segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O hexágono circunferou

Tarsila do Amaral, Carnaval em Madureira, 1924
O hexágono circunferou
Por Horácio Dib (*) 

         O movimento é o pai do homem e atinge os filhos com suas experiências de antigas rotas e duros caminhos, de pontiagudas estradas, de perdas e ganhos e joga-os na terra, na terra nua e nefasta, aos olhos bondosos dos céus, dizendo, com a voz da maior doçura impostada: Provem.
E os filhos provam das mesmas heras de eras longínquas, das velhas quimeras e das novas mandingas, de todo o fel e do mel desse mundo, e ao longe, no fundo do monte, os olhos brilham, sorrindo. E nos dias de sol, da água e da colheita, o pai orgulhoso espreita seus filhos, em silêncio continuo. E nas noites profundas, de turbulentos silêncios, sussurra às escuras canções de ninar e toma nos braços, nos braços calejados de sol, os corpos cansados dos filhos perdidos.
O movimento é inerente à alma humana, regredir não é uma capacidade nossa. Ou somos estáticos ou somos movimento constante.
Um dia abri a porta e quando percebi dava um passo em Paris e ali, naquele segundo, Paris dava um passo para dentro de mim. Para trás, se para trás eu olhasse, veria a convidativa porta, sua boca escancarada, seus dentes pingando da fome de ter meu corpo de volta, de volta ao seu estomago seguro e quente, à sua paz, ao seu imóvel conforto. Para trás, se para trás eu ousasse, veria as lagrimas de minha mãe, sentiria o cheiro do café com leite, tocaria os cabelos frágeis da minha vó, ouviria meu Chico Buarque a embalar meus passos para a volta. Para trás, se o para trás existisse, eu veria, ainda que invisível aos olhos que não usam esses óculos, a cama afofada de seda avermelhada com a madeira do tempo a envolver todos os lados, claustrofóbico, o caixão escancarado e rotulado com meu nome com uma foto em cima de paletó, gravata e cabelos engomados.
Mas o passo do homem é sábio, pois o pai movimento ensinou: se até na queda só se cai para frente, não teria como voltar no único passo que dei. E o fiz. Metade em Brasil, metade em Paris. E ali fiquei durante alguns séculos, eterna estátua da indecisão que assola a humanidade. E ali ficaria se não fossem os olhos ao longe, atrás da montanha, encharcados de desgosto e desespero. O movimento e o tempo flertando desavenças: Ele vai caminhar! Não, ele vai perecer! Até que os braços me empurraram pra frente e meu corpo todo jogou-se em Paris e foi aí que, bem mais contundente que um passo, Paris jogou-se em mim e percebi que os braços de outrora nada mais eram que estes aqui que vos falam, os meus.
Desde crianças aprendemos que é difícil encaixar aquele brinquedinho de formato quadrado no buraco impossível de um círculo. Mas mesmo assim persistimos, ainda que em vão. Há uma questão de honra até a aceitação da impossibilidade dessas duas formas se preencherem perfeitamente, se encontrarem em alguma esquina e baterem um papo amistoso, cafés nas mãos, sorrisos nos rostos. No começo Paris era um quadrado enorme. Ou um hexágono, pra ser mais preciso. E os braços dessa criança enorme que dormita nesse peito esforçavam-se com o trabalho de encaixar nesse formato mutante a circunferência da minha existência. Os dedos esfolados, a mente desconhecedora do insucesso, o desespero banhado de lágrimas, não se encaixavam. Então lembrei que o movimento provoca a adaptação, e que, ainda que imperfeita e com uns dentes faltando, ainda que genérica e de início impossível, modularia as formas e encaixaria os vincos. Foi nesse momento, acredito que nos primeiros dois meses aqui, que o hexágono começou a alagar suas arestas e minha circunferência também começava a moldar-se. Como numa sinfonia telepática entramos no mesmo campo harmônico, o hexágono circunferou, a circunferência hexagonou, mas não nos tornamos um no outro, antes, encaixamo-nos. Não perfeitamente, ainda faltavam peças, mas a criança do meu peito levantou-se pela primeira vez e, cambaleante, deu seus primeiros passos. Foi aí que eu aceitei Paris e Paris me aceitou.
O Brasil também mora aqui, nos contatos, nas novas descobertas de seres humanos mais seres e mais humanos do que jurávamos ser, nos fantasmas amorosos que nos perseguem quando a tristeza tenta nos acalentar, na música dos nossos antepassados que marcam o passo no bombear de nossas artérias. O Brasil mora aqui, na pálpebra que se fecha de cansaço, na lágrima que se destila de saudade, no riso que se abrilhanta de alegria, nas igualdades e dicotomias, nas plurais idiossincrasias de nossos seres. O Brasil mora aqui, em Paris, ainda que num quarto emprestado, ou talvez no sofá da sala mudando os canais da televisão, eles andam de mãos dadas, discutem indiferenças, vibram numa só energia modular do ser humano, são extremos parecidos, velhos companheiros que nunca se encontraram. E dessas mãos que se cumprimentam vertem cristalizadas as plêiades de conhecimentos interestelares, de gigantescas e complexas sapiências e palavras garbosas que ousam a tentativa da explicação ou, quiçá, do espelhamento daquilo que nasce no ser humano. E aí nasce o movimento. Do empurrão desses dois pares de mãos. E, junto desses pares, das minhas mãos, das mãos que me empurraram pra longe da porta de casa.
Hoje, olho distante para o longe, onde o pai movimento nos assiste, eterno e constante, o sorriso conformado, os olhos apaixonados pelas suas criações. Há dor e dificuldade no caminho dos homens, mas há caminho. Espero, e que não tome muitos anos, voltar os olhos para aqueles olhos que pairam e sorrir com tamanha potência ao falar, com todas as letras que caibam em meus dentes: Obrigado, eu provei. E com as mãos tremeluzentes pela emoção, pelo peso, pela excitação do compartilhar, jogar o tudo de meu nada no solo fértil das vidas que virão e que já aqui estão. Com estas mãos, tresloucado amigo, vendo nos olhos as estrelas de Bilac, pintando com as mãos as pedras Telles, despetalando ao vento a rosa de Drummond, cultivando a lavoura de Nassar, limpando a sujeira de Gullar, sentindo as sombras e as tristezas de Augusto, catando os feijões de Melo Neto, declamando as palavras de Vinícius, e, bebendo o cálice de Chico, gritar com todo o resto de meu ser: Provem!




Texto escrito e lido por Horácio Dib durante o encontro com o Exmo Sr. Ministro Aloizio Mercadante realizado na Universidade da Sorbonne no dia 7 de Novembro de 2013.

(*) Horácio Dib é graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones

Assistam ao vídeo da apresentação no link : O hexágono circunferou

Outras informações sobre o encontro no link : Sorbonne Universités





3 comentários:

  1. Como não se identificar com esse texto? Palavras soltas e unidas para finalmente dar sentido a um sentimento inexplorado dentro de cada estudante num programa de intercâmbio. Horácio seu texto é maravilhoso e claramente fala um pouco de cada um de nós.

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  2. Maravilhoso, parabens ,horacio,seu texto é emocionante.

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  3. Horácio: tanto mais contente ficamos pelo fato de ver que "as portas" de Paris (tomara que sejam as da grande estrela) já não devoram nossos jovens. Elas só desafiam à espera de suas soluções.

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