quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Um tríptico idiomático

Afirma Pereira : um tríptico idiomático

Por Kelvin Falcão Klein

            Em Afirma Pereira, seu romance de 1994, Antonio Tabucchi apresenta um relato que gira ao redor de três idiomas: o italiano, o português e o francês. O italiano se explica pela própria escrita do romance, mas também pelo surgimento de um personagem, Monteiro Rossi, que mora em Lisboa mas é de família italiana. Monteiro Rossi é procurado por Pereira, editor responsável pela página cultural do jornal Lisboa, que está em busca de um colaborador que lhe ajude com a escrita de necrológios e efemérides. Além disso, Pereira, em sua página cultural, se ocupa também da tradução e da divulgação de contos e novelas de escritores franceses do século XIX - Maupassant, Balzac, Alphonse Daudet. Em resumo, o italiano Tabucchi é visitado por um fantasma que fala português, Pereira, e que lhe conta uma história - a história de sua paixão por autores franceses e como essa paixão (e a transformação dessa paixão em tradução e em divulgação cultural jornalística) se transformou em atividade subversiva em plena ditadura salazarista.
            No período em que se passa a história, agosto de 1938, Itália e Portugal estão unidos em seus destinos fascistas - e mais: estão unidos também no apoio à manutenção do fascismo na Espanha. Pereira é um admirador dos escritores católicos franceses da época, e é a partir dos posicionamentos políticos desses escritores que Pereira vai, pouco a pouco, se tornando mais perceptivo com relação ao cenário político. É a partir da leitura de artigos de Georges Bernanos, François Mauriac e Paul Claudel que Pereira vai reconhecendo a violência histórica que lhe coube viver cotidianamente, mas que é escamoteada pela censura - e o fato de Pereira ser ele próprio um jornalista, e ter que receber as notícias sobre Portugal a partir das conversas com um garçom que escuta, clandestinamente, a BBC, é uma brilhante e irônica volta de parafuso proposta por Tabucchi.
            O fantasma português de Tabucchi, Pereira, conta sua história, que é também parte da história de Portugal, parte de sua história traumática recente, a partir do atravessamento com a história literária francesa, tanto aquela que lhe era contemporânea (Bernanos, Mauriac) quanto aquela que lhe era anterior (Balzac, Maupassant), e, portanto, em parte responsável por sua percepção do presente. No romance de Tabucchi, portanto, há uma teoria da filiação que passa por uma experiência da liberdade, e que se coloca em confronto com a experiência totalitária de afirmação da nacionalidade e das identidades fixas. Em sua construção como português, Pereira se dá conta que uma forma de resistência consiste justamente na consciência da heterogeneidade do pertencimento - é na leitura dos franceses, por exemplo, que ele encontra a lucidez para combater o absurdo cotidiano da ditadura.
            Já no fim do romance, quando o diretor do jornal confronta Pereira e lhe ordena que pare com a tradução dos franceses e passe a fazer algo mais "português" - como, por exemplo, "uma efeméride a Camões" -, Pereira diz ao diretor: "Desculpe, senhor diretor, respondeu Pereira com contrição, mas ouça, quero lhe dizer algo, nós originariamente éramos lusitanos, depois tivemos os romanos e os celtas, depois tivemos os árabes, que raça podemos celebrar nós, os portugueses?" (Afirma Pereira, tradução de Roberta Barni, São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 139). Pergunta insuportável para os fascismos, pergunta que Pereira vai, pouco a pouco, burilando e tornando mais complexa com seu trabalho de leitura, escritura e tradução. Quem é o verdadeiro Pereira? Quem é o verdadeiro Portugal? Perguntas inúteis, derrubadas pelo romance de Tabucchi - um exercício de mobilidade crítica que ataca todo gesto de essencialismo empobrecedor, toda tentativa de restringir os limites da experiência ficcional.




(*) Kelvin Falcão Klein  é Doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Modelo de Nuvem, 2011). Mantém o blog de crítica literária www.falcaoklein.blogspot.com



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