sábado, 30 de novembro de 2013

As contingências de Veronica Stigger

Escrever as contingências, escrever com as contingências:
Opisanie Świata, de Veronica Stigger

Por Eduardo Jorge


Somos atravessados por contingências. Elas, por vezes, chegam a ser definitivas se incorporadas a projetos, e podemos nos perguntar o que leva alguém a escrever um livro, ser filósofo ou dedicar-se a antropologia ou matemática. Em um momento, tudo que é aparentemente contínuo pode ser interrompido, alterado, seja na vida ou nas narrativas que estão no seu entorno; como escreveu Maurice Merleau-Ponty, em La Nature, a vida não possui obrigação de continuar aquilo que ela começou. Opisanie Świata, de Veronica Stigger, dialoga com uma urgência parecida. A narrativa começa com uma interrupção, com uma carta. Carta, aliás, ditada por um jovem moribundo no leito de um hospital ao norte do Brasil. Natanael, filho de um polonês que nem sequer se sabia pai, delira com a possibilidade de conhecê-lo pessoalmente. O senhor Opalka, que desconhecia o fato de ter tido um filho, empreende a travessia marítima da Polônia à Amazônia. Trata-se ainda de uma travessia entre som e sentido, continuidade e descontinuidade, entre palavras-polo que contrastam suas histórias e geografias, expondo o que elas têm em comum, os confins.
A paternidade de Opalka é uma dupla contingência. Quando ele descobre que tem um filho, é praticamente para perdê-lo. Mesmo assim, ele empreende a viagem para ver o filho doente nos trópicos, isto é, situado na “geografia do mal-acabado”, para fazermos uma menção a Raul Bopp, autor do Cobra Norato. Nesse sentido, Bopp surge como um dos personagens controversos do Opisanie Świata. Sempre com cadernos, meio desajeitado em gestos curtos, ele afeiçoa-se a Opalka e decide partir com ele para a Amazônia, torcendo para que seu filho esteja bem. Bopp aparece como um viajante. Em uma de suas lembranças, uma das mais intensas que ele relata a Opalka, uma mulher lhe aparece quando ele estava dormindo em uma rede, na Amazônia; era uma viajante que lhe transmitia uma experiência que muito bem pode ser um ethos do deslocamento, uma busca pelos lugares provavelmente afastados do mito do cosmopolitismo: “viajar é ir para o Egito, para a Líbia, para a Turquia”, “Conheci o Egito, a Líbia, a Turquia. Fiquei dois anos for a. Sempre trabalhando. Trabalhando e viajando. Mas preste atenção, me disse ela, por fim, com o dedo apontado para o meu nariz, é preciso voltar. Fique um ano, dois, três. Mas volte”, e repete, finalmente, é preciso saber voltar
Além da carta enviada a Opalka, existe uma fotografia enviada por Natanael, “estou com os olhos exageradamente arregalados e ela, linda, com os cabelos presos num coque alto, parece triste. Os olhos dela não brilham e uma ruga corta-lhe a testa. Aos nossos pés está Frida, a macaquinha que o senhor deixou conosco. Nossas roupas eram emprestadas e o fundo, uma paisagem falsa”. A fotografia descrita por Natanael se inscreve parodicamente à clássica fotografia de Tristes Tropiques, na qual Lévi-Strauss posa com Lucinda, macaca de companhia do antropólogo no período em que esteve no Brasil.
Opisanie Świata incorpora explicitamente dois procedimentos. A prosa telegráfica das Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade (também incluído no livro como personagem), e as obras que Verônica Stigger produz como artista visual, isto é, placas de frases contingenciais ou ainda frases-ready-mades, que, uma vez reapropriadas por ela, são exibidas em uma tipografia manual, em placas, como pode ser visto no centro de São de Paulo, mais precisamente na Rua 24 de maio, na unidade do Sesc em construção, e na exposição que ela fez na Bélgica, no contexto da Europalia, entre dezembro de 2012 a fevereiro de 2013. Essas frases, deslocadas do contexto original, ganham outro significado, uma “arqueologia do presente”, segundo Veronica Stigger; enfim, frases que dialogam com alguns versos de Chico Alvim, por captarem com precisão todo um inconsciente cultural exposto em frases feitas. Entre ambos os procedimentos, existe o trabalho da pesquisadora, a escolha dos anúncios publicitários e os textos de guia de viagem que fazem parte da imagerie da travessia, agora de Opalka e de Bopp. Em um dos episódios do livro, os dois dividem o vagão do trem para chegar ao porto, com um russo monolíngue visivelmente em estado deplorável e uma italiana, Priscila Antonini, que dança a tarantela. Priscila tem um certo tarantismo quando fecha os olhos e faz com que os movimentos involuntários do corpo venham à tona. Ela mobiliza praticamente todos os passageiros que seguem em busca de um animal que provavelmente é uma tarântula. As aparições, os acontecimentos quando se está em deslocamento migratório, sobretudo para Opalka, que volta para encontrar o filho, retomam os mitos imemoriais da viagem, como as sereias, a linha do equador, que, para quem nunca a cruzou, tem de passar por um curioso rito de iniciação. Nesse sentido, a carta do comandante Egon Schild à tripulação do navio cria um momento plástico para a passagem do navio pela linha física, nada imaginária, do equador.
Quando Opalka cruza o atlântico, Jean-Pierre o aguardava, como Nataneael avisa na carta. Mal ele chega, Jean-Pierre lhe diz que a Polônia não existe mais e que seu retorno era improvável: “Porque o senhor não poderá voltar, pelo menos não por agora, não sabe? O senhor ouviu as últimas notícias? A Polônia acabou. Anunciaram hoje. Acabou. Foi tomada. Daqui a pouco a Europa não vai existir mais, se é que ainda existe”. Opalka, no entanto, parte diretamente para o hospital para conhecer o filho, cujo estado de saúde era bem frágil. Gravemente enfermo, o filho no próprio universo da doença parece fazer jus ao que Raul Bopp escreveu sobre a malária, que, contraída em suas viagens, acomodou uma humildade no seu espírito, mas também um mundo surrealista com espaços imaginários. Prova disso talvez seja seu caderno de capa dura vermelha, que após sua morte é lido por Opalka, caderno do qual reproduzimos dois excertos: “O homem e o chimpanzé serão muito amigos/ (talvez amantes)/ e dormirão no mesmo quarto” ou “O segredo estará do outro lado do país/ desse país imenso/ que ele acredita ser seu”. 
O tempo da travessia foi mais forte que o tempo de resistência do filho sobre o leito. Sem filho e sem pátria, Opalka chega a tempo para cumprir socialmente o luto, encarregando-se da cerimônia. Na ocasião, Bopp lhe entrega um caderno em branco, já envelhecido pela falta de uso: “Para que o senhor escreva o que passou. Ajuda a superar. E a não esquecer. A gente escreve para não esquecer. Ou para fingir que não esqueceu (…) ou para inventar o que esqueceu. Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu”. Nesse momento, a operação de montagem do romance, sua cesura, começa a partir dos erros de Opalka. Essa operação é demonstrada pelo gesto de escrever e rasurar: Opisanie Świata. Rasura para a tradução do termo que em português é Descrição do mundo. E em seguida: memórias. Bopp. Romance, até que ele chega à dedicatória de um livro que ainda não foi escrito: “Para Natanael, meu filho”.




Eduardo Jorge (Fortaleza, 1978) publicou San Pedro (2004), Espaçaria (Lumme Editor, 2007) e Caderno do estudante de luz (Lumme Editor, 2008).

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