segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Roberta

Catherine Rebois, Corps latu sensu
Roberta

por Eliézer Rodrigues

Quando conheci Roberta, achei estranho sua maneira de andar.
Mudara-se para São Paulo na mesma época que meus vizinhos mudavam-se para o Rio de Janeiro, sua família tomou o acaso do destino e a abrigou ali ao meu lado.
Lembro que ia para a sala de aula quando a vi pelos corredores no exato momento em que ela cortava seu dedo com a tampa de um lote defeituoso de um refrigerante vagabundo que ela tentava abrir. Me prontifiquei a abrir seu refrigerante e o fiz sem nenhum trauma. Me agradeceu, apertou seu dedo machucado para estancar o sangue, fez uma expressão de dor eufemizada.
Percebi prazer naquele rosto, não sabia dizer se eu o também sentia.
Roberta demorou pra se adaptar. Se vestia de um jeito estranho, tinha a voz enjoada, um jeans muito apertado e gostos que nenhum outro tinha. Fazíamos juntos o caminho de volta pra casa e lembro que sempre me contava um ou outro causo que passou por conta dessa falta de aceitação dos colegas veteranos. Eu sempre dizia que com o tempo as coisas se acertariam, bastava os alunos se acostumarem com ela e tudo daria certo. Ela sorria, me agradecia e mordiscava os lábios. Eu nunca soube o que fazer. Entrávamos, mas nunca a vi sair. Uma noite, enquanto entrava no carro de um amigo, pensei ter visto Roberta me olhando pela janela. Parti mesmo assim.
Meus amigos a maldiziam e eu nunca a defendia, só dizia que ela era uma boa pessoa, que eles a deixassem em paz. Eu era um cara bem apessoado, as garotas me procuravam, as mães das garotas queriam que eu as desposasse, fui sempre hábil em tacadas de sinuca e em notas menores de blues, era jovem e tinha o mundo ao meu alcance. Roberta não tinha amigos, não saía de casa, ninguém a procurava. Vez ou outra, percebia-a triste. Desconfiei que a chateação era em resposta ao meu silêncio, a minha não defesa dela. Eu era a única pessoa que ela tinha, e eu agia como se não gostasse dela, me ausentava ante a sua humilhação. Ela nunca me disse nada, era sempre a mesma coisa: caminho, queixume, consolo, sorriso, mordiscada no lábio, casa.
 Foi pelo seu sorriso que vez ou outra se apagava que decidi defendê-la do mundo que a engolia sem nenhuma razão, apenas por considerá-la diferente. Começou a frequentar a minha casa, eu a dela, mostrava-me suas músicas e eu os meus livros. Meus amigos achavam que era tudo uma grande brincadeira da minha parte e esperavam que no fim de tudo isso eu pregasse alguma peça nela. Não o fiz. Disse que o fazia porque gostava dela. Primeiro riram, depois calaram, perceberam que era verdade, tentaram me converter a uma doutrina ignorante e sem razão, sem sucesso. Quando disse que queria que Roberta saísse com o grupo, pediram que eu tomasse uma decisão: ela ou eles.
Não me importei em sair a sós com Roberta. O roteiro de volta pra casa por vezes se estendia num cinema ou parque. Tornei-me seu confidente, e ela o meu lenço. Era pra ela que eu chorava as minhas mágoas, era ela quem me ajudava como nenhum outro me ajudou, ou pelo menos não com a mesma vontade. Já não dizia mais sobre as chateações dos colegas, mas continuava com a mordiscada na boca. Foi depois de uma dessas mordiscadas que eu percebi que teria de enfrentar muito mais do que até então enfrentara. A amizade com Roberta, para os outros, era impensada, sem causa. Mais do que isso, tal ligação parecia macular paradigmas, romper as dimensões do que é bom e se exagerar nos horizontes do maligno. Segundo os outros, alguém como eu, com o mundo ao meu dispor, com todas as pessoas me adorando, não poderia ter a amizade de alguém deslocado, diferente, estranho e sozinho. Meu lugar era junto aos vencedores, meu lugar era o centro dos holofotes. Nunca o quis. O que sempre quis foi a simplicidade, a calma, o sorriso no início do dia e no fim da noite. Roberta me mostrava que a vida era simples, mas que os outros a dificultava. Roberta estava disposta a me dar o sorriso, seja qual fosse o momento do dia. Roberta faria de tudo para que o dia não acabasse. O holofote, as noites, os caras, não me faziam feliz, não cuidavam de mim quando na madrugada eu me injetava pra esquecer a tristeza que vinha repentina, sem mais, nem menos, só por ver ali espaço, o vazio de alguém que não foi preenchido e decidia se alocar. E então, depois daquela mordiscada, percebi que queria Roberta mais do que um amigo quer um amigo. Eu queria Roberta embaixo de meu cobertor, em cima de meu lençol, enroscada em meu pescoço.
Quando beijei Roberta, senti em seus lábios a sua espera, o seu desespero, os seus medos, a sua esperança. Roberta chorando, dizendo que estava feliz, que me queria, mas que também sabia que não seria fácil, que não éramos feitos um pro outro. Tentei acalmá-la, disse que não fazíamos nada de errado, que nos importássemos conosco, esquecêssemos os demais pronomes.
Esperei o fim de tarde para dizer aos meus pais que namoraria Roberta.
Lembro-me da expressão de meu pai, estático, grave, e das mãos de minha mãe que foram levadas a sua boca. Meu pai disse pra repetir, ele não havia entendido direito. Não esperava suas mãos em meu colarinho quando terminasse de repetir, mas elas vieram prementes e sem razão. Não ousei levantar as mãos contra o meu pai, ele que tanto me ajudou, ele a quem tanto eu amava. Não entendi porque ele não pensou o mesmo. Enquanto me maldizia, com um único soco fez de mim jorrar um fio carmesim que despontava até a mesa de centro da sala. Saiu em passos largos, disse que não queria ficar ouvindo asneiras de um ingrato que nunca soube dar valor aos esforços de seu pai. Minha mãe, que pensei estar morta por conta de sua inércia, veio limpar a minha boca, ajudar a recolher o que o meu pai deixara de mim. Mas nada disse. Apenas se movia desesperada, o choro suprimido, as lágrimas que molhavam a minha boca.
Expliquei a minha boca roxa para Roberta no dia seguinte, o que não deveria ter feito. Roberta se culpava, chorava, dizia querer que tudo acabasse. Quando estávamos em frente as nossas casas, percebemos que nossos pais, separados por anônimos que por ali passavam, haviam trocado golpes há alguns minutos. Ainda babavam, berravam e queriam esmurrar um ao outro. Sabíamos, mesmo antes de nos aproximarmos, que brigavam por nós. Meu pai não engolira a história e ao retornar do trabalho decidiu exigir uma resposta dos pais de Roberta para o que ele considerava ser um absurdo.
Roberta chorava, dirigiu-se resignada a sua casa. Meu pai me chacoalhava, me ameaça, minha mãe absorta em sua ausência, nada fazia, queria apoiar o marido, mas não queria atingir o filho.
Meu pai pediu que eu decidisse: ou ela ou o teto dele. Eu já havia escolhido Roberta uma vez, natural que eu escolhesse novamente e o fiz, sem qualquer trauma.
Naquela noite, sem a permissão de levar nada do que era meu, saí sabendo que o fazia sem nenhum retorno. Foi por isso que fui até um hotel, liguei para Roberta e pedi que me encontrasse. Quando abri aquela porta no meio de uma noite chuvosa e encontrei-a abatida, chorosa, dizendo que não queria causar tantos transtornos a minha vida, pedi que se acostumasse com o meu rosto, que os planos haviam mudado um pouco. Disse a ela que fui expulso, disse a ela que a tinha escolhido e propus que fugíssemos, que morássemos noutro lugar. E foi num misto de aceite, choro e calor que eu, naquele quarto de hotel, deitei-a sobre a minha cama, despi-a e descobri um corpo diferente dos demais que havia tido, uma diferença que me provocava um desejo diferente. Suas curvas inexistentes, seus seios inexistentes, sua pele lânguida. Os olhos grandes que me despiam, o seu desejo implícito de me fazer caça, de me fazer caçador. Foi naquele corpo que percebi que mudava para sempre a minha vida. Aquela estranha, renegada e isolada, aquela que não conhecia metade dos lugares que eu conhecia, aquela que me ajudava quando precisava e que tinha o corpo ausente do que eu procurava outrora, fazia-me feliz e disposto a construir tudo do zero, a enfrentar a sociedade arcaica e hipócrita. E assim fizemos. Anos mais tarde, longe de tudo, enriquecidos, Roberta confessou desejar uma cirurgia plástica e assim prosseguimos. As curvas que lhe faltavam, os seios que lhe faltavam, a coloração do cabelo que lhe faltava, tudo foi reposto, e a fez feliz. Roberta passa na rua e é desejada, recebe elogios. Não liga, só quer saber do homem que suportou tudo por ela. A cirurgia foi pra ela, quis se sentir mais a vontade e também rir de uma sociedade cega pelos seus próprios padrões.
Tenho orgulho de Roberta há tantos anos comigo.
Quando conheci Roberta, ela era Roberto.


Eliézer Rodrigues é graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade de São Paulo. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne, colabora para o Blog Etudes Lusophones e gere as páginas "Editora Pirata" e "Feridas Lexicais"


Feridas Lexicais:

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