quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Crianças


Crianças
Por Horácio Dib (*)

 Era tão tarde da noite que a lua dormia em seu leito de leite, as estrelas ressonavam em uníssono e o ronco do vento ecoava por toda a cidade, numa infinita valsa soporífera recheada do mais belo silêncio do acalentar noturno. Era exatamente nenhuma horas e nenhum minutos e na Rua Nenhuma o garoto cambaleava com seus passos incertos pelo solo frio que não conseguia dormir graças ao ser que o pisoteava  tão duramente - solo frio e cansado como a noite que se espreguiçava com os olhos envoltos de remelas encrostadas, selando-os pra qualquer observação e intervenção no que poderia acontecer. O garoto sapateava, lentamente, com seus pés sonâmbulos e perdidos pelo chão de pedras, poças e estrelas, numa marcha incerta para o nada, enquanto seus olhos, grandes olhos, bolas de um negro escuro como o céu daquela noite, porém muito mais acordados que ele, tateavam ao redor, à procura de repousos para seu olhar, tão longo olhar, colorindo o negro-acinzentado da noite com cores de criança solitária que pede dinheiro na rua pra conseguir sobreviver na cidade agressiva que pisotea lentamente sua inocência inexistente. Os olhos balançavam no balanço natural do movimento nenhum em que a rua balançava, balançava como numa música de ninar, no ritmo marcado das vozes das crianças que ele nunca conhecera cantando alegremente músicas de rodas e cirandas alegres, numa alegria que ele nunca sentira escorrer pela pele e adentrar seu corpo, de baixo pra cima, num arrepio de efervescência dos poros,  a rua balançando-se como se estivesse dormindo, estirada numa rede, balançando sob os olhos ao ritmo das pernas longas do menino que avançava guerreiro por sobre os cascalhos irritadiços do solo. Os olhos pairavam como os pombos sonolentos e gordos, pintavam a tela da escuridão que saía dos postes e balbuciavam sem encontrar o que gostariam de encontrar. Olhos perdidos assim como os pés, assim como o corpo e a mente do garoto infinito da rua nenhuma, às nenhuma horas e nenhum minutos, num lugar que ninguém se importaria, portanto não me dou o trabalho.

     Era tão tarde que a tarde ficara para trás, lenta e idosa, com suas pernas cansadas estiradas pelo chão, tentando recobrar as energias para que, no próximo dia, conseguisse correr junto com a noite e ganhar, quem sabe, da mesma. O garoto, que era mais ativo e jovem que a tarde, continuava a vagar -  uma sombra reta pelas ruas, sombra no chão e sombra na pele -, vagava extremamente ereto, pois se ousasse projetar o pescoço pra frente e entortar as costas certamente seria levado pelo vento ou cairia no solo num O, rolando ladeira abaixo sob o peso de suas fomes não-saciadas e de suas costelas frágeis. Sua postura não era nada mais que uma proteção, assim como seus pés que, de tanto andarem desprotegidos, criaram uma própria camada de calos e durezas agrestes, insensíveis ao calor e ao vidro mais afiado, provas da adaptação do garoto à miséria e tristeza da cidade melancólica com seus cacos de vidro espatifados pelo chão, como búzios mortais. O pouco que o garoto conseguia decodificar daqueles símbolos que os homens gostavam de ostentar em papéis mostrava o que aquele dia era em especial. O dia do que ele fora. O dia das crianças, dizia o papelão azul com letras roxas em formato de salsichas. Ele gostava de salsichas. O formato da letra roxa acordava a fome que tentava dormir embalada pela valsa noturna. Como reflexo, o garoto apertou o parco dinheiro que conseguira com um mês de engraxadas, engraxadas naqueles sapatos reluzentes e pretos como sua sombra e sua pele, sapatos fortes, ricos, que pisavam em seus dedos de birra, em seus dedos de garoto marginal indigno de tocá-los. Apertou o raso dinheiro imaginando o que poderia fazer com aquilo, a quantidade de salsichas que poderia comprar, salsichas vermelhas, mais bonitas do que as do papelão, mais gostosas do que as de papelão. Provavelmente conseguiria umas dez salsichas, daria para a semana toda, ele mais o irmão. O pensamento parasitou sua cabeça fraca e infantil e escorreu pelo seu corpo, saindo pela boca em salivas gritando fome. Mas não era para isso o dinheiro, não era para comer, era para o dia especial. Não precisava nem saber ler pra saber que era dia das crianças, dava pra ver isso e ouvir nas vozes esganiçadas dos filhos mimados que corriam com seus brinquedos, nas vozes grossas dos pais mimados que mimavam seus filhos que corriam com seus brinquedos, nas vozes agudas das mães mimadas que mimavam os pais e mimavam seus filhos que corriam com seus brinquedos de lá pra cá pelas ruas e pelas casas, enjaulados em sua liberdade monetária, felizes em sua mediocridade de plástico e energia. Aquilo tudo não o fazia mal, mas ele percebera, no canto inferior esquerdo do olho direito de seu irmão, uma gota de saudade daquilo que nunca teve, um cintilar rebelde de uma infância esquecida pelos homens grandes e logo esquecida por si mesmo. Mas ele não esqueceu, por seu irmão lembrava do que fosse preciso e esquecia do que necessitasse. Lembrou de uma loja de brinquedos sonâmbula igual ele, com sua boca aberta num bocejar infinito. Esqueceu, enquanto caminhava até ela, da fome que arranhava sua barriga com suas unhas apodrecidas. Lá estava a loja, alegre na melancolia da cidade, um ponto de luz colorida na escuridão negra, negra como a criança e sua sombra. Não daria certo, ele logo percebeu, não daria certo sua escuridão refletida na luz daquela loja, todos o veriam.

     Era tão tarde que o sol sequer sabia onde estava, mergulhava em si no eterno esquecer-se do sono profundo, vivendo suas vidas oníricas e impossíveis, deleitando nos sedosos cabelos do imaginário dos sonhos, tocando a ária de seu sono que jazia embalsamado numa música lenta de sopros, roncos e assovios ritmados. O sol, que poderia pôr um fim em tudo aquilo, perdia-se em delírios e poluções noturnas em seu apartamento lacrado do resto do mundo, tão lacrado que não aceitava o ar dos mortais com seu moderno aparelho de ar-condicionado esbanjando energia, água e saúde naquilo que poderia ter de graça. Assim como o sol, o vendedor da loja-alegre quase caia de seu impávido posto, cambaleante em seu próprio eixo. O homem alto dançava ao som da valsa da noite, um metrônomo humano involuntário no tom vibracional que todos os corpos que dormem assumem. Diferente do sol, acordou com o som alegre e irritante da porta da loja que gritava música quando alguém entrasse. Alguém entrava, gritou a porta, alguém entrava, ecoou seu cérebro, alguém entrava!, arregalou os olhos e fingiu estar acordado. Olhava para o garotossombra e apenas olhava, com seu radar posto no automático, apenas pra intimidar quem quer que estivesse ali, enquanto dormia de olhos abertos. Dormia sim, pois se tivesse acordado nunca deixaria um menino desses entrar em sua loja. O garoto perdeu-se entre as gigantescas prateleiras de felicidade e media o dinheiro que tinha com o tamanho de felicidade que poderia comprar para seu irmão. Foi ficando cada vez mais triste quando percebeu que a felicidade diminuía de tamanho e o dinheiro não era o bastante para consegui-la. Até que no fim das prateleiras encontrou um boneco. Um boneco preto, igual ele, igual a noite dorminhoca, igual seu irmãozinho também. Parecia triste o boneco, devia ser triste porque valia tão pouco, devia ser triste mais ainda porque sabia que esse pouco que valia era exatamente o muito que o garoto trazia na mão apertada de dor. Pegou o boneco, não tenha medo boneco você está entre iguais, e levou até o caixa que não o vigiava. Botou o boneco em cima do balcão e o caixa, automático e robótico, recitou o preço, abrindo a mão para receber as míseras gotas de suor infantil e, sem contar, porque seu cérebro jazia desligado até que o sol resolvesse alongar seus cabelos loiros no céu, botou o boneco numa sacola de lixo que tinha embaixo da prateleira. Se ele estivesse realmente acordado riria, sádico, mas como não estava apenas bocejou meia ironia e sussurrou um volte sempre para ninguém. O menino, em poucos passos largos, já estava perto de seu irmão, escuridão dormindo na escuridão que dormia, agasalhado apenas com sua pele fina e suas roupas sujas, uma criança esquecida no reino das crianças grandes e muito cruéis.

     Era tão tarde que o relógio esquecera de continuar sua caminhada esquizofrênica e infinita, deixara de rodar em sua lenta dança do passar do tempo, perdendo-se nos horários confusos e longínquos da noite que não avançava. O tique-taque nada mais era do que seu ronco automático para deixar os homens que dormiam tranquilos, pois aos ouvidos sonolentos parecia que o tempo passava. Se o relógio ousasse parar o tique-taquear cotidiano com certeza todos os homens com suas homenzices contagiosas acordariam, assustados, sem o som hipnotizante murmurando em seus ouvidos "você está perdendo tempo". O garoto não perdeu tempo, excitado com a surpresa que planejara ao irmão, cutucou-o logo embaixo do peito, entre o terceiro e o quarto sono, sem resposta. Mais uma vez apertou os ossos do irmão, ainda que com delicadeza, tentando desafogá-lo do mar delicioso onde a fome não roncava seu violoncelo dramático. Mais uma vez apertou e sussurrou o nome do irmão ao seu ouvido que, atento aos barulhos perigosos da rua e às sirenes perigosas dos homens, acordou primeiro que o corpo e logo espalhou o acordar para o resto do serzinho. A criança levantou-se, num pulo assustado, em resposta ao seu nome chamado de forma doce. Não era normal ouvir algo tão ruim numa forma tão doce. Os homi os homi, perguntou a criança assustada, vamo ter que fugir de novo, não irmão, disse o garoto, eu queria te dar uma coisa. A criança acalmou-se e junto com a calma tomou um gole de irritação e voltou para sua concha de espinhos, por que me acordou caralho tava sonhano porra só me acorda com o sol já te disse!, mas eu queria te dar uma coisa que eu comprei pra você. A criança ainda estava brava por ter sido acordada, deus sabe como é difícil dormir com a fome e os pernilongos cutucando a pouca carne que sobrou em seu corpo, fechou os olhos e salivou, imaginando o que o irmão teria comprado. É pra mim é, perguntou, é sim comprei pra você com o dinheiro dos sapatos chiques, é pra me dar de presente, pra me deixar feliz, perguntou a criança, virando para seu irmão que tentava reproduzir um sorriso enquanto sacudia a cabeça, afirmando. A criança também tentou reproduzir um sorriso e colocou a mão sobre a barriga que rufava os tambores, o que é, adivinha, o garoto coçou a cabeça nua de cabelos e soltou, entre salivas de desejo, uma salsicha bem grande pro seu irmãozinho, não é, safado. Não era. Poderia ser, mas não era. O sorriso do garoto tremeu e os olhos da criança tremeram junto, ambos tremeram ao mesmo tempo, não era a salsicha bem grande, não era. Não é salsicha mas é comida né. O sorriso perdeu-se em terremotos e dissolveu na tristeza dos olhos do garoto. Não era comida. O garoto, já sem forças, mostrou a mão que levava escondida nas costas e sussurrou, envergonhado, surpresa, feliz dia das crianças. A criança olhou o boneco meio preto, meio marrom, meio vermelho, mal pintado, o olho entortado, a boca sorridente e melancólica, com uma camisa de havaiano e short de rico e pegou o boneco, surpreso. O garoto ficou feliz com a aceitação do irmão. A criança olhou o boneco de perto, o toque e o cheiro do plástico vagabundo inflando as narinas conhecedoras de tantos cheiros em tão pouca idade. Apertou o boneco com a mão. Apertou o boneco com a mão. Apertou o boneco com a mão. E foi apertando, lentamente, entre os dedos ossudos, cobras mortais apertando os ossos do boneco fraco. Logo o plástico retorceu-se e o boneco gritou de dor, junto com o garoto, que não entendia porque o irmão fazia isso. É pra brincar não quebra é pro dia das crianças é pra você é um brinquedo por favor não quebra. A criança olhou para o irmão, os olhos cintilando de raivatristeza, tremeluzentes entre lágrimas presas pelo orgulho e pelo costume de não ser humano, o leite da lua derretendo no preto preto dos pretos olhos pretos. Eu não sou criança seu filho da puta. E atirou o boneco no chão, destroçando-o e espalhando-o pelos paralelepípedos cheios de musgo, entre as baratas, as fezes e os sonhos perdidos.

     Era tão tarde que a lua fingia dormir, os olhos ardendo, segurando as lágrimas. Era tarde demais.

Texto a ser lido ao som de "Rosa de Hiroshima" 


(*) Horácio Dib é graduando em Letras (Português-Francês) pela Universidade Estadual Paulista. Participa do projeto de intercâmbio PLI (Programa de Licenciatura Internacional) com a Université Paris-Sorbonne e colabora para o Blog Etudes Lusophones


Nenhum comentário:

Postar um comentário