terça-feira, 29 de outubro de 2013

Conversa com o Diretor

Tribut Telephon Sheep, 1989, Jean-Luc Cornec
UMA BIBLIOTECA EM RUÍNAS PARTE II –
CONVERSA COM O DIRETOR

Por Mário Araújo

Aconteceu numa tarde de verão, não me recordo bem se em maio, setembro ou novembro - há anos espero pelo fim do verão em Brasília. Fui à Biblioteca Nacional para prosseguir com a tarefa de escrever meu primeiro romance. Uma rotina com tudo para ser agradável: escrever algo próximo de uma página, tendo ao meu lado alguns livros que trago de casa, grandes títulos da literatura universal que me dão apoio nos momentos difíceis. Já não me importava mais que não houvesse livros na Biblioteca, tinha os meus, escrevia o meu, e só precisaria mesmo de uns poucos elementos para fazer  o trabalho render, coisas triviais como ventilação, energia elétrica, ergonomia e silêncio.
Ao entrar, avistei o salão térreo onde, por algum erro de projeto, o piso de lajotas soltas parece explodir a cada passo. Soam como bombas, mas são apenas lajotas, e isso faz pensar no quanto é bom viver num país pacífico. Dirigi-me então ao elevador, o único dos quatro existentes que, graças a uma complexa combinação de botões arrancados (depredação esta não flagrada pelas câmeras de segurança, que não funcionam) impedem que o cidadão vá do térreo ao terceiro andar, onde está localizado o grande salão de estudos.
Após realizar a travessia vertical no escuro, visto que o tal elevador está com as lâmpadas queimadas, notei que não havia uma mísera escrivaninha disponível, nem no terceiro nem no segundo andar. Pela lotação plena, imaginei que estivéssemos às vésperas de um concurso público importante, objetivo de 99% dos frequentadores desta e de todas as bibliotecas da capital federal.
Depois de circular alguns minutos entre as mesas, encontrei uma vaga. Ao lado de cada “estação de trabalho” (bela expressão a exalar modernidade), há uma tomada instalada num buraco no chão. Abri-o, achando até engraçado o pedaço de papel que dizia “proibido jogar lixo aqui”, e liguei o computador. Calor. O termômetro marcava 29 graus e o relógio mais próximo indicava 15h07. Do outro lado do salão, outro relógio sugeria 19h16, fazendo-me especular se naquelas paragens longínquas, onde já era noite, a temperatura não estaria mais amena. Não há em todo o edifício dois relógios marcando a mesma hora, e eu me pergunto por que alguém não os acerta - será que consideram a tarefa tão simples que não mereça ser feita? Ou acreditam que a tarefa, de tão elementar, se fará sozinha?
Depois de alguns minutos trabalhando, percebi que a bateria do notebook estava prestes a acabar. Desatento, não tinha me dado conta de que a tomada não estava funcionando. Levantei-me e fui atrás de outro lugar, mas não encontrei: as provas do importante concurso público deviam ser iminentes.
Vendo que havia tomadas em lugares insólitos, como corredores e entradas de banheiros, arrastei minha cadeira para uma passagem que conduz do corredor principal às estantes, área por onde quase ninguém circula, visto que os livros não estavam disponíveis na Biblioteca Nacional. Conectei o notebook a uma das várias tomadas existentes – funcionava! – e retomei o trabalho, sem ser notado pelos demais usuários, todos concentrados em suas apostilas e manuais. Algo, porém, me dizia que onde o essencial não funciona, é grande a eficiência para futilidades.
Pois. Não se passaram dez minutos e meus pressentimentos já se materializavam na forma de uma mulher gordinha de uniforme, que se postou bem à minha frente com os braços cruzados:
- Os móveis não podem ser tirados do lugar - ela disse, no tom confiante de quem recita o mandamento mais sagrado.
De modo um tanto impaciente – ou talvez grosseiro, admito – para uma primeira manifestação, respondi:
- Ah, eu sabia que a senhora viria!
E levantei-me para devolver a cadeira ao seu lugar. Em seguida, voltei e sentei-me no chão, com o notebook sobre as pernas cruzadas – na infância, achava a posição de lótus um símbolo de rebeldia. Mas ela disse:
- Senhor, não é permitido sentar no chão.
Foi então que um dique se rompeu e eu desatei a fala:
- Mas as tomadas não funcionam! Nada funciona! E afinal pra que servem tomadas neste lugar? Não estou incomodando ninguém! Se a ideia é respeitar as regras, por que não respeitam a regra de dar ao cidadão uma Biblioteca que funcione?
Eram muitas as indagações e afirmações passando pela minha mente e reconheço que verbalizá-las todas de uma vez não foi a estratégia mais correta.
Um tanto assustada com o protesto inesperado, talvez inédito, ela ameaçou chamar um segurança – desta vez um homem, imaginei, que pudesse pôr fim à minha insolência. Tentando ser respeitoso e não perturbar os colegas de sala, emiti um grito sussurrado:
- Só saio daqui se for para falar com o diretor!
Quando o tal homem, baixo e barrigudo, apareceu, apontei para ele meu celular, disposto a gravar cada gesto e cada palavra (mais tarde descobri que me confundira com os botões e que nada fora registrado). Fui informado de que não era permitido gravar imagens e sussurrei novamente que só sairia dali para ir à sala da diretoria. Eles se retiraram. Viajei os olhos pela sala: alguns poucos curiosos erguiam as cabeças, mas logo voltavam aos estudos. Enfim, um terceiro segurança veio e me pediu que eu o acompanhasse.
Na sala de espera da diretoria, senti que havia respeito no olhar dos que passavam, afinal, eu seria recebido pelo chefe da casa. Eu podia ser um parente, um velho amigo ou alguém que iria apresentar um relevante projeto; eu podia ser - nunca se sabe - o futuro diretor!


Chen Zhen, Short circuit. 1999

No gabinete, em quinze minutos de conversa, o diretor mostrou-se simpático e afável. Expliquei-lhe pausadamente o que ocorrera e ele concordou comigo em quase tudo. Em busca de empatia, revelei também minha condição de servidor público, gestor de recursos escassos, e por fim, sacramentei:
- Mas, afinal, onde estão os livros?
O homem, boa-praça, sorriu e desabafou:  tem respondido diariamente a essa pergunta. Discorreu então sobre as dificuldades de sua função e a carência de verbas e recursos humanos. Perguntei qual a razão de haver tomadas em locais onde não podiam ser utilizadas, e ele se queixou do projeto arquitetônico equivocado e confessou que administra uma instituição com problemas “insolúveis”. Acrescentou que não era fácil sensibilizar as autoridades distritais para os problemas da Biblioteca e conclamou a população, de quem pareceu reconhecer em mim um legítimo representante, a pressionar o governo por melhorias.
Sobre a questão prosaica que me conduzira até ali, o diretor disse que, infelizmente, as regras tinham de ser respeitadas, mas bondosamente designou uma assessora para que providenciasse um lugar para mim, “onde alguém não estivesse usando sua tomada” – jeito tipicamente brasileiro de resolver um problema: para ruas esburacadas, automóveis 4x4; para os perigos das noites sem policiamento, home theaters potentes.
Com gestos polidos, a assistente me indicou o caminho, o segurança que antes me reprimira apressou-se em chamar o elevador, e eu deixei o gabinete sem saber se tinha conversado com o diretor ou com um caseiro, cuja função é apenas olhar pela propriedade de outro na sua ausência. Fiquei pensando como deve ser tranquila a vida de quem administra problemas insolúveis.
Sentei-me diante da nova escrivaninha, trocada com uma moça gentil, que de nada reclamou. Lá fora, uma passeata ocupava parte da Esplanada: era a manifestação semanal de servidores por aumento de salários. No alto-falante, a voz estridente de sempre, pasteurizada como as locuções de rádios FM, tornava a concentração impossível. Mas meus companheiros de sala pareciam não se incomodar - talvez considerassem útil tomar pé das reivindicações que, em pouco tempo, poderiam ser deles também.
Suado e atordoado, coloquei tampões nos ouvidos e encarei a tela branca. Nesse momento, toda uma fileira de lâmpadas do teto se apagou, reacendendo minutos depois. Isso acontece duas ou três vezes por dia na Biblioteca Nacional. Não sei se é uma sobrecarga de energia ou se é obra daquele funcionário especialista em se encostar na parede sempre no local onde está o interruptor.
Depois de tudo, olhei ao meu redor: a maioria estudava com afinco; alguns, antes entediados, se alegravam ao ver que novas mensagens chegavam aos seus tablets. Mas nenhum deles parecia se importar com o que ocorria à sua volta, ocupados que estavam memorizando artigos da Constituição Federal. Esperançosos de um futuro melhor.

 Mário Araújo nasceu em Curitiba, Brasil. Em 2005 publicou seu primeiro livro de contos A Hora Extrema  vencedor do Prêmio Jabuti em 2006. Seu segundo livro Restos foi publicado em 2008. Além disso, participou de antologias no Brasil, Espanha e México e tem publicado textos nem jornais e revistas literários e na internet. Atualmente, prepara seu primeiro romance.

Leiam a primeira parte desta crônica no link : 
Biblioteca em ruinas

Consultem a entrevista de Mario Araújo para o blog Etudes Lusophones no link:  Um dedo de prosa

Leiam as crônicas do autor e consultem seu site nos links
Crônica : O amigo retornado



Um comentário:

  1. A diferença entre um diretor e um caseiro. A indiferença das pessoas, a conformidade, o espaço público que não funciona porque não é de ninguém. Uma atmosfera quente, pesada, paralisante. Muito bom....
    Alessandra Pajolla

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