terça-feira, 8 de outubro de 2013

Comendo os excluídos

Comendo os excluídos

Elvira Vigna

Não gosto. Tem a ver com a própria ideia de representação, que é antiga. E tem a ver, principalmente, com a ideia de que, representando, incluímos. Pelo contrário. Na Nara Roesler, a exposição Cães sem plumas (*) reúne nomões da arte contempo com, justamente, um tema. E que tema: os excluídos. Curadoria de Moacir dos Anjos.
Antonio Dias, Armando Queiroz, Berna Reale, Cildo Meireles,Claudia Andujar, João Castilho, José Rufino, Marcos Chaves, Paula Trope, Paulo Bruscky, Paulo Nazareth, Regina Parra, Rosângela Rennó, Thiago Martins de Melo, Virginia de Medeiros.
Não é que não seja boa arte. Imagine. É excelente arte. Ninguém desse time cai no óbvio, no panfletário.
E claro, tem alguns que me impactaram mais do que outros. E os que, além de atuar o que considero um equívoco - o de fingir que se inclui o excluído ao representá-lo - vão um passo além e usam o excluído, excluindo-o outra vez, agora na própria gênese da produção do objeto, tornando-o mero material moldável, inanimado, subjugado pelo poder de uma autoria outra, a do artista.
Tem um exemplo do bom e do ruim em um mesmo subtema, o do anonimato.

Virgínia de Medeiros, “Fábula do olhar”
Virgínia de Medeiros colore fotos de moradores de rua de Fortaleza. Colore, enfeita, usa cores fortes, flores. O processo, lento, carinhoso, de tinta "lambida" (onde o gestual não aparece) traz para um abraço de quem vai à galeria os modelos tão distantes por classe social e geografia. Ao lado, Virginia acrescenta depoimentos que começam assim: "Meu nome é Maria da Penha...". Você se descobre gostando daquelas pessoas, sorrindo para elas. Um breve momento de compartilhamento de histórias - que te modifica. Aliás, a série se chama “Fábula do olhar”.

Paulo Bruscky, por outro lado, tem fotos de anônimos, muito pequenas, em PB, e que ele assina. A cara do sujeito desconhecido lá, bem pequena e apagada, e a assinatura famosa embaixo, quase do tamanho da foto. Uma tomada de posse, um assujeitamento. Mais um assujeitamento contra quem já não tinha conseguido ser sujeito antes.

Paulo Bruscky, série “Anônimos”

Outra que não gostei é a série “Malencontro” de fotos de índios, de Claudia Andujar. Zoom frontais dos rostos e você se lembra do século XVII, dos retratos em que o artista acreditava desvelar a alma do retratado, sua essência, conceito hoje incompreensível, pelo menos para esta velha ateia que vos fala. A única parte boa é que as fotos estão na paleta terra (preto - marrom - vermelho), o que remete ao tema retratado de forma menos, ahn, boba.

Claudia Andujar, série “Malencontro”

José Rufino juntou umas pedras com uma marca de luto preto embaixo. Belíssimo. A galeria nos informa que se trata de 49 pedras recolhidas em áreas de conflito agrário das antigas ligas camponesas da Paraíba. Não fico muito confortável com esse tipo de bula que às vezes acompanha obras de arte. A instalação do Rufino é belíssima e tem um impacto grande de morte, ausência, fim, mesmo sem que se saiba de onde as pedras vieram. O fato de haver um texto explicando a origem das pedras diminui a obra. Faz com que ela possa servir para que o visitante de uma das galerias mais chiques de São Paulo se sinta participante do movimento massacrado pela ditadura militar brasileira, apoiada pela elite à qual, em princípio, o visitante pertence. Um efeito reconfortador, apaziguador. Ah, eles foram massacrados, mas acho as pedras bonitas, o que é uma maneira de desmassacrá-los um pouco. Não. Eles foram massacrados. E a obra de Rufino não está lá para servir de conforto. É pesada e inquietante, principalmente porque não se sabe por quê.

José Rufino, “Lexicon silentii”

E agora o que gostei mais. O vídeo de 16 minutos de Paula Trope, com garotos conversando, rindo - e cantando o hino nacional, todo errado. As imagens são ruins, de baixa qualidade, meio fora de foco, difíceis de ver, como é difícil realmente ver os meninos de ruas e favelas.

Paula Trope, “Contos de passagem”, vídeo de 16 minutos

Vou voltar à questão da representação. E a uma de suas consequências, a existência de exposições temáticas.
Mudou.
Às vezes falo melhor pela boca de outra pessoa.
Guimarães Rosa.
(De quem também não gosto muito.)
Não se trata mais de representar nada. Alou. Não é que seja "proibido". Imagine. Mas a arte se dá em um encontro, uma ação, é um acontecimento e não mais um objeto que contém, nele, toda a possibilidade de impacto estético. As obras da exposição Cães sem pluma são perfeitamente capazes de produzir impactos estéticos transformadores, inclusive por apresentarem excluídos e, portanto, algo que foi jogado fora pela cultura e, que está, assim, em situação capaz de ser reinserido de forma significante e alimentadora na própria cultura. Perfeito. Servem mesmo para isso. Mas, assim, os excluídos são instrumento a ser utilizado, são "comidos", não viram sujeito de forma alguma, porque para isso, eles precisariam...
Precisariam participar, eles, de experiências estéticas transformadoras. A questão é que eles podem. E podem sem controle algum de elite alguma, sem participar em nada de um processo de produção/acumulação de riqueza. Podem, têm o poder e os meios para isso, e não haverá mais valia a ser obtida com isso por ninguém. Veja só. É o caos. E digo mais, porque o Brasil passou meio que ao largo do moderno, é uma das geografias que mais estão aptas a viver o contemporâneo e seu espaço abrangente, não hierarquizado. Ou seja, os anônimos e os excluídos que não, não estão incluídos, embora estejam representados, na arte da galeria paulista, podem viver experiências estéticas que os põem ao meu lado, eu também tendo uma experiência estética, olhando a representação deles. Sendo que a deles não terá tabela de preço.
Mas eu não ia dizer um pio, ia deixar o Guimarães Rosa dizer.
O conto “Desenredo”, de autoria desse médico e diplomata da alta classe média mineira, conta um caso meio que engraçado, meio anedótico, como são os contos dele. É do livro Tutaméia, palavra que quer dizer ninharia, bagatela, coisa nenhuma.
Começa assim:
"Do narrador a seus ouvintes:"
Logo, há um narrador, um "artista", que é o autor (de uma obra oral, já que há "ouvintes") do que se seguirá. O que se segue à frase inicial é a história de Jó Joaquim e uma mulher que adota nomes e amantes com grande facilidade. O narrador conta as traições femininas até metade do conto, quando quem era personagem passivo, o Jó Joaquim, insatisfeito com a maneira como sua amada é representada no imaginário de narrador e ouvintes, toma as rédeas da narrativa e a modifica, tornando a moça "nua e pura" para sua felicidade.
"Nunca tivera ela amantes!"
Rosa faz nesse conto quase uma parábola da mudança que acontecia na mesma época em que o livro surgiu, na década de 60. A mudança da maneira com que a arte - qualquer arte, incluindo a literatura oral ou escrita - era produzida/consumida. Até então, havia um autor, um produto e um destinatário, o fruidor artístico. (Além de todo um esquema de ganho de dinheiro acoplado a isso.) A partir de então, a arte passou a ser, para ser arte, um acontecimento sem participante passivo. O Jó Joaquim passivo diante de sua história contada por outrem, representada, é substituído por um Jó Joaquim que não passa pela mimeses da representação. É autor.
Esse conto faz referência a Joyce várias vezes. A mulher é Liviria, Rivilia, Irlivia, e na segunda parte, Viliria. Uma brincadeira com a Ana Livia do Ulisses joyceano, aliás citado: "Sábio sempre foi Ulisses". E até mesmo os dois jotas de Jó Joaquim podem lembrar os dois jotas de James Joyce. Tanto quanto o irlandês, Rosa também queria ser autor até mesmo da linguagem, repotencializando as palavras.
É o que fazem os meninos de Paula Trope:

"Ouviram guei piranga lá se flácida
Se o povo heróico o braço recubante
E o sol da liberdade em raio súbido
Brilhosco lossa passa lotissante."

Perfeito. Tomam eles posse do que os define, a linguagem, e num hino que os excluiria, já que a nação representada nos versos famosos finge que eles não existem. E Trope faz com que eu possa ter eu a minha experiência estética a partir da deles: ver o vídeo fez com que eu, o hino e os meninos que encontro por aí ficássemos diferentes. Mas são duas as experiências. Intuo a deles. Desejo que tenha havido. Acho que houve. E sei que, tendo havido, eles se igualam a mim. É a inclusão afinal, ocorrendo independente de qualquer controle, intenção ou concessão. E a inclusão possível. Economia não é arte. A inclusão na arte se dá pela posse da linguagem. Não é sendo tema que isso vai acontecer para aqueles que são tema.

Paula Trope, “Contos de passagem”, vídeo de 16 minutos


(*)
"É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem."
(João Cabral de Melo Neto)
Elvira Vigna
Outubro de 2013

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora  :

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Etudes Lusophones :  

O que deu para fazer em matéria de história de amor : Um dica de leitura por Maria Valéria Rezende. Clique aqui.


2 comentários:

  1. dalila teles veras8 de outubro de 2013 09:56

    "Tomam eles posse do que os define, a linguagem, e num hino que os excluiria, já que a nação representada nos versos famosos finge que eles não existem." Excelente texto/reflexão!

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  2. Elvira,

    Outro excelente texto: "Brilhosco lossa passa lotissante, e roem tão fundo, até o que não tem ".

    "Faz com que (...) o visitante (...) se sinta participante do movimento massacrado pela ditadura militar brasileira, apoiada pela elite à qual, em princípio, o visitante pertence."

    Parabéns e meu afetuoso abraço,

    César Brandão
    www.cesarbrandao.com

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