outro, quem é esse índio canibal, o que ele pensa, como vê o mundo, quais as suas crenças e idiossincrasias, quais os seus medos, seu heroísmo, sua crueldade — em outras palavras, um exercício que nos exige enxergar ali características potencialmente nossas (que talvez carreguemos adormecidas em nós). O outro deixa de ser apenas um canibal para tornar-se humano, e talvez até mesmo, dando uma volta maior ainda, ele nos permita olhar novamente para nós mesmos e encontrar algo desconhecido em nós. Entre esses dois extremos — desumanizar, julgar o outro ou fundir-se com ele — situa-se o escritor, que a cada livro, cada personagem, faz sua escolha.
Altérité - Je est un autre : Woodman, Francesca, Self Deceit #1, Rome (I.204), 1977-78

Voltando à afirmação de Piglia, todo relato é uma viagem ou um crime, deixemos agora a viagem de lado, e concentremos nossa atenção no crime. Imaginemos um escritor interessado em escrever um romance em que o personagem principal comete um crime. Para tornar o relato mais verossímil, mais realista, ele resolve visitar um presídio e conversar com os mais diversos tipos de criminosos, assassinos, estupradores, etc., ou seja, faz a chamada pesquisa de campo. Vai lá, grava, anota suas conversas, faz comentários de pé de página, tem experiências únicas e intraduzíveis. Ao voltar para casa, diante da folha ou da tela em branco se vê novamente diante dessas duas possibilidades. Construir o assassino a partir do olhar de quem observa à distância (e também julga), ou colocar-se ele mesmo na pele desse personagem, o que pensa, como age, como vive, como ama, como odeia esse outro à primeira vista tão distante. Na realidade, trata-se de buscar dentro de si mesmo o cerne da própria crueldade, o assassino que ele não foi mas poderia ter sido. O crime que ele jamais cometeria (afinal, ele é uma pessoa de bem, cumpridora de seus deveres, etc.), mas que existe como possibilidade. Para que então, mais tarde, o leitor seja capaz de reconhecer-se ele também nesse jogo de espelhos, e, aceitando sua desumanidade, talvez tornar-se mais humano.
Reconhecer-se no personagem de um livro é sempre um risco que o leitor corre. E talvez seja isso que faz com que uma obra se torne um clássico, a possibilidade de, no decorrer dos anos, continuar surpreendendo, capturando (das mais diversas formas) os mais diversos leitores. Um bom exemplo disso é o romance Amor insensato, do escritor japonês Junichiro Tanizaki. Escrito em 1924, o livro narra a historia de Joji Kawai, engenheiro que conhece Naomi, uma garçonete de quinze anos, apaixona-se, casa-se com ela, e entra num processo de loucura e degradação por causa desse amor que ele não consegue sustentar e ao mesmo tempo vê-se impossibilitado de esquecer. Se de início seu plano é transformar Naomi numa mulher refinada, ele pouco a pouco percebe que quanto mais o tempo passa, e ele se esforça, mais ela foge ao seu controle, Naomi se transforma de serva em senhora dos desejos do marido. O livro, viagem e crime metafóricos (um Tanizaki-autor que incursiona pela humanidade de seus personagens, sem jamais julgá-los), encerra-se com uma afirmação, que de certa forma reafirma as possibilidades de Joji e Naomi em nós: “Aqui termina o meu relato sobre nossa vida de casal. Os leitores que o acharem idiota, sintam-se à vontade para rir. Aqueles que dele possam tirar um ensinamento moral, tomem-no como lição. Quanto a mim, estou apaixonado por Naomi e pouco me importa o que as pessoas pensem a meu respeito”. Se todo relato, como diz Piglia, narra uma viagem ou um crime, talvez para o escritor valha a pena permanecer num lugar intermediário, com um pé aqui e outro lá, Joji e Naomi.

(*) “A volta dos que foram” (maio 2012). Fonte : http://rascunho.gazetadopovo.com.br/a-volta-dos-que-foram/


               
Carola Saavedra nasceu no Chile, em 1973, e mudou-se para o Brasil com três anos de idade. Morou na Espanha, na França e na Alemanha, onde concluiu um mestrado em Comunicação. Vive no Rio de Janeiro. É autora dos romances Toda terça (Companhia das Letras, 2007),  Flores azuis (Companhia das Letras, 2008; eleito melhor romance pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti), e Paisagem com dromedário (Companhia das Letras, 2010, Prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti). Seus livros estão sendo traduzidos para o inglês, francês, espanhol e alemão. Está entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta.

Leonardo Tonus e Carola Saavedra/ Aarhaus 2013



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