sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A editora que virou autora

A editora que virou autora

Por Alexandre Staut (*)

Pouco depois do lançamento do romance Antonio, em 2007, ouvi Beatriz Bracher dizer, que, ao ler um livro, procura os reais motivos dos personagens. Em outras palavras, pergunta-se o tempo todo sobre as vozes trabalhadas e as suas necessidades de narrar determinados fatos e não outros. Beatriz fazia uma palestra no Memorial da América Latina. Na ocasião, ouvi-a dizer, que é disléxica. Troca o b pelo p, o m pelo n, o f pelo v, além de palavras. Às vezes, quando quer querer falar: “amanhã eu vou no cinema ver um filme”,  fala: “amanhã eu vou no filme ver um cinema”. Naquela noite, Beatriz também falou dos medos e inseguranças de quando começou a escrever ficção. Disse que o artista plástico Nuno Ramos, desde o começo, foi um dos seus primeiros leitores, sempre com dicas certeiras. Agora, ela lança Garimpo, pela editora 34 – que ajudou a fundar -, uma reunião de contos escritos entre 2009 e 2012.  
Segue a entrevista em que a autora fala dos assuntos acima, entre outros:

O ofício de editora da 34 te ajudou de alguma forma a virar escritora?


Como editora eu li muitos originais que autores ainda inéditos enviavam para avaliação. Alguns eram bons, outros, regulares, a maioria, ruim. Quando escolhíamos um para publicar, começava o trabalho propriamente de edição. Lia mais algumas vezes o original e conversava com o autor minhas impressões, dava algumas sugestões, coisas que talvez pudessem tornar o texto mais forte, mais afins consigo mesmo. Esse trabalho me fez entender, mais do que entender, sentir a literatura como um processo de criação, que se dá de formas muito variadas e com graus de maturidade diferente em seu início. E que o talento se desenvolve, é preciso prática para que ele possa se mostrar, se ele de fato existir. Nos originais ruins eu percebia que havia diferença entre escritores e não escritores. Alguns eram escritores que talvez viessem a escrever bons livros mais a frente. Outros, eu tinha a intuição, jamais escreveriam bem. Fui entendendo a coragem necessária, e também a simplicidade, para enviar o seu original para a editora. Isso me permitiu desanuviar minha mistificação da figura do escritor e me dar conta de que eu queria ser escritora.




Quando percebeu que os seus textos estavam maduros para a publicação? Ouvi você dizer, certa vez, que o Nuno Ramos foi um de seus primeiros leitores. Poderia falar como foi a contribuição dele na sua vida de escritora? Quando foi isso?

Saí da editora e passei mais ou menos um ano escrevendo e reescrevendo o que viria a ser meu primeiro livro, Azul e dura. Dei para quatro amigos lerem. Nuno Ramos e outro me disseram que o livro tinha uma pegada forte, que eu tinha achado uma linguagem e um terreno original, isso era o mais difícil, e agora vinha a etapa de trabalhar essa matéria e transformá-la em um romance. Essa crítica foi muito importante para mim. No primeiro momento eu a ouvi apenas como negativa, mas havia na voz dele, e nas palavra que depois fui me lembrando, algo que me fez entender melhor o que eu tinha escrito e o que faltava trabalhar naquele texto. Depois que esse primeiro romance foi recusado pela primeira editora que o avaliou, Nuno me incentivou a logo procurar outra editora, e analisou ponto por ponto o que havia de equivocado na carta de recusa da editora, o que me reassegurou da qualidade do livro. Desde então tenho tido o privilégio de contar com ele como leitor e crítico sincero de meus originais. E amigo com quem troco ideias.

Hoje, quando pensa na sua obra, percebe características comuns aos seus personagens? Se sim, quais são elas?


É difícil para mim essa análise. Culpa, família, injustiça social são constantes que algumas críticas e resenhas apontam. Dessas acho que família é um universo que realmente acompanha minhas narrativas, e um universo onde o incômodo com a opressão e seu par, a humilhação, estão presentes o tempo todo, não necessariamente de uma forma política ou que desague em culpa. Afora isso noto que nos meus contos recentes os personagens, logo as vozes em minhas histórias, têm se diversificado.


Qual personagem ainda não trabalhado, por você mesma, não sai dos seus pensamentos?

Um veterinário filho de imigrantes judeus que monta uma clínica para operar cavalos no interior de São Paulo, para onde sua filha adolescente vai durante as férias.

Como percebe que uma ideia pode se transformar num romance? São lembranças, cenas vividas, frases, outros autores? Poderia explicar?

Não sei dizer se todas as vezes em que comecei uma histórias, romance ou conto, mas acho que se não em todas, em quase todas às vezes em que comecei uma história eu tinha uma ideia do assunto que queria tratar. Na verdade sempre uma mistura de coisas. Um assunto, sua forma, algumas inquietações, alguns episódios inventados e outros inspirados em histórias vividas ou que eu ouvi contar. Sempre um amálgama com estímulos vindos de mais de uma fonte e um pouco nebulosos. Logo que começo a escrever, a história vai tomando forma, e formas que não esperava antes de começar a escrever. Então começo a fazer esquemas e roteiros que me proponho a seguir, e, conforme escrevo, esses roteiros vão sendo modificados. Sempre preciso ter um plano de como será o livro até o fim, não sempre, mas quase sempre, e sempre ele se modifica permanentemente.

Quais os personagens da literatura nacional são os mais injustiçados, na sua opinião?


Injustiçados no sentido de menos lembrados pela nossa crítica? Não saberia dizer porque não sei sou muito leitora da nossa fortuna crítica.


Numa ocasião, ouvi você dizer que é disléxica. Qual é a sua dislexia? Naquele momento, você disse que esse seu aspecto até ajudou na sua literatura. Podia falar sobre isso?

Desde que me alfabetizei eu troco algumas letras quando escrevo, como o b pelo p, o m pelo n, o f pelo v. Troco também palavras, por exemplo, ocorre de querer falar: ‘amanhã eu vou no cinema ver um filme’, e, em vez disso, falar: ‘amanhã eu vou no filme ver um cinema’. Minha letra é ruim. Acho que com isso, desde cedo o ato de escrever não foi algo “natural”, ou naturalizado, para mim. Sempre tive a consciência da diferença entre mim e a escrita e mesmo a fala, talvez  tenha me tornado uma pessoa mais atenta às palavras, para a maneira que cada um fala, escreve, para os diferentes estilos, sabendo que são criações, e não o nosso próprio corpo. Talvez. Outra vantagem dessa dificuldade, desse ter que estar sempre atento para conseguir ser igual aos outros, não ser igual de partida, é que sou obrigada, até hoje, a rever o que escrevo, sob o risco de entregar um texto com erros constrangedores. Isso me ajuda a rever também a maneira que as frases e meus raciocínios estão escritos. Pensando agora (pois, na verdade, não me lembro o que poderia ter dito sobre a relção entre minha dislexia e eu ser escritora) outra via que a dificuldade de escrever corretamente pode ter me aberto, foi a percepção de que saber escrever sem erros, não tem a ver com saber escrever bem. Uma pessoa pode escrever com erros e bem, e vice-versa.

Como surgiu a ideia da reunião dos contos de Garimpo?

Desde 2009 eu não publicava nenhum livro, apesar de ter me mantido trabalhando, durante esses 3 anos (de 2009 a 2012). Escrevi contos, além de ter escrito o roteiro, junto com Karim Aïnouz, do longa-metragem O Abismo Prateado, e outros projetos que não vingaram. O fato de não publicar um livro me fazia sentir como se eu tivesse feito nada por 3 anos. Um processo mental louco. Com o livro consigo ver o que eu fiz. Ao reunir os contos para publicá-los, entendi melhor diversidade de rumos temáticos e formais por onde andei.

Qual livro, ainda inexistente, gostaria de ler na literatura nacional? 


Nunca pensei nisso. Agora, de forma frívola, me ocorre um Se um Viajante em uma Noite de Inverno (Italo Calvino) brasileiro.

(*) Alexandre Staut nasceu em Espírito Santo do Pinhal (SP) em 1973. Jornalista, já trabalhou como cozinheiro na Inglaterra e na França (em Brest, Tours e Arromanches-les-Bain). Ministrou oficinas de haikai na Oficina Cultural do Estado de São Paulo (Bauru/SP). É roteirista do documentário “O anjo da guarda de Caio F.” e autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toada Edições/2010) e Um lugar para se perder (Dobra/2012). No momento, trabalha em seu terceiro romance, num livro infantil e numa peça de teatro que está sendo escrita para a atriz cubana Phedra de Córdoba. Alexandre Staut é colaborador do Blog Études Lusophones.


Consultem as outras entrevistas realizadas por Alexandre Staut na rubrica Entre Letras.
Link : Entre Letras

Leiam a respeito do romance de Alexandre Staut Um lugar para se perder no link :
Um lugar para se perder

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